Intoxicado de ofertas

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Pesquisador visita congresso médico, tenta sobreviver ao marketing da indústria farmacêutica e sai com uma parafernália de brindes

por OLAVO AMARAL

29 DE ABRIL, QUARTA-FEIRA_Na escuridão de sua cela, Paula espera por mim. Para salvá-la, atravesso os corredores da prisão, permeados de objetos ameaçadores criados por computação gráfica. Desvendo enigmas, cujas respostas são indicadas por letras em negrito, e escolho as portas que me levarão a seu cativeiro: a cela da depressão. Quando a encontro, Paula está de costas e não nota minha presença. Mas não há mais charadas. Só resta uma saída para despertá-la.

O representante do laboratório Libbsme sussurra o desfecho. “Doutor, agora basta um gesto para libertar a paciente.” Ele aponta a caixa de Reconter® (escitalopram 10 mg) sobre a mesa. Apanho a embalagem, passando-a em frente a uma câmera. Em segundos a cela desaparece e surge um campo verdejante. Ainda que o rosto computadorizado de Paula não seja tão atraente como parecia na foto mostrada no início do jogo, sei que meu gesto a salvou, e isso basta. Ou quase.

A tela escurece e uma menina sorridente cola um adesivo verde atrás do meu crachá. Contente, agradeço e vou buscar minha garrafa térmica como recompensa.

A ideia desse diário me ocorreu cinco anos atrás, em Gramado, na serra gaúcha, no 6º Congresso Brasileiro de Cérebro, Comportamento e Emoções de 2010, do qual participei com minha namorada da época. Bem mais jovem que eu, ela vivia o drama de ajudar a família a pagar o que hoje equivaleria a 1 500 reais por mês por dois comprimidos diários de Zyprexa® (olanzapina 10 mg), prescritos para o tratamento de seu pai, incapacitado por uma forma rara de demência.

Quando chegamos ao evento (meu primeiro congresso para médicos depois de ter desertado da clínica para a pesquisa básica, alguns anos antes), achei graça no fato de que tínhamos crachás diferentes: no meu, de médico, estava escrito “prescritor”; no dela, de estudante, “não prescritor”. Num surto de ingenuidade, pensei que a medida servisse para de alguma forma proteger a mim, o “prescritor”, do bombardeio de marketing da indústria farmacêutica.

A ilusão duraria pouco. Em minutos estávamos na área de exposição, cercados por representantes de laboratório que disputavam minha atenção em troca de café expresso. O primeiro comentário que fiz foi: “Opa, vamos recuperar a grana da olanzapina em cafezinho.” Minha namorada não gostou da piada, e viria a nutrir uma antipatia pela indústria farmacêutica que dura até hoje. Já eu passei a acalentar um projeto: prometi a mim mesmo que um dia iria a um congresso com o propósito explícito de aceitar todos os brindes, petiscos e informações que a indústria tivesse para me oferecer. Não porque precisasse deles, mas para tentar aprender algo no processo.

TARDE_Ao entrar no centro de convenções da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul, o espaço de exposições mais prestigiado de Porto Alegre, para a abertura do World Congress on Brain Behavior and Emotions de 2015 – agora um evento internacional –, não estou muito seguro de que queira levar adiante esse registro, ainda que já tivesse desembolsado 1 200 reais pela inscrição que dava direito ao crachá de “prescritor”, 400 reais mais cara que a cobrada da categoria “outros profissionais”.

A distinção entre prescritores e não prescritores é fruto da regulamentação da publicidade de medicamentos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa. Em vigor desde 2009, a norma determina que, em eventos científicos, as propagandas de medicamentos de venda controlada sejam distribuídas apenas a profissionais habilitados a receitá-los. Na prática, tornou-se uma forma conveniente de coibir o desperdício da indústria com quem não é médico.

Quando estudante de medicina, antes da vigência da lei, um de meus passatempos favoritos no hospital era “brincar de ser invisível” com meus colegas. Munido do crachá amarelo de estudante, eu passava em frente a um representante de laboratório repetidas vezes, apenas para constatar que ele sequer piscava. No momento em que surgia alguém com o crachá verde de médico, a atenção era imediata.

Alguns médicos lamentam que, depois da regulamentação da Anvisa, os congressos nunca mais foram os mesmos. Um amigo psiquiatra me contou sobre os “bons tempos” em que, ao som de música eletrônica, dançarinos divulgavam antidepressivos e médicos embarcavam num trem fantasma que culminava na apresentação de medicamentos para a síndrome do pânico.Por outro lado, um primo meu confessou ter feito um passeio de helicóptero num congresso de oftalmologia em pleno 2011. Ainda assim, tenho um certo temor de que minha pauta possa se encontrar meio datada.

Ao entrar na área de exposição, minhas dúvidas logo se dissipam. De cara topo com o fondue de chocolate servido no estande da Sanofi, sob um grande rótulo do indutor de sono Stilnox® CR(hemitartarato de zolpidem 10 mg). Logo descubro, porém, a nêmesis que me acompanhará nos próximos dias: a fila. Pelo menos vinte pessoas esperam pelo fondue. Resolvo voltar mais tarde e me concentro em brindes menos disputados: pipoca no estande da Nova Químicae café expresso com Ovomaltine no da Lundbeck.

No estande da Apsen, avisto uma Harley-Davidson e uma moto de rali. Pergunto ao atendente por que elas estão lá, e ele responde que é uma analogia com o Donaren® (cloridrato de trazodona 50 mg), que tanto pode ser um antidepressivo como um indutor de sono. “Ambas são motos, mas para condições diferentes, entende?” Constrangido com a metáfora, agradeço e vou saindo, mas ele pergunta: “O senhor não quer nosso carimbo, doutor?” Percebendo minha ignorância, ele conta que posso concorrer a uma viagem para a próxima edição do congresso, em Buenos Aires, se juntar os carimbos de todos os expositores. Na bolsa com o material do congresso, encontro uma ficha com 22 quadradinhos, que entrego pra ele carimbar. A brincadeira vai ser divertida.

