Promotor muçulmano luta pelas mulheres

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Por KATRIN BENNHOLD

LONDRES – Os inimigos de Nazir Afzal são variados. Alguns, como ele, são muçulmanos nascidos no Reino Unido com raízes no Paquistão ou em outros países da Ásia meridional e não conseguem entender como Afzal pode criticar os casamentos forçados e os crimes “de honra”.

Outros são da extrema-direita britânica e não aceitam que um muçulmano seja promotor-chefe de Justiça para “sua” rainha e “seu” país. Eles já escreveram para o primeiro-ministro David Cameron pedindo que demita e deporte Afzal, que riu antes de responder: “Eu nasci em Birmingham, na Inglaterra, e não voltarei para lá”.

Um dos 13 promotores-chefes da coroa britânica, ele supervisiona mais de 100 mil processos por ano e gerencia 800 advogados e funcionários da Justiça no noroeste da Inglaterra, a maior região depois de Londres. O primeiro promotor-chefe muçulmano, ele ainda é o mais velho advogado muçulmano do país.

Enquanto a maioria de seus casos envolve réus brancos, talvez sua maior marca tenha sido processar casos que envolvem crimes contra mulheres de comunidades minoritárias.

Antes de Afzal, poucos no Reino Unido multicultural falavam abertamente sobre as 10 mil meninas, na maioria da Ásia meridional e dois terços delas muçulmanas, que são casadas contra sua vontade todo ano no país, muito menos das cerca de 12 que são mortas anualmente em nome da “honra familiar”.

Afzal, 51, ajudou a montar uma linha direta nacional para mulheres em perigo de casamento forçado e está trabalhando com o Home Office para criminalizar essa prática.

No ano passado, ele processou com sucesso oito homens britânicos de origem paquistanesa e um afegão por estuprar e traficar meninas brancas.

Afzal não mede palavras quando fala sobre as “centenas de jovens britânicas que têm seus clitóris cortados em mutilação genital todos os anos”. Ele insiste que os direitos humanos sempre devem se sobrepor aos direitos culturais. “Nenhuma comunidade deveria proteger homens que cometem crimes contra as mulheres”, disse.

Ser homem, muçulmano praticante e filho de imigrantes da área tribal conservadora do noroeste do Paquistão poderia fazer de Afzal um feminista improvável. Mas é assim que ele se descreve -e seu gênero, afirma, é de longe sua maior vantagem.

“As mulheres falam sobre essas questões há muito tempo”, disse. “Eu venho dessas comunidades e entendo sua natureza patriarcal. Posso contestá-las”, continuou. “E, como sou homem, é maior a probabilidade de que os homens da comunidade me escutem.”

Em 2004, Afzal, que tem uma filha e três filhos, ficou surpreso quando algumas mulheres visitaram seu escritório. Uma delas falou sobre uma garota que tinha se imolado com fogo até a morte para evitar um casamento forçado. Outra narrou a história de uma mulher que tinha fugido de sua família havia oito anos, por se recusar a casar com um homem que não conhecia.

“Eu não sabia que isso acontecia neste país”, disse ele.

Dois anos depois, ele processou com sucesso o primo e o irmão de uma jovem, Samaira Nazir, por seu assassinato. Ela quisera se casar com alguém que sua família não aceitava, desejo pelo qual foi esfaqueada 18 vezes. Seu pai foi o encarregado de preparar o crime, mas morreu antes do julgamento. Foi uma das primeiras vezes em que um assassinato de honra chamou a atenção do público no Reino Unido.

Ele também serviu como ponte entre os britânicos brancos e os asiáticos do país, especialmente depois dos atentados à bomba em 2005 em Londres, que mataram 52 pessoas e feriram quase 800. Afzal, que na época era vice-promotor-chefe em Londres, foi solicitado a envolver a comunidade muçulmana, mas seus comentários sobre a violência com base nos gêneros irritou algumas pessoas. Em uma palestra, um homem da plateia disse: “Nazir, por que você está dando a esses racistas mais um porrete para nos bater?” Sua resposta: “A comunidade deveria carregar seu próprio porrete”.

A cruzada de Afzal é pessoal. Nascido um “menino marrom” na Inglaterra, um ano depois que seus pais chegaram de Peshawar, ele conta que foi agredido na escola e que seu pai, que fornecia refeições para o Exército britânico, simplesmente lhe dizia: “Acostume-se”.

“Eu achava que isso era uma coisa natural e a suportei”, disse ele, “e penso que muitas mulheres sentem o mesmo sobre as agressões que sofrem”.

Fonte: The New York Times (Folha de São Paulo)

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