A guerra de Assange

by

WIKILEAKS | Apontado como “terrorista” e “estuprador”, o revolucionário da internet sustenta a necessidade de redefinir a relação de forças entre esta e o Estado

POR GIANNI CARTA, DE LONDRES

Julian Assange esclarece o motivo de nossa entrevista: discutir seu livro Cypher- punks: Liberdade e o futu­ro da internet, a ser lançado pela Boitempo no início de fevereiro, no Brasil. É o que leio no enésimo e-mail do editor-chefe do WikiLeaks, retransmitido pela sua assessora de imprensa em São Pau­lo para o meu celular. Parece um con­trato: Assange sublinha a importância de o repórter (ele cita meu nome e sobre­nome) e da revista CartaCapital terem entendido as condições da entrevista.

Na verdade, ao receber mais esse e-mail já estou com Olivia Rutherford, a fotógrafa, em um café a escassos passos da Embaixada do Equador no elegante bairro de Knightsbridge, onde Assange pediu asilo sete meses atrás. Se colocar os pés fora da representação equatoria­na, o australiano de 41 anos será imedia­tamente preso e extraditado à Suécia, on­de é acusado de ter abusado sexualmen­te de duas moças. Assange nega. As rela­ções, diz, foram consensuais. Ele chegou até a propor, através da diplomacia equa­toriana, que os procuradores suecos fos­sem interrogá-lo na embaixada. Mas, por “circunstâncias” não especificadas por uma magistrada de Estocolmo, o julga­mento – no qual, diga-se, Assange não foi indiciado – deve ocorrer em solo sueco.

O temor bastante compreensível do fundador do WikiLeaks seria uma se­gunda extradição, esta da Suécia para os Estados Unidos, onde querem julgá-lo por espionagem, e, no caso, ele po­deria ser condenado à pena de morte. O crime de Assange foi ter divulgado do­cumentos militares e diplomáticos atra­vés de sua plataforma digital WikiLeaks em parceria com diários de renome co­mo o The New York Times. Vidas e mais vidas teriam sido colocadas em risco, alegam, embora sem provas, os detra­tores de Assange. Em abril, meses an­tes de publicar os comprometedores documentos secretos em meados e no fim de 2010, o WikiLeaks havia adqui­rido a fama ao divulgar um vídeo no mí­nimo constrangedor para os EUA. Nele vemos soldados norte-americanos em ação no Iraque atirando de um helicóp­tero sobre 12 civis desarmados.

Olivia quis chegar cedo ao encontro com Assange para tratar os detalhes de como usaríamos o limitado tempo con­cedido. A fotógrafa londrina insistia que, além das fotos durante a conver­sa, pretendia usar um tripé para fazer retratos com um pano de fundo. “Você quer que ele pose?”, indaguei entre goles de espresso. “Temos de tentar”, retru­cou, enquanto, através da parede de vi­dro do café, observava pessoas entrar e sair da mítica Harrods. Não havia mais tempo para uma rápida sondagem, mas que diriam sobre Assange aquelas pes­soas? Certamente, se leitoras da mídia britânica e mesmo internacional, di­riam para Olivia esquecer a possibilida­de de conseguir uma pose daquele som­brio hacker “estuprador” de suecas.

De fato, até diários de centro-esquerda como o britânico The Guardian têm pu­blicado relatos negativos de Assange. Foi o caso da repórter desse importante jor­nal que, ao entrevistar o “fugitivo”, ad­mite, não sem razão, ser o livro “convin­cente” e “assustador”. No entanto, a re­pórter questiona os “dramas” dos últi­mos dois anos e meio – certamente uma alusão às suecas seu “estado de espíri­to” (ele é paranoico?) e “credenciais” pa­ra julgar abusos de poder. Outra colega me avisou que “seus músculos faciais” são imóveis, de poker face. Outro aler­tou não ser fácil entrevistá-lo, aparente­mente pelo fato de ser ele “desconfiado”.

Cauteloso Assange é e tem de sê-lo. Seu filho foi ameaçado de morte. Ele é tido como um “terrorista” a di­rigir uma organização “terrorista” em meio a uma “ciberguerra”, segundo se­nadores americanos que já aventaram o plano de matá-lo pelo emprego até de aviões não tripulados. O soldado Bradley Manning, acusado de ter cedido in­formações ao WikiLeaks, teria sido tor­turado e poderá ser condenado à pri­são perpétua. Vigiado, entre outros, por FBI e CIA, o WikiLeaks já foi infiltra­do. Os três coautores do livro – Jacob Appelbaum, Andy Müller-Maguhn e Jérémie Zimmermann – foram deti­dos, interrogados e ameaçados.

