Paradeiro de obras-primas desafia polícia

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Por ANDREW HIGGINS

CARCALIU, Romênia – Num dia nevado de janeiro, Radu Dogaru, hospedado com seu computador na casa de sua mãe neste isolado povoado romeno, apresentou os termos de um negócio que vinha querendo fechar havia meses e que agora parecia muito perto de se concretizar.

Comunicando-se no Facebook com outro membro de uma quadrilha que, três meses antes, em Roterdã, na Holanda, tinha cometido o maior roubo de obras de arte em décadas, Dogaru disse que queria “encerrar o show” e combinar a venda das obras de arte roubadas a um rico produtor local de vinhos que tinha mandado dizer que estava interessado em comprar.

As telas eram de Picasso, Monet, Matisse e outros mestres modernos e valiam dezenas de milhões de dólares. Mas, desesperado para se desfazer delas, Dogaru disse a seu cúmplice, Mihai Alexandru Bitu, que o comprador poderia ficar com “os cachorros” por € 400 mil -cerca de R$ 1.225 mil-e combinou que os levaria a um ponto de encontro no dia seguinte para concretizar a venda.

“O que você acha deste comprador, tão interessado de repente?”, quis saber Dogaru, segundo uma transcrição da conversa. “Ontem ele não estava interessado e hoje está impaciente.”

O que ele não sabia era que o comprador, Serghei Cosma, estava cooperando com a promotoria romena e pretendia se fazer acompanhar no encontro por um agente que se faria passar por especialista em arte. O encontro todo era uma armação complexa.

“Estávamos prestes a pegá-los em flagrante”, disse Raluca Botea, promotora-chefe de uma unidade especial romena.

VERSÕES

Mas a operação fracassou algumas horas mais tarde, quando Dogaru soube que a polícia estava grampeando seu telefone. Hoje, mais de seis meses depois, o paradeiro das telas ainda é desconhecido. Autoridades policiais da Romênia e da Holanda e amantes da arte de todo o mundo se esforçam para descobrir o que aconteceu com as obras-primas roubadas do museu Kunsthal, em Roterdã.

Foram queimadas, como já afirmou a mãe de Dogaru, Olga? Ou teriam sido levadas por um homem alto e misterioso num carro preto de luxo, como ela já disse em outras ocasiões? Ou ainda, como acreditam muitos no vilarejo desolado de Carcaliu, podem simplesmente estar escondidas em algum lugar dessa região rural?

“Como cidadã do mundo, quero acreditar que essas pinturas ainda existem”, falou Botea. “Mas, como promotora, preciso de fatos. Ainda não sei o que foi feito delas, se foram destruídas ou não.”

O fracasso da operação policial jogou por terra as esperanças de que a única pessoa que sabia -e talvez ainda saiba- onde estão os quadros pudesse levar as autoridades até elas, deixando o mundo das artes temendo que as obras tenham sido perdidas para sempre.

Investigadores suspeitam que Dogaru pretendia vender apenas quatro das telas ao falso comprador, cada uma por € 100 mil (R$ 306 mil). Mas mesmo isso teria sido muito melhor que nenhuma, que é o se tem agora.

Preso na noite de 19 de janeiro, Dogaru, que deve ir a julgamento neste mês, admitiu o roubo das telas, mas deu poucas informações. Sugeriu que outros criminosos estão envolvidos e o matarão se ele revelar alguma coisa.

Mas, segundo Botea, pouco do que disseram Dogaru e sua mãe, que tem 50 anos e foi presa em março, guarda alguma relação com a verdade.

A mãe de Dogaru teceu uma teia de histórias contraditórias. “Ela muda sua versão dos fatos a toda hora, dependendo de quais considera serem os interesses de seu filho”, explicou a promotora.

Uma coisa que parece clara é que, depois de uma trajetória acidentada, as telas acabaram por algum tempo em Carcaliu. O vilarejo é povoado principalmente por “crentes antigos”, de idioma russo -uma comunidade que se separou da Igreja Ortodoxa Russa no século 17 e passou a enxergar o mundo externo com desconfiança.

