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ANATOMIA DE UMA DELAÇÃO

26/10/2017

Como os donos da JBS e a Procuradoria-Geral da República acertaram um acordo de colaboração premiada – e por que ele desmoronou

CONSUELO DIEGUEZ

A DIVULGAÇÃO DA DELAÇÃO

Às 19h30 do dia 17 de maio, Márcio de Freitas Gomes, chefe da Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência da República, viu piscar a manchete no site do jornal O Globo: “Dono da JBS grava Temer dando aval para a compra de silêncio de Cunha.”

A notícia, divulgada pelo jornalista Lauro Jardim, dizia que Wesley e Joesley Batista, controladores da maior empresa de proteína animal do mundo, haviam entrado, uma semana antes, no gabinete do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, “para o ato final de uma bomba atômica que explodirá sobre o país”. Tratava-se da homologação da delação premiada que haviam feito à Procuradoria-Geral da República, cujo ponto fulcral era a gravação de uma conversa entre Joesley e o presidente. Nela, afirmava o jornalista, Temer, ao ser informado de que o empresário dava “uma mesada na prisão” ao deputado cassado Eduardo Cunha para que se mantivesse calado sobre esquemas de corrupção do governo, estimulou-o a continuar com o pagamento.

Antes mesmo de Gomes reler a notícia, os telefones da Secretaria de Comunicação no 2º andar do Palácio do Planalto começaram a disparar. Não atendeu a nenhuma das chamadas. Ainda atônito, imprimiu a nota e rumou acelerado para o gabinete da Presidência, um andar acima. Àquela hora, Temer participava de uma reunião com governadores do Nordeste. Gomes avisou às secretárias que precisaria interromper o evento e abriu a porta sem se fazer anunciar. O ministro da Secretaria de Governo, Antonio Imbassahy, que acompanhava o encontro, foi o primeiro a vê-lo. Gomes mirou-o com olhos de urgência e, fazendo freneticamente um sinal com as mãos, indicou ao ministro que encerrasse imediatamente aquela conversa.

Enquanto Imbassahy punha fim ao encontro, o chefe da Secretaria de Comunicação puxou o presidente para o lado e lhe mostrou a nota. Deu-se, então, o seguinte diálogo: “O senhor recebeu o Joesley?” Temer aquiesceu, mas fez uma ressalva. “Eu não dei aval para ele dar mesada para Cunha. Não me lembro de ter dito isso.” O presidente ainda estava desnorteado quando o gabinete começou a ser ocupado por assessores e políticos aliados. Os primeiros a chegar foram os ministros Moreira Franco (Secretaria-Geral da Presidência) e Eliseu Padilha (Casa Civil), seguidos do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia.

Logo teve início uma tensa reunião, na qual Temer foi bombardeado com perguntas sobre sua conversa com Joesley Batista, ocorrida no dia 7 de março, no Palácio do Jaburu, sua residência oficial, e gravada clandestinamente pelo empresário. Ninguém tinha dúvidas de que estavam diante de uma crise de proporções extraordinárias, que ameaçava o mandato presidencial. A reunião avançou pela madrugada e, às oito da manhã, eles estavam de volta ao Palácio, agora acompanhados do assessor jurídico da Presidência, o advogado Gustavo Rocha, cuja primeira providência foi solicitar à equipe do ministro Edson Fachin o acesso aos áudios. Apesar da insistência do advogado, eles não foram entregues.

Por volta das três da tarde, Temer tomou a decisão de fazer um pronunciamento à nação, mesmo desconhecendo o teor da gravação, da qual, até então, se tinha apenas a transcrição, divulgada, na véspera, no site d’O Globo. A imprensa, àquela altura, especulava sobre uma iminente renúncia e o colunista Ricardo Noblat, também d’O Globo, chegou a cravar que o presidente abriria mão do cargo dali a poucos minutos. Alguns assessores aconselharam Temer a falar somente depois de ouvir os áudios. O presidente, como relatou um deles, foi firme. “Eu tenho que falar agora, senão a crise sai do controle.” Trancou-se com seu marqueteiro, Elsinho Mouco, na sala ao lado do seu gabinete, e ensaiou, por alguns momentos, o discurso que faria em seguida. Ao retornar da sala, avisou aos presentes. “Não vai ser fácil me tombar.”

TRÊS MESES ANTES

No dia 13 de fevereiro, o procurador Anselmo Lopes chamou ao seu gabinete, na sede da Procuradoria-Geral da República no Distrito Federal, na Asa Sul de Brasília, o advogado Francisco de Assis e Silva, diretor jurídico da holding J&F, controladora da JBS, e os advogados de Joesley Batista, do escritório Sepúlveda Pertence. A conversa foi dura. Lopes comunicou que estava pedindo ao juiz Wallisney de Souza, da 10ª Vara Federal, que suspendesse os benefícios que haviam sido concedidos a Joesley Batista no âmbito da Operação Greenfield, cinco meses antes.

A Greenfield, deflagrada em setembro de 2016 por uma força-tarefa da Procuradoria no Distrito Federal e da Polícia Federal, descobrira um gigantesco esquema de desvio de dinheiro de alguns fundos de pensão de empresas estatais – a Petros, da Petrobras; a Funcef, da Caixa Econômica Federal; e o Postalis, dos Correios. O desfalque fora arquitetado por dirigentes dessas entidades em conluio com um grupo de companhias privadas, entre elas, a Eldorado Celulose, a fabricante de papel e celulose do grupo J&F.

O golpe, responsável por um prejuízo bilionário para os fundos de pensão, se deu por meio da compra de cotas de fundos de investimento em manejo florestal, os chamados FIPs, de empresas recém-constituídas. As cotas eram compradas por um preço exorbitante, muito superior ao que valiam. Dessa forma, as entidades de previdência pagaram muito mais do que deveriam pela participação acionária nessas companhias. Em troca, os dirigentes dos fundos recebiam uma contrapartida proporcional ao investimento feito. Pelas estimativas do procurador Anselmo Lopes, só na Eldorado os fundos Petros e Funcef pagaram mais de 550 milhões de reais pelas cotas da empresa, quando elas não valiam sequer metade disso.

Diante do prejuízo colossal causado às entidades públicas, Lopes pedira, logo após a deflagração da Operação Greenfield, o bloqueio de 3,8 bilhões de reais da holding J&F, o afastamento dos controladores do comando do grupo e a prisão dos dois irmãos. À época, Wesley e Joesley Batista se comprometeram a colaborar com as investigações e a fazer um depósito de 1,5 bilhão de reais em juízo. Tiveram, em troca, os bens desbloqueados e o pedido de prisão revogado. Na reunião de fevereiro, contudo, Lopes comunicou ao grupo de advogados presentes que pediria ao juiz a suspensão dos benefícios concedidos.

Explicou que tomara a decisão ao perceber que os empresários estavam descumprindo o que havia sido acertado no acordo, omitindo provas e, pior, atrapalhando as investigações. Segundo o procurador, eles tentaram, inclusive, aliciar um antigo sócio da Eldorado, Mário Celso Lopes, para que ele escondesse da força-tarefa informações cruciais para a elucidação da negociata montada com os dirigentes dos fundos de pensão.

Assustado, o diretor jurídico da J&F, Francisco Silva, pediu uma nova chance ao procurador. Prometeu que os irmãos colaborariam integralmente com a investigação. Anselmo Lopes ficou de estudar a proposta “por respeito à relação de confiança que havia nascido entre eles”, conforme falou. Já o pessoal do escritório de Sepúlveda Pertence, percebendo ali o embrião de uma delação premiada, começou a se afastar do caso, por não fazerem esse tipo de trabalho.

A situação dos irmãos Batista no começo de fevereiro era dramática. O cerco contra eles se fechava em várias frentes. Estavam sendo investigados em quatro operações deflagradas pelo MP do Distrito Federal e pela Polícia Federal. Além da Greenfield, enredaram-se em esquemas de corrupção na Caixa Econômica Federal e no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES.

Na Caixa, os Batista eram acusados de ter se beneficiado, junto com outros empresários, de um acordo de liberação de crédito em troca de pagamento de propina a um grupo de políticos muito próximos ao governo, entre eles Eduardo Cunha e Geddel Vieira Lima, que chegara a ser ministro da Secretaria de Governo de Temer.

A Operação Cui Bono?, do latim, “A quem interessa?”, deflagrada em janeiro pela força-tarefa, descobrira que as fraudes haviam sido cometidas entre 2011 e 2013, ainda no governo Dilma Rousseff, quando Vieira Lima ocupara uma das vice-presidências da Caixa, justamente a de pessoa jurídica.

Os Batista eram investigados também na Operação Sépsis, do grego “podridão”, desencadeada em julho de 2016, envolvendo políticos do PMDB. Ali, a fraude estava ligada à liberação de recursos do Fundo de Investimento do FGTS, o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço, para compra de debêntures (títulos da dívida) de um grupo de empresas, a preços muito superiores ao que valiam, por meio de pagamento de propina. No caso dos Batista, o negócio foi feito, de novo, com a Eldorado. Além de políticos, participava do esquema o doleiro Lúcio Funaro, atualmente preso pela Lava Jato, que fazia a ponte com os empresários.

O que mais preocupava os irmãos Batista, no entanto, não eram nem a Operação Greenfield, nem a Operação Cui Bono?, nem a Operação Sépsis, mas sim uma nova operação comandada pelo procurador Ivan Marx, também da Procuradoria-Geral no Distrito Federal, da qual participavam a Polícia Federal e auditores do Tribunal de Contas da União.

A Operação Bullish, como foi batizada, investigava as relações da holding J&F com o BNDES que, entre 2007 e 2015, liberara quase 10 bilhões de reais para as empresas do grupo. O grosso dessas operações havia sido feito pelo BNDESpar, o braço de participação do banco. Não eram empréstimos, e sim compra de participação acionária na companhia. Foi com esses recursos que a JBS fez uma série de aquisições de empresas ao redor do mundo, principalmente nos Estados Unidos e na Austrália, para se transformar na maior produtora de proteína animal do planeta. Com a ajuda camarada do banco oficial, a JBS, que até 2007 não figurava nem entre as 100 maiores empresas brasileiras, embora já fosse um frigorífico bem-sucedido, oito anos depois se transformaria na maior companhia nacional, superando inclusive a poderosa Vale, do ramo da mineração.

O crescimento vertiginoso viabilizado com dinheiro público chamou a atenção do Tribunal de Contas da União. Convocados a atuar, os procuradores se debruçaram sobre as operações fechadas entre o grupo e o BNDES, e concluíram que, em todas elas, o banco tivera prejuízo. Por essa razão, no dia 12 de fevereiro, o procurador Marx pediu ao juiz substituto da 10ª Vara, Ricardo Soares Leite, a prisão dos empresários e também a de vários funcionários da instituição financeira, responsáveis pelas operações. O juiz negou as prisões e pediu prazo aos investigadores para decidir se autorizaria a busca e apreensão de documentos na J&F, no BNDES e nas casas dos funcionários da instituição que aprovaram as operações.

Rumores no meio jurídico de Brasília davam como inevitável a prisão dos irmãos Batista. Acossados, eles tomaram a decisão que já vinham ruminando havia algum tempo: fazer a delação premiada sugerida algumas vezes pelo procurador Anselmo Lopes, responsável pelo caso em que eram acusados de desviar dinheiro dos fundos de pensão. Era certo que, se fechassem um acordo com a procuradoria antes de ir para a cadeia, teriam muito mais poder de barganha na negociação de benefícios. Dessa forma, poderiam evitar ter o mesmo destino de Marcelo Odebrecht, o maior empreiteiro do país, preso há mais de dois anos, e que só aceitou falar à Justiça depois que todas as tentativas de tirá-lo da cadeia foram frustradas.

Na noite de domingo, 19 de fevereiro, o procurador Lopes recebeu um telefonema de Francisco de Assis e Silva, o diretor jurídico da j&f, com a comunicação que há muito esperava: os irmãos Wesley e Joesley Batista estavam dispostos a fechar um acordo de delação. O procurador ficou radiante. Marcou para a manhã do dia seguinte uma reunião com o advogado. Estava seguro, como confidenciou a alguns interlocutores, de que a confissão dos donos da JBS, maiores doadores nas duas últimas campanhas eleitorais – só na de 2014 distribuíram quase 400 milhões de reais –, ajudaria a desbaratar uma espetacular rede de corrupção na administração pública brasileira.

Na manhã do dia 20, Anselmo Lopes encontrou-se com Francisco de Assis e Silva em seu gabinete. Não perdeu muito tempo com conversas. De lá, o procurador o encaminhou para a sede da Procuradoria-Geral da República, a poucos quilômetros dali. Como as pessoas envolvidas nas transações da JBS eram, em sua maioria, políticos com direito a foro privilegiado, Lopes sabia que a delação teria que ser feita na PGR, como manda a lei.

Nos prédios cilíndricos espelhados da Procuradoria-Geral, o advogado da  J&F foi colocado em contato com os procuradores Sérgio Bruno Cabral Fernandes, coordenador da Operação Lava Jato em Brasília, e Eduardo Pelella, chefe de gabinete de Rodrigo Janot. Começava ali a delação que desencadearia uma das maiores crises políticas da história do país.

Três dias após essa reunião, o procurador-geral, Rodrigo Janot, e Pelella, seu chefe de gabinete, receberam a visita de Marcello Miller. O procurador, um homem de poucas palavras e boa formação intelectual, tinha sido recrutado por Janot em 2013 para integrar o grupo da Lava Jato. Era considerado um dos mais duros investigadores da operação. O motivo da reunião solicitada por Miller era comunicar a Janot e Pelella sua decisão de deixar o Ministério Público.

Em meados de 2016, Miller havia voltado, por razões pessoais, a seu posto original na Procuradoria-Geral da República do Rio de Janeiro, mas continuou a auxiliar na Lava Jato. Agora anunciava sua ida para a iniciativa privada. Estava sendo contratado pelo renomado escritório Trench Rossi Watanabe, que tem entre suas expertises os acordos de leniência feitos no Ministério Público em nome das empresas, e não dos controladores.

Miller fora convidado para o escritório em janeiro, pela advogada Esther Flesch. Iria atuar na área de compliance, o que, no jargão do mercado, significa orientar empresas encrencadas com a Justiça a se ajustarem às normas legais internas e externas de gestão – setor que Flesch comandava. Há quase trinta anos no escritório, a advogada figurava entre os melhores profissionais do mundo na área anticorrupção, segundo o ranking da publicação inglesa Chambers and Partners Latin America Guide, que faz este tipo de levantamento. O prestígio dela transformara o Trench Rossi Watanabe no mais respeitado escritório latino-americano nessa especialidade. A J&F era, há anos, seu cliente. A advogada apresentou Miller aos sócios do escritório no começo de fevereiro. Na ocasião, fez questão de dizer que, embora jovem, 43 anos, ele estava havia quatorze anos no Ministério Público, trabalhara na equipe de Janot, na Lava Jato, e possuía vasta experiência na área em que ela atuava.

Ao ser entrevistado pela área administrativa do escritório, Miller, que já tinha sido também diplomata, contou que, desde 2016, vinha pensando em deixar o serviço público e ir para a iniciativa privada. No ano passado, tivera conversas com sua amiga de longa data, a criminalista Fernanda Tórtima, do escritório Tórtima, Tavares & Borges, do Rio de Janeiro, que o convidara para trabalhar com ela. Tórtima é casada com um desembargador e filha de um renomado advogado. Ela e Miller haviam atuado juntos na delação do ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado. Miller atuou também na do ex-diretor da Petrobras e da BR Distribuidora, Nestor Cerveró – ele pela PGR, ela como advogada.

Em ambos os casos, os delatores gravaram seus interlocutores. Machado gravou os senadores Romero Jucá, José Sarney e Renan Calheiros, do PMDB. No caso de Cerveró, foi o filho dele, Bernardo, quem gravou o então senador Delcídio do Amaral, do Partido dos Trabalhadores, se oferecendo para tirar Cerveró do país caso não delatasse na Lava Jato. Após a divulgação do áudio de Delcídio, Bernardo Cerveró, chamado a depor, se atrapalhou. Primeiro disse que a ideia da gravação tinha sido dele. Depois, que tinha sido do advogado e, finalmente, que poderia ter sido orientado pela Procuradoria.

No começo deste ano, Fernanda Tórtima foi contratada pelos irmãos Batista para assessorá-los no acordo de colaboração que pensavam em fazer. Ela, por sua vez, convidou Miller para o escritório. Queria que ele estivesse à frente do acordo de leniência que os empresários pretendiam fazer em paralelo. Não era a primeira vez que o procurador rondava a órbita dos irmãos Batista. Já havia sido convidado pelo grupo para ser diretor da empresa. Miller recusou ambos os convites. Optou pela proposta do Trench Rossi Watanabe.

Embora estivesse apalavrado com o escritório havia mais de um mês, Miller pediu a Janot que só o desligasse da PGR em 5 de abril, após suas férias. Nessa mesma data ele começaria no novo emprego. Janot concordou. Entre salário, bônus e cláusulas de êxito, receberia em torno de 110 mil reais mensais, quase o triplo do seu ganho de 35 mil mensais como procurador.

No mesmo dia em que comunicou a Janot que iria deixar a PGR, em fevereiro, Miller colocou uma nota na intranet da Procuradoria informando sua decisão. Janot e Pelella consideraram aquele um “gesto de transparência”. Vários colegas, no entanto, torceram o nariz, o que deu início a uma discussão na rede entre procuradores que criticaram a sua troca de função. Afinal, Miller iria sair da PGR para atuar, imediatamente, em uma área que era uma de suas especialidades, e teria como cliente uma empresa que era investigada pela Procuradoria em várias frentes, inclusive pela Lava Jato. A situação, no entanto, era mais delicada. Quando comunicou sua decisão a Janot, Miller já estava trabalhando informalmente para o Trench Rossi Watanabe, especificamente no caso da J&F. Havia inclusive almoçado naquele mês na casa de Joesley Batista, nos Jardins, em São Paulo.

No dia 2 de março, o diretor jurídico da J&F, Francisco Silva, teve novo encontro na PGR com os procuradores que se encarregaram da delação: Eduardo Pelella, Sérgio Bruno Fernandes, Fernando Antônio de Oliveira Júnior e Ronaldo Pinheiro de Queiroz. Pouco antes disso, voltara a se reunir no MP do Distrito Federal com o procurador Anselmo Lopes e a delegada Rubia Danyla Pinheiro, da Polícia Federal. Nessa reunião, ele foi instruído pelos dois sobre como os delatores deveriam proceder para fazer um bom acordo de colaboração. O procurador Lopes disse a colegas que, de forma alguma, os instruiu a gravar quem quer que fosse, mesmo porque, ele desconhecia quem seriam os delatados. Disse que apenas explicou para os Batista o que seria considerada uma boa delação: provas documentais, relatos, registros de encontros e, se fosse o caso, registros de conversas.

DOIS MESES ANTES

No dia 6 de março, Marcello Miller, ainda na condição de procurador, esteve na sede da JBS, em São Paulo, acompanhado de sua futura colega, a advogada Esther Flesch. Eles foram juntos assinar o contrato de assessoramento ao grupo J&F no acordo de leniência. Pelo trabalho, Miller receberia 1 milhão de reais em honorários.

Essa conduta, por si só, já seria condenável. Miller, porém, foi mais longe e ajudou os donos da J&F a formatar a delação. Pela lei, juízes e procuradores que se desliguem de seus cargos não podem atuar, antes de uma quarentena, em áreas afins a que trabalhavam no serviço público. Miller, que tinha como especialidade acordos de delação, não só passou a dar consultoria informal na sua área de atuação, como isto ocorreu antes de se desligar do Ministério Público.

Em 7 de março, dia seguinte à sua reunião com Miller e Flesch, Joesley Batista entrou no Palácio do Jaburu para gravar o presidente da República. O dia de Temer fora tranquilo. À noite, antes de voltar para casa, o presidente seguiu para o restaurante Piantella, na Asa Sul, para participar das comemorações dos 50 anos de jornalismo do colunista Ricardo Noblat. Como costuma acontecer em Brasília, foi saudado por políticos de diferentes partidos, inclusive os de oposição, e por jornalistas de vários meios. O presidente parecia à vontade. Chegou a dizer a um dos sócios do restaurante que voltaria para despachar na mesa que fora cativa do deputado Ulysses Guimarães, histórico presidente do PMDB. De lá, rumou para o Palácio do Jaburu.

Por volta das onze horas, o segurança da guarita comunicou a entrada do visitante, sem perguntar seu nome. A placa do carro já tinha sido previamente registrada a pedido do deputado Rodrigo Rocha Loures, ex-assessor especial do presidente, que marcara aquela audiência com Joesley Batista fora da agenda. Loures, unha e carne do presidente, participaria do encontro, mas cancelou sua ida na última hora.

Ainda no carro, Joesley ligou o gravador que trazia escondido e registrou o trecho de um programa de rádio que usaria mais tarde como prova da fidelidade da gravação. O presidente o recebeu no subsolo do Jaburu, na sala de estar contígua a um pequeno cinema.

Ali se deu o diálogo que dentro de dois meses chocaria o país. O presidente ouviu do empresário: 1º) que ele estava “de bem com o Eduardo” (Cunha), ao que Temer respondeu, “tem que manter isso aí, viu”; 2º) que estava dando conta de dois juízes e que “plantara” um procurador da República na força-tarefa da Operação Greenfield, a quem estava pagando 50 mil – o presidente não demonstrou nenhum espanto com a confissão; 3º) que seu canal com Geddel Vieira Lima tinha se perdido em razão das encrencas dele com a Justiça – Temer sugere então que Rocha Loures seja a nova pessoa a quem ele pode procurar (“Pode passar por meio dele, é da minha mais estrita confiança”); 4º) que falava com o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, mas este não lhe dava ouvidos (Joesley pediu ao presidente se ele podia dizer ao “Henrique” para, pelo menos, consultá-lo em caso de alguma solicitação). Ao deixar o Banco Central, que presidira durante os dois mandatos de Lula, Meirelles fora contratado por Joesley para o conselho da J&F e, tempos depois, assumiu a presidência do Banco Original, pertencente ao grupo.

Na conversa com Temer, Joesley sugeriu ainda que tinha interesses no Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o Cade, e na Comissão de Valores Mobiliários, a CVM. O presidente foi lacônico; por último, Joesley afirmou que gostara daquela forma de se comunicar com Temer, à noite, e disse que se fosse algo urgente voltaria ao Jaburu, pois sequer precisara deixar seu nome na porta.

Uma semana depois, no dia 13 de março, foi a vez de Rodrigo Rocha Loures ser gravado. Joesley recebeu o deputado em sua casa. Falaram por mais de uma hora, e, durante dez minutos, trataram do assunto de interesse da J&F no Cade referente ao preço do gás fornecido pela Petrobras à empresa de energia do grupo. Loures se dispôs a ajudar e se gabou de sua intimidade com Temer e com os dirigentes do órgão. Acertaram uma propina de 500 mil reais semanais por até 25 anos, algo no mínimo esdrúxulo, mas de que Loures aparentemente não desconfiou.

Onze dias mais tarde, 24 de março, Joesley gravou uma conversa com o senador Aécio Neves, presidente nacional do PSDB. Nela, combinou a entrega de 1 milhão de reais que o senador lhe pedira alegando precisar do dinheiro para pagar sua defesa na Lava Jato. A conversa inicial sobre o assunto se dera no dia 18 de fevereiro, com a irmã de Aécio, Andrea Neves, quando ela pediu 2 milhões a Joesley para o mesmo fim. Durante a conversa com o senador, ficou acertado que o dinheiro seria entregue ao primo de Aécio, Frederico Pacheco de Medeiros, o Fred, por um funcionário de Joesley.

Enquanto Joesley e os executivos do grupo gravavam figurões da República, a Polícia Federal do Paraná deflagrou uma nova operação, no dia 17 de março, desta vez contra vários produtores de carne, inclusive a JBS. A Operação Carne Fraca revelara um conluio entre produtores de carne e fiscais de controle de inspeção. A JBS era suspeita de comprar fiscais do Ministério da Agricultura para que fizessem vista grossa a procedimentos de produção. O escândalo repercutiu no exterior e, logo, vários países ameaçaram suspender as importações de carne no Brasil por suspeitarem da sua qualidade. O prejuízo para as exportações brasileiras foi enorme. A JBS ficou com dois mil contêineres de carne retidos em portos ao redor do mundo.

Em 26 de março, o advogado Francisco de Assis e Silva se reuniria novamente com os procuradores da força-tarefa. Dessa vez, para mostrar as gravações feitas por Joesley Batista. Os procuradores comemoraram.

UM MÊS ANTES

Em 5 de abril, dia em que foi oficialmente desligado do Ministério Público, o procurador Marcello Miller voou para os Estados Unidos com a colega Esther Flesch para tratar do acordo de leniência da J&F com o Departamento de Justiça americano, o doj. Embora tivesse se desligado oficialmente do serviço público naquela data, suas passagens tinham sido compradas pelo escritório dias antes. O acordo de leniência nos Estados Unidos é necessário sempre que um crime financeiro tenha usado o dólar como moeda, ainda que o delito ocorra fora do território americano. No caso da J&F, havia ainda o fato de o grupo ser dono de várias empresas nos Estados Unidos, o que poderia levá-los a ser processados lá e, eventualmente, perder o controle das empresas.

O escritório americano contratado para fazer a leniência nos Estados Unidos foi o Baker & McKenzie, sócio do Trench Rossi Watanabe no Brasil. Os dois escritórios estavam afinados para fechar acordos aqui e nos Estados Unidos simultaneamente, o que protegeria o grupo de futuros processos nos dois países. Por isso, o acordo de leniência lá foi acertado no momento que a delação começou a ser tratada aqui. Em razão da repercussão internacional da Lava Jato, os procuradores americanos passaram a ter os colegas brasileiros em alta conta. Miller, que cuidara do caso da Odebrecht nos Estados Unidos, era conhecido e respeitado por eles.

Os controladores da J&F voltaram à PGR para fechar o pré-acordo de delação premiada, na sexta-feira, 7 de abril. Os entendimentos foram feitos entre a advogada dos delatores, a criminalista Fernanda Tórtima, e os procuradores Sérgio Bruno Fernandes, Eduardo Pelella, Fernando Oliveira Júnior e Ronaldo Pinheiro de Queiroz, além de Rodrigo Janot – permanentemente consultado. Depois de ouvir os áudios, os procuradores concluíram que tinham provas robustas contra Temer e Aécio. Mas precisavam de mais. Para comprovar tudo o que havia sido gravado, acertaram os termos de uma ação controlada sobre os suspeitos. Para isso, os colaboradores – Joesley, o advogado Francisco Silva, que passou a atuar também como delator, além de Ricardo Saud, diretor de Relações Institucionais do grupo – teriam que gravar os suspeitos recebendo o dinheiro.

As filmagens do flagrante seriam preparadas pela Polícia Federal. A defesa dos delatores concordou com a participação de seus clientes na operação, mas, em contrapartida, exigiu benefícios à altura do ouro que estavam entregando à Procuradoria. Os Batista e os principais executivos da empresa não seriam presos ou processados. Além disso, ficou fechado que a delação ocorreria simultaneamente ao acordo de leniência. Com esse acordo, a J&F poderia continuar a ter acesso a crédito em bancos federais e a receber benefícios fiscais, instrumentos que haviam catapultado a JBS às alturas no mundo dos negócios. Os delatores deixaram claro aos procuradores que, sem a leniência, não haveria colaboração.

Na segunda-feira, 10 de abril, Rodrigo Janot entrou acelerado no gabinete do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal. A relação entre Fachin e o procurador-geral era de camaradagem, que se estendia às suas equipes (a mulher de Eduardo Pelella, chefe de gabinete do procurador, trabalhava no gabinete de Fachin, como jornalista; já o marido da juíza auxiliar de Fachin trabalhava no gabinete do procurador-geral). Janot estava ali para pedir a autorização para uma ação controlada contra os envolvidos nas conversas gravadas por Joesley: o deputado Rocha Loures, que, segundo garantiu a Fachin, iria receber a propina da J&F em nome do presidente da República, e Frederico Pacheco, que receberia o dinheiro em nome de Aécio Neves.