Com meu crachá de prescritor orgulhosamente exposto, recebo convites para lançamentos de livros com exemplares grátis, para palestras com almoço fornecido pelo McDonald’s e para ter momentos da minha vida desenhados por cartunistas. E vou acumulando brindes, material “informativo” e petiscos – porque as filas dos lanches mais disputados, como sorvete e crepes, são gigantescas. Aos poucos perco o medo dos representantes de laboratório e convenço meu lado sociofóbico de que não serei mal recebido se pedir informações. Como um adolescente endinheirado que adentrasse um prostíbulo pela primeira vez, a angústia da rejeição vai sendo substituída pela confiança. Os simpáticos atendentes ao meu redor conhecem boa parte dos médicos, os chamam pelo nome e fazem perguntas sobre sua vida pessoal. Como no sexo pago, a relação comercial não exime o prestador de serviços de demonstrar intimidade – pelo contrário, é o vínculo, mais do que os brindes, que é usado como moeda de barganha.

Das experiências da tarde, nenhuma supera o resgate de Paula das garras da depressão. O jogo eletrônico é um entre os muitos que se espalham pelos estandes. Conhecimento ou habilidade é o que menos importa: os games servem para garantir que o médico se exponha por alguns minutos à marca do patrocinador, em vez de apanhar os brindes e sair às pressas. As respostas corretas em negrito ao teste de múltipla escolha me eximem de pensar. Tudo o que preciso é de alguns cliques e do “gesto que liberta” para alcançar a felicidade e conquistar mais um brinde.

NOITE_Ao fim da tarde, já acumulei quatro sacolas de badulaques e folhetos. O peso começa a me incomodar, e vou até o estacionamento deixar o espólio no porta-malas. Na volta, a área de exposição já não está tão cheia, e o público se dirige ao Teatro do Sesi, cujos 1 800lugares costumam atrair os shows mais concorridos de Porto Alegre. Hoje, porém, o palco é ocupado por Jean Decety, pesquisador francês radicado nos Estados Unidos. Para discorrer sobre o senso de justiça no cérebro, ele dá início a sua apresentação com um filme do Batman.

A palestra mostra bem o tom do congresso, que traz o apelo pop da neurociência para um público predominantemente constituído de profissionais da saúde. O evento cresceu ao longo de suas onze edições até alcançar 3 300 participantes este ano, e boa parte da popularidade se deve a uma publicidade competente, alinhada com a estética contemporânea de eventos como os TED Talks, o ciclo Fronteiras do Pensamento e as palestras de gurus domundo empresarial: destaque para os nomes e rostos dos palestrantes no programa, títulos espertos e um sofá no centro do palco.

Ao final do primeiro dia, na cerimônia de abertura, o moderador, o presidente do congresso e o diretor do instituto que organiza o evento fazem pronunciamentos curtos e cedem a palavra à diretora de marketing da Lundbeck, companhia dinamarquesa especializada em medicamentos para doenças do sistema nervoso. É ela que fará a entrega dos prêmios aos melhores trabalhos inscritos no congresso, o que não a impede de se alongar sobre a história e a missão do laboratório, bem como do braço sem fins lucrativos que financia eventos e educação médica.

A apresentação culmina com um filme publicitário caprichado, em que imagens de pacientes se alternam com as de uma metrópole movimentada e cheia de luzes, enquanto a legenda “Imagine ter de encontrar a única lâmpada com defeito” faz uma analogia com a empreitada de procurar uma causa para as doenças do cérebro. Por alguns instantes, a publicidade chega a me envolver. Quando o vídeo termina, no entanto, me dou conta de que o maior espaço de tempo na abertura do congresso coube a um diretor de marketing.

30 DE ABRIL, QUINTA-FEIRA, MANHÃ_Acordo atrasado e meio grogue por ter dormido pouco, mas logo me animo com as oportunidades do café da manhã. Antes da primeira palestra, recolho atabalhoadamente biscoitos, cupcakes e pães de queijo, sob o olhar complacente de garçons e representantes de laboratório. A mesa de discussão – sobre biomarcadores em psiquiatria – é interessante, mas a plateia não parece particularmente envolvida. A maior parte do público, composto de profissionais da saúde, parece dar preferência a palestras com enfoque clínico, em detrimento de dados de pesquisa. É difícil culpá-los: ser médico dá trabalho, e avaliar criticamente evidências científicas talvez seja coisa para acadêmicos como eu, que têm tempo para tanto. Isso, porém, é o que deixa a porta aberta para a indústria ocupar o espaço.

Segundo dados levantados pela BBC no ano passado, as dez maiores empresas farmacêuticas globais gastaram em 2013 cerca de 98,3 bilhões de dólares em vendas e marketing – quase 5% a mais do que o PIB do Equador no mesmo ano. Boa parte da verba vai para o que a indústria chama de “educação médica”, o que inclui patrocínio de congressos, palestras de especialistas e material distribuído por representantes de laboratório. Além de subvencionar os eventos, com frequência a indústria banca o transporte e a hospedagem dosparticipantes: uma pesquisa do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), em 2010, revelou que um em cada dez médicos havia viajado para congressos com despesas pagas por laboratórios no ano anterior, e mais de um quarto participara de eventos patrocinados pela indústria no mesmo período.

Os estandes estão cheios de “material educativo”. Os mais óbvios são anúncios, com o slogan do produto, informações publicitárias e a bula. O que mais me chama a atenção, porém, é a presença de artigos científicos – traduzidos na íntegra – sem menção explícita do patrocinador. Para encontrá-lo, é preciso ler até o fim e procurar entre as letras miúdas da seção de conflitos de interesse. Apanho a esmo um dos artigos no estande da Shire: dos sete autores, cinco são funcionários do laboratório. Os dois outros são psiquiatras acadêmicos, um dos quais recebe fundos de pesquisa de cinco laboratórios e é consultor de três. O segundo recebe subsídio de 44 laboratórios diferentes, atua como consultor em 23, como palestrante em 22 e possui ações de quatro.

Embora tal situação possa assustar um leigo, ela é corriqueira na pesquisa clínica. Por causa disso, artigos científicos nos estandes me incomodam mais do que anúncios publicitários: eles são a demonstração prática de quão tênue é a linha entre ciência e marketing. Os artigos apresentam pesquisas financiadas pela indústria, desenvolvidas por funcionários e acionistas da indústria, publicadas em revistas que lucram vendendo exemplares para a indústria – que os oferece ao lado de lanches e brindes em congressos pagos pela indústria, para médicos que viajaram a convite da indústria. E é difícil até para o mais ingênuo e idealista dos seres acreditar que uma atividade educacional desse tipo possa ser isenta.

