Atentado à democracia

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O espancamento de deputados da oposição por aliados do presidente Nicolás Maduro equivale a um golpe de estado em que só a parcela democrática do Parlamento é fechada

Nathalia Watkins

Empossado após uma eleição repleta de irregularidades, o que o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, mais teme é ter sua legitimidade contestada. Na terça-feira passada, sete deputados opositores foram espancados durante a sessão semanal da Assembleia Nacional. Eles acabavam de iniciar um protesto por ter tido os microfones confiscados. Nas semanas anteriores, o presidente da Câmara, o chavista Diosdado Cabello. Já havia destituído os rivais da presidência das comissões permanentes e anunciado a suspensão do pagamento do salário dos 64 deputados que integram a bancada democrática. Foi por terem sido excluídos do debate parlamentar que eles apareceram no plenário munidos de apitos, cometas de futebol e um cartaz com os dizeres “Golpe no Parlamento”. Em poucos minutos, uma dezena de integrantes do PSUV, partido criado por Hugo Chávez, avançou os poucos metros que separam as duas bancadas e começou a esmurrar os colegas e a quebrar os seus computadores. Qualquer um que se aproximava para salvar uma das vítimas também virava saco de pancada. Os que tentaram gravar as imagens tiveram suas câmeras e celulares roubados ou destruídos. “Estávamos encurralados e tentamos nos proteger”, disse a VEJA o deputado José Gregorio Contreras, que conseguiu gravar o espancamento em vídeo, com seu telefone.

Para Contreras, o ataque foi premeditado. A Assembleia Nacional tem duas entradas, uma usada pelos governistas, do lado esquerdo, e a outra pelos opositores, do lado direito. Nesse dia, a porta mais próxima da oposição estava trancada com cadeados e correntes. Isso impediu que os deputados atacados fugissem com segurança. Só lhes restava sair pela porta da esquerda, onde se formou um verdadeiro corredor polonês de chavistas descontrolados. A deputada María Corina Machado teve quatro fraturas no nariz e precisou ser operada. Já Julio Borges quebrou a mandíbula. “Ele levou um soco atrás do outro, não conseguiu nem reagir nem fugir”, diz Contreras. O deputado Américo de Grazia foi empurrado de uma escada e pisoteado até ficar inconsciente. O governo acusou a oposição de incitar a violência e simular escoriações com maquiagem. “Eles insistem em nos mostrar como agressores, mas as fotos comprovam que tudo o que tínhamos eram apitos e cometas’’, disse Grazia a VEJA. Outros deputados agredidos não quiseram contar o que aconteceu, com medo de grampos telefônicos.

A preocupação do governo de Maduro com as aparências tem sua razão. Caso tomasse o Legislativo à força pelos tradicionais métodos ditatoriais, impedindo a entrada dos deputados ou recorrendo às Forças Armadas, seria acusado de autogolpe por fechar o Parlamento. O carimbo ditatorial inviabilizaria o apoio de outros países ao regime chavista. Isso vale principalmente para o governo brasileiro. cuja conivência com os desmandos de Maduro, calcada na afinidade ideológica entre o PT e o chavismo, depende de a Venezuela manter algum verniz democrático, ainda que tênue. Já os verdadeiros democratas venezuelanos não pretendem ceder. Na próxima sessão legislativa, prometem comparecer protegidos com capacetes.

Fonte: Veja

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