O pedido, feito unicamente com base nas gravações de Joesley, continha alguns pontos cegos. Primeiro, as fitas não haviam sido periciadas nem pela Polícia Federal nem por um perito judicial. O procurador estava pedindo uma ação controlada fiando-se unicamente na palavra de Joesley de que não adulterara o material. Segundo, Janot argumentou com Fachin que a ação era necessária, pois havia um crime em andamento, embora todos os encontros com as pessoas gravadas tivessem sido provocados por Joesley. Por último, embora Janot tivesse afirmado ao ministro que a gravação do presidente fora feita por Joesley sem conhecimento da Procuradoria, havia o risco de que advogados questionassem se esta poderia ser usada como prova.

Ainda que o pré-acordo de delação tivesse sido fechado no dia 7 de abril, um mês após Temer ter sido gravado, as tratativas estavam em andamento desde o dia 20 de fevereiro, quando o procurador Anselmo Lopes levou o advogado Francisco de Assis e Silva para conversar na PGR. “O envolvimento de Anselmo Lopes e da delegada Rubia Pinheiro instruindo os irmãos de como deveria ser feita a delação só fazia sentido se eles fossem colaborar”, disse-me um procurador. “Não é errado a polícia e a Procuradoria instruírem, mas isso significa que, oficialmente, existe um procedimento de colaboração, ou seja, uma formalização.”

A lei diz que não se pode fazer um ato investigatório – no caso as gravações – contra políticos com foro privilegiado sem autorização prévia do Supremo. De acordo com esse procurador, a dúvida é se o ministro Fachin foi informado de que as tratativas começaram em fevereiro e que, portanto, as gravações teriam que ser autorizadas. A Procuradoria, contudo, passou a considerar o início da delação apenas a partir do pré-acordo, quando as gravações já tinham ocorrido. Fachin aceitou os argumentos de Janot e, em razão dos áudios apresentados, autorizou as ações controladas.

Em 11 de abril, no dia seguinte à decisão do ministro, Marcello Miller teve sua primeira reunião formal na PGR como advogado dos irmãos Batista no acordo de leniência. A estratégia dos Batista de se antecipar à iminente prisão funcionara. Ao entregar as gravações, eles passaram a dar as cartas, deixando a PGR a reboque. “O que o Janot poderia fazer?”, me perguntou, meses depois, um dos procuradores envolvidos na força-tarefa. “Se ele não aceitasse as condições dos delatores, a PGR não poderia ficar com as provas e elas poderiam ser destruídas”, argumentou.

As imagens do assustadiço deputado Rodrigo Loures correndo com uma mala de dinheiro na saída de uma pizzaria até entrar no táxi e as imagens do primo do senador Aécio Neves conferindo bolos de notas de reais entraram para os anais da Lava Jato. Enquanto a Polícia Federal filmava as ações controladas, as negociações com os empresários prosseguiam.

O procurador escalado por Janot para tocar o acordo de leniência no Ministério Público no Distrito Federal foi Anselmo Lopes, o mesmo que havia levado os Batista para a PGR. Foram momentos tensos para ele. Seus colegas o pressionavam a fazer “um bom acordo para não atrapalhar a delação” que, segundo lhe disseram, “era algo sem precedentes” na história do combate à corrupção no país. Lopes foi instruído a dar “total prioridade ao caso”.

Os advogados Esther Flesch e Marcello Miller propuseram que a multa sobre a J&F não fosse superior a 1 bilhão de reais, a ser paga em 25 anos. Um valor expressivo, embora não para o grupo, cujo faturamento anual é de 170 bilhões de reais e que corrompera um número incontável de políticos. Além disso, exigiam o cancelamento de todas as investigações contra o grupo no âmbito das operações Greenfield, Sépsis, Cui Bono?, Carne Fraca e Bullish.

A presença de Miller na mesa de negociações era motivo de constrangimento para Anselmo Lopes, afinal tratava-se de alguém que, há pouco tempo, estava no mesmo lado do balcão que ele. O procurador chegou a sugerir a Miller que abandonasse o caso. E usou a expressão “pisando em ovos”, para explicar que era preciso muita diplomacia para dizer ao ex-colega que “não parecia ético” ele estar ali. Miller não gostou. Argumentou que a Procuradoria estava querendo tirar da mesa “o melhor negociador deles”. “Ele agia como se nós estivéssemos querendo tirar o Messi do jogo”, contou Lopes a um interlocutor, referindo-se a Miller.

No final de abril, quando a leniência estava em vias de ser fechada nos termos pretendidos pelos advogados da empresa, surgiu um entrave para sua concretização. Até então alheio de que estava ocorrendo uma negociação daquela envergadura, o procurador Ivan Marx foi chamado pelo colega Anselmo Lopes para assinar o acordo. Sua participação era exigida porque ele precisava concordar em encerrar as investigações também no âmbito da Operação Bullish, que tratava da liberação de recursos do BNDES à J&F.

Ao se debruçar sobre os termos do acordo, Marx protestou. Argumentou que as cláusulas que estavam sendo negociadas contemplavam os fundos de pensão, a Caixa Econômica e o BNDES de maneira equivalente. Porém, ele disse, o banco de fomento fizera os maiores desembolsos, e, por isso, teria que receber um ressarcimento maior que os demais órgãos.

Além disso, Marx manifestou sua contrariedade com o fato de os Batista não mencionarem na delação o nome do ex-presidente do BNDES, Luciano Coutinho, responsável, em última instância, pela liberação dos recursos da instituição, nem o do ex-ministro da Fazenda, Antonio Palocci, que os tinha assessorado na tomada de alguns financiamentos com o banco, por meio de sua consultoria, a Projeto. Ivan Marx argumentou que, se os Batista não haviam delatado qualquer nome no esquema do BNDES, era porque, nem de longe, estavam falando tudo o que sabiam para a Procuradoria-Geral da República. Feriam, portanto, as regras da delação premiada.

Entre as irregularidades apontadas pela Bullish, estavam operações feitas no exterior aprovadas pelo banco. O laudo pericial concluiu, por exemplo, que a JBS recebeu 995 milhões de reais do BNDES para comprar a National Beef, a Smithfield Beef e a Five Rivers nos Estados Unidos. No entanto, embora tendo desistido da aquisição da primeira das três empresas, a JBS não restituiu nenhum recurso ao banco. O BNDESpar, por sua vez, em vez de exigir o dinheiro de volta, permitiu que a empresa não só o utilizasse na compra de outras três companhias – a australiana Tasman, a americana Pilgrin’s Pride e o frigorífico brasileiro Bertin – como liberou mais recursos para que esses negócios fossem realizados. O Bertin, à beira da falência, devia 1 bilhão ao BNDES, e se preparava para dar um calote, o que exporia os analistas da instituição pública que autorizaram o financiamento.

Para se livrar do vexame, o BNDES fez um acordo com os Batista, liberando o dinheiro para as outras compras, desde que levassem junto o Bertin. Um dos participantes das negociações da JBS com o banco me contou que Joesley era duro nas exigências, e os técnicos do BNDES, por saberem que a instituição tinha uma exposição de risco muito alta no grupo – o banco chegou a ter 31% de participação na J&F, acima dos 20% recomendados pela área de risco da instituição –, aceitavam as condições do sócio por medo de que um prejuízo na JBS afetasse também o BNDES.

Nas operações envolvendo a Pilgrin’s Pride e o Bertin, os técnicos e dirigentes do BDNES teriam driblado, segundo os investigadores, as regras de contrato, utilizando outra metodologia de cálculo que beneficiou a JBS. Além disso, o BNDESpar subscreveu debêntures da JBS sem exigir garantias da empresa, violando os regulamentos internos. O laudo pericial da força-tarefa concluiu também que a análise de liberação de recursos para aquisição da National Beef, da Smithfield Beef e do Bertin foi feita no prazo recorde de 29 dias, quando a média de análise do banco para todas as operações é de 210 dias.

Outra constatação dos investigadores foi a de que alguns dos executivos e técnicos do banco que participaram dessas operações foram indicados para os conselhos fiscais e de administração do grupo e de comitês da companhia. A participação nos conselhos não é proibida, mesmo porque o banco é sócio do grupo. Mas chamou atenção o fato de justamente as pessoas envolvidas nas operações serem as indicadas. A Polícia Federal passou a investigar se eles recebiam alguma remuneração por essa participação.

Para completar, Marx e os demais investigadores estavam preocupados com o fato de os Batista terem pedido, meses antes, a transferência da sede da JBS para a Irlanda. A proposta, embora rejeitada pela então presidente do BNDES, Maria Silvia Bastos Marques, indicava intenções suspeitas do grupo.

Em razão de todas essas irregularidades, o procurador Ivan Marx avisou aos participantes da discussão que só fecharia acordo no âmbito da Bullish se eles dessem os nomes dos responsáveis pelas fraudes no BDNES. A discussão esquentou e Marx se retirou da mesa sem assinar sua parte no acordo. Anselmo Lopes e os advogados acertaram que a negociação valeria apenas para as operações investigadas por ele, além de incluir a Carne Fraca, cujos procuradores, no Paraná, também concordaram com os termos propostos.

O ministro Fachin confidenciou no final de abril a algumas pessoas no Supremo Tribunal Federal que tinha uma “bala de prata” contra o presidente da República. Nessa época, a presença de Rodrigo Janot em seu gabinete era constante. Poucos ministros do STF conheciam o conteúdo do que Fachin tinha em mãos. Para a maioria deles, Fachin se limitou a dizer que “abalaria a República”. Parte do mistério se devia ao clima de desconfiança no Supremo, sobretudo em relação a Gilmar Mendes, cuja proximidade com Michel Temer e Aécio Neves era notória.

DUAS SEMANAS ANTES

Na noite de 3 de maio, o advogado Francisco de Assis e Silva entrou na casa do advogado Willer Tomaz, no Lago Sul de Brasília. Levava escondido um gravador. Sua missão seria gravar a conversa que teria, naquele jantar, com o advogado e o outro convidado, o procurador Ângelo Goulart Villela. Desde março, Villela passara a ajudar a força-tarefa da Operação Greenfield, comandada por Anselmo Lopes. Um mês antes, em fevereiro, Willer Tomaz havia sido procurado por Francisco Silva, interessado em contratar seu escritório para tratar dos irmãos Batista nessa operação. Tomaz estava convencido de que a participação de seu amigo Goulart na força-tarefa seria um trunfo a ser apresentado aos seus clientes.

Willer Tomaz conhecera Goulart Villela, então lotado no Tribunal Superior Eleitoral, numa festa oferecida pelo advogado a uma amiga em comum, no seu escritório, instalado numa mansão do Lago Sul, com uma ampla sala de estar e portas abertas para um jardim com piscina. Ficaram amigos a ponto de viajarem juntos, com suas famílias. Em fevereiro, Tomaz convidou Goulart para um almoço em seu escritório. Antes de a refeição ser servida, Tomaz abriu a porta da sala onde o procurador o aguardava, para lhe apresentar o novo cliente.

Tratava-se de Francisco de Assis e Silva. Acabaram fechando um contrato que previa honorários de 8 milhões de reais. Depois disso, Goulart passou a enviar informações da força-tarefa para o amigo advogado, que as repassava aos Batista. O procurador chegou a gravar, escondido, uma das reuniões de que participou no gabinete de Anselmo Lopes, com o ex-sócio da JBS na Eldorado, Mário Celso Lopes, de quem Anselmo Lopes pretendia receber informações sobre os Batista. Ao perceber a importância do tema tratado, Goulart foi ao banheiro, ligou o gravador, e voltou para a sala. O conteúdo da conversa foi entregue por Tomaz a Joesley Batista, no hangar de jatos privados no aeroporto de Brasília. Mais tarde, numa conversa com Silva, Tomaz teria dito que, da metade dos honorários já pagos, uma parte tinha ido para Goulart.

Na sua conversa com Temer, era a Goulart a quem Joesley se referira ao dizer que tinha um procurador no bolso. Ao fazer a delação, questionado pelos procuradores sobre aquela informação, o empresário disse que tinha sido uma bravata. Depois mudou a versão. No dia 27 de abril, Joesley pediu uma retificação à PGR, para incluir o nome de Goulart entre os delatados.

Em seu depoimento, alegou que não o fizera antes “por receio”. E completou que decidira trazer o caso à tona pelo “perigo que é ter um procurador como esse na força-tarefa”. Para comprovar a veracidade da informação do empresário, a equipe de trabalho decidiu fazer uma ação controlada sobre o procurador e o advogado. Essa era a missão de Francisco de Assis e Silva na casa de Tomaz naquela noite de 3 de maio. Enquanto ele gravava as conversas durante o jantar, a Polícia Federal, do lado de fora, filmava o encontro.

Oacordo de delação entre a PGR e os irmãos Batista foi finalmente assinado e homologado no gabinete do ministro Edson Fachin no dia 10 de maio. Os empresários haviam conseguido imunidade total para eles e para os dois executivos da empresa que participaram da delação – Ricardo Saud e Francisco de Assis e Silva –, além de pena pecuniária branda. Uma multa total de 225 milhões de reais para os delatores, a ser paga a partir de 2018, no prazo de dez anos. Wesley e Joesley desembolsariam, cada um, 55 milhões de reais. No caso de Joesley, um valor quase igual ao que ele pagara por sua cobertura, em frente ao Central Park, em Nova York.

Na manhã de 12 de maio, a Operação Bullish foi deflagrada após o juiz da 10ª Vara ter autorizado a busca e apreensão no BNDES e na casa dos envolvidos nos empréstimos à JBS, e também na sede da JBS. Funcionários do banco foram conduzidos coercitivamente à sede da PF no Rio para prestar esclarecimentos. Após essa investida da Bullish, os procuradores se apressaram. Temiam que a prisão dos Batista fosse decretada, com a delação já homologada.

No dia 16 de maio, o Palácio do Planalto recebeu com naturalidade, embora com certa frustração, o cancelamento da visita que João Roberto Marinho faria a Temer, no dia seguinte, agendada já há algum tempo. O presidente e seu círculo mais próximo estavam animados com os resultados que apresentariam ao vice-presidente do Grupo Globo, dos Marinho. Temer chamaria a atenção para o que considerava conquistas do seu governo: inflação sob controle, juros e câmbio em queda, exportações em alta, retomada da atividade econômica e do emprego, além de forte possibilidade de aprovação das reformas trabalhista e da Previdência, fundamentais na avaliação da área econômica para equacionar o déficit público, ainda em patamar elevadíssimo.

A equipe do marqueteiro Elsinho Mouco dera andamento à confecção das peças publicitárias para a comemoração de um ano de governo. Estavam em negociação para fechar a campanha com a Globo, que teria se comprometido a dar 80% de desconto na veiculação do material. O clima seria de festa. A programação incluía depoimentos dos apresentadores Ratinho, Datena, Xuxa Meneghel e Rodrigo Faro. Mais tarde, a equipe especularia que a desistência de João Roberto Marinho tinha a ver com a bomba que o site do jornal lançaria contra o presidente no dia seguinte.

O DIA DA DIVULGAÇÃO

Omercado financeiro abriu no dia 17 com um movimento anormal de venda de ações do grupo J&F na Bolsa de Valores. As mesas de câmbio também registraram um movimento anormal de compra de dólar. No Palácio, o clima era tranquilo.

No começo da noite, o site do Globo divulgou a notícia da delação de Joesley. Imediatamente, todos os outros meios de comunicação repercutiram o conteúdo, fiando-se apenas no jornal. A crise estava instalada. O Palácio logo creditou o vazamento à PGR.

Assim que a notícia da delação de Joesley piscou no site, o Congresso entrou em convulsão. Membros da oposição não demoraram a pedir a renúncia do presidente. À noite, analistas financeiros previam um day after muito complicado para o mercado. Ao mesmo tempo, começou a circular o boato de que a J&F e a JBS haviam especulado fortemente na Bolsa e no câmbio durante todo o dia. O país mergulhou na incerteza.

A quinta-feira, 18, foi caótica. Pela manhã, a Polícia Federal deflagrou uma nova operação, dessa vez para prender o procurador Ângelo Goulart Villela e o advogado Willer Tomaz, acusados de passar informações da Operação Greenfield para Joesley, fato que nem chamou tanta atenção, tamanha era a repercussão da avalanche da véspera sobre Temer. Às quatro da tarde, entre rumores de que poderia renunciar, o presidente fez um pronunciamento à nação. Estava rodeado de cerca de quarenta deputados da base aliada, figuras inexpressivas, como se fossem réplicas desbotadas dele mesmo, a sugerir sua fragilidade naquele momento. Num tom alterado que não costuma ser o seu, o presidente avisou: “Não renunciarei.”

No começo da noite, o áudio da conversa com Joesley finalmente chegou ao Planalto. Na sala de crise montada no gabinete da Presidência, assessores mais próximos se puseram a ouvi-lo. Após repassarem o áudio algumas vezes, Temer e seus assessores não encontraram a frase de Joesley afirmando que dava “uma mesada a Eduardo” para mantê-lo em silêncio, com a concordância do presidente.

Em que pese o teor pouco republicano daquele encontro entre um empresário investigado e o presidente, no Palácio do Jaburu, tarde da noite e fora da agenda; em que pese o fato de Temer ter ouvido, sem se manifestar, a confissão de Joesley de que tinha dois juízes e um procurador no bolso; em que pese o empresário ter insinuado que precisava de ajuda no Cade e que estava sem interlocutores; em que pese o presidente ter sugerido que Rodrigo Rocha Loures passasse a ser esse interlocutor; em que pese Temer ter concordado que Joesley voltasse ao Jaburu, àquela hora da noite, sem se identificar – em que pesem todos os aspectos escandalosos daquele encontro, o fato é que a frase da mesada não existia.

O que Joesley dizia na gravação era: “Eu estou de bem com o Eduardo.” E o presidente respondia: “Tem que manter isso, viu?” Ao se certificarem da inexistência da frase, assessores de Temer ligaram para o gabinete de Fachin, reclamando que não haviam recebido o áudio solicitado na íntegra, e acusaram o tribunal de estar escondendo gravações. A assessoria do ministro assegurou que não havia mais nada além daquilo. Houve um momento de alívio no Planalto. “Eu disse a vocês que eu não tinha dito isso”, afirmava o presidente, como se falasse para si mesmo. Foi com base nisso que começaram a montar, naquele momento, a estratégia de sua defesa.

A relação de Michel Temer com o clã Batista era próxima e já tinha alguma estrada. Em 2012, como vice de Dilma, Temer compareceu ao faustoso casamento de Joesley com a apresentadora Ticiana Villas Boas. No final do mesmo ano, na condição de presidente em exercício, também estava presente à inauguração da Eldorado Celulose, no Mato Grosso do Sul, que recebera um aporte de 4 bilhões de reais do BNDES, além de recursos dos fundos de pensão e da Caixa, que acabaram investigados pela Greenfield.

Foi Temer, então presidente do PMDB, quem convenceu o mais velho dos três irmãos, José Batista Júnior, o Júnior da Friboi, a migrar em 2013 do PSB de Eduardo Campos para o seu partido a fim de concorrer ao governo de Goiás, em 2014. Depois de vencer a disputa interna do partido contra Íris Rezende, Júnior desistiu da candidatura e acabou apoiando o tucano Marconi Perillo, que foi reeleito. Mas anunciou que pretendia gastar 100 milhões de reais na campanha que não chegou a fazer, além de dizer que não faltariam recursos aos candidatos do partido.

Júnior faria sua campanha calcada na história de superação da família, desde os primórdios da JBS, que começou como um pequeno açougue em Goiás, fundado por seu pai, José Batista Sobrinho, em 1953. O negócio se expandiu na construção de Brasília, quando passou a fornecer carne para as empreiteiras que construíam a nova capital. Júnior, Wesley e Joesley começaram a trabalhar com o pai ainda adolescentes. Deram duro desde sempre e, em 2000, já eram donos de alguns dos mais importantes frigoríficos brasileiros. Foi no governo Lula, no entanto, que o grande salto aconteceu. Júnior convenceu o então presidente a financiar o grupo para se expandir internacionalmente. Lula se entusiasmou e mandou o BNDES abrir o caixa para a JBS.

Nos dias que se seguiram à divulgação da conversa entre Temer e Joesley o mandato do presidente parecia por um fio. A pinguela nunca esteve tão perto de ruir. Logo ficou claro, porém, que a imprensa não reagira às denúncias de forma homogênea. Enquanto o Grupo Globo dobrava a aposta nas denúncias e pisava no acelerador, entusiasmado com o furo histórico de um de seus profissionais, os dois jornais paulistas adotaram tom diverso. Na trincheira do governismo, o Estado de S. Paulo dizia em editorial, já no dia 19, que “este grave momento da vida nacional deverá passar à história como aquele em que a irresponsabilidade e o oportunismo prevaleceram sobre o bom senso e sobre o interesse público”. E arrematava, na melhor retórica do conservadorismo centenário: “Nesse clima de fim de mundo, revoam os urubus.”

O que causou maior impacto, no entanto, foi a chamada no alto da capa da Folha de S.Paulo do dia 20: “Áudio de Joesley entregue à Procuradoria tem cortes, diz perícia.” O perito contratado pelo jornal constatara “edições”, “indícios de manipulação” e “vícios” na gravação, o que desqualificava as provas. Temer se valeu da matéria no novo discurso que proferiu naquele mesmo dia. Citando o jornal, o presidente afirmava, em tom assertivo, que “essa gravação clandestina foi manipulada e adulterada com objetivos nitidamente subterrâneos”. O Grupo Globo, por sua vez, incluindo na artilharia o Jornal Nacional, carro-chefe da casa, questionaria o currículo do perito contratado pela Folha, enumerando inclusive erros elementares que ele cometera na transcrição da conversa.

ombudsman da Folha, Paula Cesarino Costa, trataria deste assunto 40 dias mais tarde, depois da conclusão da Polícia Federal de que não houve edição na gravação da conversa entre Temer e Joesley. “Os peritos do Instituto Nacional de Criminalística identificaram mais de 180 interrupções ‘naturais’ no áudio. A perícia indicou que o equipamento usado pelo empresário da jbs possui um dispositivo que pausa automaticamente a gravação em momentos de silêncio e a retoma quando identifica o som”, escreveu a ombudsman. No mesmo texto, ela identificava uma “rixa” entre Globo Folha no episódio, e concluía dizendo que na percepção de muitos leitores “O Globo foi identificado como antigovernista, e a Folha, como governista, invertendo papéis históricos a que ambos já foram associados”.

O comportamento do Grupo Globo causou estranheza ao Planalto. Assessores de Temer chegaram a dizer, em momentos de maior exaltação, que ele estaria sendo muito mais hostilizado do que Dilma e Lula no auge da crise do impeachment. Mais frio, um conselheiro do presidente lhe sugeriu, numa conversa privada, que adotasse medidas de retaliação contra a emissora. Poderia, por exemplo, incentivar que o Congresso desengavetasse algum projeto que discute a concentração dos meios de comunicação nas mãos de uma mesma família. Temer ouviu, mas não levou a ideia adiante.

Perguntei ao diretor-geral de Jornalismo e Esporte da Globo, Ali Kamel, como ele via as críticas à emissora. Segundo Kamel, a Rede Globo “deu às denúncias contra o governo Temer o mesmo tratamento que deu às denúncias contra os governos Lula e Dilma”. Em seguida acrescentou. “A única diferença é que existe uma fita altamente comprometedora no caso do presidente Temer, o que não havia no caso dos outros dois, fita que geraria um noticiário de grandes proporções em qualquer parte do mundo.” E concluiu. “Se houve alguém que imaginou que haveria algum tipo de proteção ao governo Temer por sua meritória e necessária agenda de reformas econômicas, não conhece jornalismo.”

Apesar da perplexidade geral, no primeiro domingo após a divulgação da conversa no Jaburu não houve manifestações significativas nas ruas. Especulando sobre a tímida mobilização popular, um procurador me disse que talvez os termos do acordo fechado entre a JBS e a PGR tenham desestimulado as pessoas a reagir. Diante das evidências de que os Batista haviam corrompido quase toda a República, não parecia aceitável que eles saíssem impunes da situação. “O acordo foi desequilibrado”, opinou o procurador. “Talvez premido e impressionado pelas provas que estavam sendo apresentadas, o procurador-geral tenha achado que valia a pena, mas isso deixou, na sociedade, a sensação de que basta corromper, guardar as provas e depois apresentá-las para que o investigado saia livre.”

Os Batista contribuíram para difundir essa sensação. Afora o fato de que haviam especulado no mercado financeiro para literalmente faturar com a crise, eles deram, o tempo todo, demonstrações de que haviam se saído por cima na história. Primeiro, foram as imagens do enorme iate de Joesley, com o sugestivo nome Why Not, deixando o porto de Itajaí a bordo de um cargueiro, direto para Miami. Era nesse barco que o empresário costumava levar seus convidados seletos, entre os quais políticos e agentes públicos, em viagens pelo Caribe. Depois foram as viagens para Nova York com a família, para onde os irmãos Batista pretendiam se mudar, como se chegassem ao paraíso.

Reverberada pela imprensa, a reação aos termos do acordo foi tão negativa que, às vésperas de fechar a leniência na Procuradoria-Geral do Distrito Federal, Anselmo Lopes decidiu rever o que já estava acertado. A multa de 1 bilhão, parcelada em dez anos, a ser paga pela J&F, foi elevada pelo procurador para 10 bilhões. Os dois advogados do Trench Rossi Watanabe, Esther Flesch e Marcello Miller, não concordaram e abandonaram o caso. Em lugar deles, assumiu o advogado Pierpaolo Bottini, que fechou a leniência em termos menos favoráveis, nos moldes exigidos pelo MP. (Bottini é aquele que foi flagrado com Janot na mesa de um bar de Brasília, num sábado de setembro, dias depois que as irregularidades envolvendo a delação de Joesley tinham vindo à tona.)

QUARENTA DIAS DEPOIS

No dia 27 de junho, um presidente mais confiante de sua permanência no cargo voltou a falar ao país contra a denúncia que Janot apresentara ao Supremo, pedindo autorização para que a Câmara dos Deputados o investigasse por corrupção passiva. Havia um número expressivo de parlamentares ao redor de Temer, o que o levou a dizer, como boutade, que “se eu fosse o presidente da Câmara dos Deputados, eu faria uma sessão pois temos quórum”. Um de seus auxiliares fez para mim a seguinte comparação: “Em seu primeiro discurso, no dia seguinte à revelação da conversa no Jaburu, havia quarenta deputados e um cadáver. No segundo, eram oitenta parlamentares, e um ressuscitado.”

Temer pesou bem as palavras e dirigiu pesada artilharia contra Marcello Miller e Rodrigo Janot. Disse que a denúncia apresentada por Janot era baseada em “ilações” e, por este motivo, ele também faria uma ilação. Partiu, então para cima de Miller: “Esse procurador da República de nome Marcello Miller, homem da mais estrita confiança do senhor procurador-geral”, deixa um emprego, “abandona o Ministério Público para trabalhar em empresa que faz delação premiada ao procurador-geral”. Miller, insistiu Temer, “garantiu a seu novo patrão um acordo benevolente, uma delação que tira o seu patrão das garras da Justiça, que gera, meus senhores e minhas senhoras, uma impunidade nunca antes vista”.

Depois de chamar Joesley de “senhor grampeador” e “bandido confesso”, o presidente insinuou que Janot se beneficiaria dos honorários que o empresário pagaria a Miller. Por fim, qualificou a peça da procuradoria de “trabalho trôpego” e criticou a “embriaguez da denúncia”. Foi Temer quem fez o marqueteiro Elsinho Mouco acrescentar a palavra “embriaguez” ao discurso. “Eu e o Janot sabemos o porquê”, ironizou.

Após a autorização do Supremo para que a denúncia contra Temer fosse encaminhada à Câmara, a tropa de choque do presidente partiu para o ataque para tentar barrá-la na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania e, depois, no plenário. O jogo foi pesado. No processo, o governo abriu sua caixa de ferramentas e Temer operou com a experiência de quem foi duas vezes presidente da Casa. Primeiro com o porrete, depois com a cenoura. Numa reunião com parlamentares do Partido Progressista, quando um dos deputados se rebelou, o presidente não titubeou. “Faça isso e o próximo a cair será você. Ou você acha que o Janot só quer a minha cabeça?” Em seguida, a tropa entrou em ação liberando emendas para garantir que a Câmara rejeitasse a denúncia.