O mais assustador é que não é preciso burlar nenhuma regra para que a informação disponível favoreça o patrocinador. Em um mundo com milhares de pesquisas realizadas todos os anos, cujos resultados podem ser influenciados por inúmeros vieses no desenho e na análise dosexperimentos, ou mesmo por força do acaso, é praticamente garantido que algumas delas mostrarão a eficácia de um medicamento. E serão geralmente essas que acabarão publicadas e divulgadas, enquanto resultados negativos são rotineiramente engavetados. Com isso, simplesmente escolher os resultados que interessam e torná-los visíveis aos médicos já é um investimento que vale a pena – e que produz uma informação inevitavelmente comprometida.

MEIO-DIA_A hora do almoço reserva dois simpósios-satélite da indústria farmacêutica: o da Apsen, sobre o uso da trazodona 150 mg no tratamento da depressão, e o da Janssen, sobre melhoras no prognóstico da esquizofrenia com o tratamento de longa ação. Tais eventos, comuns em congressos médicos, são restritos a prescritores e em geral consistem em palestras de médicos contratados pelo patrocinador. Conforme divulgado pelo Wall Street Journal em 2005, um estudo interno da Merck sugeriu que o retorno desse tipo de publicidade é quase duas vezes maior que o de um encontro com um representante. Para estimular os médicos, ambos os simpósios prometem almoço: lanches do McDonald’s no da Apsen e um lunch box no da Janssen.

Encontro uma amiga que atua como neurologista no interior do estado e a convido para me acompanhar. Como boa parte dos participantes, ela teve sua inscrição paga por um laboratório. Ela me diz que, se eu convencer os representantes de que sou um pesquisador de peso, posso conseguir qualquer coisa. Ao passarmos por um dos estandes, um deles põe a mão no ombro dela e exclama: “Doutora, preciso saber da sua vida!” Contrariada, ela o ignora.

Entro no simpósio da Apsen com expectativa. Nas cadeiras, pastas com blocos de anotações e material promocional da trazodona 150 mg aguardam os prescritores que surgem com seus Big Macs. Em quinze minutos a sala está quase lotada. A palestra, ministrada por um professor da Universidade Federal de São Paulo, parece relativamente nos conformes, exceto pelo foco no medicamento do patrocinador. Todos os estudos apresentados mostram que a eficácia da trazodona é comparável à de outros antidepressivos – resultado comum numa área em que quase todos os medicamentos se equivalem nesse quesito. Daí a importância do marketing: basta fazer de um medicamento assunto de palestra para proporcionar uma vantagem competitiva.

O conferencista menciona inúmeras vezes um certo David Sheehan, autor de vários dos estudos citados. Graças ao wi-fi providenciado pela AstraZeneca (com a senha “Eficácia”), dou uma espiada no Google. Abro um artigo aleatório e constato, na seção de conflitos de interesse, que o sujeito está ligado a 62 laboratórios. A plateia parece minguar à medida que o apetite pelos Big Macs cede lugar à preguiça pós-prandial. Minha amiga cochicha que o medicamento do patrocinador não funciona muito bem como antidepressivo, mas dá um sono legal. Um pouco como a palestra.

Na saída, dou um pulo no simpósio da Janssen, numa sala em que caixas daPizza Hut e sacolas de uma loja de café se espalham pelo chão. A palestra já está na fase das perguntas, e o representante do laboratório toma a iniciativa de estimular a plateia a se manifestar, sem muito sucesso. Os conferencistas começam a debater entre si, e um deles menciona um paciente com esquizofrenia que se formou em direito e considerava ingressar na pós-graduação. Previsivelmente, ele fazia uso do medicamento do patrocinador, o Invega® Sustenna TM (palmitato de paliperidona). O representante abre um sorriso. Pouco depois, alguém pergunta sobre a síndrome neuroléptica maligna, uma complicação rara do uso de antipsicóticos. O psiquiatra diz que já viu um caso. O sorriso do representante desaparece, mas logo ressurge quando o médico acrescenta que o paciente evoluiu bem.

TARDE_De volta à área de exposição, me dou conta de que perdi a ficha com os carimbos dos patrocinadores. Consigo uma nova no balcão de inscrições, mas preciso recomeçar do zero. Nos intervalos das palestras da tarde, corro em busca dos carimbos perdidos. No estande do Cogmed, um programa de treinamento cognitivo computadorizado da Pearson, leio um cartaz: “Seja aplicador do treinamento que possui 80% de eficácia e está presente em mais de vinte países.” Curioso, dirijo à atendente a pergunta óbvia: “80% de eficácia para quê?” Ela me diz: “Ah, isso quer dizer que 80% dos pacientes terminam o tratamento.” Penso em argumentar que a definição de “eficácia” não é essa, mas me sinto constrangido. No fundo, simpatizo com os representantes, e com a fragilidade do papel que desempenham ao discutir temas sobre os quais sua formação frequentemente se limita a alguns dias de treinamento de vendas. Mais uma vez, meu coração mole me impede de ser um verdadeiro jornalista investigativo.

No intervalo do meio da tarde, as filas dos lanches aumentam a olhos vistos. Conto trinta pessoas esperando por um crepe com sorvete, calda de chocolate e m&m’s. Sem paciência, sigo até a Torrent Pharma e entro numa fila para responder a um teste sobre os remédios da marca. Enquanto aguardo, alguém espalha que na Aché estão distribuindo uma sacola colorida. De graça e sem nenhum teste. Logo, porém, chega a notícia de que já acabou. A moça à minha frente, preocupada com sua mala de viagem, pergunta ao representante se o guarda-chuva pode ser levado como bagagem de mão. Quando chega a minha vez, descubro que o teste se resume a ligar rótulos de produtos a afirmações sobre sua eficácia. Termino em vinte segundos e ganho minha primeira sombrinha do dia.

Volto ao laboratório Libbs para jogar novamente o jogo do prisioneiro. Dessa vez escolho outro paciente, mas as perguntas são semelhantes e as respostas continuam em negrito. O “gesto que liberta” também segue igual, mas o brinde – aleluia! – é diferente: ganho uma bolsa térmica. Em outro estande da Libbs, dedicado inteiramente ao Sumaxpro® (sumatriptana 50 mg + naproxeno sódico 500 mg), seleciono eventos importantes da minha vida numa tela e digito uma palavra que descreva cada um deles, enquanto o representante informa que a associação de substâncias do comprimido é a mais vendida nos Estados Unidos – nada como um apelo ao mundo desenvolvido. No final, uma animação gráfica insossa sobrepõe minhas palavras a cenas da vida profissional de um médico, terminando com o slogan do medicamento (“Viva sem interrupções”). Ganho uma bateria acessória para celular, até agora o brinde mais útil que recebi.

