Escândalo da carne de cavalo macula UE

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Por ANDREW HIGGINS

OLOMOUC, República Tcheca – Zuzana Navelkova apareceu para trabalhar num dia de fevereiro e encontrou um saco de almôndegas congeladas suecas à sua espera.

“Não havia nada de excepcional, só a rotina normal”, contou Navelkova, chefe do departamento de virologia de um laboratório veterinário financiado com verbas públicas nesta cidade, a cerca de 260 km a leste de Praga.

Normal só até que ela achasse carne de cavalo nas almôndegas, trazidas de uma loja da rede Ikea na vizinha cidade de Brno.

A descoberta, com base em exames de DNA, causou uma tempestade na Europa, agravando um escândalo que havia começado semanas antes com a descoberta de carne equina sendo vendida como bovina na Irlanda e na Grã-Bretanha.

Habitualmente, toneladas de carne de cavalo são consumidas por ano. Mas esse escândalo maculou não só o mercado comum do qual a Europa tanto se orgulha, mas também a própria ideia de que as diferentes nações europeias podem juntas estabelecer e observar regras comuns.

O escândalo da carne de cavalo também revelou profundas divisões na União Europeia. Um alimento que quase todos os britânicos consideram revoltante, por exemplo, é apreciado por uma leal minoria em países como a Bélgica, país com maior consumo per capita de carne equina na Europa (a Itália, mais populosa, lidera em termos absolutos).

Para alguns dos “eurocéticos” britânicos, a entrada da carne de cavalo na cadeia alimentar é prova dos abismos insuperáveis que tornam a União Europeia um projeto inviável.

“Com 27 países de origens culturais completamente diferentes, não há freio cultural para o que entra na nossa comida”, disse Godfrey Bloom, eurodeputado pelo Partido da Independência do Reino Unido, que deseja retirar a Grã-Bretanha do bloco.

“Não acho que seja possível de forma alguma que 27 países concordem, acatem e implementem [as mesmas regras]”, disse ele.

Sob um incômodo sistema em que os governos nacionais abrem mão de parte da soberania sem perderem o controle, legiões de funcionários da Comissão Europeia (o Poder Executivo do bloco) expedem regulamentos e portarias, mas carecem da autoridade e dos recursos para cumpri-los. Na maioria das vezes, isso é da alçada de cada país.

O caso da carne de cavalo também revela a tenacidade de estereótipos culturais e nacionais que deveriam ter sumido à medida que uma nova identidade europeia comum se firmasse.

Tem sido particularmente pronunciada a tendência das nações mais ricas da Europa Ocidental de apontar o dedo contra seus primos ex-comunistas do Leste, frequentemente vistos como pobres e pouco confiáveis.

Quando se descobriu que lasanhas à venda na França e na Grã-Bretanha continham carne equina, a Romênia, o segundo país mais pobre da União Europeia, foi apontada como culpada.

Alimentada por relatos, em geral fictícios, de uma matança de cavalos romenos após uma nova lei de trânsito que proibia carroças, a imprensa noticiou que centenas de milhares de cavalos da Romênia haviam repentinamente entrado na cadeia alimentar.

“Isso é um completo absurdo”, disse Lucian Dinita, chefe da polícia rodoviária romena.

Mais tarde, um relatório do governo francês disse que o uso fraudulento da carne equina no lugar da bovina -que custa quase o triplo- havia ocorrido numa fábrica da França.

Quando a Ikea anunciou em fevereiro que estava tirando suas conhecidas almôndegas das suas lojas de toda a Europa, a empresa sueca que as fabricava, chamada Gunnar Dafgard AB, inicialmente negou que seus produtos contivessem carne equina e sugeriu que o laboratório tcheco não era confiável. A empresa depois admitiu que alguns produtos seus continham carne equina, provavelmente oriunda da Polônia.

O escândalo também levou um crescente número de produtores alimentícios e de lojas da Europa a se refugiar no patriotismo, assegurando aos seus consumidores que suas carnes vinham inteiramente de dentro das próprias fronteiras nacionais.

“Os alemães estão dizendo: ‘Só vamos comer produtos alemães’. Os franceses estão dizendo o mesmo dos produtos franceses. O que aconteceu com o mercado comum? Isso é realmente sério”, disse a eurodeputada francesa Françoise Grossetête.

A principal resposta da UE ao escândalo, até agora, tem sido estimular os países a adotarem durante um mês um programa de exames aleatórios de DNA para detectar carne equina.

À medida que as regras se tornam mais rigorosas, porém, a probabilidade de mais escândalos só cresce. “O que faremos se for revelado que os cachorros-quentes realmente contêm cachorro?”, brincou um funcionário da UE em Bruxelas.

Ele acrescentou: “Mas, pelo menos, não seria falsa rotulagem”.

Fonte: The New York Times (Folha de São Paulo)

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