Por essas e outras, Assange insiste pa­ra que se fale do seu livro, não de sua vi­da. Além da caterva de e-mails, antes da entrevista pediu cópias dos passaportes, detalhou os minutos para entrarmos, en­trevistá-lo e sair da embaixada. À porta da embaixada, o policial não quis ver nos­sos passaportes. Mesma reação teve o seu colega no saguão diante da porta da em­baixada. “Mostrem os passaportes para os diplomatas equatorianos, nosso traba­lho é só prender o homem caso ele saia.”

Foi o que fizemos a benefício do úni­co diplomata a nos receber dentro da embaixada. Chega Ethan, um rapaz cordial da equipe de Assange. Impres­siona o fato de a embaixada, a despeito do endereço e do luxo do prédio do lado exterior, ser tão espartana no interior e não maior do que um apartamento mé­dio. Somos conduzidos para uma sa­la, a única, com uma grande mesa. Olivia não perde tempo. Começa a armar seu tripé, pano de fundo etc. Logo, entra outro integrante da equipe com um con­trato sobre as fotos, que só poderão ser usadas na edição de CartaCapital.

Antes de sair da sala, Ethan, com ar so­lene, indaga: “Ficou claro que estamos aqui para falar do livro?” Mais claro im­possível. O livro elucida até o mais ferre­nho dos tecnofóbicos. Na introdução, As­sange resume: “A medida que os Estados se fundem com a internet e o futuro da nossa civilização se transforma no futu­ro da internet, devemos redefinir as rela­ções de força”. A questão-mor parece ser: queremos uma internet com poderes pa­ra emancipar a humanidade, ou assistir à sua transformação em uma “distopia de vigilância pós-moderna”? Isso, aliás, “já pode estar acontecendo”. Trata-se de uma guerra. E Assange e seus amigos comba­tentes sabem do que falam porque, como escreve, “nós nos vimos cara a cara com o inimigo”. O inimigo é o Estado com seus serviços secretos e as corporações coni­ventes que atuam como um exército pa­ra oprimir os mais fracos. Mas os cypher- punks, defensores da criptografia e de uma rede alternativa, podem criar mu­danças sociais e políticas. E o leitor do li­vro, continua Assange, tem de entender o que está acontecendo para poder agir.

Na apresentação da versão em portu­guês, a brasileira Natalia Viana, jornalista e editora da Pública, organização de jornalis­mo investigativo sem fins lucrativos e par­ceira do WikiLeaks, faz um tour de force sobre a plataforma digital, inclusive com os relatos da embaixada norte-americana na Tunísia a descrever o quanto era corrupto o governo de Ben Ali. Esses documentos, diga-se, “foram um incentivo para a revolta tunisiana” e, por tabela, para a futura Pri­mavera Árabe. Viana também detalha a in­fluência do WikiLeaks no Brasil.

E eis Julian, enverga uma camisa da Seleção Brasileira, com o número 7 e o nome Julian nas costas. Apesar dos ca­belos brancos, encanecidos, dizem, na contenda pela custódia do filho, o rosto é jovem. Aperto de mãos, digo meu no­me. Não é o nome do passaporte, diz. É o diminutivo, aquele é o oficial. “Mas você pode dar um Google no meu nome”, di­go. Assange solta uma gargalhada. Ele, é claro, detesta o Google, que trabalha, co­mo ele diz no livro, com os serviços se­cretos e, por tabela, armazena informa­ções privadas em permanência.

No primeiro contato, logo fica trans­parente que o homem é descontraído e bem-humorado. Faz perguntas, ri com frequência, é irônico e por vezes deixa de ser o entrevistado para ser o entrevis­tador. “Como é viver na França, melhor que aqui?” Ao abordar temas no livro, ele reflete antes de falar e, com frequência, a pausa é longa e tem-se a impressão de que ele terminou. Mas quando faço ou­tra pergunta, Assange, que parece mer­gulhado em um transe, a ignora e conti­nua a dar a resposta anterior.

Não ajuda o fato de Ethan, o rapaz cordial, estar empoleirado em um sofá de onde faz a contagem regressiva co­mo um papagaio. “Faltam 15… 10… 5 mi­nutos.” Indago a Assange se ele não es­tá cansado de falar com jornalistas, por conta do livro. “Estive preso por mais de dois anos… (pausa)… portanto, não es­tou acostumado a lidar com as pessoas.” Mas ele gosta de conversar? “Gosto, mas é estranho.” Na introdução, argumento, você diz que o livro não é um manifesto, é um alerta. Mas o livro é um manifesto de formato mais arrojado.