Convocado pelo presidente desde que a crise eclodira, o advogado Antônio Cláudio Mariz de Oliveira, amigo de longa data de Temer, foi escalado para sua defesa no Congresso. Chegaram a sugerir que, durante sua fala, ele se lembrasse que o deputado do PMDB fluminense Sergio Zveiter já se manifestara contra o presidente, e que seu irmão advogava para a Globo. Mariz evitou a provocação. No dia 13 de julho, a denúncia foi recusada na comissão e seguiu para o plenário.

Encontrei-me com o deputado Miro Teixeira, pelo Rede do Rio de Janeiro, no café, atrás do plenário da Câmara, dia 1º de agosto, véspera da votação contra Temer. Tanto ele quanto seu partido votariam a favor da continuidade da denúncia, mas ele me confirmou o que todos já previam: a proposta seria derrotada. Apontou-me algumas razões. Primeiro, a oposição era pequena; segundo, a denúncia contra o presidente não tinha vindo da Casa, como ocorrera com o impeachment de Collor, ou de uma ação popular, como fora com Dilma, mas sim de um Poder que estava em conflito com o Parlamento. “Quase todos aqui estão envolvidos com denúncias na PGR. Duvido que darão apoio a uma proposição vinda de lá”, especulou.

Além disso, constatou Teixeira com um ar desiludido, “faltou povo na rua pedindo a saída do presidente”. Perguntei por quê. “A desmobilização popular tem um quê de tristeza”, disse. “As pessoas estão mais preocupadas com o desemprego, com os impostos, com a insegurança, com a falta de hospitais e de escola.” No dia seguinte, 2 de agosto, a Câmara rejeitou o prosseguimento da denúncia contra o presidente. Pelo menos daquela vez, o mandato de Temer estava salvo.

Oescritório Trench Rossi Watanabe ocupa dois andares de uma imponente torre de escritórios, no Morumbi, em São Paulo. No hall de entrada, imensas vidraças permitem aos visitantes uma vista ampla da cidade. No dia do discurso em que Temer investiu contra Miller e Janot, as televisões nas salas dos advogados estavam ligadas. A sensação de mal-estar foi geral. Naquele momento, o presidente da República colocava em suspeição todo o trabalho do escritório.

O constrangimento dos sócios com a situação de Miller já vinha desde o começo de junho, quando começaram a pipocar na imprensa notícias de que o procurador, agora na banca privada, poderia ter orientado Joesley a gravar o presidente. Tanto que Miller fora chamado à sucursal do Rio do Trench Rossi Watanabe, instalado em um prédio no Centro da cidade, para prestar esclarecimentos aos advogados da área administrativa. Na ocasião, ele negou qualquer irregularidade, mas, segundo relatos, estava excessivamente nervoso. Ficou-se com a sensação de que, mais de uma vez, esteve próximo de chorar ao ser questionado sobre sua atuação no caso. O comportamento do advogado acendeu a luz amarela no escritório.

Na manhã do dia 28, após o discurso de Temer, Miller foi chamado novamente por seus pares, ao prédio do escritório, no Rio de Janeiro. Ali, numa sala com vista para a Baía de Guanabara, o ex-procurador teve uma crise de choro. Com as mãos na cabeça, perguntava para si mesmo o que seria da sua vida. Repetia que nunca mais conseguiria emprego na vida, alternando momentos de fragilidade com reações de fúria. Afirmou que processaria o presidente da República e disse que nunca fora “braço direito de Janot”, como Temer havia sugerido no discurso.

Miller garantiu que jamais fizera qualquer acerto com o procurador-geral no sentido de dividir honorários com ele. Admitiu, porém, que estivera na casa de Joesley e na sede da JBS antes de deixar a PGR, assim como acertara com Esther Flesch sua ida aos Estados Unidos para tratar com o Departamento de Justiça enquanto procurador. Quando ele se acalmou, os advogados comunicaram sua demissão. Disseram que “não havia a menor condição moral” de mantê-lo no escritório depois daquilo tudo.

Em São Paulo, a situação de Esther Flesch também se complicara. Com a credibilidade do escritório abalada, os sócios pediram ajuda aos fundadores, já aposentados, Carlos Rossi, Kazuo Watanabe e Túlio Coelho (Trench, por questões de saúde não pôde comparecer) para discutir a crise. Interrogaram Flesch, contratada por eles há quase trinta anos. Ela se defendeu jogando toda a culpa em Miller. Não lhe deram crédito e também a demitiram.

A partir daquele momento, a investigação sobre os dois, que começara no início de junho, se acentuou. Os e-mails funcionais de ambos foram vasculhados. Embora não tenha encontrado qualquer referência a honorários pagos a Janot, a investigação interna do escritório descobriu entre mensagens que haviam sido apagadas – e recuperadas posteriormente pelos peritos – que a dupla havia feito um contrato de gaveta com a JBS, pelo qual receberia honorários que não seriam divididos com o escritório. No mercado, comenta-se que o contrato paralelo tinha sido fechado em 27 milhões de reais. O escritório diz desconhecer os valores. Marcello Miller se recusou a falar com a piauí.

110 DIAS DEPOIS

Adelação de Joesley Batista e dos executivos Ricardo Saud e Francisco de Assis e Silva, do grupo J&F, desmoronou oficialmente no dia 4 de setembro, quando Rodrigo Janot convocou uma coletiva inesperada para anunciar a existência de uma nova gravação que poderia levar ao cancelamento dos termos acordados na colaboração feita entre eles e a Procuradoria, meses atrás.

Segundo Janot, havia chegado dias antes às suas mãos áudios “com conteúdo grave, eu diria gravíssimo”, trazendo “indícios, segundo os colaboradores, de conduta em tese criminosa atribuída ao ex-procurador Marcello Miller, que ao longo de três anos foi auxiliar de gabinete do procurador-geral”.

Tratava-se de conversa entre Joesley e Saud registrada em março, na qual os dois executivos deixavam claro que Miller os auxiliava na confecção da proposta de colaboração. A gravação, segundo o procurador, fazia parte de um pacote de documentos, provas e áudios que os delatores deveriam entregar no prazo de 120 dias, a contar da data de homologação do acordo, para embasar seus depoimentos – o chamado recall. Sem a entrega desse material, a Procuradoria poderia acusá-los de ocultação de informação ou de omissões, caso em que a colaboração corria o risco de ser anulada e os benefícios, retirados.

Há pelo menos duas versões a respeito do resgate da conversa entre Joesley e Saud, gravada provavelmente por descuido. Uma delas diz que o áudio entrou inadvertidamente no pacote dorecall, entregue em agosto. A outra, que ele já estava na Procuradoria e foi descoberto pela Polícia Federal no momento em que esta foi chamada a investigar os passos de Miller. Segundo essa versão, a PF já sabia, duas semanas antes, aquilo que Janot trouxe à tona porque não tinha outra alternativa.

A relação da Superintendência da Polícia Federal em Brasília com Janot nunca fora das melhores. O problema se agravou em 2016, quando o procurador-geral questionou no Supremo a possibilidade de a PF celebrar acordos de delação premiada, defendendo que apenas o Ministério Público tenha essa prerrogativa.

Com bom trânsito junto aos delegados federais, o advogado de Temer, Antônio Cláudio Mariz de Oliveira, explorou o orgulho ferido da PF ao longo do processo. Aguçou neles o sentimento de que estavam sendo postos de escanteio, que tinham perdido a importância e o protagonismo, que vinham a reboque da Procuradoria na investigação. Isso teria desafiado os federais a recuperar o conteúdo da conversa entre Joesley e Saud.

De qualquer forma, a reviravolta no caso vinha corroborar o que o escritório Trench Rossi Watanabe já descobrira. Mas não só. A menos de duas semanas do fim de seu mandato à frente da Procuradoria, Janot se fragilizava como nunca.

Eugênio Aragão, ex-ministro da Justiça de Dilma Rousseff, é um dos maiores críticos do colega Rodrigo Janot. Procurador da República aposentado, Aragão avalia que a imensa confusão na delação da JBS ocorreu porque “Janot não tomou as rédeas do processo”. Para ele, embora bem-intencionados, os procuradores de Janot “tinham pouco conhecimento técnico e pouca maturidade”. Foi além: “Janot trocou os pés pelas mãos. Ele deixou a turma dele fazer as coisas sem ter conhecimento”, afirmou. E não isentou o colega. “Ele descumpriu sua missão constitucional. O artigo 128 da Constituição afirma que o procurador é o chefe da investigação, e não uma rainha da Inglaterra”, disse. A relação dos dois complicou-se desde a delação do ex-senador (e ex-petista) Delcídio do Amaral. Aragão nunca perdoou o colega pelos vazamentos de informações que contribuíram para a derrocada de Dilma. Procurado pela piauí, Rodrigo Janot não quis falar à revista.

No dia 8 de setembro, Janot enviou ao STF o pedido de prisão temporária de Joesley Batista, Ricardo Saud e Marcello Miller.

No dia 10 de setembro, o ministro Edson Fachin negou o pedido de prisão de Miller, e autorizou as prisões de Joesley e Saud. Os dois se entregaram na sede da Superintendência da PF em São Paulo no mesmo dia.

No dia 13 de setembro, Wesley Batista, presidente global da JBS, teve sua prisão preventiva (sem data para sair da cadeia) decretada pelo juiz João Batista Gonçalves, da 6ª Vara Criminal Federal de São Paulo. É acusado, nessa investigação, de se beneficiar do impacto da delação com a compra de dólares e a venda de ações da JBS no mercado.

No dia 14 de setembro, Janot rescindiu o acordo de colaboração de Joesley e Saud e solicitou a conversão da prisão temporária em prisão preventiva.

No dia 18 de setembro, Raquel Dodge assumiu o comando da Procuradoria-Geral da República, cargo para o qual havia sido indicada por Michel Temer no final de junho. Desafeto de Janot, Dodge havia ficado em segundo lugar na votação da associação de classe da entidade. Depois de assumir, manteve apenas dois de dez procuradores que investigavam a Lava Jato na administração Janot.

No dia 26, o STF decidiu afastar o senador Aécio Neves do exercício do mandato. Os ministros negaram o pedido de prisão feito pela PGR, mas determinaram que ele permaneça em recolhimento noturno.

No mesmo dia, a segunda denúncia apresentada por Janot contra Michel Temer, acusando-o de obstruir a Justiça e liderar uma organização criminosa, foi lida em sessão extraordinária no plenário da Câmara dos Deputados.

Fonte: Revista Piauí

Juízes que fazem as suas próprias leis

11/12/2016

EROS ROBERTO GRAU

O nascituro é não apenas protegido pela ordem jurídica, sua dignidade humana preexistindo ao fato do nascimento, mas titular de direitos adquiridos

A Constituição do Brasil afirma, em seu artigo 2º, a independência e harmonia entre Legislativo, Executivo e Judiciário, o que supõe que cada um dos Três Poderes se limite a exercer as funções que lhe cabem. Daí que o Judiciário não pode legislar. Essa é uma prerrogativa do Legislativo.

Não obstante seja assim, a invasão da competência do Legislativo pelo Judiciário é, atualmente, alarmante. Passamos a viver não mais sob um Estado de direito, porém submissos a um Estado de juízes. A absurda apropriação, pelo Judiciário, do poder de fazer leis e alterá-las é estarrecedora. Ninguém nega que os juízes devem ser independentes, mas — em uma democracia — hão de ser submissos às leis, garantindo sua aplicação. A Constituição lhes impõe o dever de declarar sua eventual inconstitucionalidade, mas a substituição dos preceitos declarados inconstitucionais por outros incumbe exclusivamente ao Legislativo.

Desafortunadamente, no entanto, juízes de primeira instância — e, sobretudo, os tribunais — em nossos dias seguidamente se apropriam da função de legislar. Glosando uma canção de Roberto Carlos, os juízes de hoje em dia, sem saber o que é Direito, fazem suas próprias leis!

Isto se torna evidente quando nos damos conta, por exemplo, de que o Supremo Tribunal Federal (STF) vem tomando decisões no sentido de descriminalizar o aborto.

O artigo 128 do Código Penal não o pune, se praticado por médico, quando não houver outro meio de salvar a vida da gestante, e se a gravidez resultar de estupro e o aborto for precedido de consentimento da gestante ou, quando incapaz, de seu representante legal. Fora dessas hipóteses, é crime. Isso diz a lei, com todas as letras.

Não obstante, em abril de 2012, o STF declarou, na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 54, a inconstitucionalidade da interpretação segundo a qual a interrupção da gravidez de feto anencéfalo é criminosa. Dizendo-o em outros termos, declarou que, embora a lei estipule que o aborto de anencéfalo é crime, nós (o STF) achamos e decidimos que não é!

Agora vai além. Alegando que a criminalização do aborto no primeiro trimestre de gravidez viola os direitos fundamentais da mulher, descriminalizou-o também. Em outros termos, a interrupção da gravidez até o terceiro mês de gestação deixa de ser crime!

Essa decisão do Supremo consubstancia uma agressão à Constituição, pois ele (o STF) se arroga poder de legislar. Na ADPF 54 acrescentou mais uma hipótese ao artigo 128 do Código Penal — o aborto de anencéfalo — e agora outra mais, a do aborto praticado nos três primeiros meses de gestação.

Ora, o nascituro é não apenas protegido pela ordem jurídica — sua dignidade humana preexistindo ao fato do nascimento —, mas titular de direitos adquiridos. No intervalo entre a concepção e o nascimento, os direitos que se constituíram têm sujeito, apenas não se sabe qual seja. O artigo 2° do Código Civil hoje vigente entre nós afirma, com todas as letras, que “a lei põe a salvo, desde a concepção, os direitos do nascituro”.

Fetos são seres humanos que podem receber doações, figurar em disposições testamentárias e ser adotados, de modo que a frustração da sua existência fora do útero materno merece repulsa. Fazem parte do gênero humano, são parcelas da humanidade. Há, neles, processo vital em curso.

A proteção da sua dignidade é garantida pela Constituição, aborto é destruição da vida, homicídio.

Uma breve história, por fim. Um homem simples, do campo, ouvindo algumas pessoas discutirem em torno de ser ou não perigosa, para a mãe, a interrupção da gravidez no segundo e no terceiro mês de gestação, perguntou-lhes, ingenuamente, se não seria então melhor deixar nascer a criança e matá-la no primeiro momento de vida…

Um horror! Desgraçadamente, hoje em dia, juízes sem preconceitos, sem saberem o que é o Direito, fazem suas próprias leis…

Fonte: O Globo

Excelentíssima Fux

11/04/2016

Como a filha do ministro do STF se tornou desembargadora no Rio

MALU GASPAR

Nas conversas que teve para abrir o caminho da filha rumo ao TJ, Luiz Fux dizia: “É o sonho dela.”

“Eu não me sinto confortável”, disse a desembargadora Marianna Fux, entre sorrisos constrangidos, na sessão de uma das câmaras especializadas em direito do consumidor do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Era a sua vez de votar, mas Fux, novata na corte, estava insegura. “Acho que vou pedir vistas”, disse aos colegas, longe do microfone.

Tratava-se do caso de uma senhora cega que pedia indenização de uma instituição de ensino por não ter conseguido fazer o vestibular para o curso de direito. Segundo ela, não havia na faculdade esquema para deficientes visuais. Os funcionários teriam prometido realizar outra prova especial para ela em nova data, nunca marcada. Mas a idosa já perdera a ação na primeira instância, e a apelação agora em julgamento estava para ser rejeitada.

Lendo seu voto, a relatora sustentava que a faculdade não poderia ser responsabilizada pelo dano porque a candidata desistira voluntariamente do concurso. Ao notar a indecisão da nova colega, abandonou a leitura e passou a explicar, de maneira mais informal, o raciocínio que percorrera para chegar à conclusão. Fux ouvia tudo com atenção. Ao final, tomou coragem: “Acompanho a relatora.”

Ao longo de quatro horas, naquela manhã de março, os desembargadores da 25ª Câmara Cível despacharam 170 processos. Foi a segunda sessão de trabalho de Marianna Fux depois de empossada. Não relatou nem revisou nenhum caso, mas se manteve atenta, ora com os olhos vidrados na tela do computador, lendo os processos, ora distribuindo sorrisos e balinhas. Foi acolhida com simpatia pelos colegas, que lhe davam dicas e a avisavam para prestar atenção quando o julgamento demandasse a adoção de alguma nova regra do Código de Processo Civil, reformulado recentemente sob o comando do pai da desembargadora, o ministro do Supremo Tribunal Federal Luiz Fux.

O clima amigável na corte fluminense contrasta radicalmente com a controvérsia que cercou o nome de Marianna Fux desde o início de 2013, quando seu pai começou a comunicar as autoridades de que a filha se candidataria a uma das vagas reservadas para os advogados no TJ. Por lei, um quinto dos desembargadores deve ser escolhido entre profissionais do direito, num processo conduzido pela Ordem dos Advogados do Brasil, a OAB. Cabe à Ordem apresentar uma lista de seis nomes, que em seguida os desembargadores reduzem a três, em votação no TJ. A escolha final é do governador do estado, que nomeia um dos três mais votados.

O primeiro a ser informado de que Fux pretendia colocar a filha no tribunal foi o então governador Sérgio Cabral, ele mesmo um cabo eleitoral de Fux-pai em sua disputa pela cadeira no Supremo, em 2011. A Cabral, Fux justificou sua decisão: “Eu não tenho nada para deixar para ela.” Pouco depois, o próprio governador daria a notícia ao então presidente da OAB, Wadih Damous. “O Cabral avisou: ‘Vai cair esse abacaxi no colo de vocês’”, lembrou Damous.

Casado com uma advogada, Cabral sabia que a escolha de Fux-filha provocaria reações no meio jurídico. A vaga no TJ, com salário-base de 30 400 reais (quase o teto do funcionalismo público), mordomias como motorista, auxílio-moradia e benefícios que não raro elevam os rendimentos para mais de 60 mil reais, é ferozmente disputada entre os advogados, que exibem os currículos em campanhas aguerridas e repletas de conchavos. A atuação de um ministro do Supremo certamente desequilibraria o jogo a favor da filha, então uma profissional de 32 anos que pouca gente conhecia.

Dali em diante, todos os passos de Fux-pai e Fux-filha passaram a ser encarados como parte de uma campanha. Por exemplo, o casamento de Marianna com o colega Hercílio Binato, filho de um desembargador, em outubro de 2013. A festa para mil convidados, no Museu de Arte Moderna do Rio, foi uma demonstração de amor paternal. Diante de uma plateia formada por ministros do Supremo, desembargadores, juízes e advogados das mais prestigiadas bancas, o pai da noiva subiu ao palco e cantou uma música feita em parceria com o compositor Michael Sullivan. Flor Marianna, o amor me chama e Flor do amor é Marianna, diziam alguns versos.

Meses depois, em maio de 2014, Fux recebeu desembargadores, ministros de cortes superiores e o governador Luiz Fernando Pezão em um almoço na serra de Petrópolis. Vários convidados chegaram de helicóptero. Por essa época, multiplicaram-se os relatos de telefonemas de Fux a bancas e gabinetes de magistrados e políticos pedindo apoio para a filha. Era, segundo diziam alguns deles, “um campanhão” de porte inédito para uma vaga no TJ.

A piauí conversou com quatro advogados que receberam ligações do ministro do Supremo em 2014. Nas conversas, Fux tratava o caso como questão pessoal, sempre emendando ao pedido frases como “É o sonho dela” ou “É tudo o que posso deixar para ela”. Chegou a mencionar o assalto sofrido pela família em 2003, quando ele e os filhos foram agredidos, amarrados e feitos reféns por bandidos no prédio onde moravam. Segundo Fux, a vaga no TJ seria uma forma de compensar o trauma da filha.

Um dos que receberam uma ligação de Fux foi Wadih Damous, que já havia deixado a presidência da OAB e estava em campanha para deputado federal pelo PT. “Expliquei que não estava mais na OAB, mas ele ponderou que eu ainda exercia liderança sobre os conselheiros e disse que precisava da minha ajuda. Falei que não só não me meteria no assunto, como, se pudesse, não votaria na filha dele.”

Juiz desde 1983, ex-desembargador e ex-ministro do Superior Tribunal de Justiça, a segunda corte mais importante do país depois do STF, Luiz Fux é o carioca mais poderoso do mundo do direito. Estão sob sua guarda processos-chave para o Rio e para os magistrados – como a ação que contesta a validade dos auxílios salariais que permitem a 90% dos atuais colegas de Marianna Fux ganhar bem mais do que o teto do funcionalismo público. Em 2012, o então ministro Carlos Ayres Britto julgou inconstitucionais os auxílios e mandou extingui-los, mas Fux pediu vistas e suspendeu a decisão. Até hoje o processo está bem guardado no fundo de sua gaveta no STF – e os auxílios continuam pingando na conta-corrente dos magistrados.

Também em 2012, Fux impediu, por meio de liminar, a votação no Congresso que daria aos estados não produtores de petróleo uma fatia dos royalties, o que prejudicaria imensamente o Rio de Janeiro (até hoje a questão não foi decidida, mas agora está nas mãos da ministra Cármen Lúcia). É Fux, ainda, quem vai julgar o candidato do PMDB à Prefeitura do Rio, o deputado federal Pedro Paulo, acusado de bater na ex-mulher. No Supremo, mais de 5 mil processos esperam uma canetada sua. “Praticamente todo advogado carioca tem algum caso que depende do Fux”, observa um deles.

Guitarrista e faixa preta de jiu-jítsu, o ministro foi um professor popular na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, UERJ. Oferecia churrascos aos alunos e fazia sucesso entre as moças, que o apelidaram de Julio Iglesias, numa referência à cabeleira negra. Sempre bem colocado nos concursos, era liderança natural entre os juízes.

Depois da posse no STF, destacou-se também pela forma como exerce o poder. Nos primeiros meses de 2014, ofereceu-se para fazer parte da banca de doutorado do maior opositor de sua filha na OAB, o vice-presidente Ronaldo Cramer. A tese de Cramer será avaliada agora, em 14 de abril – e Fux integrará a banca. “Antes ele era querido. Hoje, é temido”, resumiu, entre reiterados pedidos de anonimato, um dos advogados a quem Fux procurou em seu “campanhão”.

A oposição à filha de Fux ganhou força assim que foram feitas as inscrições para a vaga. Alguns candidatos – Marianna Fux entre eles – apresentaram documentos insuficientes, e a OAB estendeu o prazo para que providenciassem a papelada. Tais documentos precisavam provar que o pretendente tinha no mínimo dez anos de experiência, apresentando pelo menos cinco petições, pareceres ou relatórios por ano de exercício da profissão. Fux-filha havia entregue apenas uma carta do prestigiado advogado Sergio Bermudes – amigo de seu pai há décadas –, segundo a qual ela realizava consultoria e assessoria em seu escritório desde 2003. Naquela época, questionado sobre a natureza do trabalho, Bermudes disse que a pupila se ocupava de processos sigilosos, e que por isso não haviam sido declarados no pacote da candidatura.

Já em março passado, ele me disse, por telefone, que a principal ocupação da advogada no escritório era a pesquisa. Bermudes informou que a convidara para estagiar porque a conhecia desde os 3 anos de idade. Mas atalhou: “Quando assumo um estagiário, digo uma frase clichê: Não importa o motivo pelo qual você chegou aqui. Para ficar, tem de ter mérito.” Perguntei então qual havia sido o mérito dela. Bermudes começou a gritar: “Você está querendo esculhambar a Marianna! Você está sendo desonesta!!” E desligou o telefone sem se despedir.

Findo o prazo para a complementação dos documentos, Marianna Fux não havia apresentado trabalhos suficientes para os anos de 2007, 2008, 2009, 2010, 2012 e 2014. Um grupo de 28 conselheiros da OAB pediu a impugnação de sua candidatura, e a celeuma se tornou objeto de notas e reportagens em jornais e revistas. Fux-pai visitou algumas redações. Dizia que a oposição à filha nada mais era do que uma represália do grupo do petista Wadih Damous pelo voto que ele proferira no caso do mensalão, condenando vários quadros do PT. Damous nega que tenha interferido na disputa da OAB.

O clima entre os advogados fluminenses ficou tão tenso que a OAB suspendeu a disputa pela vaga no TJ em agosto de 2014. Na ocasião, o presidente da entidade, Felipe Santa Cruz, disse que pretendia transformar o processo em eleição direta entre os 150 mil advogados do Rio. O projeto das eleições não andou, mas, em fevereiro passado, a seleção para a vaga no TJ foi retomada. Desta vez, num contexto totalmente diferente.

As atenções na OAB estavam voltadas para o impasse em torno do impeachment de Dilma Rousseff, e metade do corpo de conselheiros havia sido renovada. Convocou-se a sessão com apenas dois dias de antecedência – prazo atípico para a situação. O presidente da OAB alegou ter sido necessário acelerar o processo porque o tribunal ameaçava preencher a vaga por conta própria. Em cinco horas, o pedido de impugnação de Marianna Fux foi julgado e descartado. Os candidatos presentes foram sabatinados e a votação foi realizada.

Na sabatina, coube a Marianna responder, por sorteio, à seguinte pergunta: Quem deveria pagar pelos custos das salas dos advogados nos tribunais? Ela recitou: “Pela vez primeira, a Constituição brasileira destinou um capítulo próprio para a advocacia, considerando o advogado essencial à prestação jurisdicional. Sendo assim, entendo que cabe aos tribunais esse encargo.”

Apesar de sete conselheiros terem votado nulo em protesto contra a candidatura de Marianna, ela foi a segunda colocada da lista sêxtupla encaminhada ao tribunal. Teve cinquenta votos. Desses, 29 foram dados por conselheiros novos – um dos quais, inclusive, só votou na filha de Fux. Ao final da sessão, a quase desembargadora desabafou à Folha de S. Paulo: “Foram dois anos e meio de perseguição política, de bullying. Esse aqui é um processo político, mas passei por esta fase. Vamos para a próxima.” (Filha e pai foram procurados pela piauí, mas recusaram-se a dar entrevista.)

No dia 7 de março, os seis nomes da oab foram à votação no Tribunal de Justiça. Grande amigo de Fux-pai, o ex-presidente do tribunal, Luiz Zveiter, defendeu o voto em Fux-filha e em outros dois candidatos. Também entre os magistrados havia quem não apoiasse os Fux – em protesto, 25 faltaram à sessão. O desembargador Siro Darlan, amigo de Luiz Fux há cinquenta anos, compareceu, mas não apoiou a moça. “Tenho o maior carinho por Fux, que é brilhante e honra a nossa carreira. Mas, se eu fosse ele, faria com que meus filhos seguissem o meu exemplo. Trata-se de um cargo republicano. Não é algo que se possa dar a alguém, como um presente.”

O mal-estar, porém, não abalou o triunfo dos Fux. Marianna teve a maior votação da história do tribunal para um candidato a desembargador. Poucas horas depois, a nomeação pelo governador Luiz Fernando Pezão estava no Diário Oficial do estado. Em duas semanas, um grupo de deputados estaduais aprovou na Assembleia Legislativa a proposta de conceder à desembargadora a mais alta comenda do Parlamento fluminense, a Medalha Tiradentes – por sua “enorme contribuição ao nosso estado, através de seu talento e capacidade jurídica”.

Entre a nomeação e a homenagem da Assembleia, Luiz Fux esteve no centro de um almoço regado a vinhos no restaurante Antiquarius, no Leblon, que adentrou a tarde de sexta-feira. Um dos comensais era Zveiter, que logo ao chegar deixou claro o motivo da comemoração: “Aí está o pai da desembargadora!” Recebeu de volta um carinhoso abraço.

Fonte: Revista Piauí

Lava Jato já recuperou mais de R$ 4 bi, diz Janot

16/03/2016

Daniela Fernandes
De Paris para a BBC Brasil

A operação Lava Jato, que investiga o escândalo de corrupção na Petrobras, permitiu recuperar até o momento 1 bilhão de euros (cerca de R$ 4,2 bilhões), sendo que 200 milhões de euros (R$ 840 milhões) já foram repatriados por meio de acordos de colaboração internacional, disse nesta quarta-feira, em Paris, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot.

Os números foram mencionados por Janot em uma reunião ministerial na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) que discutiu o combate ao suborno em negócios internacionais.