Dogaru foi criado por sua mãe, que fala russo. Seu pai, romeno de índole explosiva, era preso constantemente por envolvimento em brigas violentas. Sua avó, de 86 anos, disse que Dogaru “rezava, fazia o sinal da cruz e lia a Bíblia”.

As telas que Dogaru admitiu ter roubado em Roterdã incluem “Ponte de Waterloo, Londres”, de Monet, “Moça Diante de Janela Aberta”, de Gauguin, e “Cabeça de Arlequim”, de Picasso. Elas iniciariam sua trajetória rumo ao que muitos temem que seja o esquecimento numa ação ousada no ano passado.

Dogaru e um cúmplice furtaram sete obras de arte pouco após as 3h de 16 de outubro do ano passado, entrando e saindo do Kunsthal em apenas 96 segundos. Não deixaram pistas de sua identidade, exceto por imagens pouco nítidas e irreconhecíveis nas câmeras de segurança. O alarme tocou apenas quando eles saíram.

Na manhã seguinte, Dogaru levou cinco das telas roubadas a Bruxelas, onde tentou vendê-las a um mafioso conhecido como “George, o Ladrão”. Quando não conseguiu, as levou de volta a Roterdã no mesmo dia. Um comparsa de Dogaru escondeu os sete quadros dentro de travesseiros e os levou de carro até Carcaliu, dirigindo quase sem parar e chegando em 19 de outubro, segundo relato das atividades do grupo contido no indiciamento oficial.

SEGREDOS

Apesar de ser um vilarejo pequeno, Carcaliu vem resistindo a meses às investigações insistentes da unidade de investigação criminal, que já realizou 60 operações de busca e contratou um homem local para tentar entender o russo arcaico falado na vila.

Dogaru parece ter escondido as obras inicialmente na casa de sua família, mas, mais tarde, teria levado pelo menos algumas delas numa mala à casa da irmã de sua mãe, Marfa Marcu. Entrevistada, Marcu disse que nunca abriu a mala. Ela diz que a viu pela última vez quando sua irmã a levou embora, juntamente com uma pá, pouco depois de Dogaru ser preso.

A sra. Dogaru disse aos promotores que enterrou a mala no quintal de uma casa abandonada. Após alguns dias, a desenterrou, embrulhou as telas em plástico e as enterrou num cemitério.

A partir desse ponto, a pista esfriou. Interrogada em 27 de fevereiro, a sra. Dogaru disse que em algum momento de janeiro desenterrou as telas novamente e, decidida a destruir as provas, as levou para sua casa e as queimou num fogão usado para aquecer água para o banheiro e uma sauna.

Em depoimento do dia 28 de fevereiro, Dogaru se retratou e disse que, na realidade, entregou as telas a um homem de cerca de 40 anos de idade que falava russo. Ele teria chegado à sua casa num automóvel preto. Dogaru disse que seu filho, que ela tinha visitado na prisão, tinha-lhe dito que esse visitante chegaria e lhe pedido que entregasse os quadros a ele.

Desde fevereiro, porém, Dogaru já mudou sua versão mais de uma vez. Em junho, voltou para sua versão anterior, dizendo que fez uma fogueira com as obras num fogão no banheiro. E recentemente disse a três juízes num tribunal de Bucareste: “Não as queimei”.

A única prova factual do que pode ter acontecido veio de um laboratório do Museu de História Natural de Bucareste, que realizou uma análise forense das cinzas colhidas do fogão.

“É bastante provável que tenha ocorrido algo terrível”, disse o diretor do museu, Enest Oberlander-Tarnoveanu. Segundo ele, a análise das cinzas revelou pregos, tachas, pigmentos coloridos e fragmentos de tela, indícios dos restos de pelo menos quatro pinturas. O diretor acrescentou: “Sabemos que ela queimou algumas pinturas. Mas não sabemos se foram as que vieram do Kunsthal.”

Colaborou George Calin e Christopher Schuetze

Fonte: The New York Times (Folha de São Paulo)

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