Por que, então, não chamá-lo de mani­festo se Assange até pergunta “o que pode ser feito?” – e oferece opções no capítulo final? “Eu não queria arruinar o mercado para o próximo livro”, retruca, em tom jo­coso, Assange. Risos. Com ar sério, ele re­toma a palavra: “Este livro é uma coletâ­nea de anotações de um grupo a atuar nas linhas de frente. Foi escrito no meio de uma guerra e, portanto, não houve tem­po para termos uma necessária e propícia reflexão”. Pausa. “Este livro dá o vislum­bre de algo muito importante: outro livro, talvez um manifesto adequado.”

Argumentos estampados por mani­festos são enfadonhos e talvez o deste li­vro seja o formato certo para atrair lei­tores. Assange concorda. Foram horas e horas de entrevistas gravadas e no final a equipe aplaudiu. “Não atribuo os aplau­sos ao fato de finalmente termos termi­nado o debate, mas ao fato de terem gos­tado de seu conteúdo”, pondera. “Há al­go de moderno e honesto neste livro. Ele disseca a interseção entre o avanço da ci­vilização e da política e da sociedade.” Lembro a frase, tão repetida por ele, Assange, e pelos cypherpunks: “Privaci­dade para os fracos, transparência pa­ra os poderosos”. Para criar esse mun­do livre e democrático, alternativo àque­le controlado por Estados e serviços de inteligência, a criptografia, software gratuito para todos e máquinas sobre as quais teremos maior controle seriam as melhores armas? São formas de luta. Es­sencial, continua, é saber por que exis­te essa luta. “A internet é agora o sistema nervoso da civilização que envolve futu­ras decisões e a distribuição do poder.” Discussão que não li no livro, entre pri­vacidade e anonimato. Privacidade é um direito, já o anonimato, na minha opinião, tem limites. É covarde, por exemplo, um anônimo falar barbaridades como li outro dia ao filtrar o site de CartaCapital. “É im­possível – dizia o navegante – ter havi­do 6 milhões de judeus mortos no Holo­causto; um número mais razoável seriam 500”. Assange: “Acho muito interessan­te as pessoas sentirem a necessidade de se tornar anônimas. É quase sempre o re­sultado do medo de retribuição. Claro, al­gumas retribuições são legítimas. Se você roubar o saco de frutas de uma velhinha, eu diria que uma retribuição será prova­velmente legítima. Mas em vários casos a retribuição não é legitima e, de qualquer forma, as pessoas deveriam ter o direito de opinar, sendo elas anônimas ou não, e até porque elas têm de ser criticadas”.

A resposta acima, vinda de uma pes­soa que está presa em uma embaixada porque se posiciona contra soldados que matam civis me deixa perplexo. Assan­ge: “Eu também tenho meus limites. Não critiquei, por exemplo, o sistema britâ­nico de Justiça porque meus advogados me desaconselharam”. Sim, mas… “Fal­tam dez segundos”, avisa Ethan. Então, vamos à última pergunta: quanto tempo você acha que vai ficar nesta embaixada? Assange: “Trata-se de uma questão di­plomática. política e legal. Algumas das questões são demasiado complexas. Mas, graças ao apoio do governo do Equador e da América Latina de forma geral, que defendeu a posição do Equador, a batalha foi levada de um processo legal perverti­do de volta para o terreno político”.

Ainda segundo Assange, existe uma questão mais importante do que seu fu­turo: o WikiLeaks terá sucesso na bata­lha de dois anos e meio contra os Estados Unidos e de um bloqueio bancário, isento de qualquer processo judicial? Visa, Mas­terCard e PaYPal, entre outras, subvencio­naram , mas foram obrigadas a deixar de fazê-lo. Hoje, o WikiLeaks tem de sobre­viver apelando para as reservas. “Mesmo assim, combatemos intimidações com mais ataques.” Em 2013, a organização publicará 1 milhão de documentos.

Ethan: “Agora temos de encerrar”. Assange, que já desrespeitou outros pedidos do jovem, se levanta. Mas an­tes de sair da sala posa para a máqui­na fotográfica de Olivia. Indago se ele gosta de futebol. “Gosto de jogar mais do que de assistir.”

Fonte: Carta Capital

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s