O Ministério Público Federal (MPF) já pediu indenizações no valor de 5,5 bilhões de euros (cerca de R$ 21 bilhões) em processos civis por improbidade administrativa contra 34 pessoas físicas e 16 jurídicas no âmbito da Lava Jato, segundo o procurador-geral.

O valor de 1 bilhão de euros “recuperados” inclui valores bloqueados em contas por autoridades judiciais.

No evento na OCDE, com procuradores-gerais e secretários de Justiça de vários países, Janot se referiu à Lava Jato, iniciada em 2014, como a “maior investigação sobre corrupção e lavagem da dinheiro da história do Brasil.”

De acordo com Janot, a investigação, que envolve 200 acusados, já resultou em 137 prisões e 600 operações de busca e apreensão.

Dilma

O procurador-geral não quis, no entanto, comentar em Paris os desdobramentos recentes na Lava Jato. Ele apenas declarou que investigações podem ser abertas contra qualquer um dos políticos citados pelo senador Delcídio do Amaral em sua delação premiada, o que inclui a presidente Dilma Rousseff, e que ninguém estaria acima da lei.

“Temos um material que estamos examinando. Se houver indício, vamos abrir investigação, independentemente de quem seja”, declarou Janot, afirmando se referir à delação do senador Delcídio, mas também a outras.

“Em uma República, ninguém tem privilégio nem tratamento diferenciado.Todos são iguais”, afirmou Janot ao ser questionado se estava se referindo também à presidente Dilma.

Delcídio Amaral acusou Dilma e Lula de tentarem interferir na Lava Jato

A delação de Delcídio cita também denúncias contra o ex-presidente Lula (recém-confirmado como ministro da Casa Civil), o ministro da Educação Aloizio Mercadante, o vice-presidente Michel Temer e o senador Aécio Neves (PSDB-MG), entre outros.

Janot afirmou ainda que “teoricamente é possível” que o publicitário Marcos Valério, condenado pelo escândalo do mensalão, faça uma delação premiada.

“A lei não proíbe que haja cooperação após a condenação”, disse o procurador-geral. A defesa de Marcos Valério afirma que o publicitário planejaria colaborar com as investigações da Lava Jato.

Janot também não quis comentar o fato de Lula ter se tornado ministro. “Isso é problema dele, não meu”, disse Janot, que preferiu dizer que “não sabia” se a obtenção de foro privilegiado tornaria a situação de Lula mais fácil.

A reunião da qual Janot participou em Paris era de âmbito ministerial e debatia o combate a subornos em negócios internacionais.

O Brasil aderiu em 2000 à Convenção da OCDE sobre Corrupção de Funcionários Públicos Estrangeiros em Transações Comerciais Internacionais.

Segundo Janot, os ministérios públicos do Brasil e da Suíça estão trabalhando para criar uma equipe conjunta de investigação, a primeira desse tipo firmada com um país europeu.

“As discussões com a Suíça já estão avançadas”, disse Janot, acrescentando que uma equipe conjunta de investigações também deve ser criada com a Itália.

Fonte: BBC Brasil

Delegados da PF pressionam Cardozo contra corte

29/12/2015

Vinculada ao Ministério da Justiça, Polícia Federal sofreu corte de R$ 133 milhões no orçamento do ano que vem

Irritados com o corte de 133 milhões de reais no Orçamento de 2016, os delegados da Polícia Federal decidiram pressionar o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, para que tome uma atitude em defesa da corporação – que é vinculada à pasta. Em carta protocolada nesta segunda-feira, um grupo de 37 delegados da PF cobra de Cardozo “menos discursos e mais ações efetivas do Ministério da Justiça em defesa da Polícia Federal”.

Eles querem a realização de “todos os atos institucionais necessários para impedir que a Polícia Federal seja alvo de um processo de sucateamento em razão do cumprimento da sua competência constitucional: combater o crime organizado, os crimes decorrentes dos desmandos políticos e econômicos e a corrupção”.

“Caso Vossa Excelência reconheça a sua impossibilidade política em defender a Polícia Federal, os delegados exigem, então, que apoie e se engaje, ao lado da instituição, na busca pela autonomia orçamentária e financeira da Polícia Federal, por meio de gestões para a aprovação da PEC 412/2009, que tramita no Congresso Nacional, a qual garantirá a desvinculação da Polícia Federal do manto do Ministério da Justiça e que permitirá à instituição Polícia Federal se defender por seus próprios meios contra o processo de desmonte que a ela está sendo imposto”, escreveram os delegados.

O orçamento previsto inicialmente para a corporação atingia 1 bilhão de reais. O corte de 13%, no entanto, imposto pelo Congresso, atingiu o coração das atividades, como operações especiais de combate a malfeitos contra o Tesouro, segundo eles.

A carta a Cardozo é subscrita pelo presidente da Associação Nacional dos Delegados da PF, Carlos Eduardo Miguel Sobral, e por todo o Conselho de Diretores Regionais da entidade. “Uma redução orçamentária dessa monta importará, necessariamente, na drástica diminuição das ações investigativas da Polícia Federal no ano que se aproxima, pois contratos celebrados para garantir o seu regular funcionamento serão suspensos ou cancelados e projetos que visam ao seu aprimoramento serão completamente abandonados, por absoluta falta de recursos”, alegam os delegados.

“A despeito dos fatos e constatações, os delegados não têm observado a atuação de Vossa Excelência, na qualidade de titular da pasta ministerial, a qual se vincula à instituição, no sentido de denunciar e enfrentar esse claro desmonte do órgão.”

Os delegados reclamam que Cardozo não reagiu ao corte imposto pelo Congresso. “Estamos todos bastante incomodados porque os discursos [do governo] são todos de apoio à PF, mas quando os delegados olham para os lados veem uma instituição que se apequena, com redução grave de projetos fundamentais para o cumprimento da nossa missão”, afirma Carlos Eduardo Sobral.

Por meio de sua assessoria de imprensa, o ministro da Justiça informou que vai encaminhar uma carta à Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal “demonstrando que não há desmonte, mas o fortalecimento da Polícia Federal como toda a sociedade brasileira sabe”. A assessoria destacou que a resposta de Cardozo “será dada igualmente por carta”.

Fonte: Veja

O Sujeito oculto

07/12/2015

LUIZ MAKLOUF CARVALHO

Como as agências de comunicação cultivam relações com jornalistas, fazem o lobby dos governos e da iniciativa privada, e influenciam o que é publicado na imprensa

“Alô, de onde fala?”

“Da FSB.”

“Faca, sapo, bola?”

“Não. Francisco Soares Brandão.”

FSB é um senhor baixinho e grisalho de 66 anos, expressão ranzinza e óculos redondos de aro vermelho que lhe conferem um ar de publicitário dos anos 80. Sentado à cabeceira de uma grande mesa de reuniões, não achou graça ao ouvir do repórter a menção ao telefonema do “faca, sapo, bola”. Limitou-se a explicar que, diante de perguntas do gênero, as telefonistas são orientadas a responder com o seu nome. “Na FSB, tudo tem orientação”, disse o dono das consoantes. “Eu sou um sujeito obsessivo com a organização, não teria feito esse negócio se não fosse.”

“Esse negócio”, que este ano completa 35 anos, é a maior agência de comunicação do Brasil. Tem cerca de 700 funcionários e 200 clientes, entre os quais meia dúzia de ministérios, estatais como a Petrobras, os governos estadual e municipal do Rio, além de algumas outras prefeituras, como a de Campinas, e dezenas de grandes empresas do setor privado. Sua sede de 1 200 metros quadrados fica em Ipanema, na Zona Sul do Rio de Janeiro, a duas quadras da praia. Tem filiais em São Paulo e Brasília (a de Belo Horizonte irá fechar no final do ano), além de um escritório em Nova York. Faturou declarados 201 milhões de reais no ano passado – mais da metade no setor público –, um crescimento de 25% em relação a 2013. Neste atrapalhado 2015, estima crescer uns 15%.

Visto por baixo da longa mesa de doze lugares, Francisco, Chico ou Chiquinho Brandão – houve até reunião interna para resolver quem poderia chamá-lo de quê – tem pernas curtas, que não encostam no chão e não param de se movimentar – a esquerda menos, por causa de um grave acidente. O tênis se destaca. É o tipo de calçado que mais usa, às vezes um sapatênis. Em seu escritório carioca, costuma trabalhar de bermuda (gosta das floridas) e camisa polo. É com esses trajes despojados que recebe clientes graúdos em casa, nos jantares que promove com regularidade. Concede vestir blazer e calça jeans em ocasiões especiais, em reuniões com autoridades.

Nosso encontro, o único que Francisco Brandão permitiu para esta reportagem, aconteceu em junho, cercado de cuidados e formalidades. O patrão estava rodeado por sete executivos da FSB, convocados para a ocasião, numa sala de um dos quatro andares que a empresa ocupava até recentemente num edifício no Itaim Bibi, em São Paulo. Por acaso, o mesmo endereço onde o vice-presidente da República, Michel Temer, mantém, há anos, seu escritório de advocacia, alguns andares acima. A coincidência rendeu um comentário jocoso para quebrar o gelo da comitiva: “Mais uma prova de que a FSB está sempre perto do poder.” Brandão apenas sorriu, algo desconcertado. “Precisa frisar que ele não é nosso cliente”, disse um diretor. “Quem dera que fosse”, brincou outro.

Desde meados de novembro, a FSB ficou mais longe de Temer. Seu escritório paulistano mudou-se do Itaim para a Vila Nova Conceição, na avenida Presidente Juscelino Kubitschek. “Saímos de 900 metros quadrados para uma área de 2 014 metros quadrados abrangendo dois andares interligados, em um ambiente confortável e moderno de trabalho, projetado para facilitar o relacionamento com vocês”, dizia o e-mail que Brandão dirigiu a “clientes e amigos”. Sob o título “expansão em São Paulo”, o mesmo e-mail registra que a empresa havia desembarcado na cidade em 1995, alojada em “uma sala de 40 metros quadrados”.

As agências de comunicação, ou de public relations (PR), como a FSB Comunicações, são uma versão anabolizada – e muito mais sofisticada desde que a internet mudou o mundo – das antigas assessorias de imprensa. Começaram a tomar corpo nos anos 90 e tiveram um crescimento exponencial na última década. Estima-se que hoje sejam 600 empresas no país – de todo porte. Segundo a Mega Brasil, que publica o Anuário da Comunicação Corporativa, referência do setor, o faturamento global, no ano passado, foi de 2,3 bilhões de reais, um crescimento da ordem de 20% em relação a 2013.

Primeira do ranking, a FSB faturou 100 milhões de reais a mais que a segunda colocada, a Companhia de Notícias (CDN), criada por João Batista Rodarte, que se associou ao Grupo ABC, de Nizan Guanaes. A terceira e a quarta posições do ranking são encabeçadas por duas mulheres: Kiki Moretti, da In Press Porter Novelli (101 milhões de reais), e Maristela Mafei, da Máquina da Notícia (68 milhões de reais).

Engalfinham-se – as quatro primeiras, e mais a Informe Comunicação, de Rebeca Scatrut, mulher do jornalista Ricardo Noblat –, sobretudo em torno das licitações do setor público: todas contra a FSB, esta contra todas, e cada uma contra cada qual, numa briga de foice às vezes no escuro. Como disse Carlos Henrique Carvalho, o presidente da Associação Brasileira das Agências de Comunicação, que as representa: “É uma entidade de concorrentes. Ninguém está lutando pela paz universal, nem fazendo benemerência.” Sim, mas acordos e acertos também existem. Um exemplo, recente, foi o silêncio das quatro quando a FSB aterrissou de paraquedas na Petrobras, convocada para socorrer a gestão de Aldemir Bendine.

Se o êxito das campeãs do mercado no Brasil está ligado ao acesso que tiveram e têm a contas de governos e estatais (fato que vale sobretudo para a FSB e a CDN), o modo de operar dessas agências também deve muito ao recrutamento de quadros formados nas grandes redações que resolveram cruzar o rio – ou bandear para “o lado de lá”, como costumam dizer, com algum desdém, os jornalistas ainda entrincheirados no front da notícia. Desde meados da última década, as empresas de assessoria contratam sistematicamente, muitas vezes a peso de ouro, profissionais que levam consigo o know-how desenvolvido dentro dos jornais para investigar o poder, passando a operar esse conhecimento com sinais invertidos: como instrumento de proteção e promoção de clientes em geral poderosos, sejam eles públicos ou privados – ou atuem na intersecção das duas esferas. Se o clichê de que a imprensa representa o Quarto Poder tem alguma substância, é preciso acrescentar que hoje ele está esvaziado, não apenas porque a internet democratizou de maneira selvagem o mercado de notícias, mas pela emergência de um Quinto Poder cada vez mais rico e aparelhado, encarnado pelas agências de comunicação.

O portfólio de serviços que oferecem é variado. Desenvolver “relações com a mídia” é o prato principal, em geral acompanhado da “gestão de crise”, em alta no país. A eles se somam ofertas de “relações com públicos de interesse” (osstakeholders), “mapeamento e varredura das redes sociais”, “produção de conteúdo”, “análise de mídia”, “marketing digital”, “pesquisa de opinião pública” e “relações com investidores”.

As PRs estão por toda parte: na Secretaria de Comunicação da Presidência da República, em dezoito outros ministérios (inclusive o da Defesa), no Banco Central, em estatais, no Conselho Nacional de Justiça, no Tribunal de Contas da União, em governos e prefeituras, em CPIs, na Lava Jato, nas empreiteiras, nas multinacionais, na mídia, nas entidades de classe, nas associações profissionais.

Conflitos de interesse pululam no meio. A FSB, por exemplo, tem a conta do Ministério da Saúde, da Souza Cruz e dos laboratórios Glaxo e Roche. Atendeu ao mesmo tempo o Governo do Estado do Rio e o empresário Fernando Cavendish. Cuida dos interesses da ANP, a Agência Nacional do Petróleo, e de algumas empresas privadas do setor. Está na Petrobras e em empreiteiras envolvidas na Lava Jato.

É o caso da Camargo Correa e da Andrade Gutierrez. Ambas as construtoras empenharam esforços para questionar a legalidade dos inquéritos da Polícia Federal, bem como a atuação do Ministério Público e do juiz Sergio Moro. No começo da noite de 12 de maio, chegou a jornais de São Paulo, pela voz de um assessor da FSB, a informação de que havia um grampo telefônico ilegal na cela do doleiro Alberto Youssef, um dos principais delatores da operação. O assessor encaminhou, por e-mail, uma cópia do termo de depoimento do autor do grampo, o agente da PF Dalmey Fernando Werlang. Alguns jornais publicaram a informação, sem mencionar a fonte. O Valor Econômico registrou que o depoimento “foi enviado ontem à noite a redações de jornais de São Paulo por assessoria contratada por réus em ações penais da Lava Jato”. O jornal sabia que se tratava da FSB, mas, nas duas reportagens sobre o caso, optou por não publicar essa informação.

O mesmo depoimento também foi capa da revista Veja de 20 de maio: “GRAMPO – sabotagem ou negligência. Entenda as forças em jogo que podem minar o trabalho anticorrupção do juiz Moro.” O nome da FSB também não aparece.

Na outra ponta da Lava Jato está a maior estatal do país, também cliente da FSB. Passou a ser atendida quando Aldemir Bendine assumiu a presidência da empresa, no começo do ano. Firmaram um contrato de 1,5 milhão de reais, por seis meses de trabalho, sem licitação. Bendine já conhecia a agência dos tempos em que presidia o Banco do Brasil. À época, a FSB atendia o Banco Votorantim, do qual o bb é o maior acionista.

A Petrobras já tinha (e tem) três agências sob contrato – S2Publicom (7 milhões de reais), Máquina da Notícia (1,9 milhão de reais) e H+K Strategies (1,1 milhão de reais) –, todas por meio de licitações. “No caso da FSB, tratou-se de contratação direta por emergência, em função da Comissão Parlamentar de Inquérito em curso na Câmara dos Deputados, que representava risco emergencial de imagem à Petrobras”, explicou a assessoria de imprensa da estatal. E por que a FSB, se outras agências do setor também têm expertise em acompanhamento de CPIs? “Considerando que não havia tempo hábil para um processo licitatório, o parecer da área jurídica foi favorável à contratação direta por emergência”, disse a assessoria. E este parecer? “O parecer é um documento interno da Petrobras”, foi a resposta. A CPI da Petrobras foi encerrada em outubro. Mas a estatal firmou um novo contrato com a FSB, com validade de três meses. A justificativa: as consequências da CPI e da Operação Lava Jato estão longe do fim.

“O incansável, indomável e indestronável Chiquinho Brandão.” É assim que uma nota de revista, nos idos de 1986, se refere ao dono da FSB, atual nome da Promoshow, empresa fundada em 1980. Funcionava em uma sala anexa do Copacabana Palace. Seus clientes eram a Chandon (do champanhe), o banco Chase Manhattan, a construtora Gomes de Almeida Fernandes, o empresário Antônio Carlos de Almeida Braga (o Braguinha), e promotores de eventos sociais e esportivos que agitavam a sociedade carioca. Brandão também contava, desde jovem, com a amizade de João Roberto Marinho, das Organizações Globo.

Na sala de reuniões de seu escritório no Itaim, ao ouvir os qualificativos da nota remota, Brandão comentou, surpreso: “Que esquisito. O papel aceita tudo.” Parecia não se lembrar. A nota, no entanto, constava da linha do tempo do relatório anual da FSB do ano passado, peça institucional que a empresa distribui entre colegas e clientes para prestar conta de suas atividades e promover seus êxitos. Ilustrada por uma foto – em que o retratado segura, na mão direita, uma garrafa de champanhe –, a nota o descrevia como “comandante de uma equipe que mantém contato, íntimo e diário, com os mais diversos setores do jornalismo”. Vinha então o complemento: “A FSB penetra notas nas áreas econômica, social, política e esportiva, garantindo, muitas vezes, absoluta exclusividade para os jornalistas que as publicam.”

O verbo de sentido equívoco provocou sonora gargalhada dos sete executivos que acompanhavam Brandão na entrevista – com exceção de Marcos Trindade, o número 2 da empresa, os outros seis (Flávio Castro, Tom Camargo, Melchiades Filho, Gabriela Wolthers, Alon Feuerwerker e Marcelo Xavier de Mendonça) eram todos profissionais com larga experiência nas redações, com passagem por veículos como Gazeta Mercantil, Estadão, Rede Globo e Folha de S.Paulo. Na presença do grupo, o chefe encabulou-se e riu pouco. “Acho que foi uma revista feita por um amigo meu”, comentou. “A receptividade de uma empresa de assessoria depende justamente da cumplicidade entre esta e os editores, colunistas e repórteres. É primordial a qualidade e a exclusividade da notícia”, disse na ocasião ao amigo da revista. Hoje, lá se vão quase trinta anos, no mesmo relatório anual, lê-se: “A FSB domina o conjunto de atividades de relacionamento com a mídia” e “desenvolve interface com as áreas de opinião dos jornais.”

Como assim? Trindade se ajeitou na poltrona e arriscou uma explicação: “Você está sugerindo que a gente está influenciando e penetrando a mídia, porque a maior parte do que está saindo é a gente que está pautando. Mas não é isso. A mídia tem independência total. Até pelo seguinte: se a gente tivesse esse poder, a FSB estava faturando muito mais do que isso aí, você pode ter certeza.”

Marcos Trindade cruzou o caminho de Brandão em 1992. Era o sexto ano da ainda pequena, mas desde sempre aguerrida FSB – duas salas, no mesmo endereço de Ipanema, onde hoje ocupam dezenas. Não chegava a vinte clientes. Brandão botou umheadhunter atrás de um bom contador. “Na época o negócio era pequeno, mal existia no Brasil, o pessoal nem entendia como é que funcionava”, disse o empreendedor. Trindade foi o último dos quatros candidatos a ser entrevistado. Conquistou a vaga. Tinha 30 anos, uma pequena empresa que negociava ações da Bolsa e um cargo executivo numa empresa de computadores, além de uma renhida fé evangélica (persistente até hoje, o que o faz guardar os sábados, faça chuva ou faça sol).

“Vi que ele era uma pessoa boa”, disse Brandão. Trindade retribuiu: “O Francisco era uma pessoa que afinava com valores, que falava as coisas pela frente, não mandava recado, não dormia com problema, e era extremamente exigente. Durante doze anos nós trabalhamos mesa com mesa, lado a lado.” Trindade tornou-se o grande operador da FSB – discretíssimo, mas implacável na conquista do que interessa: as contas dos clientes. Foi ele quem convenceu Brandão a disputar o filão do setor público – que hoje responde por mais da metade do faturamento da FSB, embora o setor privado represente cerca de 90% da carteira de clientes da empresa. Trindade virou sócio, e já é o sucessor declarado – se um dia Brandão se ausentar.

Perguntei ao segundo na hierarquia da FSB se era justa a imagem que alguém havia empregado para defini-lo: um sujeito que vê uma nota de um dólar espetada num pau de sebo de 100 metros de altura e vai lá buscar. “Eu vou responder por ele, eu vou responder por ele”, antecipou-se Brandão. “O Marcos está comigo há pouco mais de vinte anos, o Marcos é como se fosse meu irmão. O Marcos trabalha de sol a sol, o Marcos disputa de uma forma correta, o Marcos é uma pessoa religiosa, o Marcos é um homem sério, o Marcos não vai fazer isso, te juro, eu o conheço bem.” Comovido com as palavras do amigo, Trindade complementou: “Na vida eu aprendi a não fazer nada por dinheiro. Dinheiro sempre foi uma consequência.” “Consequência de um bom trabalho”, emendou Brandão, como num jogral, antes que Trindade arrematasse: “A FSB cresceu em Brasília. Dez anos atrás, um sócio nosso disse que a gente devia fechar lá, porque não tinha nada, só uma secretária e uma salinha. E na realidade foi o Chico e eu que dissemos: Não, vamos lá, vamos lá. Desde 2002, durante dez anos, eu ia para Brasília toda semana, parecia parlamentar. Quem da concorrência fez isso? Isso é subir no pau de sebo? Isso é determinação, pra você buscar. E nós crescemos.”

A amizade do dono da FSB com João Roberto Marinho, seu vizinho de condomínio em Petrópolis, região serrana do Rio, é mais antiga. “Eu conheço o João da vida toda, nós fomos colegas do Colégio Souza Leão, no Rio. A gente tem uma boa relação, eu gosto muito dele”, contou Brandão, na roda.

Figura reservada e avessa a efusividades, João Roberto Marinho aceitou participar de um vídeo promocional da FSB para falar da grande empresa em que Francisco Soares Brandão a transformou. “Quando ele fala no vídeo, é muito mais do Chico ser humano, sujeito sério, sujeito trabalhador”, disse Brandão a respeito de si. “Quem conhece o João – tem gente que não conhece – sabe que ele é uma pessoa espartana, e separa perfeitamente o lado pessoal do lado profissional”, emendou. Brandão fez questão de registrar que nunca usou dessa amizade para alavancar o sucesso da FSB. “O que ajudou, ajuda e vai continuar ajudando, se Deus quiser, é o meu bom relacionamento com as pessoas. Eu trabalho e me relaciono com muita gente, de mamando a caducando. Eu sou um cara diferente.”

Apesar de bem relacionado, o dono da FSB se põe reticente quando lhe perguntam sobre sua história. O máximo que concede, com manifesta má vontade, é que estudou direito na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, sem ter concluído o curso. E que foi preso durante a ditadura. Sim. “Eu até por acaso fui preso, preso, preso, eu fui preso na ditadura. Fui preso em casa, meu irmão se envolveu em alguma coisa de esquerda e eu fui preso.” Por quanto tempo? “Isso aí deixa pra lá. Pula pra outra”, ordenou ao repórter. Apanhou? “Um pouco. Eu não quero falar, cara, pelo amor de Deus. Não gosto, não quero, você me desculpe.”

Brandão já tinha 19 anos em 1968, quando o AI-5 radicalizou a ditadura. Pode-se perguntar de variadas maneiras se ele foi contra ou a favor. Ele não dirá. “Eu não fui a favor, e nem fui contra. Quem conhece a minha cabeça pode acreditar, acredite se quiser. Eu nunca fiz movimento pra derrubar fulano ou beltrano.”

Muito mais tarde, quem caiu foi ele. Amante do hipismo – como João Roberto –, Brandão já foi um razoável cavaleiro na arte de saltar. Na manhã do domingo de Páscoa de 2011, passeava na mula Tieta, no sítio de Petrópolis. Atrás dela vinham outras duas mulas que, assustadas por um pássaro, se projetaram na direção de Tieta. Brandão levou um tombo quase fatal. Foram cinco cirurgias, semanas de cama, cadeira de rodas e fisioterapia constante, que perdura até hoje. Amargou anos de sofrimento. Não deixou de acompanhar a FSB, como pôde, mas foi nesse período que o vínculo com Trindade, dedicadíssimo, ganhou mais uma camada de cimento. Já faz um tempo que voltou a andar – mas ainda tem dificuldades com a perna esquerda. Mostrou, de pé, encostado à parede da sala de reuniões, que não consegue mais dobrá-la.

“Comemos o pão que o diabo amassou – quando tinha pão”, disse João Batista Rodarte, o fundador da Companhia de Notícias (CDN), a segunda maior agência do país, ao relembrar o passado de pobreza, com a mãe, costureira, precisando sustentar oito filhos. Mineiro de Passos, no sul do estado, morou em casebre de terra batida. A família migrou para São Paulo em 1959, quando ele tinha 12 anos. Foi balconista de farmácia, ajudante de mecânico em oficina, borracheiro, auxiliar de escritório, seminarista por dois anos e meio.

A vida melhorou quando passou no vestibular da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, em 1973. Paralelamente, abriu uma empresa de roupas femininas, a Halloween, que vendia para lojas de departamentos. No começo dos anos 80 começou a namorar uma das filhas do então professor recém-chegado do exílio, Fernando Henrique Cardoso. Se deram muito bem – dona Ruth o adorava – e ele acabou se amasiando com a filha do príncipe. A história terminou, mas a amizade com o ex-presidente da República perdura até hoje, inclusive nas partidas de pôquer.

Rodarte enfronhou-se então no velho MDB. Logo conquistou um cargo de confiança na secretaria de Comunicação do governo Franco Montoro. Assessorou o sogro na campanha para a Prefeitura de São Paulo (em 1985, vencida por Jânio Quadros) e com ele seguiu na campanha vitoriosa de senador constituinte (1986). Poderia tê-lo acompanhado – mas julgou, como disse em sua sala na sede da CDN, à avenida Faria Lima, “que estava na hora de seguir outro caminho”. Foi o começo da Companhia de Notícias, primeiro com alguns poucos sócios, tudo gente emedebista, e depois em carreira solo, sob a influência sempre presente do senador que começava a brilhar no Congresso.

O dono da CDN não briga com os fatos: “Eu acho que ganhei algumas contas por ter trabalhado com o Fernando Henrique, antes de ser presidente”, admitiu. “A Odebrecht é claramente isso. Entrou em 1995, mas o Emílio [Odebrecht] confiava em mim porque me conheceu como assessor do Fernando Henrique. Os quase seis anos que eu trabalhei com o Fernando me ajudaram muito. O fato de ser da confiança dele sempre somou muito no meu currículo. Não quando ele foi presidente, porque aí eu praticamente me afastei. A CDN já estava consolidada, muito antes disso, e naquela época as agências não tinham contratos com o governo federal.”

Não como seria depois, é verdade. Mas a CDN tinha a conta da Secretaria de Energia do governo peemedebista de São Paulo. O secretário era David Zylbersztajn, então casado com a outra filha de Fernando Henrique. (Bem depois, ele casou-se com Cristina Moretti, ou Kiki, da In Press Porter Novelli.) Quando já presidente, FHC nomeou o genro para a direção da Agência Nacional do Petróleo (ANP). Zylbersztajn abriu licitação para contratar uma agência de comunicação. A CDN disputou, e ganhou. Houve uma grita da FSB, inclusive na imprensa carioca – era a primeira incursão de uma concorrente em praias fluminenses, onde Brandão, embora pequeno, já penetrava melhor.

“Foi uma licitação limpa”, diz Zylbersztajn, ainda hoje em seu escritório de Ipanema. À época, Brandão e Trindade insinuaram compadrios. O diretor da ANP perdeu momentaneamente o fair play, desafiou-os à prova, aos recursos administrativos, ao preto no branco. A FSB não foi em frente. Hoje, é ela que detém a conta da ANP.

