O nó da segurança

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Evitar ataques e atentados como o de Boston em eventos que reúnem público numeroso é um enorme desafio que o Brasil está prestes a enfrentar

Alexandre Salvador e Carolina Melo

As bombas que explodiram na maratona de Boston põem em evidência um dos maiores desafios que autoridades no mundo inteiro enfrentam: garantir a segurança em eventos que reúnem multidões. Um desafio que o Brasil vai enfrentar quatro vezes entre junho deste ano e agosto de 2016, com a realização da Copa das Confederações, da Jornada Mundial da Juventude, da Copa do Mundo e da Olimpíada do Rio de Janeiro. Os especialistas são unânimes em afirmar que é impossível garantir a segurança com 100% de eficácia em eventos como esses. Maratonas são particularmente complicadas pela extensão, sobretudo quando serpenteiam por dentro das cidades. A maratona de Londres, realizada neste domingo, por exemplo, terá 37.000 participantes e é esperado 1 milhão de espectadores. A Volta da França cobre mais de 3.000 quilômetros e mobiliza 13.000 agentes de segurança.

Os eventos esportivos, em particular, costumam ser alvos preferenciais para atentados ou ataques terroristas. Segundo um levantamento conjunto das universidades de Griffith e de Tecnologia de Sydney, desde a invasão da Vila Olímpica durante os Jogos de Munique, em 1972, que culminou com a morte de onze membros da delegação israelense, ocorreram no mundo quase 200 atentados ou tentativas de ataque relacionados aos esportes. Disse ao correspondente André Petry, de Veja, o americano Mike White, especialista em bombas que durante vinte anos, na polícia de Nova York, foi encarregado de cuidar da segurança de dignitários estrangeiros: “O dilema é o equilíbrio entre segurança e liberdade. Você precisa estar aberto para receber atletas e o público, que vão entrar e sair dos estádios, e oferecer a eles um grau razoável de segurança”. Ninguém deseja criar um estado policial que perturbe o evento.

Os atentados às torres gêmeas, em Nova York, no fatídico 11 de setembro de 2001, mudaram as estratégias de segurança em grandes eventos em todo o mundo. Assim como nos aeroportos, a revista e o uso de detectores de metal se tornaram padrão em estádios e arenas esportivas nos Estados Unidos, na Europa e, posteriormente, em outros continentes. O monitoramento por câmeras foi intensificado, com a instalação de sistemas de reconhecimento facial. Na Olimpíada de Atenas, em 2004, os gastos com segurança cresceram 738% em relação aos Jogos de Sydney. Desde o 11 de Setembro houve também uma verdadeira revolução na preparação, no treinamento e na inteligência das autoridades responsáveis pelos eventos esportivos. No ano passado, a organização dos Jogos de Londres foi considerada impecável em quase todos os quesitos, inclusive segurança. Mas, após o encerramento das competições, foram divulgados os verdadeiros triunfos da polícia inglesa. A Rede Nacional de Contraterrorismo, criada depois dos atentados a bomba ao metrô de Londres, em 2005, conseguiu identificar e desmantelar duas conspirações terroristas às vésperas do início dos Jogos. “Logo após os ataques de 11 de setembro de 2001, a pressão sobre os organizadores de grandes eventos na questão da segurança se multiplicou. A chave está no gerenciamento de risco. É preciso uma integração completa entre as forças policiais, comitê organizador, voluntários, políticos, associações, enfim, é necessário que todos falem a mesma língua, e que apresentem os diferentes cenários do que pode dar errado. Se trabalharem isolados, as falhas aparecem”, disse à Veja o alemão Helmut Spahn, diretor do Centro Internacional para a Segurança no Esporte (ICSS), baseado no Catar e chefe da segurança da Copa do Mundo de 2006, na Alemanha.

Para garantir a tranquilidade das multidões na Jornada da Juventude, na Copa das Confederações, na Copa do Mundo e na Olimpíada do Rio, o governo federal criou a Secretaria Extraordinária de Segurança para Grandes Eventos. Segundo o chefe do órgão, o delegado Jacinto Valdinho Caetano, a principal preocupação é uma ação terrorista seguida por um ataque cibernético que provoque um apagão tecnológico durante algum dos eventos, dificultando a ação das forças de segurança e a transmissão das competições. Para reduzir esse risco, o governo investiu 1,16 bilhão de reais em equipamentos de segurança para a jornada (que terá a presença do papa Francisco), da Copa das Confederações e da Copa do Mundo. Até a Olimpíada, esse gasto pode chegar a 2 bilhões de reais. Entre os equipamentos adquiridos, há alguns inéditos na América Latina, como detectores de gases que funcionam por jatos de ar.

A estratégia de defesa se baseia principalmente na inteligência para antecipar eventuais ataques e na revista e filmagem incessante de todos os locais de eventos para detectar movimentos suspeitos. Nas entradas de espectadores e carros nas arenas será instalada uma central de detecção, com aparelhos de raio X e scanner que revistarão os torcedores e veículos sem a necessidade de contato físico. Helicópteros – dotados de câmeras que enviam via satélite imagens detalhadas em tempo real – sobrevoarão todas as arenas esportivas.

No chão, carros policiais terão equipamentos semelhantes ao utilizado pelo Google Street View para mapear torcedores chegando ou saindo dos jogos. Nos estádios será instalada uma câmera a cada 10 metros – policiais à paisana com câmeras acopladas ao corpo reforçarão a filmagem interna.

“A Copa vai ser tão filmada quanto o Big Brother. Com a diferença de que será um evento acontecendo simultaneamente em doze das maiores cidades brasileiras”, compara outro responsável pela segurança da competição. Mesmo com todo esse aparato, há uma situação que apavora os responsáveis pela segurança da Olimpíada do Rio: a maratona, o único evento olímpico em via pública, no qual é impossível revistar todos os espectadores que se espalharão ao longo dos 42 quilômetros da prova. Ataques como o de Boston são muito mais fáceis de executar e difíceis de prevenir nesse tipo de circuito do que em arenas fechadas, com detectores de metais. No Rio 2016, além do policiamento normal, serão tomadas duas precauções extras: monitorar por terra e pelo ar todo o percurso e infiltrar um policial à paisana a cada 100 metros da prova.

Fonte: Veja

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