Um Auschwitz ainda mais revelador para alcançar a nova geração

by

Michael Kimmelman

OSWIECIM, Polônia – Durante quase 60 anos, Auschwitz contou sua própria história. Ela se desdobra, sem enfeites e quase sem explicações, em exposição de cabelos, sapatos e outros vestígios dos mortos.

Hoje, os encarregados de transmitir o legado desse campo da morte insistem que Auschwitz precisa ser atualizado. Sua história precisa ser recontada de uma maneira diferente para uma era diferente.

Em parte, a mudança tem a ver com o simples passar do tempo -reformular uma exposição envelhecida. Em parte, tem a ver com as pressões do turismo e também com a mudança de gerações.

Uma nova exposição proposta para o Museu Estatal de Auschwitz-Birkenau vai manter as pilhas de cabelos e outros despojos. Mas a exposição começará com uma parte explanatória sobre o funcionamento do campo, como uma instituição burocrática da Alemanha nazista -um tema quase ausente da atual exposição, que foi projetada por sobreviventes na década de 1950.

Na época, eles desejavam eliminar a memória de seus algozes, como os nazistas haviam tentado eliminá-los, por isso diziam o mínimo possível na exposição sobre os alemães que tinham concebido e dirigido o campo.

Também não deram nenhum destaque a histórias ou depoimentos individuais. Os montes de vestígios reforçavam a escala da chacina.

Como indicou Marek Zajac, um editor de revista polonês de 31 anos que serve como secretário do Conselho Internacional de Auschwitz: “As pessoas que visitaram depois da guerra já sabiam o que era a guerra, de primeira mão. Haviam passado por ela. Por isso, a história de uma única morte não as comovia necessariamente, porque tinham visto tantas, enquanto a escala da morte em Auschwitz era chocante”.

A nova exposição continuaria descrevendo o processo de extermínio, levando os visitantes passo a passo pelo que as vítimas sofreram, e terminaria com uma seção sobre a vida no campo, significando a “desumanização diária e tentativas de manter a própria humanidade”, disse Piotr Cywinski, 39, o diretor polonês do Museu Estatal de Auschwitz-Birkenau.

Um armazém antes usado para experiências de esterilização poderá ser reaberto, e um novo centro de visitantes, construído. Haverá menos características não essenciais, insistiu Cywinski -poucos ou nenhum vídeo ou telas de toque.

Que as mudanças em Auschwitz devem primeiramente calcular como movimentar um número cada vez maior de pessoas de maneira mais eficiente pelo lugar é um lado desconfortável da história que não escapa a ninguém.

Uma explosão de turismo de massa, turismo macabro e programas educacionais da Europa e outros lugares triplicou o número de visitantes na última década.

Cerca de 450 mil pessoas visitaram Auschwitz em 2000. No ano passado, foram 1,38 milhão. Agências de viagens em Cracóvia oferecem excursões que combinam Auschwitz com a pitoresca mina de sal de Wieliczka.

“Podemos não aprovar esse turismo”, disse Zajac, “mas não cobramos entrada. Isto é um cemitério. Não se cobra entrada para um cemitério.”

O falecimento gradual de sobreviventes também levou Auschwitz a enfrentar um ponto de virada histórico.

“A exposição em Auschwitz não cumpre mais seu papel como antes”, disse Cywinski. “Mais ou menos 8 a 10 milhões de pessoas vão a essas exposições em todo o mundo hoje; elas choram, perguntam por que as pessoas não reagiram mais na época, por que havia tão poucas pessoas de bem, depois vão para casa, veem o genocídio na televisão e não movem um dedo. Elas não se perguntam por que não são pessoas de bem. “Existe outro nível de educação, um nível de conscientização sobre o significado desses fatos. Não basta chorar. A empatia é nobre, mas não suficiente.”

Esse é o tema a que as autoridades daqui voltam com frequência. Elas dizem que Auschwitz precisa encontrar maneiras de envolver os jovens, para que eles saiam sentindo o que o diretor chamou de “responsabilidade com o presente”.

“Pode parecer entediante”, disse Zajac, “mas acredito que cuidar deste lugar é uma dívida para com as vítimas. Às vezes, eu reencontro estudantes que conheci aqui anos atrás, hoje adultos, que dizem que foram modificados por sua visita, que se tornaram pessoas responsáveis, dedicadas à caridade, que levam vidas éticas.”

Ele disse que muitas delas se sentem forçadas a voltar. “Eu compartilho esse sentimento”, ele acrescentou. “No reino da morte, podemos encontrar o significado da vida. No maior cemitério do mundo, eu sei para que vivo.”

Fonte: The New York Times (Folha de São Paulo)

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