No escritório, entre um café e outro, Rodarte pede ao contador, por telefone, o resultado da empresa no ano passado. Ele manda, num papel, minutos depois: faturamento bruto de 105.159.165,10 reais, crescimento de 24% em relação a 2013.

Andrew Greenlees, vice-presidente da CDN, participava da entrevista. Sua carreira como jornalista terminou aos 35 anos, depois de ter sido repórter (Constituinte, eleição e impeachment de Collor), correspondente em Washington e editor da Folha. “Tive a sensação de que já tinha visto tudo – e quis conhecer melhor o lado de lá”, contou, cercado de papeizinhos com tarefas agendadas. Foi assessorar o deputado tucano José Aníbal, então líder do governo FHC. Conhecia João Rodarte de velhos carnavais peemedebistas – e não resistiu a uma boa proposta da CDN, àquela altura já com contratos no governo paulista. Entrou em setembro de 1999, como diretor de marketing político, área que lhe coube consolidar e fazer crescer. Três anos depois virou sócio (com 8%) e vice-presidente, passando a cuidar da operação de todas as contas da CDN.

Até setembro de 2013, João Rodarte manteve-se como sócio majoritário da CDN. Foi quando vendeu 51% para o Grupo ABC, do publicitário Nizan Guanaes (o próprio Grupo ABC foi recentemente vendido para o gigante americano Omnicom, por estimado 1 bilhão de reais). É um pecado perguntar para ambos de quanto estamos falando – mas nenhum faz muito escândalo quando ouve uns 80 milhões de reais. O pagamento é pingado, mês a mês, em milhões. Cláusulas rigorosas obrigam a permanência de Rodarte por mais cinco anos, com melhores índices de desempenho. “Está puxado, mas estou feliz”, disse o dono dos 49%, ansioso pelo final do prazo.

A entrada do Grupo ABC não alterou a autonomia de João Rodarte na condução da CDN. Autonomia até para errar – e feio, dando prejuízo para a empresa. “Foi um grande erro”, disse, com rara sinceridade. É como avalia a passagem-relâmpago pela CDN do jornalista Mário Sabino, em janeiro de 2012. Defenestrado da revista Veja, onde exerceu durante anos a função de redator-chefe, o jornalista (e também escritor de ficção) aceitou o convite de Rodarte.

Ele e Sabino chegaram a um entendimento e a um pré-contrato, formalizado mas nunca assinado. O empresário expressou sua satisfação numa nota oficial em que saudava Sabino como grande aquisição. Nem seus braços direito e esquerdo – Yara Peres e Andrew Greenlees – tiveram o privilégio. “Foi, foi”, choramingou Rodarte ao ser lembrado dessa parte. “Eu estava orgulhoso de ter o Sabino aqui.”

Aconteceu, então, que Sabino começou a trabalhar. Participava de reuniões com clientes da casa, às vezes com o patrão, às vezes sem. Já estava “do lado de lá”. Mas mantinha o figurino antigo, inclusive na afetação de certa arrogância, comum a quase todos os jornalistas, teatral e exacerbada no caso dele. Um exemplo vazou: na reunião com o principal cliente da casa, Sabino empalideceu os presentes – Marcelo Odebrecht entre eles – ao sugerir, muito senhor de si, que a empresa deveria mudar de nome – como é que ninguém pensou nisso antes? Participava do jantar, no apartamento de Odebrecht em São Paulo, o então governador de Pernambuco, Eduardo Campos, morto no ano passado.

“Ficou claro que o Sabino não tem espírito pra trabalhar desse lado aqui, onde as coisas são conquistadas, onde a diplomacia é uma qualidade essencial”, disse Rodarte. Quinze dias depois na nota encomiástica, dispensou a grande aquisição.

Com o pré-contrato em mãos, embora ainda não assinado, Sabino acionou um advogado para judicializar a cobrança. Não foi preciso, porque Rodarte concordou em pagar. “Resolvi honrar o contrato, para evitar a pendência judicial”, disse. Pagou perto de 400 mil reais. “Foi um erro grave. Tanto que eu propus aos meus sócios arcar com essa conta sozinho. Mas eles não concordaram” (risos compreensivos de Greenlees, no sofá). Mário Sabino não quis falar à piauí.

Na relação das agências de comunicação com os governos, 2006 é um divisor de águas. Foi a partir desse ano, o último do primeiro mandato do presidente Lula, que elas passaram a ser contratadas diretamente, por meio de licitações por edital (ou “é de tal”, no trocadilho do consultor Mário Rosa). Antes, inclusive no governo Fernando Henrique Cardoso, os recursos públicos fluíam de forma indireta, por intermédio das agências de publicidade, a quem cabia subcontratá-las. Naquele período valia tudo, a transparência era zero.

Mas em 2006 uma decisão do Tribunal de Contas da União permitiu que fossem realizadas as primeiras licitações específicas para as agências. Fruto de um bem-sucedido lobby da Abracom, fundada quatro anos antes – e efeito colateral do “escândalo do mensalão” –, a flexibilização contou com o apoio do então ministro da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, Franklin Martins. “A mudança trouxe transparência e permite um acompanhamento mais focado”, disse o ex-ministro durante um café.

Em 2010, veio o empurrão definitivo. Foi quando entrou em vigor a Lei 12.232, proposta pelo então deputado federal – e hoje ministro da Justiça – José Eduardo Cardozo. A lei regulou a licitação de serviços de publicidade pela administração pública e legalizou a contratação direta e autônoma das assessorias de imprensa. A partir daí, as empresas passaram a ter seu próprio quinhão da verba de comunicação em todas as esferas do setor público, incluindo governos estaduais e municipais.

As cifras oficiais refletem os resultados da nova ordem. Segundo os números do Portal da Transparência, a FSB — a que melhor aproveitou a mudança de cenário — faturava em 2004 o troco de 212 187,86 reais por serviços prestados a quatro ministérios. Dois anos depois, com a decisão do TCU, as receitas da agência com o governo passaram a 7,4 milhões de reais. Desde então, só aumentaram, chegando a 25,6 milhões de reais em 2010, quando entrou em vigor a lei das assessorias, atingindo o recorde de 57 milhões de reais em 2014. Neste ano, a empresa de Brandão deve apurar 40 milhões de reais em contratos com os ministérios da Saúde, da Defesa, do Esporte e do Turismo, além da Secretaria de Aviação Civil – todos conquistados em licitações.

O fenômeno se repete com a CDN. Entre 2004 e 2008, a agência de Rodarte não obteve mais do que 60 mil reais por ano em receitas do governo federal. A partir de 2009, multiplicou por 100 as receitas com o setor público, pulando para 6,7 milhões de reais. Em 2010, ganhou a licitação da Secretaria de Comunicação da Presidência da República para cuidar da imagem do Brasil no exterior – 15 milhões de reais anuais –, disputando contra dez concorrentes. A FSB foi uma das derrotadas. À época, Marcos Trindade fez questão de lembrar, o ministro da Secom, Thomas Traumann, era um ex-funcionário da FSB. No começo deste ano, a CDN ganhou licitação para a mesma conta, superando novamente a FSB. Além da Secom, a CDN atende também o Ministério da Justiça e o Ministério da Cultura.

“Meu faturamento é 90% com a iniciativa privada”, vai avisando a carioca Kiki Moretti, da In Press Porter Novelli, a terceira no ranking, com 490 funcionários, a maioria deles em São Paulo. Ocupam três andares e meio de um prédio na Juscelino Kubitscheck (a mesma avenida que agora abriga a sede paulista da FSB). Na quarta posição, com 250 empregados e 140 clientes, 90% deles da iniciativa privada, está a Máquina da Notícia, de Maristela Mafei. As duas empresas têm em comum o fato de haverem crescido a partir de contratos com clientes corporativos. Só se aventuraram no setor público após a resolução do TCU, em 2006.

Quando a In Press tinha cinco anos, em 2003, Moretti enfrentou o maior trauma de sua vida: seu primeiro marido e sócio, o jornalista Ivandel Godinho Júnior, foi sequestrado e assassinado em São Paulo. O casal tinha dois filhos – e ele outros dois, de casamento anterior. A In Press sobreviveu, associou-se a uma multinacional de peso, a Porter Novelli (que tem 40% das ações), e passou a incomodar as concorrentes de cima. Principalmente a FSB.

Toda semana, Kiki Moretti cruza a ponte aérea entre Rio e São Paulo – a sua é uma das agências que atende o governo de Geraldo Alckmin. “O processo das licitações tem evoluído”, disse a empresária, uma mulher de 52 anos, olhos azul-piscina e um sorriso largo. “O que eu espero é que os critérios sejam cada vez mais objetivos, transparentes e justos.”

Maristela Mafei era uma jornalista de 26 anos em 1985, quando publicou o livro Sangue na Terra: A Luta das Mulheres, que começa assim: “Um par de botas e 4 mil cruzeiros. Por esta quantia o pistoleiro Cosme atirou e matou o lavrador João Carneiro Coelho, que estava cercando sua roça, junto com os filhos, em Porto Nacional.” Ao reler o trecho, a dona da Máquina da Notícia brincou, remotamente saudosa, na sala do escritório na avenida Paulista de onde comanda seu centro de operações: “Se você lembrar desse livro, eu vou perder todos os meus clientes na área do agronegócio.”

Mafei faz jus ao sobrenome italiano. Fala alto, gesticula, ocupa espaços. Sua única conta no governo federal é a da Embratur, mas ela está sempre disputando as licitações – e, quando perde, sempre reclama dos resultados. Tem prazer em relembrar que tirou a FSB, sua arquirrival (e vice-versa), do Ministério da Saúde. Aconteceu no ano passado, por alguns meses. A FSB deu a volta por cima, já este ano, e voltou a ganhar a conta (com inéditos 43% de deságio).

Quando a Máquina perdeu a vaga, o ministro da Saúde, Arthur Chioro, mandou a Mafei um e-mail recheado de elogios. “Disse várias vezes a minha equipe que estaria plenamente satisfeito se vocês tivessem continuado conosco. Mas sabíamos todos nós que esse desfecho era possível. Tenho a convicção de que ainda vamos, um dia, voltar a trabalhar juntos. E isso será muito bom”, escreveu Chioro. “Duvido que a FSB tenha um desses”, provocou a empresária.

O que a FSB tem é a soberania absoluta nos dois níveis do governo do Rio de Janeiro – prefeitura e estado. Entrou ainda na primeira campanha vitoriosa de Sérgio Cabral, sem licitação, como a lei de então permitia. Foi ficando, trabalhando, penetrando – e se habilitou para a continuidade, quando a exigência da licitação chegou. Ganhou as concorrências, contra todas as demais. Uma, em 2011, ainda sob a gestão de Cabral (22,5 milhões de reais por ano) e, em julho deste ano, com o prefeito Eduardo Paes (8 milhões de reais). Os contratos podem ser renovados por no máximo cinco anos, a critério da contratante. Em 2016, a FSB terá que disputar a conta do estado para continuar atendendo ao governador Luiz Fernando Pezão.

Ao longo deste 2015 de vacas magras, Pezão ficou muitos meses sem caixa para os pagamentos – mas a agência não descuidou dos serviços. “Não vou entrar nesse mérito” [a demorada inadimplência do governo do Rio, ainda não inteiramente sanada], disse Francisco Brandão, na mesa, segurando um lápis daqueles com borracha no topo, que ainda existem. “O Pezão é um cliente importante, a gente gosta do Pezão, a gente acredita no Pezão. E o contrato está sendo administrado de uma maneira corretíssima, como tem que ser. Nada mais do que isso. Pula pra outra”, ordenou mais uma vez.

Brandão, entre muitas manias, tem, como já se viu, a de repetir três vezes seguidas algumas de suas frases ou palavras. “O Pezão, o Pezão, o Pezão é um sujeito tão simples, um sujeito tão fácil, eu ligo, falo com ele sete horas da manhã, comento os assuntos. Ele é um cara de perfil diferente, um sujeito abertíssimo, conversa tudo, recebe a gente lá, toda hora, debate os assuntos todos.”

Não é apenas com o governador que Brandão costuma falar ao amanhecer. Com frequência liga para alguns de seus subordinados nesse horário. Aos sábados e domingos inclusive. Não costuma perguntar se está tudo bem ou se a pessoa pode atender. Sai falando. Muitas vezes, coisas triviais, sem urgência. FSB, a pessoa física, não tolera conviver com mesas bagunçadas – a dele e a dos funcionários, nas quais às vezes promove faxinas-relâmpago. Os fios de telefone devem estar desenrolados, os quadros na parede precisam ser milimetricamente posicionados. Guarda todas as suas agendas há décadas, e gosta de exibi-las a funcionários – mas de longe, sem permitir que abelhudem o conteúdo. São todas obsessivamente anotadas, do início ao fim de cada página.

Pezão, apesar de ser um “sujeito abertíssimo” e “debater os assuntos todos”, não quis falar com a piauí a respeito da FSB. Sabe-se que seu entusiasmo pelos negócios da comunicação é muito menor que o do antecessor, Sérgio Cabral. Foi com o ex-governador que a empresa de Brandão deu o grande salto. Tinha pouco mais de 100 funcionários em 2005; hoje tem sete vezes mais. Em seus governos, Cabral na prática terceirizou a comunicação do estado para a FSB. A agência mandava em tudo – da estratégia de comunicação aos funcionários que cada secretaria teria. Pelo menos setenta jornalistas da FSB passaram a trabalhar alocados nas principais pastas do governo estadual.

O governador também deu uma força quando a FSB vislumbrou voos maiores em Brasília. Atuou, por exemplo, para aproximá-la do Ministério da Saúde, na gestão do médico sanitarista luso-brasileiro José Gomes Temporão, amigo do governador, durante o segundo mandato do presidente Lula. Uma mão lava a outra.

Em sua sala do Palácio dos Bandeirantes, no Morumbi, onde despacha o governador Geraldo Alckmin, o subsecretário de Comunicação, Márcio Aith, centraliza a contratação e o acompanhamento das agências de comunicação. “Quando eu cheguei aqui todas as licitações já estavam programadas e fracionadas por vários órgãos do governo”, disse. “Eu poderia ter mudado, mas achei que era importante ter contratos menores, e médios, se não as grandes abraçariam tudo.” Egresso de redações importantes – como Veja e Folha de S.Paulo –, Aith ingressou no ninho tucano desde a campanha de José Serra à Presidência. Quando esteve livre, Marcos Trindade esforçou-se mais de uma vez para levá-lo para a FSB, e não conseguiu.

Aith tem, disponível, a lista completa e detalhada de todas as agências de comunicação que trabalham para o governo do estado, secretaria por secretaria, com os respectivos valores. Diferentemente do Rio, onde a FSB opera a conta do governo inteiro, em São Paulo atuam oito agências, em catorze secretarias e outros órgãos. FSB e CDN empatam (três contas cada uma). Os valores e a vigência dos contratos acompanham a planilha. A CDN tem 15,6 milhões, e a FSB, 10,1 milhões de reais.

O subsecretário trabalha, no dia a dia, com uma equipe da In Press, de Kiki Moretti, que atende a pasta de Comunicação em um contrato de 6,2 milhões, por doze meses (termina em abril do ano que vem). “A In Press indica as pessoas – mas eu tenho poder de veto, não deixo qualquer um entrar aqui”, falou. “Conflitos podem existir, porque todas essas agências têm clientes privados. O potencial de risco, além do leva e traz de informações, é se aproveitarem da proximidade com o estado para conseguir novos negócios, o que só se resolve com vigilância permanente e rígida, com equipes realmente blindadas.”

No dia a dia, o grosso do trabalho é a intermediação com a imprensa – rádios, jornais, revistas, televisão e, cada vez mais, as redes sociais. Aith é persona non grata para alguns repórteres de grandes veículos, pela maneira com que costuma reagir a matérias que considera erradas ou malfeitas. “Reclamo mesmo”, diz. Há pouco tempo orientou a equipe da In Press a ler com lupa reportagens do Estadão, que considerava frágeis, mal apuradas ou tendenciosas nas críticas ao governo. Tudo mapeado, preparou um relatório cheio de exemplos. Numa visita à redação do jornal, Aith presente, Alckmin espantou os editores e repórteres pelo incisivo detalhamento de uma fieira de erros e desequilíbrios editoriais, como vistos pelo assessor. “Hoje o Chuchu veio com pimenta”, comentou à parte a editora Cida Damasco, já no clima ameno do almoço que se seguiu, segundo o relato de Gandour. Aith comemorou.

Na prefeitura do petista Fernando Haddad, o mandachuva da área de comunicação é o secretário Nunzio Briguglio Filho. Jornalista da velha guarda, está com Haddad desde o Ministério da Educação, nos governos Lula. As agências nem ciscaram por lá. “Nunca achei que precisava”, disse. Mantém a postura na maior prefeitura da América Latina. A lista que mostra, com orgulho, é a de oito empresas que não tiveram os contratos renovados depois que ele chegou. O que permite são contratações pontuais em eventos maiores – como a Virada Cultural (este ano arrematada pela Máquina da Notícia, por 260 mil reais, em pregão eletrônico).

Já houve apelos diretos a Haddad, para reconsiderar a política de comunicação. João Rodarte e Andrew Greenlees foram ao prefeito. Kiki Moretti idem. “A imagem dele estaria muito melhor com a expertise das agências”, disse Rodarte. “O Nunzio tem uma posição atrasada”, reclamou a dona da In Press. Podem até ter convencido Haddad – com a campanha chegando –, mas, se o fizeram, faltou combinar com Briguglio. “Minha equipe é profissional e muito eficiente”, disse o secretário, mostrando sua redação de trinta jornalistas no 6º andar da prefeitura, no Vale do Anhangabaú. Entre eles, a secretária adjunta de Comunicação, Leila Suwwan, durante muitos anos repórter da Folha. À distância, Briguglio ainda coordena o trabalho de outros vinte jornalistas alocados nas pastas da administração municipal.

Conquistar prefeituras é um objetivo que a FSB cultiva, particularmente, como um grande mercado futuro. Já atua, por exemplo, em Campinas, no interior paulista, na gestão de Jonas Donizette (PSB). Ano retrasado, à frente da assessoria de comunicação, a agência avançou, com outra pessoa jurídica, para a conta de publicidade do município, tendo à frente a mesma assessora que já pilotava o primeiro. A FSB foi a única que concorreu à licitação – por ser a única a cumprir as exigências do edital. Ganhou o contrato – de 20 milhões de reais. O vereador Pedro Tourinho, do PT local, denunciou a irregularidade.

“Foi só um ruído promovido por adversários políticos, como o vereador, que está fazendo uma reclamação que não tem sentido”, desconversou Marcos Trindade. Mas não foi só isso. Ao receber uma representação do vereador, o Ministério Público de Campinas abriu um inquérito civil público para apurar se houve irregularidades. Foi instaurado no dia 12 de julho de 2014, e está com o promotor Ângelo Carvalhaes. A FSB já começou a ser ouvida, e se diz inocente.

“A concorrência se incomodou de a gente ter entrado ali, claro, porque era um espaço dominado pelas agências de publicidade”, argumentou Trindade. “Mas elas também estão entrando na área de produção de conteúdo, que é o nosso negócio. Hoje, não é solução criativa que pega o cliente, é solução de conteúdo”, ensinou.

Em 2011, causou frisson no mercado a revelação de que o edital de licitação da prefeitura fluminense de Maricá para contratar sua assessoria de imprensa reproduzia quase integralmente o texto do edital do governo do estado do Rio de Janeiro. De diferente, só mesmo o nome do cliente – num, o governo do estado, noutro, a prefeitura. Até os erros de digitação eram idênticos. A vencedora das duas concorrências também foi a mesma: a FSB. O contrato, de 2,1 milhões de reais, continua valendo. Só vence em 2016.

A voz subiu levemente de tom: “Eu não sou a Rebeca Noblat! Eu sou a Rebeca Scatrut!” É fato. Mulher do jornalista Ricardo Noblat há quase quarenta anos, Scatrut mantém o nome de solteira. É dona, com Alba Chacon, do Grupo Informe Comunicação Integrada, com sede em Brasília (850 metros quadrados, alugados por 50 mil reais mensais). Com 300 empregados, é a única agência que só atende contas do governo, e fatura, em média, 30 milhões de reais por ano. São dela, por exemplo, as contas do Ministério do Desenvolvimento Social (contrato de 12 milhões de reais), do Banco Central (2,5 milhões), do Sebrae Nacional (3,8 milhões), do Ministério da Educação (4,1 milhões), da Agência Nacional de Saúde (2 milhões) e do Conselho Nacional de Justiça (3,5 milhões). Tudo obtido em disputadíssimas licitações.

“O governo da Dilma é nosso cliente – e todo dia o Ricardo fala mal dela”, disse a empresária, referindo-se ao marido, colunista do jornal O Globo e blogueiro tarimbado. “O Ricardo nunca veio aqui, nem sabe quais os clientes que a gente tem. Ele mais me atrapalha do que ajuda. Entre nós existe um pacto para não misturar as coisas.”

Scatrut e Alba Chacon respondem a um processo de improbidade administrativa, que no momento tramita no Supremo Tribunal Federal. É coisa dos tempos em que Raul Jungmann (PPS-PE) era o ministro do Desenvolvimento Agrário, no governo FHC. O Ministério Público Federal os acusa – e a outros réus – de malversação do dinheiro público. Scatrut e Chacon foram arroladas por não apresentarem as notas correspondentes de trabalhos de assessoria feitos pela RNN Comunicação, à época agência de ambas. Foi parar no STF porque Jungmann tinha foro privilegiado. O relator é o ministro José Dias Toffoli – com quem Ricardo Noblat já se desentendeu publicamente. Os autos estão conclusos desde 5 de outubro último. “Temos todas as notas, e vamos apresentar na hora devida para provar nossa inocência”, disseram as sócias da Informe.

Na guerra pelas contas públicas, a brasiliense Informe incomoda, e vice-versa, as quatro maiores (FSB, CDN, Máquina da Notícia e In Press). “A disputa devia ser mais transparente, mais profissional”, reclama Scatrut. “O meu sonho é ser tão competente como a FSB, que é a House of Cards das agências”, elogiou, referindo-se à famosa série exibida no Netflix.

Não é a única reclamação que se ouve no mercado. Além do acesso aos cofres recheados do estado, as questões trabalhistas também são motivo de muita farpa entre as agências. O jornalista José Luiz Schiavoni, duas vezes presidente de Abracom, é um dos que não se importam em falar claro sobre um ponto que a maioria das empresas prefere tratar aos sussurros: o regime de contratação dos empregados. “Aqui todo mundo é CLT”, ele diz. “Minha folha de pagamento é de 24 milhões de reais.” É uma exigência do sócio controlador – que tem ações na Bolsa de Valores de Nova York. Sua empresa – a S2Publicom – tem sede de três andares em um complexo comercial da valorizada avenida Luiz Carlos Berrini, com filiais em Alphaville, Rio de Janeiro e Brasília. Na Berrini, vê-se uma redação maior que as de muitos jornais e revistas. Tem 255 funcionários e oitenta clientes (entre eles Unilever, Samsung, Tim, Honda, Petrobras). O faturamento em 2014 foi de 50 milhões de reais. “Crescemos 42%”, disse ele, passando a mão na barba e no cabelo grisalhos.

Hoje com 54 anos, Schiavoni foi dos primeiros jornalistas a se enfronharem com a informática – ainda nos tempos da reserva de mercado. Em 1989, antevendo tempos novos, fundou a S-2. Em 2011, depois de um namoro demorado, vendeu a maior parte da empresa para a Interpublic, uma das líderes mundiais na área de publicidade. “Algumas grandes agências do nosso setor estão fazendo lucro com sonegação de impostos e de direitos trabalhistas”, comentou o empresário. “Se os clientes checassem a reputação de quem cuida de sua reputação, ele não contrataria determinadas agências”, afirmou, sem declinar nomes. Foi uma forma de dizer que o setor, salvo exceções, ainda está atrasado no que diz respeito a regras de compliance – expressão que traduz a adequação a normas.

O engenheiro Rodolfo Zabisky, do Grupo Attitude (290 funcionários, 6 milhões de reais de faturamento), também reclama: “É duro concorrer com empresas que não estão totalmente celetizadas. Aqui, a folha de pagamento representa 58% do faturamento”, frisou, usando o neologismo “celetizar” para investir contra aqueles não enquadrados na legislação da Consolidação das Leis Trabalhistas. Zabisky já disputou algumas licitações do setor público, mas jamais ganhou. “Não é um mundo fácil de transitar”, comentou. “Tem empresas que já estão posicionadas, e o custo para cumprir as regras dos editais é muito pesado.”

“Essas maledicências não pegam contra nós”, reage João Rodarte, da CDN. “Nós temos cotistas que recebem como pro labore, significa que pagam 27% de imposto. Os nossos cotistas são legais. Aqui na CDN mais da metade é celetizado. Uns 30% devem ser PJs, tudo dentro da lei”, disse, referindo-se aos profissionais contratados como pessoa jurídica.

A FSB também não veste a carapuça. Francisco Brandão diz que “mais de 60%” dos funcionários são celetizados. E, a seu modo, generaliza a questão: “No fundo, a gente faz gestão de gente, de contratar gente, de mexer com gente, de dar oportunidade pra gente, gente mais competente do que a gente pra trabalhar com a gente.”

“Bonito, arrojado e calibrado: é a minha cara!!!”, diz uma caricatura do presidente Lula, olhando para o desenho de um avião. A charge, de RBorges, ilustra o “Case: Aerolula”, em PowerPoint, um entre vários que a FSB apresenta em sua prospecção por novos clientes. Ocorreu em janeiro de 2005. A imprensa criticava o governo pela compra de um novo avião presidencial, por 56,7 milhões de dólares. O desafio da FSB, segundo a apresentação gráfica, era “fazer com que a imprensa transmitisse nas matérias a versão do governo para a compra do avião”. E assim foi.

“A estratégia da FSB foi preparar o porta-voz para uma coletiva de imprensa, mapeando todas as polêmicas em torno do assunto. Após a ação, o tom das matérias melhorou, deixando-as mais informativas e transmitindo a versão do governo para a compra.” O case é ilustrado por matérias de O Globo e da Folha de S.Paulo, com o antes e o depois. Exemplo do antes: “Avião de Lula consome 75% dos investimentos da União.” Do depois: “Novo avião presidencial deve economizar 5,2 milhões de dólares ao ano.”

Uma nota da coluna “Painel”, também da Folha de S.Paulo, foi incluída na propaganda do case. Informa, em off [sem citar a fonte], que o governo achou “positiva a estratégia de comunicação montada para a chegada do Aerolula em Brasília”, e analisou que “surtiu efeito” o “bombardeio de informações” que mudou o foco do noticiário. “A estrela foi o comandante da Aeronáutica, brigadeiro Luiz Carlos Bueno, que passou por um treinamento para enfrentar os repórteres no sábado”, diz a nota do “Painel”, sem mencionar o nome do treinador.

O serviço de media training, oferecido por quase todas as agências, mereceu, na FSB, uma aprofundada apresentação, em 41 slides de PowerPoint. O 16º deles define o jornalista brasileiro como “um profissional sob pressão!!! do chefe (resultados), do tempo (imediatamente), da informação (exclusividade)”. O seguinte enumera suas características: “Formação profissional deficiente, especialista em generalidades, mal remunerado e sobrecarregado, sem experiência, mas, às vezes, age como se fosse o expert.”

O off the record, ministra o slide 32, é “conversar com o jornalista, dar as informações e não ter seu nome ou o do cliente publicado; serve, muitas vezes, para vazar informações de bastidores de mercado ou comentar algum assunto; não é recomendável e deve ser sempre avaliado em conjunto com a FSB”. No “Guia para ser um bom porta-voz” há uma recomendação: “Se a matéria foi publicada com informações erradas, só corrija caso o erro seja grave.” E mais uma: “Mantenha vivo o relacionamento com o jornalista!”