Lá pelas quatro da tarde, depois de guardar os presentes no carro, me dirijo à última palestra do dia, ministrada pelo canadense Moshe Szyf, um dos papas da epigenética (estudo da regulação da expressão dos genes) em psiquiatria. Ele usa um quipá e fala sobre o “novo lamarckismo”. A palestra é boa, ainda que algo exagerada – num determinado momento ele aventa a possibilidade de “reverter a pobreza por uma abordagem epigenética”. Como ex-marido de uma psicóloga social, conheço pessoas ligadas às ciências humanas que teriam convulsões ao ouvir isso. Mas a plateia não reage, e o segundo dia de congresso termina. Em casa, lembro de pesar o patrimônio amealhado: 5 quilos e meio até agora.

1º DE MAIO, SEXTA-FEIRA, MADRUGADA_Acordo às quatro da manhã com o vizinho de cima, que, de volta do Monsters Tour, bota um metal pra tocar a todo volume. Troco de quarto e ponho tampões de ouvido, mas quando o ambiente enfim silencia já não tenho sono. Na falta do que fazer, ligo o computador e reviro sites que documentam a influência do marketing laboratorial sobre a prescrição médica. Ainda que tais dados sejam quase inexistentes no Brasil, uma literatura relativamente extensa vem abordando o tema nos Estados Unidos nas últimas duas décadas, resultando em regulamentações por parte das associações médicas e na criação de movimentos de resistência à onipresença da indústria.

Lançado em 2000 nos Estados Unidos, o site do No Free Lunch compila diversos estudos sobre marketing farmacêutico e comportamento médico. O grupo ganhou alguma visibilidade em meados da década passada, ao propor campanhas como a “Anistia de Canetas” (“Troque suas canetas com logos de laboratório por outras comuns!”). No entanto, a julgar pelo design – e pela mensagem: “Best viewed on Internet Explorer or Netscape Navigator 7” –, o site não vê uma atualização há tempos. Ao contrário do Just Medicine, liderado pela Associação Americana de Estudantes de Medicina, que parece a todo vapor: dentre os recursos disponíveis, há uma tabela que ranqueia as escolas de medicina em relação às políticas para regular conflitos de interesse de estudantes e professores com a indústria, além de propostas de mudanças no currículo para lidar com a questão.

É evidente que nas últimas duas décadas a discussão sobre conflitos de interesse avançou em vários países, inclusive na esfera legal. Numa iniciativa por mais transparência, a lei norte-americana conhecida como Physician Payments Sunshine Act [Lei de Esclarecimento de Pagamentos a Médicos], de 2010, determinou que se listasse num site mantido pelo governo qualquer pagamento de mais de 10 dólares que a indústria tenha feito a médicos e hospitais. Procuro o nome de uma amiga radiologista em Washington e descubro que ela recebeu 134,21 dólares em alimentação e bebidas da General Electric em 2013.

No Brasil, o que mais se assemelha a uma regulamentação – além das normas de publicidade da Anvisa – é um acordo de 2012 entre o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Interfarma (Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa, na época presidida por Antônio Britto,ex-governador do Rio Grande do Sul), especificando práticas aceitáveis por parte da indústria. Na época, o Cremesp fez duras críticas ao acordo, argumentando que a tarefa do CFM não era negociar com a indústria, mas determinar os deveres éticos dos médicos nessas questões. A despeito dos protestos, nada mudou desde então, e a discussão parece ter abrandado.

MANHÃ_Atrasado pelo tempo gasto na internet, chego para a última palestra da mesa “Amor, ódio e paixão: os neuromistérios do coração”. O título lembra um de meus verbetes favoritos do Urban Dictionary, neurofication (neuroficação): “O ato de engrandecer artificialmente qualquer área de atividade científica ou não científica com o mistério, a legitimidade e a nobreza da verdadeira neurociência simplesmente adicionando o prefixo ‘neuro-’ a um termo qualquer.” Ao que tudo indica, funciona: é feriado, são oito da manhã e o auditório está cheio. A palestra, porém, transita entre alguns estudos relevantes de psicologia e um humor meio lugar-comum. Termina com dois textos virais de internet, um deles atribuído a Luis Fernando Verissimo (o que praticamente garante que seja apócrifo). A plateia aplaude efusivamente. Agradar o público, no fim das contas, não requer muita ciência.

Fujo da discussão final e corro atrás do café da manhã, na tentativa de me antecipar à multidão. É tarde: um mero pão na chapa já provoca congestionamento. Por sorte, descubro um bolo de cenoura sem uma marcação tão cerrada. Cortesia da GlaxoSmithKline, que tem a reputação dúbia de ter sido alvo do maior processo da história contra um laboratório: um acordo judicial de 2012 determinou que a empresa pagasse 3 bilhões de dólares por promover usos não aprovados dos antidepressivos Paxil e Wellbutrin, além de ocultar dados sobre o risco cardiovascular do Avandia, um medicamento para diabetes. Coincidência ou não, desde então o laboratório tem se esforçado para assumir uma imagem de transparência, tendo sido o primeiro, dentre os grandes, a comprometer-se a disponibilizar publicamente os resultados de todos os seusestudos clínicos. Mas no momento nada disso importa tanto quanto o bolo de cenoura sem fila, sob a efígie do Wellbutrin® XL (cloridrato de bupropiona 150 e 300 mg) colada à parede do estande.

No intervalo seguinte, encontro uma ex-aluna minha, terapeuta ocupacional, com um crachá de prescritora que lhe deram por engano. “Fez a maior diferença”, ela comenta. Pergunto se ela aproveitou a palestra do McDonald’s da véspera. “Não, a gente foi na da Pizza Hut.” Branding é tudo. Observando as filas, um amigo psiquiatra comenta que os tempos áureos de brindes ficaram para trás depois da legislação da Anvisa, e que a atual dificuldade para pegar uma caneca ou um guarda-chuva seria a desforra dos representantes de laboratório. “Eles passam os dias fazendo fila em consultórios médicos, aposto que riem por dentro quando chegam aqui.”

O tempo dispendido por esses empregados não é pouco: a pesquisa de 2010 do Cremesp aponta que 80% dos médicos paulistas recebem representantes, e cada um deles costuma visitar de dez a vinte consultórios por dia. Tal estratégia pode parecer obsoleta num mundo com informação médica disponível a alguns cliques. Ainda assim, as despesas com o marketing corpo a corpo representam a maior parte do custo de publicidade da indústria nos Estados Unidos, tendo alcançado quase 15 bilhões de dólares em 2012.

