O poder acuado

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Dilma Rousseff assistiu perplexa, do Palácio do Planalto, à maior manifestação popular desde as Diretas Já. Perdido, o governo tenta achar formas de ganhar tempo e vislumbrar um plano para serenar a fúria do povo nas ruas brasileiras.

Otávio Cabral

Em sua fala em cadeia de rádio e televisão na sexta-feira à noite, a presidente Dilma Rousseff teve pelo menos uma grande virtude. Ela reconheceu humildemente que o país que preside está vivendo um fenômeno social de massa inteiramente novo. Mérito dela, pois, se há algo que tira do sério um político de esquerda, é justamente um movimento de massa inescrutável. Desde os tempos da revolução bolchevique na Rússia que os líderes esquerdistas desdenham qualquer revolta popular que não tenha sido organizada por eles. A da semana passada no Brasil foi um osso duro, mas essa gente tem estômago de ferro e nenhum compromisso com os fatos. O bolchevique Gilberto Carvalho, ministro do governo Dilma mas que presta continência apenas a Lula, disse que o mais de 1 milhão de brasileiros que foram às ruas protestar contra a corrupção e a impunidade estavam movidos por “um certo tipo de moralismo”. É o mesmo argumento que os comunistas, com ligeiras variações, historicamente usam quando as pessoas se manifestam livremente. Quem não se lembra do desprezo com que o camarada Ivanov chama de “moralistas diletantes” os revolucionários não comunistas no esplêndido livro O Zero e o Infinito, de Arthur Koestler, autor que, se os petistas tivessem lido a sério, teriam, talvez, poupado a si mesmos e aos brasileiros de tanto sofrimento. O que as ruas brasileiras abrigaram na semana passada foram multidões de libertários independentes não ideológicos cansados de corrupção e de descaso. Por isso a perplexidade e a raiva surda dos esquerdistas de manual no poder no Brasil.

Esqueçamos os vândalos e os anarquistas, gente que não estava lutando por um governo melhor, mas por governo nenhum — o que é uma estupidez. A revolução verdadeira foi a que começou a ser feita pelos brasileiros que foram às ruas protestar por estar sendo mal governados. No dia 20 de junho de 2013, a presidente Dilma Rousseff ficou por quase duas horas acuada no Palácio do Planalto, impedida de deixar o local pela porta da frente por uma multidão que, do lado de fora, bradava contra a corrupção, a PEC 37, os gastos na Copa, ela, o seu governo, todos os governos e mais uma lista sem fim de insatisfações — todas naquele momento atribuídas aos políticos no poder.

“Como a Abin não percebeu nada disso?”, perguntou a presidente ao general José Elito chefe do Gabinete de Segurança Institucional. Naquele momento, 50.000 manifestantes desciam a Esplanada dos Ministérios rumo à Praça dos Três Poderes, enquanto um grupo tentava entrar à força no Congresso. Dilma perplexa, assistia a tudo na televisão de seu gabinete no Palácio, àquela altura cercado por um cordão de militares que impedia a aproximação dos manifestantes. À pergunta da presidente, o general respondeu com silêncio. Dilma ainda deu dois telefonemas: um para o seu antecessor, o ex-presidente Lula, e o outro para o marqueteiro João Santana. Para o último, repetiu a pergunta feita ao general: “Como as suas pesquisas nunca pegaram isso, João?”. Na noite mais tensa dos trinta meses de mandato de Dilma Rousseff na Presidência da República 1 milhão de pessoas em uma centena de cidades brasileiras estavam nas ruas. Foi a maior manifestação popular desde o movimento Diretas Já. E o PT, o partido de Dilma e de seu antecessor, não tinha nenhum controle sobre ela.

O PT assistiu, pasmo e impotente, a um território que antes lhe pertencia ser tomado por uma multidão não apenas imune aos seus comandos, mas também resistente à sua presença — como atestou dolorosamente seu presidente, Rui Falcão, o Rui Falcollor, que convocou a militância a participar das manifestações na quinta-feira e “defender o PT e o governo”. Tiro no pé. Igualzinho ao que o então presidente Fernando Collor, sinônimo de corrupção e quadrilhismo no Brasil, desferiu em 1992 ao convocar o povo para vestir verde e amarelo em sinal de apoio a ele. O povo saiu de preto, em sinal de luto. Petistas apanharam da multidão, tiveram suas bandeiras queimadas, foram escorraçados e xingados de “oportunistas”. O PT perdeu as ruas.

