Bagdá lança um esforço para atrair os exilados de volta

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Jack Healy e Michael S. Schmidt

BAGDÁ – Enquanto a turbulência abala o mundo árabe, o Iraque está aproveitando o momento para fazer um convite ousado a milhares de seus cidadãos que estão vivendo no exterior: “Voltem. O Iraque é estável em comparação com os outros países.”

O governo está oferecendo passagens de avião gratuitas e cerca de US$ 250 para facilitar o retorno de iraquianos do Egito e Iêmen, no que um funcionário do Departamento de Estado descreveu como “um esforço impressionante”.

O funcionário, que pediu para ser citado anonimamente porque não está autorizado a falar sobre o plano do Iraque, disse que o único esforço comparável foi um estipêndio menor distribuído pelo governo a refugiados na Síria e Jordânia no ano passado.

“Eles são nossas famílias e nossos irmãos”, disse Salman al Khafagy, vice-ministro da Migração e do Deslocamento, que descreveu o levante no Egito como fato “positivo” para o Iraque. “Queremos manter as famílias em Bagdá.”

Até agora, disse Khafagy, mais de 2.200 dos aproximadamente 28 mil iraquianos no Egito retornaram em voos pagos pelo governo. Ele disse que o Iraque está disposto a fazer a mesma oferta aos cerca de 10 mil iraquianos que estão vivendo no Iêmen.

Não está claro se a aposta será bem-sucedida. Refugiados já deixaram o país e alugaram apartamentos, encontraram trabalho e construíram vidas novas. Várias pessoas que retornaram ao Iraque contaram estar aproveitando a oferta para visitar seus parentes.

“Já estamos acomodados lá”, disse Haithan Abed al Wahed, 46, professor de engenharia que se mudou para o Egito com sua família em 2006 e voltou a Bagdá dez dias atrás. “Eu gostaria de poder viver aqui, mas é tão difícil.”

Wahed disse que deixou o Iraque depois de sobreviver a duas explosões de bombas e testemunhar um ataque a tiros. Ele tinha amigos no Egito e encontrou trabalho por lá como professor particular. Matriculou seus três filhos na escola. Segundo ele, a vida no Egito custa menos.

“É claro que vou retornar”, disse Wahed, referindo-se ao Egito. Ele e outros iraquianos disseram estar aliviados por terem saído do Egito, mas que pretendiam ficar em Bagdá apenas até a situação no Egito se acalmar.

O gesto feito pelo governo iraquiano é raro entre países que perderam parcelas importantes de suas populações, disse Monica Duffy Toft, professora associada do Centro Belfer de Ciência e Assuntos Internacionais da Escola John Kennedy de Governo da Universidade Harvard. “É um sinal do amadurecimento do governo iraquiano, e de que o país está preparado para repatriar cidadãos iraquianos.” Ela disse que os refugiados, normalmente, só decidem voltar para seu país depois de ouvir de amigos ou familiares que isso é seguro e que, então, o fazem sem muita ajuda do governo.

Khafagy disse que o Iraque espera incentivar médicos, engenheiros, professores e outros membros das classes média e alta para que retornem.

“Esses países ofereceram a eles um lugar para ficar quando a situação aqui estava violenta demais”, disse ele. “Não vamos esquecer o que esses países fizeram e o que ofereceram a nossos cidadãos, e estamos gratos. Mas precisamos tentar trazê-los de volta.”

Contudo, alguns dos iraquianos que retornaram revelaram que a volta, depois de tantos anos, foi triste e intranquila, assombrada por receios de atentados suicidas e sequestros e repleta de elementos que os recordam da instabilidade e dos problemas econômicos que os levaram a deixar o país.

Eles contaram que ainda olham por sobre os ombros quando saem para a rua e que se sentem desanimados com o trânsito engarrafado, o fornecimento intermitente de energia elétrica, as pilhas de lixo nas ruas e os cânions de muros antiexplosão em Bagdá.

A decepção deles, e sua ânsia de partir de Bagdá novamente assim que for possível, destacam a dificuldade do Iraque em impedir que os 100 mil refugiados que já retornaram voltem a partir.

Uma pesquisa das Nações Unidas revelou que mais de 60% das pessoas que retornaram a Bagdá disseram ter lamentado a decisão. Afirmaram sentir-se inseguras e que não conseguiam encontrar trabalho. Muitas expressaram o desejo de partir.

Mas Becca Heller, diretora do Projeto de Assistência aos Refugiados Iraquianos, do Centro de Justiça Urbana em Nova York, disse que o retorno ao Iraque, por mais temporário que seja, coloca em risco solicitação de asilo.

“Tecnicamente, pela lei, quando você volta voluntariamente a seu país de origem, você abre mão de seu status de refugiado”, explicou, fazendo a ressalva de que exceções podem ser concedidas.

Zaman Saadi Fadhil, 26, que retornou ao Iraque em 11 de fevereiro depois de quase cinco anos longe, disse que estava tentando optar entre duas alternativas ruins. Em Bagdá, falou, há poucas oportunidades de trabalho, e ela tem medo de explosões. Mas ela teme que o Egito possa mergulhar no caos.

“Eu não queria retornar”, prosseguiu. “Tudo está destruído. É um desastre. Mas talvez eu fique por aqui.”

Fonte: The New York Times (Folha de São Paulo)

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