Não façam o que fiz

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No último discurso, Demóstenes Torres pede desculpa pelo papel de xerife da moralidade no Senado

POR GABRIEL BONIS, DE BRASíLIA

DEMÓSTENES TORRES che¬gou cedo ao Senado na quarta-feira 11. Às 9h52 de um dia cinzento em Brasília, o ainda senador entrou no plenário acom¬panhado de seu advoga¬do, Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay. Caminhava imponente em um terno preto e acenava aos jornalistas e fotógrafos, enquanto se dirigia a um assento na segunda fileira. De lá, algumas ho¬ras depois, se levantaria para discursar pela última vez como senador. Sob o olhar de 80 senadores e centenas de jornalistas, inesperadamente o guardião da ética se desculpa por ter sido um paladino da moral. “Não tentem aproveitar um minuto de fama, pois aprendi amargamente”, recomendou, pouco antes de sua cassação ser concretizada com 56 votos a favor, 19 contra e 5 abstenções. A quebra de decoro parlamentar por mentir sobre suas relações com o contraventor Carlinhos Cachoeira tornou o relator da Lei da Ficha Limpa inelegível até 2027 e o fez o segundo sena¬dor cassado na história do País. O primeiro havia sido Luiz Estevão, em 2000.

A postura de Demóstenes não escondia seu abatimento. O nervosismo transparecia em pequenos gestos, cabeça baixa e a garganta seca: foram frequentes os apelos à água. Chegou a receber o que parecia um comprimido de Cláudia Lyra, secretária-geral da mesa diretora. Guardou-o no bol¬so. A atenção também era vaga. Quando não conversava com Kakay, olhava o celular. Demonstrava esforço apenas para receber os emblemáticos cumprimentos dos colegas. Por ironia, os primeiros a saldá-lo foram Renan Calheiro5 (PMDB-AL) c Jader Barbalho (PMDB-PA). Aquele escapou da cassação em 2007, por ter as contas pagas por um lobista em representação apresentada por Demóstenes. Esse voltou ao Senado em 2011 depois de ser barrado pela Ficha Limpa por ter renunciado em 2001 para evitar a cassação. Trocam algumas palavras, mas Demóstenes sorri como dever de ofício. O sorriso quase desaparece quando recebe um breve aperto de mão do presidente do DEM, José Agripino Maia, que pediu sua expulsão do partido, forçando-o a se desligar da legenda. Ele passaria o restante da sessão olhando para os lados, talvez na busca vã de algum apoio.

o Senado encheu-se aos poucos e registrou apenas a ausência de Clovis Decury (DEM-MA), licenciado. Na parte superior da tribuna, os cerca de cem convidados por senhas não apareceram. Nas mesas, acumulavam-se as peças do processo que levou o senador àquela situação. Após a prisão de Cachoeira, acusado de comandar um esquema ilegal de jogos em Goiás, na Operação Monte Carlo da Polícia Federal, a relação com o bicheiro veio à tona. A princípio, Demóstenes recebeu uma geladeira e um fogão importado do contraventor como presente de casamento. Mas logo áudios da PF mostraram uma relação mais promíscua, incluindo o pedido do senador por 3 mil reais a Cachoeira para pagar despesas de um táxi-aéreo. Demóstenes ainda recebeu um aparelho de rádio “antigrampo” para conversas exclusivas com o bicheiro, foi acusado de usar o cargo para realizar lobby em favor do jogo de azar, negociar projetos para a Delta Construções – empresa da qual seria sócio oculto – e apontado como destinatário de 30% do dinheiro arrecadado pelo contraventor com o jogo ilegal, conforme noticiou CartaCapital. Em meio a tantos indícios de ação criminosa, o Supremo Tribunal Federal (STF) abriu investigação contra o senador e o PSOL emplacou o processo, por quebra de decoro no Conselho de Ética, que resultaria em sua cassação.

Demóstenes mantinha um semblante fechado e as mãos entrelaçadas na sessão de julgamento. Possivelmente, sabia não haver chances de absolvição. “A opinião já estava formada, foi um processo que demorou bastante, de modo que todos tive¬ram a possibilidade de ler as peças e formar uma opinião conforme suas convicções”, declarou o presidente do Senado, José Sarney, depois do resultado.

