A solidão do ocaso

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Depois de ter sido um dos senadores mais poderosos, apontado como a voz da ética no Congresso, Demóstenes Torres experimenta o isolamento total da queda

Claudio Dantas Sequeira

O senador Demóstenes Torres passou o fim de semana preparando o discurso. Repassou cada frase minuciosamente, riscou palavras, grifou outras. Na segunda-feira 2, pouco depois das 15h30, começou a se preparar para deixar o gabinete de número 13, localizado no subsolo do Senado. Fez uma oração diante da pequena imagem de Santa Edwiges que tem em cima da mesa. Quando partiu rumo ao plenário, tinha a aparência tranquila, embora suas unhas, muito roídas, denunciassem o contrário. O senador deu-se conta de que nunca havia passado tanto tempo longe da tribuna. Exatos 118 dias, desde que fizera o primeiro discurso para se defender das acusações de envolvimento com a quadrilha do bicheiro Carlinhos Cachoeira. A partir dali foi massacrado por evidências que desconstruíram sua imagem de representante da ética e da moral política no Congresso brasileiro. O arauto da oposição contra a corrupção no setor público. Acostumado aos holofotes, sempre pronto para julgar os erros de colegas, ao subir à tribuna Demóstenes experimentou pela primeira vez a dura solidão do ocaso. No plenário não havia ninguém para ouvir o seu discurso. “Há quatro meses vivo um calvário sem trégua, sem sossego, sem paz. O que pesa é carregar, pelo isolamento dos corredores, os grilhões impostos pelos holofotes”, reclamou diante de poltronas vazias. Foram 20 minutos de discurso, em que fez 44 referências nominais de desculpas, além de incontáveis ataques à Polícia Federal e à mídia. “Peço perdão pelos constrangimentos que porventura causei”, desculpou-se Com exceção de alguns funcionários da Casa, apenas quatro parlamentares testemunharam suas desculpas. Um de seus antigos aliados, o senador tucano Álvaro Dias (PR), foi um dos que viraram as costas e só mais tarde soube dos pedidos de perdão feitos por Demóstenes. Mesmo com a repercussão negativa do discurso, Demóstenes ainda voltou à tribuna mais duas vezes durante a semana para se defender. E a defesa ganhou ares de despedida.

Nesta semana, os senadores lotarão o mesmo plenário para dar a palavra final sobre seu futuro. Não há esperanças de que escape da condenação política, mesmo que futuramente seja absolvido no processo que corre no Supremo Tribunal Federal. Embora não admita publicamente, o próprio Demóstenes dá indícios de que não acredita mais em sua absolvição no Senado. Nas últimas semanas, limpou as gavetas e retirou das paredes de seu gabinete várias fotos suas e pinturas, como uma tela de Siron Franco, um de seus artistas prediletos. Ele também já dispensou vários funcionários e assessores de confiança, mantendo apenas uma secretária, a chefe de gabinete e a assessora de imprensa, além de uma auxiliar de limpeza. Um dos primeiros assessores a ser dispensado foi W. Magalhães, servidor de carreira que estava lotado em seu gabinete a pedido de Romero Jucá (PMDB-RR). Magalhães é presidente da CBF no Distrito Federal e muito ligado a José Carlos Feitoza, o Zunga, ex-secretário do governo Agnelo Queiroz. Além de começar a esvaziar o gabinete, Demóstenes viu diminuir o intenso movimento de jornalistas, lobistas e parlamentares que o procuravam diariamente. O telefone pouco toca. As raras visitas são de prefeitos de pequenas cidades do interior de Goiás, que passam por lá para prestar solidariedade. A maioria dos amigos de outrora se foi. Poucos políticos, como é o caso de Jucá, vizinho de gabinete e de bloco, ainda telefonam para Demóstenes.

O senador, até então acostumado a uma vida social intensa, tem passado seus dias trancado em casa, isolado. Demóstenes abandonou totalmente os hábitos arraigados de estrela política. Deixou de frequentar restaurantes e coquetéis de embaixadas. Evita até reuniões na casa de amigos. Pouco viaja, ficando a maior parte do tempo em Brasília, no apartamento funcional do bloco C da quadra 309 ou no gabinete. Não recebe muitas visitas, apenas alguns poucos amigos promotores, procuradores e membros do CNJ. Evita aglomerações e tem o cuidado de entrar e sair pela garagem. Sempre pede comida por telefone, normalmente do restaurante Piantella, que pertence ao seu advogado, Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay. Como o restaurante não oferece serviço de delivery, Kakay avisou a funcionários que deem tratamento exclusivo e prioritário para o senador, que não gosta de fazer refeições sozinho. Quem busca a comida é o motorista de Demóstenes que almoça junto com o senador e a assessora de imprensa. À noite, Demóstenes, que possui uma farta adega, sempre toma uma ou duas taças de vinho para conseguir dormir. Segundo Kakay, o senador não tem esbanjado em vinhos, preferindo rótulos acessíveis: “Demóstenes nunca me serviu um bordô”, diz o advogado.

Nos últimos três meses, Kakay e Demóstenes dizem ter extrapolado a relação advogado-cliente, tornando-se amigos. Kakay montou em casa uma estrutura para Demóstenes poder estudar seu caso, avaliar as acusações do inquérito e o processo no Conselho de Ética, trabalhando em sua defesa com o apoio da equipe do advogado. Flávia, a mulher do senador, é uma figura sempre presente a seu lado. Ela toma as dores do marido diante das críticas da imprensa ou de políticos, especialmente vindas de antigos amigos que o abandonaram. “São uns traidores”, diz Flávia. Advogada de formação, a mulher de Demóstenes se dedica inteiramente à família e tem acompanhado o marido, seja em Brasília, seja em Goiânia. Cuidou dele especialmente nas semanas posteriores ao escândalo, quando o marido não conseguia dormir e parou de se alimentar. A depressão profunda, associada ao diabete, custou a Demóstenes uma internação num hospital de Brasília, para restabelecer os níveis de ferro no sangue. Religiosa, Flávia montou em casa um pequeno altar com imagens sagradas, pois deixou de ir à igreja com Demóstenes para evitar o assédio. O casal tem promovido correntes de oração toda semana. Esses encontros são normalmente comandados pelo irmão de Demóstenes, Benedito Torres, que, além de ser procurador-geral de Justiça de Goiás, é ministro da eucaristia da Paróquia Nossa Senhora Aparecida e Santa Edwiges. Benedito, em outubro passado, recebeu no Mosteiro de São Bento, em Salvador, o título de Cavaleiro Extraordinário do Santo Sepulcro de Jerusalém, que lhe havia sido concedido pelo Vaticano por indicação do padre Bernard Beshc. Demóstenes, que sempre foi mais cético, se agarrou à religião para atravessar o que ele chama de “pior momento de sua vida”. O que não mudou nos últimos tempos é que Demóstenes continua chamando a todos pela alcunha de “professor”. E ainda jura que desconhecia as atividades ilegais do bicheiro. Se for cassado, porém, pensa em advogar. “Nunca mais volto para a política”, garante.

Fonte: Isto É

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