Invasão no quintal do vice-presidente

by

A 500 metros do Palácio do Jaburu, onde mora Michel Temer, e a dois quilômetros da residência da presidente Dilma Rousseff cresce uma ocupação irregular que abriga pessoas de alto poder aquisitivo. Moradores asseguram que lotes são bem valorizados

ADRIANA BERNARDES
SAULO ARAÚJO

Ruelas de terra batida, muitas delas sem saída. Casebres de madeirite rodeados de cerca viva dividem espaço com mansões monitoradas por circuito interno de TV e piscinas. A disparidade entre a vizinhança não para por aí. A menos de 500 metros está o Palácio do Jaburu, a residência oficial do vice-presidente da República, Michel Temer (PMDB). Além disso, dois quilômetros e meio separam o núcleo habitacional do Palácio da Alvorada, onde vive a presidente Dilma Rousseff .

A ironia é tanta que os invasores pegaram emprestado o nome do vizinho ilustre: a área é batizada de Setor de Chácaras Recanto do Jaburu, referência à casa da segunda mais importante autoridade do país. Encravadas em umas das áreas mais nobres do Distrito Federal, as 67 unidades são atendidas pelos Correios e abastecidas com água e energia elétrica. (Leia ao lado)

Pela lei, nada disso deveria existir. O parcelamento que teve início em meados de 2002 e explodiu em 2007 fica ao lado da Vila Planalto e dentro da área de tutela de tombamento do bairro. Conforme Decreto nº 11.079 de 1988, é obrigação do Governo do Distrito Federal (GDF) preservar e evitar qualquer tipo de edificação ilegal no perímetro.

Segundo a legislação, “todo ato que importe na destruição, mutilação e alteração dos bens será considerado crime contra o Patrimônio do Distrito Federal e, como tal, punível de acordo com o disposto nas leis penais, sem prejuízo das reparações civis”. Mas tal recomendação ficou apenas no papel. A Vila Planalto está totalmente descaracterizada e a sua área de tutela, onde está situada o Recanto do Jaburu, cresce nas barbas do poder.

Apesar de o nome do parcelamento irregular induzir os desavisados a acreditar que se tratam de chacareiros ocupando a área, no local, poucos são os lotes usados para produzir alimentos. Uma conversa rápida com os moradores revela que boa parte dos ocupantes nunca soube o que é tirar da terra o sustento da mesa. Por meio da cerca viva, percebe-se a existência de lotes vazios ou com construções precárias. Em outros, a vegetação nativa foi arrancada e o mato tomou conta.

“Tem gente importante morando aqui?”, pergunta a reportagem a um chacareiro. “Tem, sim. Policial do Bope, da Polícia Federal, gente do GDF e até juiz “, responde um homem vestido com bermuda, camisa de botão aberta no peito e calçando chinelos de borracha. Ele é dono de quase 5 mil metros quadrados, comprados há 10 anos por R$ 365 mil. “Já me ofereceram R$ 800 (mil), mas eu não vendo. Só saio daqui depois de ver minhas filhas formadas”, planeja.

Sentado numa cadeira olhando o pouco movimento da rua, um senhor garante que vive no mesmo endereço desde 1971. Metade da casa construída no terreno é de madeira. A outra parte, de alvenaria. Uns poucos pés de mandioca dividem espaço com um espantalho. “Moro aqui há 42 anos. Comprei (2,5 mil metros quadrados) por 150 cruzeiros à época. Dia desses, me ofereceram R$ 50 mil por esse pedaço aí de terra (disse, apontando para uma área de 340 metros quadrados). Mas eu não vendi. Isso aqui tudo é terra do governo. Como é que eu vendo uma coisa que não é minha?”, questiona o aposentado, reconhecendo ocupar terras sem autorização.

Imagens aéreas

Imagens de satélite da área tiradas desde 1965 o desmentem. Ocupações na região só começaram a aparecer a partir de meados de 2000. Antes disso, existia apenas cerrado. O poder aquisitivo de alguns dos invasores é constatado pelo alto padrão das residências e por meio dos serviços informais contratados pelos moradores. Mesmo quando a casa não é de luxo, há relatos de que os verdadeiros donos mantêm caseiros para demarcar o território.

Na última terça-feira, dois homens colocavam restos de asfalto em uma das ruas. O trabalho foi encomendado por um grupo de moradores incomodados com a poeira e a lama no setor. Só para comprar o material, eles gastaram cerca de R$ 10 mil. Enquanto espalhavam o asfalto, motoristas em carros luxuosos passavam pelo local.

“Lutamos para que o governo reconheça a nossa permanência no setor. As famílias daqui se comprometeram a preservar as áreas verdes, mantendo o caráter rural”
Geraldo da Silva, presidente da Associação dos Produtores da Vila Planalto

67
Total de unidades habitacionais da ocupação irregular

Fonte: Correio Braziliense

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s