Antes disso, reinava nos discursos do plenário um clima solene de morali¬dade. Mesmo assim, em sua apresel1ta¬ção, o relator do processo no Conselho de Ética, Humberto Costa (PT-SP), foi irônico. Disse não ter usado seu cargo para ser “paladino da ética” e, sob o olhar atento do réu, afirmou que mentir na tribuna é quebra de decoro. Era uma referência a um dos sete discursos pronunciados pelo ex-demista na semana anterior ao seu julgamento. “Não é normal, nem aceitável que se possa mentir aos colegas e à sociedade. É caso de ficção ter usado a tribuna para afirmar ser apenas amigo de Cachoeira e que os quase 300 telefonemas trocados eram sobre uma crise conjugal da qual não há referência nas ligações.” E com-pletou: o colega senador sabia da natureza dos negócios do bicheiro. Uma acusação a qual o ex-demista responderia adiante.

Como representante do PSOL, autor da representação contra Demóstenes, Randolfe Rodrigues (AP) subiu ao ple-nário enquanto a maioria dos senadores parecia dispersa. Suas críticas ao me¬morial da defesa, que dizia haver “para absolutamente tudo explicações razoáveis”, disputava a atenção com rodas de conversas e celulares. Assim como as afirmações de que Demóstenes colocou seu mandato a serviço da logística do crime e que não poderia pedir para ser visto como inocente. “A presunção de inocência para homens públicos deve ser relativizada.” Mais tarde, Rodrigues diria nos corredores que o ex-colega des¬virtuou o ambiente político e prejudicou a visão dos jovens sobre a política.

Às 12h37. quando Demóstenes se dirigiu calmamente à tribuna, os senadores se calaram. Antes dele, Kakay havia fa-lado por 15 minutos para defender a inu¬tilidade da cassação. O senador arrumou as folhas de sua defesa na mesa. Parecia tenso ao iniciar uma peça quase teatral. O homem que há pouco exibia um olhar humilde se transforma. “Não se julga adjetivação e sim fatos. Ao chamar uma mulher de vagabunda, ela não tem como provar o contrário. Fui chamado de pilantra e despachante de luxo. Como vou me defender?” Ele nega todas as acusações do processo e volta-se, no momento de mais arrojo, a um ataque contra o relator. O senador relembra o suposto envolvimento do petista com a máfia dos sanguessugas em 2007, quando Costa era ministro da Saúde. Foi absolvido três anos depois. “Quero o mesmo tratamento, pois ele pôde provar que é um homem decente. Por que a minha cabeça tem de rolar?” O ex-ministro retrucou: “Não fui grampeado falando com malfeitor”.

Demostenes aproveita a atenção e os flashes e envereda pela autopropaganda. Lista leis das quais participou da elaboração, entre elas a que combate a pedofilia e outra favorável à guarda conjunta dos filhos por pais separados. Compara-se, no auge, a Jesus Cristo, entregue à crucificação por Barrabás. “Não lavem suas mãos, me deixem ser julgado pelo Judiciário (Supremo Tribunal Federal) e pelo povo do meu estado.” Já claramente desorientado. diz ter um patrimônio “ridículo” e que há espaço para “fazer rolo” no Senado. Enfim, suplica: “Não acabem com a minha vida”. Nervoso, já em sua cadeira, merguha-se em mais um copo d’água.

O suplente tem 30 dias para ocupar a vaga, mas já chega sob suspeita por sua relação com Cachoeira. O secretário de Infraestrutura de Goiás é dono da Orca Construtora e de shopping centers no es¬tado, além de ser o segundo maior doador da campanha eleitoral de Demóstenes em 2010. Famoso por ter sido casado com Andressa Mendonça, atual mulher do bi cheiro, teria omitido parte de seus bens, avaliados em 14,4 milhões de reais, na prestação de contas eleitorais. Além disso, áudios da PF revelam que Cachoeira o teria indicado para a vaga de suplente. “Se tivermos razões para crer que há algo mais nesta relação, entraremos com representação”, adianta Rodrigues.

Em menos de cinco minutos, o Senado vota seu destino. O placar indica a cassação e o senador deixa o local imediata-mente. CartaCapital procurou o ex-senador para uma entrevista diretamente em seu gabinete, mas ele se recusou. No gabinete, os funcionários aguardavam a posse do primeiro suplente Wilder Pedro de Morais (DEM-GO) para definir quem permaneceria em seus cargos.