Os representantes costumam fazer visitas periódicas aos mesmos profissionais por anos a fio, construindo um vínculo que inclui distribuição de amostras grátis, pequenos brindes e a eventual oferta de palestras com jantares ou financiamento de congressos. Ainda que nenhuma demanda seja feita, boa parte dos médicos acredita que os representantes sabem o que eles vêm prescrevendo (provavelmente por meio das farmácias, em uma prática irregular repetidamente denunciada pela mídia), e que isso pode ser determinante em sua generosidade.

No estande da Mantecorp, quinze pessoas esperam para concorrer ao sorteio de um tablet. Decido adiar minha inscrição e, após apanhar uma revista chamada Sinapses &Sinopses na Novartis, entro na fila de um jogo eletrônico do laboratório Servier. Passando o dedo sobre uma caixa do antidepressivo Valdoxan® (agomelatina 25 mg), lanço flechas que estouram balões cujas legendas são sintomas da depressão, no lugar dos quais sobem outros, coloridos, com rótulos como “produtividade” e “expressão de sentimentos”. Três não prescritores competem ferozmente pela pontuação maior – uma espécie de prêmio de consolação para os portadores do crachá que não dá brindes.

Dentro do estande, cerca de dez médicos ouvem com atenção um representante que projeta dados numa tela, citando repetidamente o trabalho de um certo “dr. Stahl”. O sujeito faz perguntas de múltipla escolha sobre o Valdoxan®, que a plateia deve responder levantando placas com as letras A, B, C e D. Infiltrado no grupo, acerto três de quatro respostas. Já faz vinte minutos que as palestras começaram, mas nenhum dos presentes sai antes que o representante abra uma cortina e apanhe uns bloquinhos para distribuir. Sinto no ar certo desapontamento, e a médica a meu lado diz: “Puxa, não é mais o abridor de vinho.”

Terminado o congresso, descubro que Stephen Stahl é um psicofarmacologista da Universidade da Califórnia em San Diego, fundador do Neuroscience Education Institute. Numa postagem polêmica de 2011 no blog do instituto, Stahl acusou os críticos da indústria farmacêutica de tê-la afastado de congressos, da educação médica e dos hospitais, e impedido mesmo atividades legais sancionadas pelo órgão regulador americano, como jantares, envio de representantes ou brindes (“Nem café ou água mineral são permitidos em Massachusetts, o que dizer de um livro?”). Num salto algo ousado, ele conclui que isso levou ao fechamento dos laboratórios de pesquisa em saúde mental da AstraZeneca, GSK e Pfizer, e que saíram vitoriosos “os antipsiquiatras” – gente que não acredita em doença mental ou na eficácia dos fármacos. A lógica de atrelar a crítica ao marketing à “descrença na doença mental” parece estranha – tanto quanto a naturalidade em aceitar que a viabilidade de um laboratório de pesquisa dependa diretamente da publicidade.

Polêmico, o post foi retirado do ar em seu endereço original, embora sobreviva nas páginas de críticos. É um bom exemplo do argumento normalmente invocado para defender a onipresença da indústria na ciência médica: o de que a inovação farmacológica dependeria dela, já que o dinheiro arrecadado com vendas de medicamentos é revertido em pesquisa. O debate é complexo, mas os números são elucidativos: em 2013, o investimento em pesquisa das dez maiores companhias farmacêuticas do mundo foi de 65,8 bilhões de dólares – em torno de 33% a menos do que os já mencionados 98,3 bilhões em “vendas e marketing”. Já os lucros das mesmas empresas, no mesmo período, chegam a 89,8 bilhões de dólares. Críticos do sistema, que vão do Partido Pirata sueco ao Nobel de Economia Joseph Stiglitz, alegam que, para cada dólar investido na ciência, a indústria gasta um valor maior do que isso em ações de publicidade para distorcê-la. E que, se tivéssemos deixado a pesquisa farmacêutica em domínio público, sem patentes, lucros exorbitantes ou despesas de marketing, poderíamos ter mais pesquisa pelo mesmo custo e medicamentos a um preço menor.

MEIO-DIA_Saio da palestra seguinte mais cedo e consigo a proeza de ser um dos primeiros a se servir do almoço. Na Aspen Pharma, agarro um estrogonofe de frango, que traço em pé enquanto espero na fila de inscrição para o sorteio do tablet da Mantecorp. Num golpe de sorte, assisto à deserção de três estudantes a minha frente, depois de descobrirem que não podem se cadastrar sem o crachá de prescritor. Me lembro de meus tempos de crachá amarelo e me solidarizo com eles, ainda que avançar três casas na fila seja tão bom quanto ganhar brindes. Na saída do estande, avisto um bacalhau à Gomes de Sá na Medley, mas a fila me intimida e guardo minha fome para o que promete ser o evento mais interessante do dia.

A “Arena TDAH” – palestra patrocinada pela Shire sobre transtorno de déficit de atenção e hiperatividade em adultos – vem sendo promovida desde o início do congresso. Sobre um ringue em estilo ufc, o cartaz anuncia o “combate” entre Luis Augusto Rohde e André Palmini, acompanhado de lanches do Subway. Médicos dos mais prestigiados do Rio Grande do Sul, ambos pertencem a uma geração que se sobressai não só pela atividade clínica, mas por uma carreira sólida como pesquisador. Rohde é presidente da Federação Mundial de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), e foi o único psiquiatra brasileiro a integrar a força-tarefa que elaborou a última versão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Associação Americana de Psiquiatria, o DSM-5. Palmini tem contribuições importantes de pesquisa no campo das epilepsias e é um dos idealizadores do congresso. E, ainda que não conste em seu currículo, também é neurologista do meu avô.

Palmini e Rohde são exemplos do que a indústria farmacêutica chama de “líderes de opinião”: médicos conceituados, capazes de influenciar colegas e frequentemente recrutados por laboratórios como consultores e palestrantes. Na condição de pesquisadores ativos, tais profissionais costumam ter interesses em verbas de pesquisa e parcerias com a indústria que vão muito além de canetas e bloquinhos. Na declaração de conflitos de interesse disponível no programa do congresso, Rohde e Palmini mencionam ligações com cerca de quatro laboratórios cada um, entre palestras, consultorias e verbas de pesquisa – café pequeno diante dos currículos de psiquiatras norte-americanos.

