O espião com amigos demais

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Dadá, principal araponga de Carlinhos Cachoeira, fez um favor a um amigo encarregado de proteger documentos da CPI. A Polícia Federal gravou tudo

Hudson Corrêa

A cada semana, chegam ao Congresso Nacional documentos sigilosos sobre a organização criminosa do bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira.O material inclui gravações telefônicas,movimentação bancária de empreiteiras, imposto de renda dos suspeitos e relatórios da Polícia Federal (PF). Eles abastecem os integrantes da CPI encarregada de investigar os negócios do contraventor. O temido arsenal, de onde saiu munição contra o senador demóstenes torres e os governadores Marconi Perillo (PSdBGO) e Agnelo Queiroz (PT-DF),é guardado em três salas no subsolo do Senado, monitorado por câmeras 24 horas por dia. Apenas integrantes da CPI podem consultar os documentos, entre as 9 e 20 horas. celulares e outros aparelhos eletrônicos são retidos do lado de fora. depois que as luzes se apagam, o local segue vigiado. Entram em cena os seguranças engravatados da Polícia Legislativa do Congresso Nacional, solicitada pelo presidente da CPI, senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), para vigiar a “sala co­fre” da comissão, cômodo de acesso mais restrito, e as duas pequenas salas onde estão dez computadores repletos de arquivos confidenciais digitalizados.

Na semana passada, ÉPOCA desco­briu que no comando desses guardiões da noite está um amigo do principal espião de Cachoeira. O chefe do poli­ciamento noturno, Yanko de Carvalho Paula Lima, de 43 anos, aparece nas es­cutas telefônicas da Polícia Federal na Operação Monte Cario. Uma série de diálogos captados em abril de 2011 re­vela que ele pediu ajuda ao sargento da reserva da Aeronáutica Idalberto Matias de Araújo, conhecido como Dadá, para furar a fila de emissão de passaportes da PF. O segurança precisava, o mais rápido possível, dos documentos dos filhos, um adolescente e uma bebê de poucos me­ses. A família, com viagem marcada para Las Vegas, nos Estados Unidos, tinha pressa. Dadá, conhecido personagem do submundo de Brasília cujo telefone era monitorado com autorização da Justiça, foi ao auxílio do amigo.

Especialista em filmar, grampear pes­soas ilegalmente e obter documentos si­gilosos, o sargento e araponga Dadá ti­nha uma função primordial no bando de Cachoeira, segundo a PF. Ele descobria com antecedência operações policiais contra jogos ilegais para ajudar Cachoeira a escapar de flagrantes. Dadá mantinha uma rede de informantes em órgãos pú­blicos. Um deles era o funcionário admi­nistrativo da Polícia Federal Anderson Aguiar Drumond, afastado do cargo as­sim que a PF descobriu sua atuação no esquema de vazamento para a quadri­lha de Cachoeira. Drumond conseguia acelerar a liberação de passaportes, favor que Dadá costumava oferecer a amigos, de acordo com as conversas te­lefônicas monitoradas pela polícia.

Por volta das 20 horas do dia 18 de abril de 2011, Dadá telefonou para Drumond. “Amanhã te passo o negócio lá do Yanko, dos filhos dele”, disse. “Ah, tá. Tá joia. Se quiser mandar por e-mail. Quer anotar aí?”, respondeu Drumond. O e-mail não chegou. Na manhã do dia se­guinte, Dadá telefonou de novo e passou o número do protocolo do passaporte, o nome completo dos filhos de Yanko e o número do telefone celular dele para contato. Logo depois, Dadá ainda ligou mais uma vez para Yanko a fim de con­firmar a exatidão dos dados repassados à polícia. Os áudios da gravação podem ser conferidos em epoca.com.br. Para preservar a identidade dos filhos e evitar a divulgação de dados pessoais, trechos foram suprimidos.

A troca de favores entre o funcionário da Polícia Federal, o araponga de Ca­choeira e o policial legislativo chamou a atenção da polícia. Devido a esse episó­dio, a PF decidiu pedir à Justiça a pror­rogação da escuta do telefone de Dru­mond, o funcionário dos passaportes. O relatório completo de monitoramento das conversas do bando de Cachoeira tem 36 volumes, cerca de 8 mil páginas e 250 mil horas de gravações. Os diá­logos desconhecidos podem ser ainda mais reveladores sobre a proximidade de personagens que deveriam estar em lados opostos do balcão.

Yanko nega que, como guardião da “sala cofre”, possa favorecer o esquema do bicheiro. “A chave fica com o presi­dente da CPI. Minha relação com Dadá é só de amizade. Não tem nada a ver com minha função no Senado. O favor que pedi a ele foi há mais de um ano. Não houve pagamento de dinheiro”, disse. Yanko afirmou já saber que seu nome e o número de telefone aparecem no relatório da PF, mas nada comunicou a seus chefes imediatos. “Vou fazer isso agora”, afirmou, depois de ser procura­do por ÉPOCA. Vital do Rêgo disse não ter gostado de saber da amizade dele com um dos principais investigados pela CPI. “Vou mandar imediatamente a Polícia do Senado apurar essa histó­ria”, afirmou. “Vou pedir providências. A gente manda afastar o rapaz.”

Preso com Cachoeira em fevereiro, Dadá foi solto no início de junho por decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, em Brasília. Em sua de­fesa, ele diz que apenas prestava ser­viços legais a Cachoeira, que continua detido na penitenciária de Papuda, na periferia de Brasília. A Polícia Federal tem outra avaliação do papel de Dadá. Afirma que, além de usar contatos no serviço público, Dadá negociava pa­gamento de propina pela construtora Delta e forjava provas contra adver­sários da organização de Cachoeira. Agora solto, nada se sabe sobre sua atual ocupação.

Fonte: Época

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