Dirigindo uma CIA particular

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Mark Mazzetti

WASHINGTON – Duane R. Clarridge se afastou da CIA (Agência Central de Inteligência, na sigla em inglês) há mais de duas décadas, mas da beira da piscina em sua casa perto de San Diego, Califórnia, ainda dirige uma rede de espiões.

Nos últimos dois anos, enviou agentes para as montanhas do Paquistão e os desertos do Afeganistão. Desde que as forças militares dos EUA cortaram suas verbas em maio, ele depende de doadores privados de mentalidade afim para pagar seus agentes.

Clarridge tentou desacreditar Ahmed Wali Karzai, o corretor de poder em Candahar, e planejou colocar espiões vigiando seu meio-irmão, o presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, esperando provar que o líder afegão é viciado em heroína, segundo associados.

É uma demonstração de como cidadãos privados podem explorar o caos das zonas de combate para implementar sua própria agenda. Também mostra como a terceirização de operações de inteligência deu origem a operações legalmente turvas, que podem contrariar os objetivos da política externa americana.

Clarridge, 78, é descrito pelos que trabalharam com ele como dirigido pela convicção de que Washington está inchada de burocratas e advogados.

Seus despachos -uma mistura de fatos, boatos, análises e relatos não confirmados- foram enviados para autoridades militares que consideraram alguns deles suficientemente verossímeis para serem usados no planejamento de ataques no Afeganistão. Eles também são enviados para comentaristas conservadores, como Oliver L. North, um compatriota da época do Irã-Contras e hoje analista da televisão Fox News, e Brad Thor, autor de livros de suspense militar e convidado frequente de Glenn Beck, âncora de programa de entrevistas conservador na rede Fox.

Charles E. Allen, ex-oficial da inteligência no Departamento de Segurança Interna que trabalhou com Clarridge na CIA, o chamou de oficial “extraordinário” que tinha operado “perigosamente” em missões no exterior anos atrás.

Mas ele advertiu contra as atividades recentes de Clarridge, dizendo que espiões privados “podem colocar os dois países e a si mesmos em dificuldades”.

A operação particular de espionagem, que o “New York Times” revelou em 2010, foi utilizada pelas forças armadas, desesperadas por informações sobre seus inimigos e frustradas com a qualidade da inteligência da CIA.

Mas em 15 de maio, segundo um relatório secreto do Pentágono sobre a operação de espionagem particular, Clarridge enviou um e-mail criptografado para oficiais militares em Cabul, anunciando que sua rede estava sendo fechada porque o Pentágono havia cancelado seu contrato. No dia seguinte, ele montou um site na web protegido por senha, o afpakfp.com, para permitir que os oficiais continuem vendo seus despachos.

Clarridge tem sido um constante defensor da intervenção global americana. “Habitue-se a isto, mundo”, disse em uma entrevista em 2008. “Não vamos aceitar absurdos.”

Conhecido virtualmente por todo mundo por seu apelido de infância, Dewey, ele entrou para a agência de espionagem durante sua juventude. Mais tarde tornou-se chefe da divisão latino-americana do órgão, em 1981, e ajudou a fundar o Centro de Contraterrorismo da CIA cinco anos depois.

Em suas memórias, de 1997, ele escreveu sobre a tentativa de engendrar governos pró-americanos na Itália no final dos anos 70 e ajudar a conduzir as guerras encobertas do governo Reagan contra guerrilhas marxistas na América Central na década de 1980.

Ele foi acusado em 1991 de mentir para o Congresso sobre seu papel no escândalo Irã-Contras. Mas foi perdoado no ano seguinte pelo presidente George H. Bush.

Hoje, mais de duas décadas depois que Clarridge foi obrigado a se demitir da agência de inteligência, ele tenta dirigir seu grupo de espiões como uma CIA em miniatura.

Clarridge montou uma equipe de ocidentais, afegãos e paquistaneses não muito depois que uma firma de consultoria de segurança que trabalhava para o “Times” o subcontratou, em dezembro de 2008, para ajudar na libertação do repórter David Rohde, que tinha sido sequestrado pelo Taleban. Rohde escapou por conta própria sete meses depois, mas Clarridge usou sua atuação no episódio para promover seu grupo a militares no Afeganistão. Em julho de 2009, segundo o Pentágono, ele conduziu seu time para obter informações nas áreas tribais do Paquistão para ajudar a encontrar um jovem soldado americano que tinha sido capturado por militantes. (O soldado Bowe R. Bergdahl continua nas mãos dos talebans.) Quatro meses depois, a firma de segurança à qual Clarridge era afiliado, a American International Security Corporation, ganhou um contrato do Pentágono no valor de US$ 6 milhões. Autoridades americanas disseram que o contrato foi arranjado por Michael D. Furlong, um civil no Departamento de Defesa com um comando de “guerra de informação” em San Antonio.

Furlong, que é alvo de uma investigação criminal pelo inspetor-geral do Pentágono, foi acusado de realizar coleta de inteligência “não autorizada”.

É difícil avaliar os méritos dos despachos de Clarridge; alguns analisados pelo “Times” parecem se basear em rumores ou reedições de comunicados de imprensa.

Mas em agosto de 2009 Clarridge deu aos militares um relatório profundo sobre um grupo militante, a rede Haqqani, documento que segundo os oficiais os ajudou a rastrear os combatentes.

Quando os militares não o escutavam, Clarridge encontrava outras maneiras de vender sua informação. Por exemplo, seus espiões particulares, em abril e maio, relataram que o mulá Mohamed Omar, religioso recluso que dirige o Taleban afegão, tinha sido capturado por autoridades paquistanesas e colocado em prisão domiciliar.

Autoridades militares e de inteligência disseram que a informação não pôde ser corroborada, mas Clarridge usou canais secretos para transmiti-la a altos membros do governo Obama, incluindo Dennis C. Blair, então diretor da inteligência nacional.

Clarridge e sua rede de espiões também assumiram lados em uma batalha do governo interino sobre Ahmed Wali Karzai, chefe do conselho provincial de Candahar. No início de 2010, quando Clarridge estava contratado pelos militares, o ex-espião ajudou a produzir um dossiê para comandantes detalhando as alegações sobre as conexões com as drogas de Karzai, apropriação de terras e até assassinatos no sul do Afeganistão.

O documento especula que os laços de Karzai com a CIA -que lhe paga desde 2001- podem ser o motivo pelo qual a agência “é o único membro da equipe americana em Cabul que não defende assumir uma posição mais ativa contra Ahmed Wali Karzai”.

Em última instância, porém, os militares não conseguiram obter provas concretas suficientes para convencer outras autoridades americanas sobre os supostos crimes de Karzai, e recuaram nos esforços para retirá-lo do poder.

Clarridge logo definiria metas mais altas: o próprio presidente Hamid Karzai.

Ele apresentou um plano para provar que o presidente é viciado em heroína -coletando aparas de barba dele e realizando testes de DNA. Clarridge abandonou a ideia quando o governo Obama indicou que estava se dedicando a reforçar o governo de Karzai.

A lei americana proíbe que cidadãos particulares prejudiquem ativamente um governo estrangeiro, mas os processos se limitaram a pessoas que formavam exércitos privados. Especialistas jurídicos disseram que os planos de Clarridge contra o presidente afegão provavelmente não violam a lei.

Quando era um oficial espião, Clarridge chocou-se com a burocracia da CIA por bloquear seus planos. “Não é como se eu estivesse dirigindo minha própria CIA privada”, escreveu, “e pudesse fazer o que quisesse.”

Colaborou Barklay Walsh.

Fonte: The New York Times (Folha de S. Paulo)

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