Cada agência tem a sua relação preferencial de jornalistas que contrata para participar dos media training. Os mais desejados pelos clientes – e os mais caros – são da TV Globo. Na lista da FSB – que o organizado Brandão mandou colocar no papel, com os respectivos currículos, números de celulares, e-mails e preços – constam, entre outros, Márcio Gomes (dos mais requisitados, hoje na Ásia, por 8 mil reais), Sidney Rezende (entre 6 mil e 8 mil reais, foi demitido recentemente da emissora), Ana Paula Araújo (4 mil reais), Leilane Neubarth (a combinar), Hélter Duarte (4 mil reais) e William Waack (25 mil reais). Na mesma relação, o jornalismo impresso não foi esquecido: George Vidor e Ancelmo Gois, colunistas de O Globo, e Heloísa Magalhães, chefe da sucursal do jornal Valor Econômico no Rio de Janeiro, todos com o preço domedia training a acertar.

“Havia um tempo contemplativo – e o leitor esperava, ansioso, a notícia do dia seguinte.” Reflexão do jornalista Ricardo Gandour, 53 anos, diretor de conteúdo do jornal O Estado de S. Paulo, sobre as priscas eras que nem vão tão longe. A enorme redação que mostra, num passeio matinal pelo imenso 6º andar do prédio, no bairro do Limão, já teve 700 profissionais, a maioria jornalistas. Hoje são 380 – somando os do Estadão, os da Agência Estado e os de outros produtos da casa. Olhando bem, podem-se ver “passaralhos” dormitando em escaninhos do teto (é esse o termo usado por jornalistas para se referir a demissões coletivas). A agência Volt Data Lab fez o levantamento dos cortes em cinquenta redações no país nos últimos anos: 1 366 jornalistas perderam o emprego entre 2012 e outubro deste ano. Só em 2015, as redações abriam mão de 617 profissionais.

Na análise do editor de conteúdo do Estadão, o modelo das empresas jornalísticas está enfraquecido pela fragmentação da publicidade em outras mídias, enquanto “as agências se aprimoraram e se sofisticaram”.

Gandour mexe com jornal desde menino, quando atrapalhava aTribuna de Nova Granada, no interior paulista, que pertencia a seu pai. Passou por grandes redações, como a da Folha de S.Paulo, e há nove anos comanda o Estadão. No dia a dia do jornal, convive profissionalmente com as agências de comunicação. Em tempos de Lava Jato, o assédio aumenta. FSB e CDN, principalmente essas duas, ligam para repórteres da casa, ou para editores, na defesa de seus clientes. Muitas vezes ligam para ele próprio, às vezes com a conversa de que a notícia “já saiu” em outro lugar e deixou de ser exclusiva. Pode mesmo ter sido publicada, em algum site, prematuramente plantada. É que se chama, no meio, de “matéria-vacina”, usada para combater o vírus da notícia.

“A verdade, hoje, é que as redações e as agências de comunicação são exércitos em desigualdade. As agências ganharam senioridade, sabem exatamente como os assuntos trafegam e quem é quem”, disse Gandour, passando a mão no resto dos cabelos. “Tudo isso só aumenta a nossa responsabilidade de zelar pela independência.”

A “senioridade” a que Gandour se refere está encarnada nos jornalistas que as grandes agências têm tirado das redações. OEstadão mesmo já perdeu, para citar apenas casos mais recentes, repórteres de ponta da área econômica, como Alcides Ferreira e Leandro Modé (ambos na FSB). Da Folha de S.Paulo saíram, para a FSB, entre vários outros, Gabriela Wolthers, diretora da empresa no Rio, e o experiente Melchiades Filho, por muitos anos editor de Esporte e depois diretor da sucursal do jornal em Brasília. Melk, como é mais conhecido, dirige a FSB em São Paulo desde 2013.

“O Melchiades é um ótimo profissional”, disse o diretor de redação da Folha, Otavio Frias Filho. “Ele foi para uma modalidade de atuação diferente. O paralelo que eu faço é com o de um promotor público que vira advogado.” O herdeiro da Folhaestá habituado com a pressão das agências de comunicação. “Acho que essas empresas prestam um serviço legítimo: vocalizar o ponto de vista dos seus clientes. Os meios de comunicação devem procurar ouvir, ponderar e sopesar os argumentos recebidos”, disse. “É um trabalho útil, porque muitas vezes esses clientes são o vilão da vez e atraem a animosidade da imprensa.”

Na Folha, visitas à redação de pessoas públicas ou que representam empresas e entidades costumam ser noticiadas no dia seguinte, ao pé da coluna “Painel”, da página 4. Boa parte dessas visitas tem a participação de uma agência – ou na articulação para viabilizá-las, ou acompanhando o visitante. Uma delas foi a de Marcelo Odebrecht, o presidente da empreiteira, depois prisioneiro da Lava Jato. João Rodarte, da CDN, o acompanhou. Frias Filho e outros editores do jornal ouviram o que eles tinham a dizer. “Estou muito preocupado que a Odebrecht tenha seu ponto de vista expresso na Folha”, disse o diretor de redação, comentando a visita. “Tomo todas as providências para evitar que o jornal participe de um caso Dreyfus jornalístico.”

Sérgio Dávila, editor-executivo da Folha, é quem lida mais diretamente com a operação do jornal no dia a dia. “Essas agências cresceram, estão muito mais profissionais do que eram há cinco ou dez anos, e muitas têm um faturamento expressivo”, disse Dávila. “Ajudam quando facilitam o acesso dos jornalistas às informações, e atrapalham, como tem eventualmente ocorrido, quanto tentam ultrapassar os limites e influenciar o trabalho da redação. Eu mesmo já tive que impor limites a um diálogo telefônico desse tipo.” Citaria alguma agência mais agressiva? “Os mais agressivos são os assessores internos das grandes empresas. Às vezes, um só deles é mais agressivo que uma agência inteira”, falou. Aos 49 anos, Dávila já foi correspondente do jornal em Nova York e Washington e cobriu, em 2002, a Guerra do Iraque. Nenhuma agência jamais o convidou para novos desafios “do lado de lá”. Se acontecer: “Eu não vou. Gosto do jornalismo e não quero mudar de lado. Mas não critico ninguém. Cada um é que sabe onde o calo aperta.”

“Nem tudo o que reluz é jornalismo” é o título de um artigo da jornalista Maria Cristina Fernandes, do Valor Econômico, publicado em 13 de março deste ano. Abordou a prática do chamado “conteúdo patrocinado” – ounative advertising –, inaugurado pelo jornal britânico The Guardian, no ano passado. Trata-se da publicação de matérias patrocinadas por empresas interessadas – e intermediadas pelas agências de comunicação. “É a última fronteira da comunicação corporativa – mercado que ganha independência do jornalismo com a presença direta das empresas em mídias sociais. É a paulatina ocupação, sem intermediários, daquilo que um dia se chamou de Quarto Poder”, escreveu Fernandes.

Citando o livro Journalism and PR: News Media and Public Relations in the Digital Age, lançado pelo Instituto Reuters de Estudos de Jornalismo da Universidade de Oxford, a articulista diz que a resistência ao native advertising contribuiu para a demissão de Jill Abramson, então editora-chefe do jornal The New York Times, em maio de 2014. Abramson disse para John Lloyd e Laura Toogood, autores da obra: “Se a propaganda for muito parecida com nossas histórias, o leitor pode não discernir o que é ou não nosso conteúdo.”

A native ad foi tema até de um painel no congresso anual da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), realizado em julho deste ano. No e-mail em que o divulgou, de 13 de maio, a gerente-executiva da entidade, Marina Iemini Atoji, apelidou a novidade de “Licença para o jabá”. Explicou: “É um novo modelo de publicidade em meios jornalísticos que já se difundiu pelos Estados Unidos e começa a ganhar espaço aqui no Brasil – vai de conteúdo patrocinado à publicidade com ares de conteúdo jornalístico, feito por jornalistas.”

Um exemplo recente dessas novas modalidades foi dado pelaFolha, em um caderno especial sobre contrabando, pautado e intermediado pela FSB. “A Folha tem uma departamento para cuidar de native advertising, mas não foi o caso desse caderno”, disse o editor-executivo Sérgio Dávila. “No native advertising o patrocinador tem influência no conteúdo, e não foi o que aconteceu.” Dávila contou que o caderno sobre contrabando nasceu de uma sugestão da agência: “A FSB perguntou se a redação tinha interesse no tema, e sugeriu um pacote pronto: o caderno especial, um seminário e um site. A Folha topou e produziu, sem interferência no conteúdo. Clientes da FSB viram um interesse comercial em se ligar a esse material jornalístico, e anunciaram no caderno.” Os leitores da Folha não deveriam ser informados que a agência dos anunciantes é que sugeriu a pauta, com adereços? “Nesse caso não, porque ela não teve nenhuma interferência no conteúdo jornalístico”, responde Dávila.

Outro recente caderno especial da Folha, sobre a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, teve a colaboração logística da agência Santafé Ideias. Foi um dos cadernos mais premiados do jornalismo brasileiro em todos os tempos. Para a Santafé Ideias, sediada em Brasília, parte pequena do mérito foi dela. “Nós ajudamos a Folha a ver que o noticiário estava muito desequilibrado, e convencemos nosso cliente de que valia a pena abrir a obra para os repórteres do jornal”, disse Maurício Junior, um dos sócios da agência (o outro, majoritário, é o ex-jornalista e ex-assessor de imprensa do presidente Fernando Collor, Etevaldo Dias). O cliente da Santafé, no caso, é a Norte Energia, dona de Belo Monte.

Uma grande equipe do jornal deslocou-se para a região e produziu, durante dias, a mais completa apuração que a megaobra já teve. Uma semana depois Otavio Frias Filho e Sérgio Dávila desembarcaram em Belo Monte – e passaram dois dias, de camiseta e pé na lama, esquadrinhando a obra, comendo de bandejão, e ouvindo as informações e explicações técnicas da Norte Energia. Maurício Junior mostra fotografias da visita, acompanhada o tempo todo por uma assessora da Santafé.

“O caderno sobre Belo Monte foi inteiramente bancado pela redação – da pauta ao resultado final”, disse Dávila. “Otavio e eu estivemos lá para, como se diz internamente, não ficar comendo pela mão dos repórteres.” É uma prática que a Folha tem desde 2010, explicou o editor-executivo, referindo-se às duas visitas anuais a projetos ou situações que consideram relevantes. Definindo os dois cadernos, Dávila resumiu: “Belo Monte é um produto editorial como outro qualquer. Contrabando é um produto editorial com patrocinador. Ambos sem interferência no conteúdo jornalístico.”

O jornal Valor de 11 de agosto último deu um exemplo curioso desses novos arranjos: um caderno especial sobre “construção de imagem”, recheado de anúncios de grandes agências do próprio setor (FSB, In Press Porter Novelli, CDN Comunicação, S2Publicom e Associação Brasileira das Agências de Comunicação, entidade que representa o segmento). Em maio deste ano, a diretora de redação do jornal, Vera Brandimarte, foi escolhida “Personalidade da Comunicação 2015”, prêmio recebido no 18º Congresso Brasileiro de Comunicação Corporativa, o evento mais importante do setor. O Valor, até pela predominância e qualidade do noticiário econômico, é o veículo brasileiro de melhor e mais abrangente relação com o outro lado do balcão.

“Hoje, o agendamento das redações é feito por fontes organizadas, muito competentes e altamente profissionalizadas, entre elas as agências de comunicação”, diz o professor Carlos Chaparro, da Escola de Comunicações e Artes da USP. “É muito melhor um mundo em que todos possam falar, do que um mundo em que só os jornalistas falam.”

Eugênio Bucci, também da ECA, autor do livro Sobre Ética e Imprensa, aponta um equívoco: “No Brasil nós chamamos assessor de imprensa de jornalista – o que é um embaralhamento conceitual. São lados distintos, e muitas vezes antagônicos.”

A confusão a que alude Bucci se configura de forma cristalina nas “eugências” – como se diz no setor. São aquelas de um assessor só, ou quase, geralmente ex-jornalistas bem-sucedidos. O fundador do gênero, assim reconhecido pelos pares, é Mário Rosa – o do “é de tal” –, autor do livro A Era do Escândalo: Lições, Relatos e Bastidores de Quem Viveu as Grandes Crises de Imagem, que lançou em 2003. Marcos Trindade, da FSB, e Maristela Mafei, da Máquina da Notícia, estão lá, entre outros, contando os bastidores do árduo começo.

Em junho passado, Rosa viveu o drama de muitos clientes milionários que ele próprio já atendeu (quase todos os que hoje estão na Lava Jato, por exemplo): uma equipe da Polícia Federal bateu em sua casa, no Lago Sul, às seis da manhã, com um mandado de busca e apreensão. Era um braço da Operação Acrônimo, que apura denúncias de lavagem de dinheiro e desvio de recursos públicos para financiamento de campanhas eleitorais. Tramita no Superior Tribunal de Justiça – e envolve, entre outros investigados, o governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT), e a mulher dele, Carolina de Oliveira Pereira, que negam as acusações.

Rosa entrou na Acrônimo porque contratou uma empresa de Carolina de Oliveira Pereira, a Oli Comunicação e Imagem, à qual pagou 2 milhões de reais. Hoje primeira-dama, Oliveira já trabalhou na FSB. A PF investiga a legalidade do pagamento à Oli.

Passado o susto, o consultor franqueou a entrada da casa aos federais. Sentou no sofá da sala, observou-os trabalhar à vontade e respondeu o que lhe perguntaram. Preferiu não chamar advogado – mesmo sendo amigo de todos os melhores da capital federal. Impassível, viu os agentes empacotarem o que julgavam útil à investigação. “Nada tenho a temer”, disse. “Paguei os 2 milhões de reais, porque a Carolina me prestou bons serviços num caso em que eu faturei 8 milhões de reais, como posso provar. Nada mais justo.”

O caso em questão é o da acirrada disputa comercial entre os grupos Casino e Pão de Açúcar, que engordou as contas de muitas agências (FDB e CDN, entre elas). Rosa estava com o Casino. O montante do pagamento pode assustar, mas nem foi o maior que ele já colocou na MR Consultoria. Cobra caro faz tempo: 500 mil reais para a Gol e 2 milhões de reais para a Camargo Correa, lá atrás. E justifica os valores: “Eles é que vêm bater na cabana do Pai Rosa”, brinca, bebericando um suco de limão e imitando – bem – um preto velho.

Um dos últimos a procurar Pai Rosa foi o governador tucano Beto Richa, do Paraná. Foi bater na ajeitada cabana do Lago Sul, recomendado, pedindo curativo para os arranhões que sua imagem sofrera quando a polícia do estado baixou o sarrafo em professores grevistas. Sempre low profile, Rosa sugeriu que o governador botasse a culpa no PT. Pode-se assistir, no YouTube, ao discurso que Richa fez depois da visita. Se Rosa mostrar o texto que mandou para ele por e-mail, a fidelidade é total. “Eu gosto dessa carpintaria da retórica”, comentou.

O petista Fernando Pimentel também usufrui: alguns de seus discursos de governador, os de maior octanagem, saíram da oficina do consultor, frase por frase. Detalhe, que Rosa faz questão de registrar: “Nunca cobrei de político.” Agradece, entretanto, quando recomendam sua competência. “O Mário Rosa é o nosso João Gilberto”, elogia Roberto Machado, ex-TV Globo, outra “eugência” de prestígio no mercado. “Ele tem uma capacidade de análise que todo mundo quer escutar.” Atuaram juntos, recentemente, para grandes empresas de telefonia que disputaram o leilão da banda H.

Samuel Figueiredo, evangélico de carteirinha, também é “assessor solista”. Comanda a sua F7 Comunicação (o 7, na Bíblia, é o número da perfeição), numa sala do Centro Empresarial Norte, na capital do país. “Enchi de espelhos [escuros], para parecer maior”, disse, apresentando seus ajeitados 40 metros quadrados. Foi lá que recebeu, em abril, Luiz Edson Fachin, hoje ministro do Supremo Tribunal Federal. O advogado e professor gaúcho, indicado para o posto pela presidente Dilma Rousseff, enfrentava, angustiado, às vésperas de sua sabatina pelo Senado, um noticiário adverso, às vezes hostil. Renan Calheiros, o presidente da Casa, estava em pé de guerra com o Planalto. E o veto a Fachin faria parte da retaliação. “Foi a crise mais complexa e aguda que eu enfrentei, contra forças políticas opositoras que alimentavam jornais e blogs”, disse F7, com a voz bem postada de pastor-locutor.

Foi, também, o que ele imediatamente começou a fazer: alimentar a mídia. Espalhou, por exemplo, no crepitar do tiroteio contra o cliente, que Fachin e sua mulher tinham ido, contritos, a uma missa dominical na Catedral Metropolitana de Brasília. Além do plantio, Figueiredo contratou a criação de um blog, o monitoramento das redes sociais e a experiência do consultor Gustavo Krieger para o treinamento da sabatina no Senado. Também acompanhou o indicado, a discreta distância, nas visitas políticas, religiosas, jurídicas e midiáticas. Entre outras sugestões, todas acatadas, Fachin até mudou de hotel.

O hoje ministro chegou a Samuel Figueiredo por sugestão do presidente da Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe), Antônio César Bochenek. “Eu não sei nem como me defender”, falou Fachin a ele numa conversa informal. Bochenek indicou a F7, que há tempos atende a Ajufe (entidade de classe do juiz Sergio Moro). Figueiredo também cuida da Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal (ADPF). Com a Lava Jato em casa, por assim dizer, é natural que tenha recebido convites de investigados. “Recebi, é claro, mas não aceitei porque não seria ético.”

A operação Fachin custou 200 mil reais, em cinco prestações de 40 mil reais, que há pouco o já novo ministro acabou de pagar. “Nunca mais o vi, desde a posse”, disse o consultor. “Não fui nem conhecer o gabinete.” A F7 fatura, em média, 1 milhão de reais por ano, contou Figueiredo, ainda irritado com a divulgação de números bem maiores do case Fachin. “A F7 não é uma empresa de lobby. Não marca reuniões ou facilita encontros. Seu trabalho é a comunicação, voltada para o ambiente do poder”, esclareceu.

“Eu vendo quatro coisas”, anunciou Gustavo Krieger, o treinador de mídia de Fachin, em um café do Itaim Bibi, em São Paulo: “O meu tempo, a minha experiência, o meu bom senso e a minha credibilidade, que é o que eu tenho de mais importante.” Foi o que Samuel Figueiredo viu. “Estavam achando que o professor [Fachin] era o Stédile das letras jurídicas, e nada mais distante da verdade”, falou Krieger. “Pedi, apenas, que ele fosse ele mesmo.” Foram dez horas de treinamento, em três dias, a 2 mil por hora, ou 20 mil dos 200 mil reais que Figueiredo faturou, segundo os números de ambos. Recuando um pouco no tempo, um dos contratantes foi o candidato à Presidência Aécio Neves (“que nunca mais eu vi”). Hoje, entre os cinco clientes que tem, Krieger só concede o nome de um: a Fiesp e Paulo Skaf – ou Paulo Skaf e a Fiesp, a gosto do freguês.

Neto do ilustre senador arenista Daniel Krieger – “grande influência” –, esse gaúcho bom de conversa já foi trotskista da Libelu e, por quatro anos, militante do PT. Afastou-se quando virou repórter. Destacou-se, ainda jovem, pela Folha durante a cobertura do Collorgate.

Entre inúmeras reportagens que fez, uma, polêmica, entrou para a história: a denúncia de que o caseiro Francenildo Costa, acusador do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, tinha dinheiro depositado em sua conta da Caixa Econômica Federal. A conta fora violada, em episódio até hoje não totalmente esclarecido. Krieger incluiu na reportagem, secundariamente, que os depósitos foram efetuados pelo pai de Francenildo, mas levantou dúvidas sobre a veracidade dessa informação, depois comprovada. “Foi um erro não ter apurado melhor a história do Francenildo”, admitiu, pela primeira vez. “Escolhi um caminho tortuoso que naquele momento me parecia o certo.”

Foi salvo do jornalismo pelo hoje vice-presidente da República, Michel Temer, que era, então, o presidente da Câmara dos Deputados. Convidou Krieger para comandar a assessoria de imprensa da Casa. Ele aceitou o desafio e lá reinou, sob a batuta de Temer, em 2009 e 2010. Foi então que a FSB o pescou – isca jogada por Marcos Trindade. Tiveram um almoço no Rio, com Francisco Brandão, e Krieger acabou aceitando. “Acredita que eles ainda não sabiam que o Temer ia ser o vice da Dilma?”, perguntou o consultor. Deixou a FSB depois de uma difícil conversa com Brandão e Trindade. Estes não estavam gostando da autonomia de Krieger. Ele também estava cansado de tanta cobrança por resultados. Foi mais um da FSB a correr por fora.

Eduardo Oinegue, ex-redator-chefe da Veja e ex-diretor de redação da Exame, é um dos mais conceituados e, digamos, assertivos consultores de imagem do mercado. É seu cliente, entre meia dúzia de outros empresários, o empreiteiro Ricardo Pessoa, da UTC, um dos delatores decisivos na Lava Jato, hoje em prisão domiciliar. Antes de ser detido, o empresário, como seus colegas de mesma sina, percorria as boas redações do Rio e de São Paulo, cada qual com sua agência, para explicar que o abacaxi não era tão azedo.

Oinegue e o também consultor Marcelo Onaga, mais um do bloco “eu sozinho”, levaram Pessoa à redação do Estadão. Foram recebidos com lhaneza profissional em uma sala de reuniões do 7º andar. A conversa ia bem – Ricardo Gandour e outros editores e repórteres do jornal eram só ouvidos – até Oinegue exibir, na tela de seu iPad, uma reportagem específica, que criticou. Os jornalistas não gostaram do tom do assessor e a conversa subiu algumas oitavas, até que a calma voltasse. Pessoa segue cliente de Oinegue, mas ele mantém a discrição a que o contrato o obriga. Costuma citar uma frase do guru do marketing Don Schultz: “Para o consumidor, a percepção é a verdade. A percepção pode não estar correta, mas é o que ele conhece. E o que ele conhece é tudo que ele precisa conhecer.”

Francisco Brandão também tem lazer – já que nem ele é de ferro. Produz, artesanalmente, vários tipos de queijo em seu sítio de Petrópolis. Bons queijos – como a piauí provou na mostra que recebeu de presente. “Esse meu sítio eu comecei do zero, igualzinho à FSB”, contou, na mesma entrevista em que se cercou de seus diretores, na antiga sede do Itaim Bibi. “Ali eu tenho umas vaquinhas Jersey, um pessoal que trabalha comigo, já há muitos anos, e duas pessoas que fazem os queijos. É um prazer você poder compartilhar.” Na empresa, os queijos de Brandão são um termômetro de seu humor. Quem ganha está bem na foto. Quem não ganha precisa melhorar o desempenho. Ele explicou: “Você faz carinho em quem te dá carinho. A vida é uma mão de ida, outra de volta. Não é possível que todo mundo esteja bem com todo mundo sempre, isso não existe.”

Fonte: Revista Piauí

Intoxicado de ofertas

10/09/2015

Pesquisador visita congresso médico, tenta sobreviver ao marketing da indústria farmacêutica e sai com uma parafernália de brindes

por OLAVO AMARAL

29 DE ABRIL, QUARTA-FEIRA_Na escuridão de sua cela, Paula espera por mim. Para salvá-la, atravesso os corredores da prisão, permeados de objetos ameaçadores criados por computação gráfica. Desvendo enigmas, cujas respostas são indicadas por letras em negrito, e escolho as portas que me levarão a seu cativeiro: a cela da depressão. Quando a encontro, Paula está de costas e não nota minha presença. Mas não há mais charadas. Só resta uma saída para despertá-la.

O representante do laboratório Libbsme sussurra o desfecho. “Doutor, agora basta um gesto para libertar a paciente.” Ele aponta a caixa de Reconter® (escitalopram 10 mg) sobre a mesa. Apanho a embalagem, passando-a em frente a uma câmera. Em segundos a cela desaparece e surge um campo verdejante. Ainda que o rosto computadorizado de Paula não seja tão atraente como parecia na foto mostrada no início do jogo, sei que meu gesto a salvou, e isso basta. Ou quase.

A tela escurece e uma menina sorridente cola um adesivo verde atrás do meu crachá. Contente, agradeço e vou buscar minha garrafa térmica como recompensa.

A ideia desse diário me ocorreu cinco anos atrás, em Gramado, na serra gaúcha, no 6º Congresso Brasileiro de Cérebro, Comportamento e Emoções de 2010, do qual participei com minha namorada da época. Bem mais jovem que eu, ela vivia o drama de ajudar a família a pagar o que hoje equivaleria a 1 500 reais por mês por dois comprimidos diários de Zyprexa® (olanzapina 10 mg), prescritos para o tratamento de seu pai, incapacitado por uma forma rara de demência.

Quando chegamos ao evento (meu primeiro congresso para médicos depois de ter desertado da clínica para a pesquisa básica, alguns anos antes), achei graça no fato de que tínhamos crachás diferentes: no meu, de médico, estava escrito “prescritor”; no dela, de estudante, “não prescritor”. Num surto de ingenuidade, pensei que a medida servisse para de alguma forma proteger a mim, o “prescritor”, do bombardeio de marketing da indústria farmacêutica.

A ilusão duraria pouco. Em minutos estávamos na área de exposição, cercados por representantes de laboratório que disputavam minha atenção em troca de café expresso. O primeiro comentário que fiz foi: “Opa, vamos recuperar a grana da olanzapina em cafezinho.” Minha namorada não gostou da piada, e viria a nutrir uma antipatia pela indústria farmacêutica que dura até hoje. Já eu passei a acalentar um projeto: prometi a mim mesmo que um dia iria a um congresso com o propósito explícito de aceitar todos os brindes, petiscos e informações que a indústria tivesse para me oferecer. Não porque precisasse deles, mas para tentar aprender algo no processo.

TARDE_Ao entrar no centro de convenções da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul, o espaço de exposições mais prestigiado de Porto Alegre, para a abertura do World Congress on Brain Behavior and Emotions de 2015 – agora um evento internacional –, não estou muito seguro de que queira levar adiante esse registro, ainda que já tivesse desembolsado 1 200 reais pela inscrição que dava direito ao crachá de “prescritor”, 400 reais mais cara que a cobrada da categoria “outros profissionais”.

A distinção entre prescritores e não prescritores é fruto da regulamentação da publicidade de medicamentos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa. Em vigor desde 2009, a norma determina que, em eventos científicos, as propagandas de medicamentos de venda controlada sejam distribuídas apenas a profissionais habilitados a receitá-los. Na prática, tornou-se uma forma conveniente de coibir o desperdício da indústria com quem não é médico.

Quando estudante de medicina, antes da vigência da lei, um de meus passatempos favoritos no hospital era “brincar de ser invisível” com meus colegas. Munido do crachá amarelo de estudante, eu passava em frente a um representante de laboratório repetidas vezes, apenas para constatar que ele sequer piscava. No momento em que surgia alguém com o crachá verde de médico, a atenção era imediata.

Alguns médicos lamentam que, depois da regulamentação da Anvisa, os congressos nunca mais foram os mesmos. Um amigo psiquiatra me contou sobre os “bons tempos” em que, ao som de música eletrônica, dançarinos divulgavam antidepressivos e médicos embarcavam num trem fantasma que culminava na apresentação de medicamentos para a síndrome do pânico.Por outro lado, um primo meu confessou ter feito um passeio de helicóptero num congresso de oftalmologia em pleno 2011. Ainda assim, tenho um certo temor de que minha pauta possa se encontrar meio datada.

Ao entrar na área de exposição, minhas dúvidas logo se dissipam. De cara topo com o fondue de chocolate servido no estande da Sanofi, sob um grande rótulo do indutor de sono Stilnox® CR(hemitartarato de zolpidem 10 mg). Logo descubro, porém, a nêmesis que me acompanhará nos próximos dias: a fila. Pelo menos vinte pessoas esperam pelo fondue. Resolvo voltar mais tarde e me concentro em brindes menos disputados: pipoca no estande da Nova Químicae café expresso com Ovomaltine no da Lundbeck.

No estande da Apsen, avisto uma Harley-Davidson e uma moto de rali. Pergunto ao atendente por que elas estão lá, e ele responde que é uma analogia com o Donaren® (cloridrato de trazodona 50 mg), que tanto pode ser um antidepressivo como um indutor de sono. “Ambas são motos, mas para condições diferentes, entende?” Constrangido com a metáfora, agradeço e vou saindo, mas ele pergunta: “O senhor não quer nosso carimbo, doutor?” Percebendo minha ignorância, ele conta que posso concorrer a uma viagem para a próxima edição do congresso, em Buenos Aires, se juntar os carimbos de todos os expositores. Na bolsa com o material do congresso, encontro uma ficha com 22 quadradinhos, que entrego pra ele carimbar. A brincadeira vai ser divertida.