Após a cassação, os senadores evitaram comentar o futuro político de Demóstenes. Para Aécio Neves (PSDB-MG), o “tempo dirá” se a vida pública do ex-demista es¬tá terminada. Eduardo Suplicy (PT-SP) e Rodrigues não descartaram um retorno após a punição. “Se ele tiver boa saú¬de e bastante tempo, poderá um dia vol¬tar.” Por enquanto, o caminho do ex-senador deve ser o retorno ao Ministério Público de Goiás, onde era procurador da República. Antes ele pretende recorrer ao STF contra a decisão do Senado.

Segundo interpretação da Secretaria¬ Geral da Mesa do Senado, Demóstenes pode voltar a atuar no MP por ter sido nomeado antes da Constituição de 1988. Nesse período, os integrantes do órgão eram autorizados a seguir carreira política e retornar ao Ministério Público, caminho hoje vetado. Licenciado desde 1999, o se¬nador poderá retornar ao trabalho na 27a Procuradoria de Justiça com atribuição criminal e salário mensal de 22 mil reais. Caso reassuma seu posto, a Corregedoria¬ Geral do MP de Goiás adotará, porém, “as providências pertinentes para instauração de procedimento disciplinar para apu¬ração de eventual falta funcional”.

Já o fardo da associação explícita a um contraventor, enquanto desempenhava o papel de arauto da moralidade Demóstenes Torres será obrigado a car¬regar pelo resto da vida.

Uma baixa na CPI O tucano Francischini é afastado pelo próprio partido POR LEANDRO FORTES

Deputado federal em primeiro mandato, Francisco Francischini (PSDB-PR) chegou ao Congresso Nacional com fama de durão. Delegado da Polícia Federal, tornou-se famoso ao prender o megatraficante colombiano Juan Carlos Ramírez Abadia em junho de 2010. Na Câmara, perfilou-se na luta contra a corrupção e credenciou-se, entre os tucanos, para ser titular da CPI do Cachoeira. Na comissão, notabilizou-se por ser um dos parlamentares da oposição mais atuantes. Mas, ao chegar para assinar a lista de presença na terça-feira 10, foi informado de que não mais fazia parte da CPI. Ordem do líder do seu partido na Câmara, Bruno Araújo.

Entre a ascensão e queda do tucano estão as costuras políticas da legenda no Paraná, a performance do deputado na CPI e, recentemente, a suspeita de que ele pode ter participado de um complô para atingir o governador Agnelo Queiroz, do Distrito Federal. Em todos os casos, o delegado virou um peso para o PSDB, partido do qual pretende sair para fundar o nanico Partido Ecológico Brasileiro (PEN) em companhia dos colegas Romário (PSB-RJ) e Sílvio Costa (PTB-PE).

A ruína de Francischini se deu, primeiramente, no processo de escolha do candidato tucano a vice¬prefeito na chapa de Luciano Ducci, do PSB, apoiado pelo governador do Paraná. Beto Richa. O delegado achou, por muito tempo. que seria o escolhido, mas de última hora ganhou força o nome do deputado Rubens Bueno (PPS-PR), também integrante da CPI. Irritado, Francischini começou a falar na disposição de voar do ninho tucano, decisão adiada por falta de espaço político no estado.

Some-se o fato de que o delegado sempre tenha sido visto pelos colegas de partido como um parlamentar “fora de controle”

na CPI, tanto por ser independente nas opiniões quanto por atropelar os acordos feitos nos bastidores na hora de montar a agenda

de convocações. No recente depoimento do governador goiano Marconi Perillo à comissão. o líder Araújo reclamou do comportamento de Francischini. Em certo momento. O parlamentar paranaense acusou o relator Odair Cunha (PT-MG) de ser “tigrão” contra Perillo, mas “tchutchuca” contra Queiroz. Para piorar, o site Conversa Afiada. do jornalista Paulo Henrique Amorim. publicou a transcrição de um grampo da Operação Monte Carlo de posse da CPI no qual o deputado tucano aparece numa estranha ligação com o procurador geral da República. Roberto Gurgel. Em e-mail interceptado pela Polícia Federal, relata Amorim, o ex deputado Alberto Fraga. do DEM do DF, sugere ao jornalista Edson Sombra que fale com o colega Mino Pedrosa, ambos de Brasília, para “maneirar” as denúncias contra Queiroz. “Você tem que falar com o Etelmino para ele ir com calma. Pois todo esse alvoroço pode até atrapalhar o trabalho que Gurgel está fazendo junto com FRANCISCHINI”. O DEPUTADO, ASSIM COMO Gurgel, nega ter participado de qualquer complô contra o governador.

Fonte: Carta Capital

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