O marketing algo apelativo do cartaz parece surtir efeito, e uma fila gigantesca em espiral se forma na porta. Quando enfim consigo entrar, meus piores temores se realizam: os lanches do Subway acabaram, e me dou por feliz ao sentar numa das últimas cadeiras disponíveis.

O representante da indústria anuncia que serão quatro temas, com réplica e tréplica, e que os debatedores “vão assumir posições contrárias entre si, que não representam necessariamente as suas próprias” – pelo jeito, eles de fato apostam no conceito de luta marcial. O debate, porém, segue um curso amistoso. Os dois palestrantes são eloquentes e geralmente acabam por convergir em suas visões. Me divirto com uma pergunta sobre o “TDAH de alto funcionamento” – o indivíduo bem-sucedido que consegue cumprir seus compromissos, mas negligencia sua casa em desordem e ageladeira que jamais é limpa. Eu mesmo estou sem água no refrigerador há cinco dias. Curiosamente, o debate se encerra quase sem menção ao produto do patrocinador, o Venvanse (dimesilato de lisdexanfetamina). Um desavisado poderia pensar que o esforço do fabricante foi para o ralo. Mas o importante nem sempre é vender a medicação: por vezes o investimento está em vender a doença.

Num artigo de 2003 para a revista Medical Marketing & Media, o publicitário Vince Parry discorre sobre o que chama de condition branding, processo que consiste em transformar um quadro clínico em marca. “Se puder definir entre médicos e pacientes uma condição particular e seus sintomas associados, você também poderá prescrever o melhor tratamento para essa condição”, ensina o autor. Parry segue descrevendo exemplos bem-sucedidos – a propagação do conceito de “halitose” como uma condição médica na década de 20, quando a Warner-Lambert quis expandir o mercado do Listerine (“Aumentar a importância de uma condição existente”); a redefinição da impotência como “disfunção erétil” no final da década de 90, quando a Pfizer lançou o Viagra (“Redefinir uma condição existente para reduzir o estigma”); e a criação do conceito do “transtorno do pânico” como um diagnóstico específico nos anos 70, financiada em parte pela Upjohn, fabricante do Xanax (“Desenvolver uma nova condição para construir reconhecimento de uma necessidade não satisfeita do mercado”).

A expansão do diagnóstico médico não é necessariamente ruim: um paciente com sintomas e sofrimentos até então sem causa pode buscar tratamento e melhorar sua vida. Mas ao ver um publicitário debater o conceito em termos tão cândidos, é difícil acreditar que algo não esteja errado.

Na psiquiatria, provavelmente nenhuma doença tem sido tão controversa quanto o TDAH, cujo reconhecimento e medicação cresceram de modo astronômico ao longo das últimas duas décadas. A produção do medicamento mais comumente usado, o metilfenidato (mais conhecido pelo nome comercial de Ritalina®), aumentou cerca de trinta vezes nos Estados Unidos entre 1990 e 2012, mesmo que a evidência disponível (parte da qual publicada pelo grupo de Luis Augusto Rohde) sugira que a prevalência dos sintomas tenha se mantido relativamente estável. Defensores da relevância do transtorno argumentam que, ainda que o problema de diagnóstico exagerado possa existir, os números refletem em parte o reconhecimento de uma condição antes não percebida. Isso não impede que o TDAH tenha se transformado no alvo preferencial dos críticos de uma “supermedicalização” da sociedade.

Ao contrário do que boa parte do público tende a pensar, o debate sobre a identificação de um transtorno mental pouco tem de biológico – em última análise, o ponto em que um comportamento deixa de ser uma variação da normalidade para ser considerado patológico é inevitavelmente uma convenção clínica. O manual da Associação Americana de Psiquiatria propõe critérios objetivos para a definição do TDAH: a presença de seis entre nove sintomas de desatenção e seis entre nove sintomas de hiperatividade antes dos 12 anos de idade, em mais de um ambiente ou circunstância, com prejuízo de funcionamento social, acadêmico ou ocupacional, sem que isso seja explicado por outro transtorno.

É óbvio, no entanto, que tais “receitas de bolo” não são aplicadas rigidamente, e que a prevalência de um diagnóstico acaba sendo definida pela visão subjetiva dos médicos, dos pacientes e de seu entorno. Nesse sentido, o investimento realizado pela Shire parece endossar a ideia de que o TDAH em adultos é relevante e tratável. Ao lado do anúncio da palestra, um cartaz informa que “O TDAH também pode acometer adultos e normalmente encontra-se associado a outras comorbidades”, e que, “apesar de 5,8% dos adultos possuírem a doença, muitos são subdiagnosticados e poucos são tratados”. Essa é a mensagem que precisa ser veiculada – e associar especialistas de peso como Rohde e Palmini a ela parece valer a pena, mesmo que eles sequer mencionem o medicamento do patrocinador.

TARDE E NOITE_A tarde prossegue com uma palestra sobre videogames, outrora vilões, hoje ferramentas de treinamento cognitivo para neurocientistas e alguns psiquiatras. Cansado pela noite maldormida e aborrecido por ter perdido o lanche do Subway, saio no intervalo e a multidão sequiosa de brindes já não me diverte. No centro da área de exposição forma-se uma fila colossal: o estande da Nova Química promove o lançamento do livro Integrando Psicoterapia e Psicofarmacologia, de Irismar Reis, Thomas Schwartz e Stephen Stahl (o mesmo do post polêmico na internet), prometendo 300 exemplares gratuitos. O dr. Reis está autografando o livro, e a fila, com pelo menos 200 pessoas, anda a passos de tartaruga. Pergunto a uma moça no pelotão da frente quanto tempo ela esperou para chegar até ali. “Pelo menosuma hora”, ela responde. E acrescenta que as senhas já devem ter se esgotado. Jogo a toalha.

Compenso o livro perdido com três Danoninhos, surrupiados no estande da Danone, que anuncia o suplemento vitamínico Souvenaid®. Assoberbado pela confusão, saio da área de exposição para a rua e descubro que a poucos passos da luz fluorescente há um agradável dia de sol. Na ausência de bancos, sento no meio-fio para tomar os Danoninhos e acabo me deitando na grama. Vencido pelo cansaço, vou embora mais cedo. Em casa, peso os brindes e descubro que acumulei outros 3,3 quilos de espólio. Ao todo, já são quase 9 quilos de bugigangas.

