UnB: Trote pode. Festa também. Mas com limite

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Lucas Tolentino

Após novas denúncias de brincadeiras humilhantes e violentas com calouros, Universidade de Brasília estabelece normas para eventos nos câmpus. Mas os alunos poderão sugerir mudanças.

Universidade de Brasília publica documento que estabelece normas para a realização de eventos no câmpus e impõe restrições ao ritual aplicado em calouros. Texto ficará disponível no site da instituição para a sugestão de mudanças

Fotos do trote de agronomia foram parar na internet e motivaram a discussão sobre as situações constrangedoras impostas aos calouros

A administração da Universidade de Brasília (UnB) decidiu colocar um ponto final na desordem no câmpus. Diretores da instituição fizeram um conjunto de regras para a convivência entre alunos, professores e funcionários. O texto classifica os tipos de festas permitidos no local. Além disso, traz diretrizes para banir os trotes violentos e as algazarras que atrapalhavam as aulas. Os estudantes poderão analisar e propor mudanças à primeira versão do documento, que será colocada na página virtual da UnB.

O arquivo preliminar com o pacote de bons costumes ficará disponível para avaliação por pelo menos 12 dias. Depois de passar pelo crivo da comunidade acadêmica, a redação será aprovada pelo Conselho Universitário. De acordo com o assessor de Juventude da UnB, Rafael Moraes, o link destinado ao documento deve começar a funcionar até amanhã no site da instituição (www.unb.br) e a aprovação deve ocorrer no início do próximo semestre letivo, marcado para 21 de março. “O texto vai passar por uma consulta pública por meio da internet. As pessoas poderão fazer ponderações”, ressalta Moraes.

A elaboração das normas de convivência procura se adequar às mudanças que a instituição tem enfrentado. Moraes explica que, com a discussão, a direção da UnB pretende organizar as atividades de acordo com a nova realidade de alunos e professores. “A universidade está em fase de expansão e a comunidade acadêmica cresceu nos últimos anos. Alguns valores acabaram entrando em choque. Mas a convivência tem de ser harmoniosa entre todos. A preservação de lugares como as salas de aula e os laboratórios não pode ficar de lado”, justifica.

O documento divide as festas em três categorias (veja quadro), de acordo com o público a que se destinam. A resolução, porém, não tem o intuito de dificultar a socialização dos membros da UnB. Comemorações de encerramento de determinada atividade, por exemplo, são vistos como encontros positivos dos alunos de um mesmo curso. “A intenção é permitir as confraternizações saudáveis, que, muitas vezes, integram professores e estudantes. Serão proibidas apenas as festas fora da ordem que vinham ocorrendo”, explica o assessor de Juventude.

Tortura

A prévia da resolução lista normas de funcionamento cotidiano e planos de respeito e responsabilidade ética. Com isso, as recepções violentas aos alunos iniciantes ficam proibidas. O documento veta qualquer trote que “submeta o calouro a tortura, a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante e a discriminação de qualquer natureza”. O tradicional rito de passagem será combatido por meio de “medidas pedagógicas e educativas, sem prejuízo das sanções legais cabíveis”.

O Diretório Central dos Estudantes (DCE) concorda com os parâmetros estabelecidos no texto preliminar. O coordenador de Esporte, Cultura e Lazer do DCE, Gustavo Paiva, acredita que as reuniões e as boas-vindas aos calouros ocorrem sem limites. “A universidade chegou a um ponto complicado. Em muitas festas, houve a depredação do patrimônio público. Os trotes violentos também devem acabar. É importante que haja recepções com aulas magnas e palestras”, exemplifica o estudante de química.

Ordem no câmpus

As regras para as festas na UnB podem passar por mudanças até a aprovação. Confira a proposta inicial da administração da universidade:

Pequeno porte

» Comemorações de atividades destinadas a integrantes de um mesmo curso. Podem ocorrer nos prédios acadêmicos, desde que não passem das 22h30 e não atrapalhem as aulas. Precisam de autorização da direção da unidade, responsável também por permitir ou proibir o consumo de bebidas alcoólicas.

Médio porte

» Eventos voltados para pessoas de diversos cursos ou até de fora da universidade, realizados em locais externos, como o Teatro de Arena. É necessária a autorização do Decanato de Assuntos Comunitários e da prefeitura. Devem ser realizados depois do horário de aulas. Pode haver a venda e o consumo de bebidas alcoólicas, mas é proibida a cobrança

de ingressos.

Grande porte

» Festas promovidas para os universitários e abertas ao restante da população, com venda de ingressos e divulgação por meio dos veículos de comunicação. O evento só poderá ocorrer com a autorização da administração da UnB. O local apropriado para esse tipo de comemoração é o Centro Comunitário Athos Bulcão.

Sindicância vai definir punição

A UnB definiu como será a investigação do suposto caso de discriminação contra mulheres em um trote organizado pelos estudantes de agronomia. Durante o evento, realizado no último dia 11, calouras do curso foram fotografadas lambendo uma linguiça lambuzada com leite condensado. O objeto era segurado na altura do quadril por um veterano. Em volta das garotas, rapazes riam da situação.

Na última segunda-feira, uma reunião realizada na UnB estabeleceu que a apuração da denúncia ficará por conta de um integrante da Faculdade de Agronomia e Veterinária (FAV), de um especialista da Faculdade de Direito e de uma representante da Secretaria de Políticas para as Mulheres.

O trio terá de se entender para definir que providências tomar a respeito do episódio. O diretor da FAV, Cícero Lopes da Silva, afirma que a sindicância deve cravar quais penalidades os responsáveis pela recepção deverão cumprir. “Já existem as imagens que mostram as pessoas. Os elementos principais foram identificados. O trabalho será o de ouvir a defesa e apurar as punições”, explica.

Quando a comissão do trote foi definida, Cícero entregou ao reitor da UnB, José Geraldo de Sousa Junior, uma carta de repúdio. O diretor da FAV sustenta que a brincadeira teve conotações sexuais. Assim que os três integrantes do grupo de investigação forem nomeados, passará a contar o prazo de 30 dias para a conclusão dos fatos.

A humilhação a que as calouras se submeteram foi parar na Presidência da República. Na semana passada, a Secretaria de Políticas para as Mulheres pediu esclarecimentos à reitoria da UnB sobre o trote. De acordo com o órgão, a denúncia partiu de alunas da universidade que não concordaram com o tipo da brincadeira.

Fonte: Correio Braziliense

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