Um reduto hippie na mira da lei

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Colônias de vermes para compostagem violam leis locais

POR PATRICIA LEIGH BROWN

LAGUNITAS, Califórnia – Para chegar à propriedade de David Lee Hoffman, vire à direita na torre do sino e cruze o fosso. Suba a escada de tijolos até o Palácio dos Vermes e a deslumbrante vista da Torre do Chuveiro a Energia Solar.

Não tem como errar.

Há 40 anos, Hoffman, 67, especialista em raras folhas de chá envelhecidas, constrói um imóvel de inspiração sino-tibetana num morro íngreme deste bastião hippie no oeste do condado Marin, onde a principal loja vende roupas “feitas com paz e amor”.

Mas agora a vida sustentável de Hoffman está em atrito com as autoridades do condado, por causa de alvarás cuja exigência ele repetidamente ignora. O caso, nas mãos de um juiz administrativo estadual, divide seus vizinhos.

O condado não está nada satisfeito com as cerca de 30 estruturas que ele construiu ao longo dos anos. A principal preocupação é com a vermicompostagem, em que colônias de vermes transformam dejetos em húmus. A água do chuveiro e da cozinha flui para o fosso superior, junto com os restos de comida digeridos no Taj Mahal dos vermes. A “água cinza” resultante disso passa por filtros antes de ser canalizada para o jardim, onde alimenta batatas, verduras e legumes diversos.

Hoffman e sua mulher, Ratchanee Chaikamwung, uma tailandesa conhecida como Bee, lavam a louça com cascas de ostras e cinzas de madeira. Em vez de privada, usam recipientes com um sistema de compostagem com vermes. Latrinas com compostagem são proibidas no condado Marin.

A possibilidade de os fossos transbordarem para um riacho nos arredores é outra preocupação. “Avisamos muitas vezes ao David sobre solicitar alvarás de construção”, disse Debbi Poiani, chefe de fiscalização do condado. “Ele simplesmente continuou com o jeito alegre dele.”

A procura de Hoffman por produtores artesanais de chá na China foi tema de um documentário de 2007, “All in This Tea”, de Les Blank e Gina Leibrecht. Incluindo uma adega para envelhecer folhas e uma casa de chá, o complexo de Hoffman, que ele chama de Last Resort (“último recurso” ou “último refúgio”), é meio reino himalaico, meio ferro-velho.

“Eu quis mostrar que há maneiras não poluentes distintas para viver no planeta”, explicou Hoffman. O condado não se convenceu e entregou ao casal um aviso para “cessar a ocupação” até que um sistema séptico aprovado seja instalado, e que os edifícios, muros e fossos sejam adequados ao código urbano. Hoffman também enfrenta US$ 200 mil em multas por construir sem alvará e por manter em funcionamento a Phoenix Collection, seu mais novo negócio no setor de chás.

Mas ele tem simpatizantes. Em carta ao condado, um vizinho argumentou que Hoffman “ajuda a colocar Marin no mapa como um lugar de criatividade e originalidade ímpares”.

Hoffman recusou-se a lutar na Guerra do Vietnã por razões de consciência. Passou um ano mochilando pela Ásia até se radicar em Marin, em 1973. Antes do chá, inventou um processo para limpar tecidos antigos com vibrações sonoras.

Para construir o telhado da casa de chá, Hoffman recrutou ex-artistas do Cirque du Soleil. “Eu fiz o que senti que era certo”, afirmou ele sobre sua criação. “Meu amor pelo planeta é maior do que o meu medo da lei.”

Fonte: The New York Times (Folha de São Paulo)

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