À noite dou um pulo na festa do congresso, que fecha o Bar Opinião, tradicional casa noturna de Porto Alegre. Lá, estabeleço uma improvável amizade com Duda, uma menina de 17 anos, ainda no ensino médio, filha de uma afluente família mato-grossense. Fascinada pelo cérebro, ela se inscreveu no congresso e veio até Porto Alegre para participar dele. Parece entusiasmada com a festa, enquanto eu, desprovido de energia, me despeço com um tchau conformado em direção ao sono que me falta.

2 DE MAIO, SÁBADO_Acordo com fome. De lanche em lanche, há dias não faço uma refeição normal. Sem palestras que me atraiam no primeiro horário, encaro uma tigela de cereal em casa e chego ao congresso já no intervalo. A área de exposição está mais vazia, e talvez seja a hora de ter minha vida ilustrada pelo cartunista da Libbs. Quando me aproximo, porém, ainda há filas ali. Parece um paradoxo: se eu, que me inscrevi no congresso com o objetivo de angariar os brindes, não encontro tempo para esperar, como alguém que veio para assistir às palestras consegue se dar ao luxo de ficar na fila?

Frustrado, vou até o estande da Medley, mas a representante me diz que tanto as bolsas quanto os carimbos personalizados acabaram. Pergunto de quantos carimbos eles dispunham, e ela diz que haviam preparado 4 mil. Como foram cerca de 3 300 inscritos (e 140 palestrantes), a única alternativa plausível é que diversas pessoas tenham abocanhado mais de um. Não só me sinto injustiçado, como um tanto incompetente como recolhedor de brindes. A moça se desculpa e me convida para o festival de sanduíches do almoço.

Os lanches também começam a rarear, e os representantes se mostram mais relapsos. No estante do Sumaxpro®, um deles diz que os prescritores não precisam se submeter à atividade no computador para levar o brinde, mas que têm de esperar um pouco para que ele possa “passar um ou dois conceitos sobre o medicamento” – inclusive a indefectível afirmação de que é a associação mais prescrita nos Estados Unidos. Um médico se aproxima para reclamar que a bateria acessória de celular que eles distribuíram não funciona direito. O representante sugere, sem muita convicção, que ele tente carregá-la no computador e não na tomada.

Quando o intervalo termina, penso que é o momento de encarar um dos cartunistas. Espero dez minutos na fila, ao longo dos quais reparo nas fotos dispostas nas paredes do estande, com famílias cheias da mesma felicidade doméstica estampada em anúncios de lojas de roupas, supermercados ou margarinas. Quando por fim sento em frente ao artista – um argentino radicado no Brasil, com uma expressão que revela o cansaço das dez horas de trabalho praticamente ininterruptas por dia –, tenho a impressão de que estar no congresso deve ser mais duro para ele do que para mim.

Na saída, encontro meu amigo Diogo Lara, escalado como moderador em algumas palestras. Reclamo das filas na área de exposição, e ele comenta que, considerando o preço da hora dos médicos, não faz nenhum sentido que eles percam vinte minutos em troca de um pratinho de comida em vez de pagar 30 e poucos reais pelo bufê. Ele define isso como um “bug neuroeconômico”, e eu acho graça, mas o argumento faz sentido.

Um dos maiores especialistas no campo da neuroeconomia, o controverso Dan Ariely, costuma dizer que “Grátis!” é uma categoria de preço diferente de qualquer outra – talvez por evocar uma decisão em que aparentemente não há nada a se perder. Ariely cita inúmeros estudos que mostram que, confrontadas com algo oferecido de graça, as pessoas abandonam a lógica econômica racional que utilizam em transações pagas em prol do apelo do custo zero. Isso talvez explique parte da eficácia de uma estratégia de marketing tão rasa quanto distribuir canetas e bloquinhos.

Um presente, por questões inerentes ao senso de reciprocidade, tem um impacto que transcende a lógica econômica. Por mais que a maior parte dos médicos acredite que, ao contrário de bens valiosos, ninharias não sejam capazes de favorecer um determinado laboratório ou medicamento, antropólogos e psicólogos sociais argumentam que a dívida inconsciente – criada por um presente ou pela palavra amigável de um representante – pode ser suficiente para direcionar a prescrição.

E a estratégia, no fim das contas, parece funcionar, ainda que as evidências disponíveis sobre o tema sejam fragmentárias. Um estudo norte-americano comparou médicos que haviam solicitado a adição de medicamentos de um laboratório específico aos formulários de um hospital com seus colegas que não haviam feito o mesmo. No primeiro grupo, a proporção de médicos visitados por representantes da companhia em questão era sete vezes maior. Outro estudo, realizado após três cursos de atualização sobre drogas para hipertensão de laboratórios distintos, verificou que a prescrição do medicamento do patrocinador pelos médicos participantes aumentou em todos os casos. Uma terceira pesquisa analisou um par de cursos em resorts com despesas pagas e concluiu que os eventos aumentavam a prescrição da droga do patrocinador em quase três vezes – mesmo que apenas um entre vinte médicos participantes declarasse acreditar que a mordomia poderia influir em suas práticas.

Um crítico poderia argumentar que os dados são meras correlações, e que nunca foi realizado um experimento controlado sobre o tema, como recomendaria o protocolo da ciência médica. Na prática, porém, se a indústria gasta dezenas de bilhões anuais em marketing, seria difícil acreditar que ela não possui evidência ainda mais convincente de que a coisa funciona.

MEIO-DIA_As opções para o almoço incluem espetinhos na Aspen, hambúrgueres na EMS, crepes na Nova Química, saladas em potinhos na Lundbeck, polenta com ragu na Torrent Pharma e o festival de sanduíches na Medley. Seguindo a lógica das filas menores, apanho um potinho de salada de macarrão, um espetinho de linguiça e um resto de molho de ragu com queijo, já sem polenta, que sobrou do ataque coletivo ao bufê da Torrent. Entre um lanche e outro, encontro Duda, minha amiga da festa da véspera, que reclama das filas e do tratamento que recebe com seu crachá de não prescritor. Uma ideia me ocorre.

