“Aqui não tem Deus”

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Acusada de matar pacientes na UTI que comandava, Virgínia de Souza se gabava de seu poder de vida e morte. Documentos obtidos por VEJA detalham as execuções.

Leslie Leitão, de Curitiba

Numa manhã, em meados de 2010, Virgínia Soares de Souza, médica responsável pela unidade de terapia intensiva para casos de clínica geral do Hospital Evangélico, o segundo maior de Curitiba, avisou seu pessoal que um grave acidente de trânsito acabara de fazer várias vítimas e que eles se preparassem para recebê-las. Uma das enfermeiras presentes alertou para um problema: todos os catorze leitos estavam ocupados. Ouviu como resposta que fosse ao pronto-socorro apressar os procedimentos de internação, porque as vagas seriam criadas. “Desci para o pronto-socorro com a UTI lotada. Quando voltei, em menos de meia hora, seis pacientes tinham morrido. Fiquei apavorada”, conta a VEJA a enfermeira, que não quer ser identificada por temer represálias. Ela ainda perguntou ao colega Claudinei Machado Nunes o que havia acontecido. Ele disparou: “Você é ingênua ou burra?”. A moça narrou sua história de terror à Polícia Civil do Paraná — um dos oito depoimentos estarrecedores sobre a repugnante máquina de execuções instalada na UTI do Hospital Evangélico aos quais VEJA teve acesso. Um conjunto também ainda inédito de 21 prontuários é contundente quanto ao modus operandi da doutora Virgínia: todos os pacientes cujos casos estão sendo investigados receberam um mesmo coquetel de medicamentos, a que a polícia se refere como “kit morte”.

O Ministério Público já denunciou a médica e mais sete subordinados dela por sete mortes. Mas a investigação ganhou novo e assombroso vulto: na última sexta-feira, foram identificados outros 317 pacientes da UTI que perderam a vida no mesmo dia em que receberam o kit morte, entre 2006 e 2013, segundo VEJA apurou. O bando, que responde por formação de quadrilha e homicídio, é acusado de eliminar sistematicamente doentes com menos chances de melhora e assim abrir espaço para pacientes que exigiam tratamentos caros ou cuja estada não seria prolongada — em outras palavras, mais lucrativos. A divulgação, no fim de fevereiro, do macabro esquema comandado por Virgínia para “desentulhar a UTI” — palavras suas, registradas em gravações telefônicas — revelou uma presunção de poder, uma frieza e um descaso capazes de revirar até estômagos menos sensíveis.

Os prontuários carregam nitidamente o carimbo lúgubre do kit morte usado para “girar leitos” (outra expressão de Virgínia) no Hospital Evangélico. A maior parte dos pacientes recebeu doses de quatro medicamentos — para se ter uma ideia, apenas um deles, administrado de uma vez só e nas quantidades relatadas, seria capaz de levar à morte. Em seguida, de acordo com todos os depoimentos, o nível de oxigênio era reduzido ao mínimo, eliminando as chances de sobrevivência (veja o quadro na pág. 82). Na maioria dos prontuários, a queda na oxigenação não aparece, o que indica uma manipulação dessa

informação. “Mas as testemunhas não deixam dúvida sobre a diminuição do oxigênio. Em alguns prontuários, ela ficou gravada, como uma confissão de assassinato”, diz a promotora Fernanda Nagl Garcez, à frente das investigações. Em meio à papelada médica, a história de um homem de 29 anos, ferido a bala, escancara a premeditação. No 12° dia de UTI, Virgínia registrou em seu prontuário, às 12h30 do dia 24 de setembro de 2009: “Evolução de óbito esperado”. Às 13h35, num exercício de prestidigitação seu comparsa Claudinei digitou o horário do óbito: 14h55. O paciente viria mesmo a morrer nessa precisa hora — apenas nove minutos depois de receber o famigerado kit morte.

Os depoimentos pintam um quadro detalhado da rotina de horrores praticada no hospital. Uma linha invisível repartia os leitos da UTI: de um lado, oito deles recebiam os pacientes com mais chance de sobrevivência; do outro, seis alojavam aqueles com probabilidades menores. Esse era conhecido como o “cantinho da morte”, onde Virgínia e seus asseclas mais atuavam. Mesmo quem não fazia parte do esquema sabia do que ocorria na UTI, sobretudo no lado dos condenados. Uma enfermeira relata que foi encarregada de enviar à UTI geral três pacientes que haviam sido internados na unidade coronariana um mês antes. A moça procurou então o médico Edison Anselmo (outro acusado) para informar que pelo menos um deles iria necessitar de novos exames. “Edison respondeu: “Você realmente acha que este paciente estará vivo para realizar os exames?””, contou a enfermeira à polícia, enfatizando: “Ele faleceu no dia seguinte, e os outros morreram dois ou três dias depois”. Além de levar às últimas consequências o afã de desocupar vagas para acomodar novos pacientes, Virgínia constantemente prescrevia procedimentos invasivos desnecessários e até contraindicados, sempre com o propósito de “render mais dinheiro” para o hospital, segundo a polícia.

A médica Virgínia. 56 anos, é descrita como pessoa violenta, prepotente e insensível. Às vezes, relatam as testemunhas, assistia aos pacientes agonizando pela falta de ar sem esboçar reação. Com frequência, submetia os subordinados a humilhações e agressões,

inclusive físicas, como puxar cabelo e até arremessar sapatos (o que certa ocasião lhe custou uma suspensão). “Muitas vezes escutei a doutora dizer: Aqui não existe Deus; quem decide quem vive e quem morre sou eu”, reforça uma testemunha ouvida por VEJA. Em uma das muitas amostras de absoluta insensibilidade da Doutora Morte, ela apelidou os dois dias na semana em que reunia os parentes dos doentes na capela do hospital, para informar sobre seu estado de saúde, de “dia do cai-cai” porque alguns desmaiavam ao ouvir as notícias.

Virgínia e os demais acusados chegaram a ser presos, mas agora aguardam em liberdade a Justiça decidir se serão levados ao banco dos réus. O advogado da médica, Elias Mattar Assad, faz ironia contra as acusações: “Vamos discutir ética médica num processo criminal? Eles provaram que alguém morreu, mas não há um elemento que mostre que a morte foi causada por ação humana”. Assad, por sinal, tem seus honorários pagos pelo deputado federal André Zacharow, que comandou o Hospital Evangélico por mais de vinte anos e é velho amigo de Virgínia. Ao contrário do que o advogado apregoa, as evidências de ação humana são abundantes nos documentos já examinados. Agora, uma junta de especialistas das secretarias municipal e estadual e do Ministério da Saúde vai analisar, caso a caso, as 317 mortes sobre as quais os prontuários lançam suspeitas — um roteiro tenebroso sobre como a Doutora Morte, fria e calculadamente, “desentulhou” a UTI que comandava. Se confirmar que nesse material se repete o tétrico ritual de execuções, Virgínia, formada para salvar vidas, pode se tomar uma das maiores homicidas que o Brasil já conheceu.

Com reportagem de Natalia Cuminale.

Fonte: Veja

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