Filhas da nobreza lutam para mudar lei de herança

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Por SARAH LYALL

LONDRES – O fato de títulos de nobreza e grandes propriedades rurais passarem unicamente a herdeiros do sexo masculino, mesmo que sejam herdeiros cujo parentesco com o falecido é distante, pode parecer absurdo e tão “pré-histórico” quanto negar às mulheres o direito do voto, mas ainda é o que manda a lei no caso da aristocracia no Reino Unido.

“Meu pai sempre me dizia: ‘Não se esqueça de usar cinto de segurança, porque seu rosto é sua fortuna'”, contou Liza Campbell, filha do 25° “thane” (lorde feudal) de Cawdor e agora, após a morte de seu pai, irmã do 26° “thane”.

Também conhecido como o conde de Cawdor, o “thane” atual, Colin, é o filho do meio dos cinco de seu pai. Mas é o mais velho do sexo masculino e sempre foi considerado o mais importante, no que diz respeito a dar continuidade ao título. “Amo meu irmão, mas é uma situação peculiar”, disse Liza Campbell, 53, artista e escritora que cresceu na propriedade rural da família na Escócia -20 mil hectares e um castelo-, mas hoje vive em Londres. “Há um escolhido na família, e todos os outros são supérfluos.”

Até pouco tempo atrás, poucos aventavam algum desejo de mudar a lei. “O aspecto chique da sucessão ao título geralmente leva as pessoas a ignorar algo que, basicamente, é sexismo entre uma minoria privilegiada, na qual as meninas nascem valendo menos que os meninos”, disse Campbell.

Mas a questão vem sendo comentada no Parlamento desde a aprovação recente de uma lei que permite que o primogênito do monarca herde a coroa, seja ele menino ou menina. Novas propostas apresentadas permitiriam que os títulos herdados e as propriedades que muitas vezes os acompanham fossem transmitidos dessa forma também, ao filho mais velho, independentemente de seu gênero.

“Parece que não nos livramos dos títulos de nobreza, mas acho que, já que os temos, eu gostaria que não discriminassem por gênero”, disse o parlamentar que apresentou o projeto de lei à Câmara dos Lordes, o lorde Lucas de Crudwell e Dingwall, que, devido a uma exceção histórica, é um dos poucos nobres cujos títulos podem ser transmitidos para mulheres ou homens.

As normas atuais já criaram problemas familiares diversos.

“Quando éramos crianças e adolescentes, sempre ouvíamos: ‘Quando seu irmão vier morar aqui…'”, comentou uma aristocrata que cresceu na mansão grandiosa que amava, mas viu seu irmão mais jovem herdá-la quando o pai deles morreu. Pedindo anonimato para falar porque não queria causar ofensa na família, ela disse que ninguém jamais questionou o sistema.

“Apesar de meu pai ter visto a mãe dele quase ter um colapso porque não herdou a casa em que cresceu, ele não modificou seu comportamento em relação a sua filha”, falou a mulher, que está na casa dos 50 anos. “Embora eu o amasse e ele me amasse, a regra da herança titular e da propriedade era tão forte para ele quanto a regra de que não se deve ter filhos fora do casamento.”

Ela tem sorte: seu irmão deixa que ela e seus filhos visitem a mansão quando querem. Algumas irmãs não têm a mesma sorte. Os filhos do falecido lorde Lambton, por exemplo, travam uma disputa acirrada sobre seu legado, que vale milhões de libras esterlinas e que, quando ele morreu, em 2006, foi passado integralmente para seu único filho homem, Ned, o caçula.

Três das cinco filhas de Lambton processaram seu irmão, alegando que, como lorde Lambton passou suas últimas décadas de vida em sua mansão na Itália, seu espólio deveria ser sujeito à lei italiana, em que a regra da transmissão para herdeiros homens não existe. Elas pedem US$ 1,5 milhão cada. O irmão está movendo uma ação judicial contrária num tribunal britânico.

O destacado escritor e comentarista político Peregrine Worsthone, casado com Lucinda Lambton, uma das filhas, disse que o sistema deixou a família dilacerada. “Quando tudo é deixado para o filho mais velho, é normal que ele demonstre alguma consideração para com seus irmãos”, disse Worsthone.

A situação provoca sofrimento de um tipo diferente para o conde e a condessa de Clancarty, que têm uma filha de oito anos, mas não têm ninguém que possa herdar o título que está na família há centenas de anos.

“Há o sentimento de que o nome da família vai morrer com você, depois de todos esses séculos”, disse a condessa. “O título e quaisquer objetos de memória familiar ficarão com alguém que nem sequer conhecemos.”

Mary MacLeod, que apresentou à Câmara dos Comuns o projeto de lei que visa permitir a transmissão para filhos homens ou mulheres, observou que, dos 92 pares hereditários na Câmara dos Lordes, apenas dois são mulheres. “Isso afeta apenas algumas poucas pessoas, mas é simbólico. É como perguntar se, neste momento, acreditamos de fato na igualdade entre homens e mulheres.”

Fonte: The New York Times (Folha de São Paulo)

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