Levo Duda ao estande da Libbs e pergunto à representante se a garota pode jogar o game do prisioneiro, sob minha responsabilidade. A moça concorda, e a menina já está colocando os fones de ouvido quando outro funcionário vem nos informar que infelizmente isso não é possível, pois eles poderiam ser multados pela Anvisa. Decepcionado, pego os fones e digo que eu mesmo vou jogar, mas que as perguntas serão respondidas por Duda. Ela se intimida, dizendo que não saberá responder, mas eu explico que as respostas corretas aparecem em negrito. “Ah, assim é fácil”, ela comenta. E continua, encarando o representante: “Por que vocês não dão o brinde logo? Já vi que esse jogo é só para fazer ele ficar olhando para esse comprimidinho aí.” Ele responde, constrangido: “É, é mais ou menos isso.” Às vezes é preciso uma criança para dizer que o rei está nu.

TARDE E NOITE_Fico até o fim do congresso para assistir à última mesa do dia, que reúne Diogo Lara e Iván Izquierdo, meu ex-orientador de doutorado, ambos da PUC-RS. Mas a verdade é que estou exaurido. Na saída, já é noite e os estandes que frequentei durante a maior parte dos últimos dias vão sendo removidos a toque de caixa. Amanhã o espaço provavelmente será ocupado por outra exposição comercial: de tratores, telefones ou produtos de beleza. A mim, resta ir embora, imerso em reflexões. E levando no porta-malas seis sacolas, duas bolsas térmicas, dois carregadores de celular, uma caneca, doze canetas, duas amostras de vitamina D, duas caixas de lenços, uma pasta, quatro bloquinhos, um nécessaire, três cadernos, um boné, uma garrafa térmica, dois guarda-chuvas e três caricaturas.

O que aprendi? Que essa parece ser uma história sem vilões óbvios, à qual as habituais teorias da conspiração não se aplicam. Quase todos os implicados, vários deles amigos meus ou profissionais que admiro, podem justificar seu envolvimento com a indústria de maneira legítima. Os organizadores podem argumentar que seria impossível realizar um congresso desse porte sem verbas da indústria. Além disso, mesmo que não houvesse patrocínio oficial, o conflito de interesse não desapareceria, já que boa parte dos palestrantes continuaria possuindo vínculos com laboratórios. Palestrantes subsidiados pela indústria podem alegar que essa proximidade, além da renda extra, abre portas e oportunidades de financiamento e divulgação para suas pesquisas. Médicos que recebem representantes de laboratório frequentemente invocam como razão legítima a obtenção de amostras grátis para repassar a pacientes com dificuldades financeiras. E os representantes de laboratório, por fim, têm o argumento mais convincente de todos para participar do circo: essa é a profissão deles, da qual dependem para pagar suas contas. Como é o caso dos próprios laboratórios, que evidentemente visam ao lucro para poder prestar contas aos acionistas.

Além disso, descontados alguns excessos, o conteúdo das palestras não foi escancaradamente publicitário, o material distribuído era, em boa medida, constituído de artigos científicos, por vezes sem slogans, e o conteúdo do congresso, no que diz respeito à pesquisa básica, foi melhor do que eu esperava. E mesmo sem a presença da indústria, a ciência estaria de qualquer forma sujeita a uma variedade enorme de conflito de interesses. Ainda que sem patrocínios, patentes ou participação nos lucros, pesquisadores da área biomédica são tentados a superfaturar dados e inflar conclusões para publicar artigos, obter financiamentos e progredir na carreira. A competição e outros aspectos do capitalismo estão entranhados na academia e na sociedade, e nem todas as regulamentações ou declarações de conflito de interesses serão capazes de trazer isenção.

Dito isso, o fato é que o mundo está cheio dessas feiras de exposição em que médicos ganham Big Macs e fondues de chocolate, se empanturram de brindes, gastam horas ouvindo discursos publicitários, recebem afagos psicológicos de aduladores profissionais, perdem tempo ao manter os olhos fixos em telas que mostram um desfile de rótulos de medicamentos e brincam com embalagens que salvam pacientes virtuais. E mesmo uma adolescente de 17 anos é capaz de se dar conta de que algo parece errado nisso.

Ainda assim, Duda só enxerga a ponta mais óbvia do iceberg. Sob a superfície, existe um imenso polvo com braços de centenas de bilhões de dólares – que financia a pesquisa de novos medicamentos, a testagem clínica dos mesmos, os órgãos que regulam sua aprovação, os legisladores que regulamentam o processo, as revistas que publicam os resultados de pesquisa, os eventos que os divulgam, as sociedades que produzem diretrizes clínicas, o acesso dos médicos ao conhecimento, e mesmo as entidades que representam os pacientes.

“Não existe almoço grátis”, diz o ditado. E, se eu e mais de 3 mil congressistas comemos de graça nos últimos dias, é porque alguém pagou a conta. Não se trata de caridade da indústria farmacêutica, que acumula margens de lucros maiores do que quase qualquer outro empreendimento lícito no mundo ao longo das últimas décadas. Quem sustenta o circo são pessoas comuns que, para tomar decisões sobre sua saúde, dependem dos indivíduos que perambulam pela área de exposição com seus crachás de prescritores.

Como um político com seus eleitores, um médico tem com seus pacientes uma relação fiduciária que o obriga, do ponto de vista ético e legal, a representar de forma isenta os interesses dessas pessoas ao atendê-las. Mesmo assim, um estudo de 1980 mostrou que 85% de um grupo de estudantes de medicina americanos considerava errado que um político aceitasse um presente de 50 dólares de um lobista, mas que somente 46% consideravam problemático que um médico aceitasse um brinde semelhante de um laboratório. Mais sintomaticamente ainda, 61% de um grupo de residentes respondeu que suas relações com a indústria eram incapazes de afetar suas próprias práticas de prescrição, mas apenas 16% afirmariam o mesmo sobre seus colegas. Por mais que eu tente, não consigo enxergar como a conta possa fechar. Mas talvez eu já não consiga pensar direito, depois de quatro dias trabalhando como agente duplo.

Pouco depois do Cérebro, Comportamento e Emoções de 2010, eu resolveria o problema do pai de minha então namorada ligando para um de meus muitos colegas de profissão que recebem representantes de laboratório, vários dos quais me ajudaram na preparação deste diário. Sem grandes escrúpulos, pedi um par de caixas de amostras grátis de Zyprexa® que ele havia recebido dos representantes da Eli Lilly. Isso deu conta do tratamento do meu ex-sogro por um mês, além de aumentar consideravelmente meu status junto à família. Algum tempo depois, a promissória passaria para o Sistema Único de Saúde, que atualmente fornece a versão genérica do medicamento. No fim das contas, os braços do polvo somos todos nós. E o alimento dele também.

Fonte: Piauí

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