Inteligência/Roger Cohen: plágio para todos

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NOVA YORK – T. S. Eliot certa vez observou que “os poetas imaturos imitam, os poetas maduros furtam”. Isso foi antes da agregação, do cortar-e-colar e, sejamos francos, do roubo descarado da era digital. Hoje em dia é tão fácil entrar na rede, ler um artigo e copiá-lo que os professores escolares dizem ter dificuldade para fazer as crianças entenderem o que é plágio.

A agência de notícias Associated Press ficou tão irritada com o furto de seus textos que está montando um registro digital de notícias destinado a proteger seu conteúdo contra o uso não autorizado, por meio de tags (etiquetas) e rastreamento de reportagens. Rupert Murdoch parece estar igualmente irritado e planeja cobrar por todo o conteúdo on-line de seus jornais.

Resta ver se essas tentativas de controlar um meio eletrônico, cuja essência é sua capacidade viral de se propagar, darão certo. Tenho minhas dúvidas. Não há nada de novo no plágio, é claro. Escritores de todas as eras, de Virgílio a Goethe, às vezes escorregaram na fina linha entre o emprestado e o original.

O que parece ser novo, porém, é a erosão da própria consciência de distinção entre originalidade e plágio; ou, para colocar de outra maneira, o surgimento da ideia de que o próprio ato criativo pode ser nada mais que cortar e colar ideias de outros para expressar a natureza dos tempos que correm. Se nosso mundo on-line é cada vez mais o nosso mundo propriamente dito, como podem os autores refletir a realidade sem recorrer à moeda plagiária da web?
Essa pergunta pode parecer estranha. Plagiadores furtam trechos ou ideias sem atribuí-los ao autor. Não há nada intrínseco ao universo digital que impeça dar crédito onde é devido. Exceto que a própria facilidade e o volume do que “está aí” cria um universo em que a propriedade se torna imprecisa.

Nesse contexto, fiquei intrigado pelo caso da autora alemã de 17 anos Helene Hegemann, cuja obra “Axolotl Roadkill”, uma crônica da louca e intoxicada cena noturna de Berlim, foi um best-seller. O livro conquistou muitos elogios antes que se apontasse que parte dele fora retirado de um romance chamado “Strobo”, de um blogueiro chamado Airen, cuja frase “Berlim existe para se misturar tudo com tudo” é reproduzida no livro.

Hegemann foi ousada, basicamente dizendo que esses críticos antiquados não entendem, este é o nosso mundo, onde se roubam coisas, onde frases originais se dissipam na inexistência, e parte da finalidade de seu livro era ilustrar exatamente isso. “Não existe essa coisa de originalidade, de qualquer modo, apenas autenticidade”, ela declarou. Portanto, “Axolotl Roadkill” é “autêntico” porque reflete o universo de uma alemã de 17 anos, no qual, como diz uma personagem do livro, “eu me sirvo onde quer que encontre inspiração”. Hegemann também disse que “não há absolutamente nada de mim mesma” no livro, acrescentando que nem sequer possui a si própria.

Como indicou Laura Miller em Salon.com -crédito onde é devido-, “é como se as pessoas de menos de 25 anos tivessem se tornado equivalentes a uma tribo amazônica isolada da qual não se pode esperar compreensão de nossas proibições do primeiro mundo contra a poligamia ou o canibalismo -apesar do fato de terem crescido entre nós”.

Bem, sim, é mais ou menos como me sinto às vezes quando olho para meus filhos adolescentes. É um mundo diferente lá fora. É claro, isso não quer dizer que o canibalismo -ou o plágio- passaram a ser coisas boas. Mas, no último caso, sinto que se torna inevitável (embora lamentável), diante de nossas existências digitais. Minhas simpatias estão com Hegemann e as opiniões que ela defende.

Duas últimas coisas. Primeira, é tamanha a cacofonia reinante que acho que a única maneira de começar a pensar por mim mesmo é simplesmente sair do ar de vez em quando. A segunda é que a agregação é muito mais barata que a originalidade. Custa dinheiro narrar um fato, em vez de “agregá-lo”. A economia do século 21 é uma máquina geradora de plágios. A questão é: o que acontece quando ninguém quer pagar para gerar conteúdo original e não há mais nada para plagiar?

Fonte: The New York Times (Folha de São Paulo)

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