A ousadia dos bandidos

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No Rio e em São Paulo, os criminosos ainda dominam regiões inteiras e acham que podem substituir a Justiça

Mesmo depois de avanços extraordinários obtidos no Rio de Janeiro e em São Paulo, é ainda assustador o poder do crime organizado nas grandes metrópoles brasileiras. Dois episódios ocorridos na semana passada mostram essa situação com desconfortável crueza. No Rio de Janeiro, bandidos mataram jovens e adolescentes que nunca passaram por delegacias sem explicação alguma, talvez porque tenham simplesmente achado que eram membros de uma quadrilha rival entrando em seu território. Em São Paulo, a Polícia Militar matou oito bandidos que se reuniam em um sítio para “julgar” um acusado de estuprar uma menor. O caso do Rio revela que bandidos ainda dominam territorialmente regiões inteiras. O de São Paulo mostra que a ousadia do PCC. a facção criminosa que resiste no estado, chega a ponto de achar que pode substituir a Justiça.

As duas histórias, são assustadoras pela total inversão de valores. No Rio, o cenário do crime foi Mesquita, na Baixada Fluminense. Ali, desde o sábado 8, foram descobertas dez pessoas executadas, cinco delas menores de idade. Até o fim da semana, não se conhecia o real motivo para a bárbara chacina. A PM ocupou a favela mais próxima, a Chatuba, e vasculhava, atrás de indícios, o vizinho Parque Natural do Gericinó, uma área de instrução do Exercito abandonada. O que foi possível montar do terrível quebra-cabeça revela crueldade. Os amigos Christian Vieira, de 19 anos, Víctor Costa. Douglas Ribeiro e Glau-ber Siqueira, de 17. Josias Searles e Patrick Machado, de 16, moradores de Nilópolis, foram assistir a uma competição de pipas em Mesquita e de lá seguiram para um banho de cachoeira no Gericinó. Seus corpos, depositados a 9 quilômetros de distância, foram enrolados em lençóis, amordaçados, espancados e tinham tiros na cabeça. O sétimo mono. o cadete Jorge Alves Júnior, de 34 anos, estava no porta-malas de seu carro numa rua próxima. O pastor Alexandro Lima, de 37 anos, caminhava numa trilha quando foi assassinado a tiros; a seu lado jazia José Aldecir da Silva Júnior, de 19 anos, que ficou sumido até seu pai levar a polícia ao corpo. Embaixo dele, na cova improvisada, foi encontrado outro cadáver, supostamente enterrado há mais tempo. Até sexta-feira, a polícia havia detido 22 pessoas e ainda buscava explicações para a matança.

Em São Paulo, na terça-feira 11, a Rota, a tropa de elite da Polícia Militar, estourou um “”tribunal do crime” que era conduzido pela facção criminosa PCC. Os bandidos decidiam qual seria a punição de Maciel Santana da Silva, de 21 anos, por tentar agarrar uma menina de 12 anos no meio da rua. No local escolhido para o “julgamento”, uma chácara alugada em Várzea Paulista, a 60 quilômetros da capital, estavam também a menina e a mãe dela — a quem os criminosos perguntaram qual deveria ser a pena. “Eu disse que ele deveria viver”, afirmou a mãe. Segundo ela, o bando procurou Silva por conta própria, pediu à família da jovem que reconhecesse o “acusado” e assistisse ao julgamento. A Rota chegou ao local no momento em que a sessão se encerrava – com a absolvição do réu, um desfecho raro nesses casos, quando é comum uma sentença de morte, executada na hora. O desenrolar do confronto entre os policiais e os criminosos foi o esperado. Segundo a PM, os bandidos abriram fogo, e, na troca de tiros, oito deles morreram. Cinco foram presos. O “réu”, que não estava armado, também foi morto na ação. “Quem não reagiu está vivo”, respondeu o governador de São Paulo. Geraldo Alckmin, quando questionado sobre eventuais exageros na ação policial. “Está claro nesse episódio que nós tínhamos um grande número de criminosos, com armamento extremamente pesado, participantes de uma facção criminosa, e que a polícia surpreendeu todos eles.” Os absurdos “tribunais do crime” têm o objetivo de afastar a polícia das áreas onde atuam os grupos criminosos. É método semelhante ao dos bandidos do Rio que trucidaram o grupo de amigos que saíra para se divertir. Nos dois casos, chama atenção a facilidade com que os criminosos ocupam terreno, impondo o medo. No Rio, fez algum sucesso a instalação em favelas das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Uma delas deve ser erguida logo mais na agora tristemente conhecida favela da Chatuba. “Recuperar território é essencial. Só a ocupação militar não resolve os problemas sociais dessas áreas muito pobres, mas sem ela nada funciona”. diz o sociólogo Cláudio Beato, especialista em segurança pública.

Fonte: Veja

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