Reduzir violência se tornou prioridade no México

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Cai apoio a prisões e apreensões na luta antidrogas

POR RANDAL C. ARCHIBOLD E DAMIEN CAVE

CIDADE DO MÉXICO – Os três principais candidatos à Presidência do México já prometeram uma grande mudança na estratégia nacional de combate às drogas. Eles irão dar mais prioridade à redução da violência no país do que a prisões e apreensões que evitem o fluxo de drogas para os Estados Unidos.

Os candidatos, embora prometam manter a luta contra o narcotráfico, pretendem retirar o Exército dessa função. Eles acham que os militares se mostraram inadequados para o trabalho policial e contribuíram para o elevado número de mortos, superior a 50 mil, desde que o presidente Felipe Calderón fez das Forças Armadas a pedra angular na sua batalha contra os traficantes, há mais de cinco anos.

Entrando na reta final da campanha para a eleição de 1° de julho, o favorito Enrique Peña Nieto não enfatiza a necessidade de apreensões e prisões. Ele tem sugerido que o México mantenha a colaboração com os EUA contra o crime organizado, mas sem “se subordinar às estratégias de outros países”.

Autoridades americanas estão tendo cuidado para não interferir na disputa eleitoral mexicana, mas um assessor graduado do presidente Barack Obama disse, em 8 de junho, que a exigência de respeito dos EUA às prioridades mexicanas, feita por Peña Nieto, “é uma palavra de ordem que ele está usando para propósitos políticos óbvios”. Reservadamente, disse esse funcionário, “o que basicamente entendemos é que ele avalia e compreende que se/quando ganhar vai continuar trabalhando conosco”.

Mas a possível mudança, refletindo o pensamento de um crescente número de pesquisadores da criminalidade, gera preocupação entre algumas autoridades dos EUA. “Haverá uma situação na qual o próximo presidente simplesmente faça vista grossa aos cartéis, cedendo o México aos cartéis, ou haverá um parceiro vigilante para combatê-los com os EUA?”, questionou o deputado republicano Ben Quayle numa audiência neste mês no Arizona.

Os dois outros principais candidatos, Andrés Manuel López Obrador, que perdeu por pouco a disputa de 2006 e está crescendo nas pesquisas, e a governista Josefina Vázquez Mota, também prometem que sua prioridade será reduzir o número de mortos.

“Os resultados serão mensurados não por quantos criminosos são capturados, mas por quão estáveis e protegidas as comunidades estão”, escreveu Vázquez Mota no site da sua campanha.

López Obrador, cuja estratégia de segurança se chama “Abrazos, no balazos” (“abraços, não balas”), critica a forma como autoridades americanas tratam da segurança no México. “Eles deveriam nos dar crédito barato, não helicópteros militares”, afirmou.

Calderón, impedido de disputar a reeleição, usou o Exército de forma mais agressiva no combate às drogas do que qualquer antecessor, ofuscando suas tentativas de melhorar as instituições mexicanas. Os três candidatos prometem na campanha dedicar mais atenção a programas de combate à desigualdade social, razão de muitos jovens entrarem para o crime.

Os candidatos prometem continuar fortalecendo a Polícia Federal, e Peña Nieto, 45, defende a criação de unidades paramilitares para as áreas rurais mais violentas, onde o policiamento é escasso. Mas eles rejeitam o discurso de Calderón sobre acabar com os cartéis e realizar grandes apreensões, e só ao ser pressionado em uma entrevista Peña Nieto sugeriu que capturar o traficante mais procurado, Joaquín “El Chapo” Guzmán, seria um objetivo.

Como candidato do Partido Revolucionário Institucional (PRI), Peña Nieto é motivo de grande preocupação para os EUA. O PRI governou o México por 71 anos, até 2000, com autoritarismo, corrupção e, segundo críticos, uma tolerância tácita ao narcotráfico. Adversários alertaram que ele e seu partido, entre outras mudanças, fariam acordos de paz com os cartéis. Apesar dos ataques, Peña Nieto mantém uma liderança confortável nas pesquisas.

Analistas mexicanos dizem que os candidatos estão reagindo à crescente frustração da opinião pública com a atual abordagem antidrogas. Calderón há anos aponta a violência, grande parte da qual resultante de disputas entre traficantes, como um sinal de que os cartéis estão enfraquecidos, mas essa ideia deixou de ecoar junto à população.

Para deslocar a guerra às drogas para o combate à violência, o próximo presidente terá de encarar a árdua e custosa tarefa de limpar e reconstruir forças policiais mal treinadas, e instituições judiciais assoladas pela corrupção -um trabalho que Calderón começou.

Embora o consumo de drogas esteja crescendo no México, a produção e o tráfico de drogas são vistos principalmente como um problema americano, menos importante que os crimes deles decorrentes. “Pergunte à maioria das pessoas sobre o que acham de um laboratório de drogas na cidade”, disse Jorge Chabat, professor de relações internacionais no Cide, uma instituição local de pesquisas. “Elas vão dizer: ‘Desde que não me matem nem me roubem, não importa’.”

Colaboraram Karla Zabludovsky e Elisabeth Malkin

Fonte: The New York Times (Folha de São Paulo)

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