Com meu crachá de prescritor orgulhosamente exposto, recebo convites para lançamentos de livros com exemplares grátis, para palestras com almoço fornecido pelo McDonald’s e para ter momentos da minha vida desenhados por cartunistas. E vou acumulando brindes, material “informativo” e petiscos – porque as filas dos lanches mais disputados, como sorvete e crepes, são gigantescas. Aos poucos perco o medo dos representantes de laboratório e convenço meu lado sociofóbico de que não serei mal recebido se pedir informações. Como um adolescente endinheirado que adentrasse um prostíbulo pela primeira vez, a angústia da rejeição vai sendo substituída pela confiança. Os simpáticos atendentes ao meu redor conhecem boa parte dos médicos, os chamam pelo nome e fazem perguntas sobre sua vida pessoal. Como no sexo pago, a relação comercial não exime o prestador de serviços de demonstrar intimidade – pelo contrário, é o vínculo, mais do que os brindes, que é usado como moeda de barganha.

Das experiências da tarde, nenhuma supera o resgate de Paula das garras da depressão. O jogo eletrônico é um entre os muitos que se espalham pelos estandes. Conhecimento ou habilidade é o que menos importa: os games servem para garantir que o médico se exponha por alguns minutos à marca do patrocinador, em vez de apanhar os brindes e sair às pressas. As respostas corretas em negrito ao teste de múltipla escolha me eximem de pensar. Tudo o que preciso é de alguns cliques e do “gesto que liberta” para alcançar a felicidade e conquistar mais um brinde.

NOITE_Ao fim da tarde, já acumulei quatro sacolas de badulaques e folhetos. O peso começa a me incomodar, e vou até o estacionamento deixar o espólio no porta-malas. Na volta, a área de exposição já não está tão cheia, e o público se dirige ao Teatro do Sesi, cujos 1 800lugares costumam atrair os shows mais concorridos de Porto Alegre. Hoje, porém, o palco é ocupado por Jean Decety, pesquisador francês radicado nos Estados Unidos. Para discorrer sobre o senso de justiça no cérebro, ele dá início a sua apresentação com um filme do Batman.

A palestra mostra bem o tom do congresso, que traz o apelo pop da neurociência para um público predominantemente constituído de profissionais da saúde. O evento cresceu ao longo de suas onze edições até alcançar 3 300 participantes este ano, e boa parte da popularidade se deve a uma publicidade competente, alinhada com a estética contemporânea de eventos como os TED Talks, o ciclo Fronteiras do Pensamento e as palestras de gurus domundo empresarial: destaque para os nomes e rostos dos palestrantes no programa, títulos espertos e um sofá no centro do palco.

Ao final do primeiro dia, na cerimônia de abertura, o moderador, o presidente do congresso e o diretor do instituto que organiza o evento fazem pronunciamentos curtos e cedem a palavra à diretora de marketing da Lundbeck, companhia dinamarquesa especializada em medicamentos para doenças do sistema nervoso. É ela que fará a entrega dos prêmios aos melhores trabalhos inscritos no congresso, o que não a impede de se alongar sobre a história e a missão do laboratório, bem como do braço sem fins lucrativos que financia eventos e educação médica.

A apresentação culmina com um filme publicitário caprichado, em que imagens de pacientes se alternam com as de uma metrópole movimentada e cheia de luzes, enquanto a legenda “Imagine ter de encontrar a única lâmpada com defeito” faz uma analogia com a empreitada de procurar uma causa para as doenças do cérebro. Por alguns instantes, a publicidade chega a me envolver. Quando o vídeo termina, no entanto, me dou conta de que o maior espaço de tempo na abertura do congresso coube a um diretor de marketing.

30 DE ABRIL, QUINTA-FEIRA, MANHÃ_Acordo atrasado e meio grogue por ter dormido pouco, mas logo me animo com as oportunidades do café da manhã. Antes da primeira palestra, recolho atabalhoadamente biscoitos, cupcakes e pães de queijo, sob o olhar complacente de garçons e representantes de laboratório. A mesa de discussão – sobre biomarcadores em psiquiatria – é interessante, mas a plateia não parece particularmente envolvida. A maior parte do público, composto de profissionais da saúde, parece dar preferência a palestras com enfoque clínico, em detrimento de dados de pesquisa. É difícil culpá-los: ser médico dá trabalho, e avaliar criticamente evidências científicas talvez seja coisa para acadêmicos como eu, que têm tempo para tanto. Isso, porém, é o que deixa a porta aberta para a indústria ocupar o espaço.

Segundo dados levantados pela BBC no ano passado, as dez maiores empresas farmacêuticas globais gastaram em 2013 cerca de 98,3 bilhões de dólares em vendas e marketing – quase 5% a mais do que o PIB do Equador no mesmo ano. Boa parte da verba vai para o que a indústria chama de “educação médica”, o que inclui patrocínio de congressos, palestras de especialistas e material distribuído por representantes de laboratório. Além de subvencionar os eventos, com frequência a indústria banca o transporte e a hospedagem dosparticipantes: uma pesquisa do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), em 2010, revelou que um em cada dez médicos havia viajado para congressos com despesas pagas por laboratórios no ano anterior, e mais de um quarto participara de eventos patrocinados pela indústria no mesmo período.

Os estandes estão cheios de “material educativo”. Os mais óbvios são anúncios, com o slogan do produto, informações publicitárias e a bula. O que mais me chama a atenção, porém, é a presença de artigos científicos – traduzidos na íntegra – sem menção explícita do patrocinador. Para encontrá-lo, é preciso ler até o fim e procurar entre as letras miúdas da seção de conflitos de interesse. Apanho a esmo um dos artigos no estande da Shire: dos sete autores, cinco são funcionários do laboratório. Os dois outros são psiquiatras acadêmicos, um dos quais recebe fundos de pesquisa de cinco laboratórios e é consultor de três. O segundo recebe subsídio de 44 laboratórios diferentes, atua como consultor em 23, como palestrante em 22 e possui ações de quatro.

Embora tal situação possa assustar um leigo, ela é corriqueira na pesquisa clínica. Por causa disso, artigos científicos nos estandes me incomodam mais do que anúncios publicitários: eles são a demonstração prática de quão tênue é a linha entre ciência e marketing. Os artigos apresentam pesquisas financiadas pela indústria, desenvolvidas por funcionários e acionistas da indústria, publicadas em revistas que lucram vendendo exemplares para a indústria – que os oferece ao lado de lanches e brindes em congressos pagos pela indústria, para médicos que viajaram a convite da indústria. E é difícil até para o mais ingênuo e idealista dos seres acreditar que uma atividade educacional desse tipo possa ser isenta.

O mais assustador é que não é preciso burlar nenhuma regra para que a informação disponível favoreça o patrocinador. Em um mundo com milhares de pesquisas realizadas todos os anos, cujos resultados podem ser influenciados por inúmeros vieses no desenho e na análise dosexperimentos, ou mesmo por força do acaso, é praticamente garantido que algumas delas mostrarão a eficácia de um medicamento. E serão geralmente essas que acabarão publicadas e divulgadas, enquanto resultados negativos são rotineiramente engavetados. Com isso, simplesmente escolher os resultados que interessam e torná-los visíveis aos médicos já é um investimento que vale a pena – e que produz uma informação inevitavelmente comprometida.

MEIO-DIA_A hora do almoço reserva dois simpósios-satélite da indústria farmacêutica: o da Apsen, sobre o uso da trazodona 150 mg no tratamento da depressão, e o da Janssen, sobre melhoras no prognóstico da esquizofrenia com o tratamento de longa ação. Tais eventos, comuns em congressos médicos, são restritos a prescritores e em geral consistem em palestras de médicos contratados pelo patrocinador. Conforme divulgado pelo Wall Street Journal em 2005, um estudo interno da Merck sugeriu que o retorno desse tipo de publicidade é quase duas vezes maior que o de um encontro com um representante. Para estimular os médicos, ambos os simpósios prometem almoço: lanches do McDonald’s no da Apsen e um lunch box no da Janssen.

Encontro uma amiga que atua como neurologista no interior do estado e a convido para me acompanhar. Como boa parte dos participantes, ela teve sua inscrição paga por um laboratório. Ela me diz que, se eu convencer os representantes de que sou um pesquisador de peso, posso conseguir qualquer coisa. Ao passarmos por um dos estandes, um deles põe a mão no ombro dela e exclama: “Doutora, preciso saber da sua vida!” Contrariada, ela o ignora.

Entro no simpósio da Apsen com expectativa. Nas cadeiras, pastas com blocos de anotações e material promocional da trazodona 150 mg aguardam os prescritores que surgem com seus Big Macs. Em quinze minutos a sala está quase lotada. A palestra, ministrada por um professor da Universidade Federal de São Paulo, parece relativamente nos conformes, exceto pelo foco no medicamento do patrocinador. Todos os estudos apresentados mostram que a eficácia da trazodona é comparável à de outros antidepressivos – resultado comum numa área em que quase todos os medicamentos se equivalem nesse quesito. Daí a importância do marketing: basta fazer de um medicamento assunto de palestra para proporcionar uma vantagem competitiva.

O conferencista menciona inúmeras vezes um certo David Sheehan, autor de vários dos estudos citados. Graças ao wi-fi providenciado pela AstraZeneca (com a senha “Eficácia”), dou uma espiada no Google. Abro um artigo aleatório e constato, na seção de conflitos de interesse, que o sujeito está ligado a 62 laboratórios. A plateia parece minguar à medida que o apetite pelos Big Macs cede lugar à preguiça pós-prandial. Minha amiga cochicha que o medicamento do patrocinador não funciona muito bem como antidepressivo, mas dá um sono legal. Um pouco como a palestra.

Na saída, dou um pulo no simpósio da Janssen, numa sala em que caixas daPizza Hut e sacolas de uma loja de café se espalham pelo chão. A palestra já está na fase das perguntas, e o representante do laboratório toma a iniciativa de estimular a plateia a se manifestar, sem muito sucesso. Os conferencistas começam a debater entre si, e um deles menciona um paciente com esquizofrenia que se formou em direito e considerava ingressar na pós-graduação. Previsivelmente, ele fazia uso do medicamento do patrocinador, o Invega® Sustenna TM (palmitato de paliperidona). O representante abre um sorriso. Pouco depois, alguém pergunta sobre a síndrome neuroléptica maligna, uma complicação rara do uso de antipsicóticos. O psiquiatra diz que já viu um caso. O sorriso do representante desaparece, mas logo ressurge quando o médico acrescenta que o paciente evoluiu bem.

TARDE_De volta à área de exposição, me dou conta de que perdi a ficha com os carimbos dos patrocinadores. Consigo uma nova no balcão de inscrições, mas preciso recomeçar do zero. Nos intervalos das palestras da tarde, corro em busca dos carimbos perdidos. No estande do Cogmed, um programa de treinamento cognitivo computadorizado da Pearson, leio um cartaz: “Seja aplicador do treinamento que possui 80% de eficácia e está presente em mais de vinte países.” Curioso, dirijo à atendente a pergunta óbvia: “80% de eficácia para quê?” Ela me diz: “Ah, isso quer dizer que 80% dos pacientes terminam o tratamento.” Penso em argumentar que a definição de “eficácia” não é essa, mas me sinto constrangido. No fundo, simpatizo com os representantes, e com a fragilidade do papel que desempenham ao discutir temas sobre os quais sua formação frequentemente se limita a alguns dias de treinamento de vendas. Mais uma vez, meu coração mole me impede de ser um verdadeiro jornalista investigativo.

No intervalo do meio da tarde, as filas dos lanches aumentam a olhos vistos. Conto trinta pessoas esperando por um crepe com sorvete, calda de chocolate e m&m’s. Sem paciência, sigo até a Torrent Pharma e entro numa fila para responder a um teste sobre os remédios da marca. Enquanto aguardo, alguém espalha que na Aché estão distribuindo uma sacola colorida. De graça e sem nenhum teste. Logo, porém, chega a notícia de que já acabou. A moça à minha frente, preocupada com sua mala de viagem, pergunta ao representante se o guarda-chuva pode ser levado como bagagem de mão. Quando chega a minha vez, descubro que o teste se resume a ligar rótulos de produtos a afirmações sobre sua eficácia. Termino em vinte segundos e ganho minha primeira sombrinha do dia.

Volto ao laboratório Libbs para jogar novamente o jogo do prisioneiro. Dessa vez escolho outro paciente, mas as perguntas são semelhantes e as respostas continuam em negrito. O “gesto que liberta” também segue igual, mas o brinde – aleluia! – é diferente: ganho uma bolsa térmica. Em outro estande da Libbs, dedicado inteiramente ao Sumaxpro® (sumatriptana 50 mg + naproxeno sódico 500 mg), seleciono eventos importantes da minha vida numa tela e digito uma palavra que descreva cada um deles, enquanto o representante informa que a associação de substâncias do comprimido é a mais vendida nos Estados Unidos – nada como um apelo ao mundo desenvolvido. No final, uma animação gráfica insossa sobrepõe minhas palavras a cenas da vida profissional de um médico, terminando com o slogan do medicamento (“Viva sem interrupções”). Ganho uma bateria acessória para celular, até agora o brinde mais útil que recebi.

Lá pelas quatro da tarde, depois de guardar os presentes no carro, me dirijo à última palestra do dia, ministrada pelo canadense Moshe Szyf, um dos papas da epigenética (estudo da regulação da expressão dos genes) em psiquiatria. Ele usa um quipá e fala sobre o “novo lamarckismo”. A palestra é boa, ainda que algo exagerada – num determinado momento ele aventa a possibilidade de “reverter a pobreza por uma abordagem epigenética”. Como ex-marido de uma psicóloga social, conheço pessoas ligadas às ciências humanas que teriam convulsões ao ouvir isso. Mas a plateia não reage, e o segundo dia de congresso termina. Em casa, lembro de pesar o patrimônio amealhado: 5 quilos e meio até agora.

1º DE MAIO, SEXTA-FEIRA, MADRUGADA_Acordo às quatro da manhã com o vizinho de cima, que, de volta do Monsters Tour, bota um metal pra tocar a todo volume. Troco de quarto e ponho tampões de ouvido, mas quando o ambiente enfim silencia já não tenho sono. Na falta do que fazer, ligo o computador e reviro sites que documentam a influência do marketing laboratorial sobre a prescrição médica. Ainda que tais dados sejam quase inexistentes no Brasil, uma literatura relativamente extensa vem abordando o tema nos Estados Unidos nas últimas duas décadas, resultando em regulamentações por parte das associações médicas e na criação de movimentos de resistência à onipresença da indústria.

Lançado em 2000 nos Estados Unidos, o site do No Free Lunch compila diversos estudos sobre marketing farmacêutico e comportamento médico. O grupo ganhou alguma visibilidade em meados da década passada, ao propor campanhas como a “Anistia de Canetas” (“Troque suas canetas com logos de laboratório por outras comuns!”). No entanto, a julgar pelo design – e pela mensagem: “Best viewed on Internet Explorer or Netscape Navigator 7” –, o site não vê uma atualização há tempos. Ao contrário do Just Medicine, liderado pela Associação Americana de Estudantes de Medicina, que parece a todo vapor: dentre os recursos disponíveis, há uma tabela que ranqueia as escolas de medicina em relação às políticas para regular conflitos de interesse de estudantes e professores com a indústria, além de propostas de mudanças no currículo para lidar com a questão.

É evidente que nas últimas duas décadas a discussão sobre conflitos de interesse avançou em vários países, inclusive na esfera legal. Numa iniciativa por mais transparência, a lei norte-americana conhecida como Physician Payments Sunshine Act [Lei de Esclarecimento de Pagamentos a Médicos], de 2010, determinou que se listasse num site mantido pelo governo qualquer pagamento de mais de 10 dólares que a indústria tenha feito a médicos e hospitais. Procuro o nome de uma amiga radiologista em Washington e descubro que ela recebeu 134,21 dólares em alimentação e bebidas da General Electric em 2013.

No Brasil, o que mais se assemelha a uma regulamentação – além das normas de publicidade da Anvisa – é um acordo de 2012 entre o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Interfarma (Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa, na época presidida por Antônio Britto,ex-governador do Rio Grande do Sul), especificando práticas aceitáveis por parte da indústria. Na época, o Cremesp fez duras críticas ao acordo, argumentando que a tarefa do CFM não era negociar com a indústria, mas determinar os deveres éticos dos médicos nessas questões. A despeito dos protestos, nada mudou desde então, e a discussão parece ter abrandado.

MANHÃ_Atrasado pelo tempo gasto na internet, chego para a última palestra da mesa “Amor, ódio e paixão: os neuromistérios do coração”. O título lembra um de meus verbetes favoritos do Urban Dictionary, neurofication (neuroficação): “O ato de engrandecer artificialmente qualquer área de atividade científica ou não científica com o mistério, a legitimidade e a nobreza da verdadeira neurociência simplesmente adicionando o prefixo ‘neuro-’ a um termo qualquer.” Ao que tudo indica, funciona: é feriado, são oito da manhã e o auditório está cheio. A palestra, porém, transita entre alguns estudos relevantes de psicologia e um humor meio lugar-comum. Termina com dois textos virais de internet, um deles atribuído a Luis Fernando Verissimo (o que praticamente garante que seja apócrifo). A plateia aplaude efusivamente. Agradar o público, no fim das contas, não requer muita ciência.

Fujo da discussão final e corro atrás do café da manhã, na tentativa de me antecipar à multidão. É tarde: um mero pão na chapa já provoca congestionamento. Por sorte, descubro um bolo de cenoura sem uma marcação tão cerrada. Cortesia da GlaxoSmithKline, que tem a reputação dúbia de ter sido alvo do maior processo da história contra um laboratório: um acordo judicial de 2012 determinou que a empresa pagasse 3 bilhões de dólares por promover usos não aprovados dos antidepressivos Paxil e Wellbutrin, além de ocultar dados sobre o risco cardiovascular do Avandia, um medicamento para diabetes. Coincidência ou não, desde então o laboratório tem se esforçado para assumir uma imagem de transparência, tendo sido o primeiro, dentre os grandes, a comprometer-se a disponibilizar publicamente os resultados de todos os seusestudos clínicos. Mas no momento nada disso importa tanto quanto o bolo de cenoura sem fila, sob a efígie do Wellbutrin® XL (cloridrato de bupropiona 150 e 300 mg) colada à parede do estande.

No intervalo seguinte, encontro uma ex-aluna minha, terapeuta ocupacional, com um crachá de prescritora que lhe deram por engano. “Fez a maior diferença”, ela comenta. Pergunto se ela aproveitou a palestra do McDonald’s da véspera. “Não, a gente foi na da Pizza Hut.” Branding é tudo. Observando as filas, um amigo psiquiatra comenta que os tempos áureos de brindes ficaram para trás depois da legislação da Anvisa, e que a atual dificuldade para pegar uma caneca ou um guarda-chuva seria a desforra dos representantes de laboratório. “Eles passam os dias fazendo fila em consultórios médicos, aposto que riem por dentro quando chegam aqui.”

O tempo dispendido por esses empregados não é pouco: a pesquisa de 2010 do Cremesp aponta que 80% dos médicos paulistas recebem representantes, e cada um deles costuma visitar de dez a vinte consultórios por dia. Tal estratégia pode parecer obsoleta num mundo com informação médica disponível a alguns cliques. Ainda assim, as despesas com o marketing corpo a corpo representam a maior parte do custo de publicidade da indústria nos Estados Unidos, tendo alcançado quase 15 bilhões de dólares em 2012.

Os representantes costumam fazer visitas periódicas aos mesmos profissionais por anos a fio, construindo um vínculo que inclui distribuição de amostras grátis, pequenos brindes e a eventual oferta de palestras com jantares ou financiamento de congressos. Ainda que nenhuma demanda seja feita, boa parte dos médicos acredita que os representantes sabem o que eles vêm prescrevendo (provavelmente por meio das farmácias, em uma prática irregular repetidamente denunciada pela mídia), e que isso pode ser determinante em sua generosidade.

No estande da Mantecorp, quinze pessoas esperam para concorrer ao sorteio de um tablet. Decido adiar minha inscrição e, após apanhar uma revista chamada Sinapses &Sinopses na Novartis, entro na fila de um jogo eletrônico do laboratório Servier. Passando o dedo sobre uma caixa do antidepressivo Valdoxan® (agomelatina 25 mg), lanço flechas que estouram balões cujas legendas são sintomas da depressão, no lugar dos quais sobem outros, coloridos, com rótulos como “produtividade” e “expressão de sentimentos”. Três não prescritores competem ferozmente pela pontuação maior – uma espécie de prêmio de consolação para os portadores do crachá que não dá brindes.

Dentro do estande, cerca de dez médicos ouvem com atenção um representante que projeta dados numa tela, citando repetidamente o trabalho de um certo “dr. Stahl”. O sujeito faz perguntas de múltipla escolha sobre o Valdoxan®, que a plateia deve responder levantando placas com as letras A, B, C e D. Infiltrado no grupo, acerto três de quatro respostas. Já faz vinte minutos que as palestras começaram, mas nenhum dos presentes sai antes que o representante abra uma cortina e apanhe uns bloquinhos para distribuir. Sinto no ar certo desapontamento, e a médica a meu lado diz: “Puxa, não é mais o abridor de vinho.”

Terminado o congresso, descubro que Stephen Stahl é um psicofarmacologista da Universidade da Califórnia em San Diego, fundador do Neuroscience Education Institute. Numa postagem polêmica de 2011 no blog do instituto, Stahl acusou os críticos da indústria farmacêutica de tê-la afastado de congressos, da educação médica e dos hospitais, e impedido mesmo atividades legais sancionadas pelo órgão regulador americano, como jantares, envio de representantes ou brindes (“Nem café ou água mineral são permitidos em Massachusetts, o que dizer de um livro?”). Num salto algo ousado, ele conclui que isso levou ao fechamento dos laboratórios de pesquisa em saúde mental da AstraZeneca, GSK e Pfizer, e que saíram vitoriosos “os antipsiquiatras” – gente que não acredita em doença mental ou na eficácia dos fármacos. A lógica de atrelar a crítica ao marketing à “descrença na doença mental” parece estranha – tanto quanto a naturalidade em aceitar que a viabilidade de um laboratório de pesquisa dependa diretamente da publicidade.

Polêmico, o post foi retirado do ar em seu endereço original, embora sobreviva nas páginas de críticos. É um bom exemplo do argumento normalmente invocado para defender a onipresença da indústria na ciência médica: o de que a inovação farmacológica dependeria dela, já que o dinheiro arrecadado com vendas de medicamentos é revertido em pesquisa. O debate é complexo, mas os números são elucidativos: em 2013, o investimento em pesquisa das dez maiores companhias farmacêuticas do mundo foi de 65,8 bilhões de dólares – em torno de 33% a menos do que os já mencionados 98,3 bilhões em “vendas e marketing”. Já os lucros das mesmas empresas, no mesmo período, chegam a 89,8 bilhões de dólares. Críticos do sistema, que vão do Partido Pirata sueco ao Nobel de Economia Joseph Stiglitz, alegam que, para cada dólar investido na ciência, a indústria gasta um valor maior do que isso em ações de publicidade para distorcê-la. E que, se tivéssemos deixado a pesquisa farmacêutica em domínio público, sem patentes, lucros exorbitantes ou despesas de marketing, poderíamos ter mais pesquisa pelo mesmo custo e medicamentos a um preço menor.

MEIO-DIA_Saio da palestra seguinte mais cedo e consigo a proeza de ser um dos primeiros a se servir do almoço. Na Aspen Pharma, agarro um estrogonofe de frango, que traço em pé enquanto espero na fila de inscrição para o sorteio do tablet da Mantecorp. Num golpe de sorte, assisto à deserção de três estudantes a minha frente, depois de descobrirem que não podem se cadastrar sem o crachá de prescritor. Me lembro de meus tempos de crachá amarelo e me solidarizo com eles, ainda que avançar três casas na fila seja tão bom quanto ganhar brindes. Na saída do estande, avisto um bacalhau à Gomes de Sá na Medley, mas a fila me intimida e guardo minha fome para o que promete ser o evento mais interessante do dia.

A “Arena TDAH” – palestra patrocinada pela Shire sobre transtorno de déficit de atenção e hiperatividade em adultos – vem sendo promovida desde o início do congresso. Sobre um ringue em estilo ufc, o cartaz anuncia o “combate” entre Luis Augusto Rohde e André Palmini, acompanhado de lanches do Subway. Médicos dos mais prestigiados do Rio Grande do Sul, ambos pertencem a uma geração que se sobressai não só pela atividade clínica, mas por uma carreira sólida como pesquisador. Rohde é presidente da Federação Mundial de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), e foi o único psiquiatra brasileiro a integrar a força-tarefa que elaborou a última versão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Associação Americana de Psiquiatria, o DSM-5. Palmini tem contribuições importantes de pesquisa no campo das epilepsias e é um dos idealizadores do congresso. E, ainda que não conste em seu currículo, também é neurologista do meu avô.

Palmini e Rohde são exemplos do que a indústria farmacêutica chama de “líderes de opinião”: médicos conceituados, capazes de influenciar colegas e frequentemente recrutados por laboratórios como consultores e palestrantes. Na condição de pesquisadores ativos, tais profissionais costumam ter interesses em verbas de pesquisa e parcerias com a indústria que vão muito além de canetas e bloquinhos. Na declaração de conflitos de interesse disponível no programa do congresso, Rohde e Palmini mencionam ligações com cerca de quatro laboratórios cada um, entre palestras, consultorias e verbas de pesquisa – café pequeno diante dos currículos de psiquiatras norte-americanos.

O marketing algo apelativo do cartaz parece surtir efeito, e uma fila gigantesca em espiral se forma na porta. Quando enfim consigo entrar, meus piores temores se realizam: os lanches do Subway acabaram, e me dou por feliz ao sentar numa das últimas cadeiras disponíveis.

O representante da indústria anuncia que serão quatro temas, com réplica e tréplica, e que os debatedores “vão assumir posições contrárias entre si, que não representam necessariamente as suas próprias” – pelo jeito, eles de fato apostam no conceito de luta marcial. O debate, porém, segue um curso amistoso. Os dois palestrantes são eloquentes e geralmente acabam por convergir em suas visões. Me divirto com uma pergunta sobre o “TDAH de alto funcionamento” – o indivíduo bem-sucedido que consegue cumprir seus compromissos, mas negligencia sua casa em desordem e ageladeira que jamais é limpa. Eu mesmo estou sem água no refrigerador há cinco dias. Curiosamente, o debate se encerra quase sem menção ao produto do patrocinador, o Venvanse (dimesilato de lisdexanfetamina). Um desavisado poderia pensar que o esforço do fabricante foi para o ralo. Mas o importante nem sempre é vender a medicação: por vezes o investimento está em vender a doença.

Num artigo de 2003 para a revista Medical Marketing & Media, o publicitário Vince Parry discorre sobre o que chama de condition branding, processo que consiste em transformar um quadro clínico em marca. “Se puder definir entre médicos e pacientes uma condição particular e seus sintomas associados, você também poderá prescrever o melhor tratamento para essa condição”, ensina o autor. Parry segue descrevendo exemplos bem-sucedidos – a propagação do conceito de “halitose” como uma condição médica na década de 20, quando a Warner-Lambert quis expandir o mercado do Listerine (“Aumentar a importância de uma condição existente”); a redefinição da impotência como “disfunção erétil” no final da década de 90, quando a Pfizer lançou o Viagra (“Redefinir uma condição existente para reduzir o estigma”); e a criação do conceito do “transtorno do pânico” como um diagnóstico específico nos anos 70, financiada em parte pela Upjohn, fabricante do Xanax (“Desenvolver uma nova condição para construir reconhecimento de uma necessidade não satisfeita do mercado”).

A expansão do diagnóstico médico não é necessariamente ruim: um paciente com sintomas e sofrimentos até então sem causa pode buscar tratamento e melhorar sua vida. Mas ao ver um publicitário debater o conceito em termos tão cândidos, é difícil acreditar que algo não esteja errado.