Acuados no palácio, Dilma e seus principais assessores dividiram-se na quinta-feira quanto à forma de reagir à multidão. Gleisi Hoffmann, ao ver os manifestantes mais radicais tentando invadir o Itamaraty sugeriu colocar as Forças Armadas na rua “para defender o patrimônio público”. A presidente negou a sugestão de imediato. Falou de seu histórico de oposição ao regime militar e do risco de que, se a iniciativa fosse bem-sucedida, seria apontada como uma solução de “conservadores e direitistas”. Aloizio Mercadante filho de general, concordou, mas com uma leitura míope da realidade: “Tanques não voltam para a garagem”. Primeiro porque nem o mais aloprado general brasileiro cumpriria, hoje, a ordem de colocar tanques na rua contra o povo. Bastaria um destacamento da Polícia do Exército com equipamento de controle de distúrbios. Gleisi ficou isolada. A ministra da Comunicação Social. Helena Chagas, sugeriu que a presidente convocasse uma rede nacional para fazer um pronunciamento que mostrasse que o governo não está acuado. “Mas para falar o quê?”, perguntou Dilma. Alguém achou a resposta. Na noite de sexta-feira, a presidente falou à nação.

Na avaliação do governo, os protestos deverão continuar. Os alvos serão o excesso de gastos com a Copa a corrupção e a crise econômica. Um levantamento feito pelo Departamento de Inteligência e Pesquisa de Mercado da Editora Abril, que ouviu 9.088 pessoas, confirmou o desgaste dos governos e dos partidos políticos e apontou que a quase totalidade dos brasileiros está disposta a continuar nas ruas. Para fazer frente ao que virá e tentar conter a insatisfação generalizada, o governo federal deverá anunciar algumas medidas cosméticas nos próximos dias, mas os principais atos se darão nos bastidores.

Nas reuniões do fim da semana passada, Dilma e seus conselheiros decidiram apoiar a CPI da Copa proposta pelo deputado e ex-jogador Romário (do PSB do Rio de Janeiro), trabalhar pela derrubada da PEC 37 (que limita o poder de investigação do Ministério Público) e oferecer, se preciso, a cabeça do presidente do Senado, Renan Calheiros muito lembrado nos cartazes dos manifestantes. Até a troca do ministro da Fazenda. Guido Mantega, foi cogitada pelos assessores presidenciais como uma forma de acalmar os mercados. A ideia é que, com medidas assim, o governo possa ganhar tempo para traçar uma estratégia de fôlego até o fim do mandato.

As pesquisas do marqueteiro João Santana podem ter falhado ao não detectar a possibilidade de uma onda de protestos no país mas já traziam alertas ao governo sobre insatisfações de certos setores da população, principalmente nos grandes centros urbanos. Na avaliação de Santana, nos últimos anos, a vida do brasileiro médio melhorou “da porta para dentro”, com o aumento do emprego, da renda e do consumo. Mas piorou significativamente “da porta para fora”, com o crescimento da criminalidade, a piora do trânsito e do transporte público. Isso criou uma população com uma insatisfação represada. “Grandes explosões sociais vêm quando a situação é de progresso, não quando há falta de avanços sociais”, lembra o professor de sociologia da Universidade Brown Gianpaolo Baiocchi. “Quando os índices sociais melhoram, a população fica mais exigente. E muitas vezes as demandas são maiores do que as respostas alcançadas, como no caso dos brasileiros”, diz.

Na sexta-feira, o Movimento Passe Livre (MPL) que iniciou os protestos em São Paulo, anunciou sua retirada de cena. Oficialmente, declarou que tomou a decisão por já ter atingido seu objetivo. A verdade, porém, é que seguindo a lei histórica segundo a qual as revoluções raramente são concluídas pelos que as iniciam, o MPL tornou-se irrelevante ao cabo de alguns poucos dias. O caminho que as manifestações tomarão, é claro, está no campo da especulação. A história mostra que os grandes espasmos populares espontâneos nem sempre prenunciam mudanças políticas de mesma coloração e envergadura. O famoso Maio de 68 na França culminou com a eleição de um presidente conservador. Georges Pompidou. No mesmo fim de década, o movimento pacifista americano “flower power” conquistou corações e mentes de milhões, mas quem se elegeu presidente foi mesmo o direitista Richard Nixon. O certo, porém é que as ruas das grandes cidades brasileiras parecem agora vacinadas contra o proselitismo, as ideologias velhas e o populismo. Essa é a verdadeira revolução.

Com reportagem de Julia Carvalho e Pieter Zalis

Fonte: Veja

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