Para estudantes, programa tem falhas e faltou diálogo

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Por Luciano Maximo | De São Paulo

Nas duas faculdades de medicina mais importantes da cidade de São Paulo – USP e Santa Casa -, o Mais Médicos está presente em discussões dentro e fora da sala de aula, mas não chega a mobilizar os estudantes. Os futuros profissionais de saúde do país que aceitaram conversar com o Valor sobre o programa federal são, sem exceção, bem informados, críticos e apontam uma série de falhas. A maioria não é contra a vinda de estrangeiros, mas questiona a forma como ela está sendo colocada em prática pelo governo federal.

Em geral, os alunos ouvidos pela reportagem ponderam que colocar médicos em locais sem estrutura adequada para o exercício da profissão faz pouca diferença na melhoria da saúde. Além disso, cobram mais investimento do Estado no Sistema Único de Saúde (SUS), lembram a importância da validação do diploma estrangeiro, e cobram plano de carreira e melhores salários para a categoria.

No terceiro ano da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa, Luiz Hardt, de 24 anos, diz que o problema do país não é a falta de médicos, mas “uma distribuição desequilibrada” de profissionais. Ele conta que “a maioria do pessoal” da instituição é contra o Mais Médicos, mas é, ao mesmo tempo, favorável à vinda de estrangeiros para trabalhar no Brasil. “Tem uma diferença entre vir e as condições oferecidas pelo governo. É um problema complexo”, pondera Hardt, que pretende se especializar em psiquiatria e trabalhar no setor público. “Não me vejo separado do SUS, mas não conseguiria permanecer, por muito tempo, num lugar [interior do país] sem condições de trabalho”, conta o aluno.

Para justificar sua opinião, Hardt cita um item do código de ética médica: “Para exercer a medicina com honra e dignidade, o médico necessita ter boas condições de trabalho e ser remunerado de forma justa”. “É ingenuidade achar que o médico vai resolver todos os problemas da saúde se for mandado para um lugar onde falta tudo. Se não tem remédio, o médico vai virar curandeiro?”, pergunta.

Gabriela Vargas, de 20 anos, aluna do segundo ano da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, observa que chega a faltar kits para exames papanicolau em unidades básicas de saúde da Zona Oeste de São Paulo e questiona como serão as condições de trabalho no interior do país.

Para ela, a melhor forma para incentivar a ida de médicos para o interior e periferias de grandes cidades seria a elaboração de planos de carreira consistentes e investimentos para superar carências estruturais. “Não tem como investir em saúde em um lugar que não tem médico, mas não dá para levar um médico para um local sem o mínimo de perspectiva de infraestrutura. A questão é ter investimento em paralelo. A minha sensação é que estão colocando o médico como bode expiatório da péssima qualidade da saúde do país. A culpa é da falta de médico? Também, mas não só isso”, argumenta Gabriela.

A estudante de medicina acrescenta que, em sua opinião, faltou transparência e diálogo na formulação do Mais Médicos. “Aparentemente as pessoas que orientam essas políticas não entendem muito o que elas estão fazendo, não têm conhecimento como funciona a graduação de medicina, quais são os reais problemas, por que que os médicos brasileiros não vão para o interior. Enfim, falta debate.”

Seu colega de curso na USP, Caio Zampronha, de 23 anos, acredita que, como “medida emergencial”, o Mais Médicos pode funcionar, mas acha “ruim que venham trabalhar sem validação de diploma, sem certeza da qualidade deles”, embora ele não duvide das escolas médicas de Cuba. Zampronha reitera que os médicos cubanos podem prestar ótima assistência a quem precisa, “mas precisariam passar por exames de aptidão.”

O estudante cobra a opção por parte do governo por “programas sérios” focados na saúde básica. “São necessárias políticas amplas de apoio ao profissional de atenção básica para que mais pessoas façam essa residência, ganhem melhor, tenham carreira decente nessa área, possam fazer pesquisa. Talvez esse seja o problema fundamental”, argumenta Zampronha.

Tanto ele como sua colega Gabriela concordam que as recentes polêmicas sobre o Mais Médicos atrapalharam o debate e um melhor entendimento sobre o programa. Para ele, as reações racistas e xenófobas de alguns representantes do setor desmoralizam e enfraquecem o movimento de defesa da saúde pública.

Para Iago Matos, de 21 anos, estudante do segundo ano da Faculdade de Saúde Pública da USP, o Mais Médicos foi implementado rápido demais, com pouca discussão sobre “onde o SUS entra nessa história toda”. “Uma parte que faltou discutir é o fortalecimento do SUS, seu financiamento, e o perfil da graduação de medicina, que é historicamente elitista, virada de costas para o SUS”, opina.

Fonte: Valor Econômico

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