Na psiquiatria, provavelmente nenhuma doença tem sido tão controversa quanto o TDAH, cujo reconhecimento e medicação cresceram de modo astronômico ao longo das últimas duas décadas. A produção do medicamento mais comumente usado, o metilfenidato (mais conhecido pelo nome comercial de Ritalina®), aumentou cerca de trinta vezes nos Estados Unidos entre 1990 e 2012, mesmo que a evidência disponível (parte da qual publicada pelo grupo de Luis Augusto Rohde) sugira que a prevalência dos sintomas tenha se mantido relativamente estável. Defensores da relevância do transtorno argumentam que, ainda que o problema de diagnóstico exagerado possa existir, os números refletem em parte o reconhecimento de uma condição antes não percebida. Isso não impede que o TDAH tenha se transformado no alvo preferencial dos críticos de uma “supermedicalização” da sociedade.

Ao contrário do que boa parte do público tende a pensar, o debate sobre a identificação de um transtorno mental pouco tem de biológico – em última análise, o ponto em que um comportamento deixa de ser uma variação da normalidade para ser considerado patológico é inevitavelmente uma convenção clínica. O manual da Associação Americana de Psiquiatria propõe critérios objetivos para a definição do TDAH: a presença de seis entre nove sintomas de desatenção e seis entre nove sintomas de hiperatividade antes dos 12 anos de idade, em mais de um ambiente ou circunstância, com prejuízo de funcionamento social, acadêmico ou ocupacional, sem que isso seja explicado por outro transtorno.

É óbvio, no entanto, que tais “receitas de bolo” não são aplicadas rigidamente, e que a prevalência de um diagnóstico acaba sendo definida pela visão subjetiva dos médicos, dos pacientes e de seu entorno. Nesse sentido, o investimento realizado pela Shire parece endossar a ideia de que o TDAH em adultos é relevante e tratável. Ao lado do anúncio da palestra, um cartaz informa que “O TDAH também pode acometer adultos e normalmente encontra-se associado a outras comorbidades”, e que, “apesar de 5,8% dos adultos possuírem a doença, muitos são subdiagnosticados e poucos são tratados”. Essa é a mensagem que precisa ser veiculada – e associar especialistas de peso como Rohde e Palmini a ela parece valer a pena, mesmo que eles sequer mencionem o medicamento do patrocinador.

TARDE E NOITE_A tarde prossegue com uma palestra sobre videogames, outrora vilões, hoje ferramentas de treinamento cognitivo para neurocientistas e alguns psiquiatras. Cansado pela noite maldormida e aborrecido por ter perdido o lanche do Subway, saio no intervalo e a multidão sequiosa de brindes já não me diverte. No centro da área de exposição forma-se uma fila colossal: o estande da Nova Química promove o lançamento do livro Integrando Psicoterapia e Psicofarmacologia, de Irismar Reis, Thomas Schwartz e Stephen Stahl (o mesmo do post polêmico na internet), prometendo 300 exemplares gratuitos. O dr. Reis está autografando o livro, e a fila, com pelo menos 200 pessoas, anda a passos de tartaruga. Pergunto a uma moça no pelotão da frente quanto tempo ela esperou para chegar até ali. “Pelo menosuma hora”, ela responde. E acrescenta que as senhas já devem ter se esgotado. Jogo a toalha.

Compenso o livro perdido com três Danoninhos, surrupiados no estande da Danone, que anuncia o suplemento vitamínico Souvenaid®. Assoberbado pela confusão, saio da área de exposição para a rua e descubro que a poucos passos da luz fluorescente há um agradável dia de sol. Na ausência de bancos, sento no meio-fio para tomar os Danoninhos e acabo me deitando na grama. Vencido pelo cansaço, vou embora mais cedo. Em casa, peso os brindes e descubro que acumulei outros 3,3 quilos de espólio. Ao todo, já são quase 9 quilos de bugigangas.

À noite dou um pulo na festa do congresso, que fecha o Bar Opinião, tradicional casa noturna de Porto Alegre. Lá, estabeleço uma improvável amizade com Duda, uma menina de 17 anos, ainda no ensino médio, filha de uma afluente família mato-grossense. Fascinada pelo cérebro, ela se inscreveu no congresso e veio até Porto Alegre para participar dele. Parece entusiasmada com a festa, enquanto eu, desprovido de energia, me despeço com um tchau conformado em direção ao sono que me falta.

2 DE MAIO, SÁBADO_Acordo com fome. De lanche em lanche, há dias não faço uma refeição normal. Sem palestras que me atraiam no primeiro horário, encaro uma tigela de cereal em casa e chego ao congresso já no intervalo. A área de exposição está mais vazia, e talvez seja a hora de ter minha vida ilustrada pelo cartunista da Libbs. Quando me aproximo, porém, ainda há filas ali. Parece um paradoxo: se eu, que me inscrevi no congresso com o objetivo de angariar os brindes, não encontro tempo para esperar, como alguém que veio para assistir às palestras consegue se dar ao luxo de ficar na fila?

Frustrado, vou até o estande da Medley, mas a representante me diz que tanto as bolsas quanto os carimbos personalizados acabaram. Pergunto de quantos carimbos eles dispunham, e ela diz que haviam preparado 4 mil. Como foram cerca de 3 300 inscritos (e 140 palestrantes), a única alternativa plausível é que diversas pessoas tenham abocanhado mais de um. Não só me sinto injustiçado, como um tanto incompetente como recolhedor de brindes. A moça se desculpa e me convida para o festival de sanduíches do almoço.

Os lanches também começam a rarear, e os representantes se mostram mais relapsos. No estante do Sumaxpro®, um deles diz que os prescritores não precisam se submeter à atividade no computador para levar o brinde, mas que têm de esperar um pouco para que ele possa “passar um ou dois conceitos sobre o medicamento” – inclusive a indefectível afirmação de que é a associação mais prescrita nos Estados Unidos. Um médico se aproxima para reclamar que a bateria acessória de celular que eles distribuíram não funciona direito. O representante sugere, sem muita convicção, que ele tente carregá-la no computador e não na tomada.

Quando o intervalo termina, penso que é o momento de encarar um dos cartunistas. Espero dez minutos na fila, ao longo dos quais reparo nas fotos dispostas nas paredes do estande, com famílias cheias da mesma felicidade doméstica estampada em anúncios de lojas de roupas, supermercados ou margarinas. Quando por fim sento em frente ao artista – um argentino radicado no Brasil, com uma expressão que revela o cansaço das dez horas de trabalho praticamente ininterruptas por dia –, tenho a impressão de que estar no congresso deve ser mais duro para ele do que para mim.

Na saída, encontro meu amigo Diogo Lara, escalado como moderador em algumas palestras. Reclamo das filas na área de exposição, e ele comenta que, considerando o preço da hora dos médicos, não faz nenhum sentido que eles percam vinte minutos em troca de um pratinho de comida em vez de pagar 30 e poucos reais pelo bufê. Ele define isso como um “bug neuroeconômico”, e eu acho graça, mas o argumento faz sentido.

Um dos maiores especialistas no campo da neuroeconomia, o controverso Dan Ariely, costuma dizer que “Grátis!” é uma categoria de preço diferente de qualquer outra – talvez por evocar uma decisão em que aparentemente não há nada a se perder. Ariely cita inúmeros estudos que mostram que, confrontadas com algo oferecido de graça, as pessoas abandonam a lógica econômica racional que utilizam em transações pagas em prol do apelo do custo zero. Isso talvez explique parte da eficácia de uma estratégia de marketing tão rasa quanto distribuir canetas e bloquinhos.

Um presente, por questões inerentes ao senso de reciprocidade, tem um impacto que transcende a lógica econômica. Por mais que a maior parte dos médicos acredite que, ao contrário de bens valiosos, ninharias não sejam capazes de favorecer um determinado laboratório ou medicamento, antropólogos e psicólogos sociais argumentam que a dívida inconsciente – criada por um presente ou pela palavra amigável de um representante – pode ser suficiente para direcionar a prescrição.

E a estratégia, no fim das contas, parece funcionar, ainda que as evidências disponíveis sobre o tema sejam fragmentárias. Um estudo norte-americano comparou médicos que haviam solicitado a adição de medicamentos de um laboratório específico aos formulários de um hospital com seus colegas que não haviam feito o mesmo. No primeiro grupo, a proporção de médicos visitados por representantes da companhia em questão era sete vezes maior. Outro estudo, realizado após três cursos de atualização sobre drogas para hipertensão de laboratórios distintos, verificou que a prescrição do medicamento do patrocinador pelos médicos participantes aumentou em todos os casos. Uma terceira pesquisa analisou um par de cursos em resorts com despesas pagas e concluiu que os eventos aumentavam a prescrição da droga do patrocinador em quase três vezes – mesmo que apenas um entre vinte médicos participantes declarasse acreditar que a mordomia poderia influir em suas práticas.

Um crítico poderia argumentar que os dados são meras correlações, e que nunca foi realizado um experimento controlado sobre o tema, como recomendaria o protocolo da ciência médica. Na prática, porém, se a indústria gasta dezenas de bilhões anuais em marketing, seria difícil acreditar que ela não possui evidência ainda mais convincente de que a coisa funciona.

MEIO-DIA_As opções para o almoço incluem espetinhos na Aspen, hambúrgueres na EMS, crepes na Nova Química, saladas em potinhos na Lundbeck, polenta com ragu na Torrent Pharma e o festival de sanduíches na Medley. Seguindo a lógica das filas menores, apanho um potinho de salada de macarrão, um espetinho de linguiça e um resto de molho de ragu com queijo, já sem polenta, que sobrou do ataque coletivo ao bufê da Torrent. Entre um lanche e outro, encontro Duda, minha amiga da festa da véspera, que reclama das filas e do tratamento que recebe com seu crachá de não prescritor. Uma ideia me ocorre.

Levo Duda ao estande da Libbs e pergunto à representante se a garota pode jogar o game do prisioneiro, sob minha responsabilidade. A moça concorda, e a menina já está colocando os fones de ouvido quando outro funcionário vem nos informar que infelizmente isso não é possível, pois eles poderiam ser multados pela Anvisa. Decepcionado, pego os fones e digo que eu mesmo vou jogar, mas que as perguntas serão respondidas por Duda. Ela se intimida, dizendo que não saberá responder, mas eu explico que as respostas corretas aparecem em negrito. “Ah, assim é fácil”, ela comenta. E continua, encarando o representante: “Por que vocês não dão o brinde logo? Já vi que esse jogo é só para fazer ele ficar olhando para esse comprimidinho aí.” Ele responde, constrangido: “É, é mais ou menos isso.” Às vezes é preciso uma criança para dizer que o rei está nu.

TARDE E NOITE_Fico até o fim do congresso para assistir à última mesa do dia, que reúne Diogo Lara e Iván Izquierdo, meu ex-orientador de doutorado, ambos da PUC-RS. Mas a verdade é que estou exaurido. Na saída, já é noite e os estandes que frequentei durante a maior parte dos últimos dias vão sendo removidos a toque de caixa. Amanhã o espaço provavelmente será ocupado por outra exposição comercial: de tratores, telefones ou produtos de beleza. A mim, resta ir embora, imerso em reflexões. E levando no porta-malas seis sacolas, duas bolsas térmicas, dois carregadores de celular, uma caneca, doze canetas, duas amostras de vitamina D, duas caixas de lenços, uma pasta, quatro bloquinhos, um nécessaire, três cadernos, um boné, uma garrafa térmica, dois guarda-chuvas e três caricaturas.

O que aprendi? Que essa parece ser uma história sem vilões óbvios, à qual as habituais teorias da conspiração não se aplicam. Quase todos os implicados, vários deles amigos meus ou profissionais que admiro, podem justificar seu envolvimento com a indústria de maneira legítima. Os organizadores podem argumentar que seria impossível realizar um congresso desse porte sem verbas da indústria. Além disso, mesmo que não houvesse patrocínio oficial, o conflito de interesse não desapareceria, já que boa parte dos palestrantes continuaria possuindo vínculos com laboratórios. Palestrantes subsidiados pela indústria podem alegar que essa proximidade, além da renda extra, abre portas e oportunidades de financiamento e divulgação para suas pesquisas. Médicos que recebem representantes de laboratório frequentemente invocam como razão legítima a obtenção de amostras grátis para repassar a pacientes com dificuldades financeiras. E os representantes de laboratório, por fim, têm o argumento mais convincente de todos para participar do circo: essa é a profissão deles, da qual dependem para pagar suas contas. Como é o caso dos próprios laboratórios, que evidentemente visam ao lucro para poder prestar contas aos acionistas.

Além disso, descontados alguns excessos, o conteúdo das palestras não foi escancaradamente publicitário, o material distribuído era, em boa medida, constituído de artigos científicos, por vezes sem slogans, e o conteúdo do congresso, no que diz respeito à pesquisa básica, foi melhor do que eu esperava. E mesmo sem a presença da indústria, a ciência estaria de qualquer forma sujeita a uma variedade enorme de conflito de interesses. Ainda que sem patrocínios, patentes ou participação nos lucros, pesquisadores da área biomédica são tentados a superfaturar dados e inflar conclusões para publicar artigos, obter financiamentos e progredir na carreira. A competição e outros aspectos do capitalismo estão entranhados na academia e na sociedade, e nem todas as regulamentações ou declarações de conflito de interesses serão capazes de trazer isenção.

Dito isso, o fato é que o mundo está cheio dessas feiras de exposição em que médicos ganham Big Macs e fondues de chocolate, se empanturram de brindes, gastam horas ouvindo discursos publicitários, recebem afagos psicológicos de aduladores profissionais, perdem tempo ao manter os olhos fixos em telas que mostram um desfile de rótulos de medicamentos e brincam com embalagens que salvam pacientes virtuais. E mesmo uma adolescente de 17 anos é capaz de se dar conta de que algo parece errado nisso.

Ainda assim, Duda só enxerga a ponta mais óbvia do iceberg. Sob a superfície, existe um imenso polvo com braços de centenas de bilhões de dólares – que financia a pesquisa de novos medicamentos, a testagem clínica dos mesmos, os órgãos que regulam sua aprovação, os legisladores que regulamentam o processo, as revistas que publicam os resultados de pesquisa, os eventos que os divulgam, as sociedades que produzem diretrizes clínicas, o acesso dos médicos ao conhecimento, e mesmo as entidades que representam os pacientes.

“Não existe almoço grátis”, diz o ditado. E, se eu e mais de 3 mil congressistas comemos de graça nos últimos dias, é porque alguém pagou a conta. Não se trata de caridade da indústria farmacêutica, que acumula margens de lucros maiores do que quase qualquer outro empreendimento lícito no mundo ao longo das últimas décadas. Quem sustenta o circo são pessoas comuns que, para tomar decisões sobre sua saúde, dependem dos indivíduos que perambulam pela área de exposição com seus crachás de prescritores.

Como um político com seus eleitores, um médico tem com seus pacientes uma relação fiduciária que o obriga, do ponto de vista ético e legal, a representar de forma isenta os interesses dessas pessoas ao atendê-las. Mesmo assim, um estudo de 1980 mostrou que 85% de um grupo de estudantes de medicina americanos considerava errado que um político aceitasse um presente de 50 dólares de um lobista, mas que somente 46% consideravam problemático que um médico aceitasse um brinde semelhante de um laboratório. Mais sintomaticamente ainda, 61% de um grupo de residentes respondeu que suas relações com a indústria eram incapazes de afetar suas próprias práticas de prescrição, mas apenas 16% afirmariam o mesmo sobre seus colegas. Por mais que eu tente, não consigo enxergar como a conta possa fechar. Mas talvez eu já não consiga pensar direito, depois de quatro dias trabalhando como agente duplo.

Pouco depois do Cérebro, Comportamento e Emoções de 2010, eu resolveria o problema do pai de minha então namorada ligando para um de meus muitos colegas de profissão que recebem representantes de laboratório, vários dos quais me ajudaram na preparação deste diário. Sem grandes escrúpulos, pedi um par de caixas de amostras grátis de Zyprexa® que ele havia recebido dos representantes da Eli Lilly. Isso deu conta do tratamento do meu ex-sogro por um mês, além de aumentar consideravelmente meu status junto à família. Algum tempo depois, a promissória passaria para o Sistema Único de Saúde, que atualmente fornece a versão genérica do medicamento. No fim das contas, os braços do polvo somos todos nós. E o alimento dele também.

Fonte: Piauí

Para movimento negro, campanha “#somostodosmacacos” reproduz racismo

30/04/2014

Helena Martins – Repórter da Agência Brasil

Edição: Stênio Ribeiro

A campanha lançada pelo jogador Neymar Jr. gerou polêmica. De um lado, artistas, jornalistas e até a presidenta Dilma Rousseff manifestaram apoio à ideia de que “temos todos a mesma origem, e nada nos difere”, conforme escreveu a presidenta no Twitter. De outro, integrantes do movimento negro usaram as mesmas redes sociais para criticar a campanha “#somostodosmacacos”.

O professor de história e integrante da UNEafro Brasil Douglas Belchior avalia que a postura do jogador Daniel Alves, que comeu uma banana jogada contra ele, em partida realizada no último domingo (27), foi “interessante, provocativa”, mas ele critica a campanha deflagrada em seguida. De acordo com Belchior, a associação de negros a macacos é uma forma de reprodução do racismo. Em seu blog, ele divulgou texto que explica as origens dessa compreensão: a tese evolucionista de que os seres humanos tiveram diferenças provocadas pela seleção natural, e de que africanos e aborígenes estariam mais próximos dos macacos do que os europeus, por exemplo.

A polarização foi acentuada ontem, quando a origem da campanha, iniciada com a divulgação da foto de Neymar segurando uma banana, ao lado do filho, foi revelada. A imagem faz parte de uma campanha publicitária criada pela agência Loducca, em resposta ao pedido do pai do jogador, Neymar da Silva Santos, que procurou a empresa após o filho e Daniel Alves terem sido vítimas de racismo, na final da Copa do Rei, entre Barcelona e Real Madrid, no último dia 16.

No vídeo de divulgação da campanha “#somostodosmacacos”, os idealizadores da proposta expressam opinião sobre como deve ser enfrentada a desigualdade racial: “A melhor maneira de acabar com o preconceito é tirar seu peso, fazendo a pessoa preconceituosa se sentir sem poder”, diz a frase que aparece sobre imagens de crianças negras jogando. “Uma ofensa só pega quando irrita você. Vamos acabar com isso. “#somostodosmacacos”, conclama, usando a hashtag que já virou produto da marca do apresentador Luciano Huck, que também publicou foto com bananas.

Pelas redes sociais, a jornalista Aline Pedrosa defende a iniciativa: “Mesmo sendo branca, me reconheço com traços dos meus ancestrais, que são negros. Não nego minhas origens, muito pelo contrário, as estudo e as exalto. Para mim, a mobilização significa união – todos somos um – e, acima de tudo, desprezo a uma atitude vergonhosa como essa, e que, sabemos, não rola só fora do Brasil, muito pelo contrário”.

O cineasta Joel Zito de Oliveira, que dirigiu o filme A Negação do Brasil, que trata da representação dos negros na mídia, avalia a campanha como um “equívoco” por esconder a negritude e não ser capaz de enfrentar o racismo. Ele considera que a grande proporção obtida pela iniciativa também está relacionada ao conteúdo dela. “Tudo que é feito, e que de fato não incomoda e não muda a questão racial no Brasil, tende a ter aceitação mais fácil”, afirma. “Branco comendo uma banana ou colocando sobre a cabeça pode virar Carmen Miranda, carnaval. Com o negro é outra coisa. Mas a postura da sociedade brasileira sempre foi no sentido de evitar o confronto”, critica.

Ao ser perguntado sobre como as mídias sociais repercutiram o caso, ele foi otimista: “Elas podem ser apropriadas para dar visibilidade a vozes que não tinham acesso às grandes mídias”. Por meio dessas mídias, casos como a morte do dançarino Douglas Rafael (conhecido como DG) e o desaparecimento do pedreiro Amarildo vieram à tona. “A novidade não é o desaparecimento, a morte ou o racismo. A novidade é que o questionamento das populações negras mais pobres é feito nas mídias sociais e chega à grande mídia”.

Já Douglas Belchior diz que a hashtag “tenta esconder as desigualdades raciais, a violência, o extermínio, e reforça a ideia de que no Brasil se vive uma democracia racial”. Para ele, a campanha cumpriu um “desserviço” ao mudar o foco da discussão pública do assassinato do dançarino DG, no Rio de Janeiro, para uma campanha que propõe o apaziguamento dos problemas.

“Vivemos no Brasil uma escalada assombrosa da violência racista. Esse tipo de postura e reação despolitizadas e alienantes de esportistas, artistas, formadores de opinião e governantes têm um objetivo certo: escamotear seu real significado do racismo, que gera desde bananas em campo de futebol até o genocídio negro, que continua em todo o mundo”, alerta.

Para a Agência Brasil, a ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Luiza Bairros, assinalou que a campanha é superficial e busca transformar a imagem do macaco em algo positivo, quando tem um significado essencialmente negativo para negros e negras. “O que existe é uma tendência de considerar o racismo como um fenômeno superficial na sociedade brasileira, ou em qualquer outro lugar do mundo; algo que se manifesta como um dado isolado, como uma expressão de indivíduos que praticam atos racistas”, avalia.

A ministra espera, contudo, que a provocação seja “uma porta de entrada para que a sociedade possa aprofundar as questões”. A lição a ser tirada, segundo ela, é que “o combate ao racismo vai precisar de uma manifestação contrária de toda a sociedade brasileira, mas para isso precisaremos ir mais fundo, identificando outras repercussões do racismo, que não se expressam só no futebol”.

As manifestações de racismo no âmbito do esporte, sofridas também por Tinga, do Cruzeiro, e outros jogadores, não são novas. Na década de 1910, jogadores do América chegaram a utilizar pó de arroz para se parecerem com brancos. Já em 1924, o Vasco da Gama redigiu a chamada Resposta Histórica, carta em que nega a exigência da Associação Metropolitana de Esportes Atléticos para que se desfizesse dos 12 jogadores negros, mulatos, nordestinos ou pobres que atuavam na equipe.

Agora, 90 anos depois, o Brasil está prestes a sediar a Copa do Mundo, e deve fazer uma campanha contra a discriminação racial durante o campeonato, conforme anunciado pela presidenta Dilma Rousseff, no domingo (28). A ministra Luiza Bairros informou que a Seppir participa da elaboração da campanha, e espera que o país “seja capaz de mandar para o mundo e para a sociedade brasileira, especificamente, a mensagem de que o racismo não pode ser tolerado no futebol nem em nenhum espaço da sociedade”.

Já Douglas Belchior torce para que o Mundial seja também espaço de visibilidade dos problemas do país: “A Copa do Mundo coloca o Brasil na vitrine do mundo. A posição dos movimentos é aproveitar esse momento para escancarar uma realidade que é maquiada no Brasil. Nós queremos demonstrar que vivemos um genocídio, que vivemos sob a égide de polícias extremamente violentas e que atingem sobretudo a população negra”.

O cineasta Joel Zito espera que a campanha a ser veiculada seja capaz de aprofundar a abordagem sobre a questão racial: “Aproveitar a oportunidade da Copa para realizá-la é muito bem-vinda. Inclusive porque a sociedade brasileira vai conviver com segmentos culturais com os quais nunca conviveu. Segmentos que recebem, há anos, a ideia de que o Brasil vive uma democracia racial. Ela [campanha] é necessária, bem-vinda, mas tem que ser inteligente”, defende.

ONU monitora caso Malhães

29/04/2014

A viúva do coronel reformado do Exército Paulo Malhães, Cristina Batista Malhães, e o caseiro do sítio onde ele foi assassinado, Rogério Pires, foram ouvidos pela polícia ontem. Pela manhã, a morte do militar que há cerca de um mês relatou à Comissão Nacional da Verdade (CNV) ter participado de torturas e desaparecimentos, no período da ditadura militar, repercutiu no Alto Comissariado das Nações Unidas para Direitos Humanos. A entidade pediu “investigação imediata” do homicídio e solicitou informações mais detalhadas à unidade mais próxima, que fica no Chile. A Polícia Civil do Rio, além de colher depoimentos de parentes da vítima, está à procura de imagens de câmeras de segurança da região para análise. À noite, a CNV se reuniu com a Casa Civil do governo fluminense para entregar a íntegra do depoimento de Malhães, além de pedir que os investigadores considerem a possibilidade de queima de arquivo.

O laudo pericial, que indicará a causa da morte de Malhães, ainda não foi finalizado. Há, até o momento, duas suspeitas do que vitimou o coronel: enforcamento ou um ataque cardíaco. Conforme os depoimentos da mulher de Malhães e do caseiro, pelo menos três homens invadiram o sítio, na Baixada Fluminense, na quinta-feira. Um deles estava com o rosto coberto. Cristina e Rogério foram mantidos como reféns em cômodos separados, enquanto os criminosos levaram armas de coleção, dois computadores, joias e uma pequena quantia em dinheiro.

Depois que os bandidos deixaram o imóvel, o coronel foi encontrado morto. A principal linha de investigação é latrocínio — roubo seguido de morte. Por isso, a ajuda oferecida pela Polícia Federal foi desconsiderada, até agora, pelos agentes estaduais. Mas eles não descartam a possibilidade de queima de arquivo ou mesmo vingança — perpetrada por alguma vítima do regime.

Em 21 de março, Malhães falou à Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro, e em 25 do mesmo mês, prestou depoimento à Comissão Nacional da Verdade. Nas duas ocasiões, o coronel deu detalhes de torturas e ocultação de cadáveres. Ele admitiu que participou do sumiço do corpo do deputado cassado Rubens Paiva, em 1971. Depois, Malhães voltou atrás, dizendo não se lembrar se foi o autor da ação. Apesar do depoimento bombástico, a polícia não obteve informações de que o coronel vinha sofrendo ameaças. Desde o fim de semana, investigadores buscam traçar um perfil da vítima, tentando checar se ele tinha desafetos. Pelo menos dois dos cinco filhos do militar já foram ouvidos.

Relatório do Riocentro

Será apresentado hoje, no Rio de Janeiro, relatório preliminar da CNV sobre o atentado no Riocentro, praticado em 30 de abril de 1981 por militares. Segundo a pesquisa, o objetivo era explodir bombas para causar pânico e mortes na população civil presente na casa de espetáculos, onde ocorria show de música popular brasileira, organizado por artistas e sindicatos em comemoração ao Dia do Trabalhador. Mas um dos artefatos levados pelo capitão Wilson Machado e pelo sargento Guilherme Pereira do Rosário — descontentes com a abertura do regime — explodiu no interior do carro de Machado, que ficou gravemente ferido. Rosário morreu na hora.

Fonte: Correio Braziliense

Ex-ministro quer relatório da PF e vai à Justiça

28/04/2014

Patricia Büll

O ex-ministro da Saúde e pré-candidato do PT ao governo do Estado de São Paulo, Alexandre Padilha, disse que vai entrar na Justiça para ter acesso ao relatório completo da Polícia Federal que ligou seu nome ao do doleiro Alberto Youssef. Ele afirmou que irá interpelar judicialmente quem “usou seu nome em vão”.

“Mente quem estabelece qualquer envolvimento meu como doleiro. Fiquei extremamente indignado em fazerem uma ligação a partir da troca de mensagens de terceiros que não tinham nenhum envolvimento como Ministério da Saúde”, afirmou Padilha, que disse ainda ter interrompido uma viagem da “Caravana Horizonte Paulista”, que visita cidades do interior, para esclarecer a acusação. Padilha reconheceu, entretanto, que foi procurado mais de uma vez pelo deputado licenciado André Vargas (que se desfiliou do PT na sexta-feira), sobre o laboratório Labogen.

O interesse, disse, era apresentar o laboratório como uma empresa interessada em fazer negócios com o Ministério. “Em todas as vezes indiquei que ele fizesse o encaminhamento formal ao Departamento de Ciência e Tecnologia, seguindo os procedimentos de transparência que criamos”. Padilha evitou responder se o vazamento do relatório teria sido feito por adversários. Mas, disse que não tem medo de “cara feia” e que continuará apontando os problemas de São Paulo: “Se tivesse medo, não teria implantado o Mais Médicos, quando meus adversários questionaram até minha formação”.

Fonte: Brasil Econômico