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Excelentíssima Fux

11/04/2016

Como a filha do ministro do STF se tornou desembargadora no Rio

MALU GASPAR

Nas conversas que teve para abrir o caminho da filha rumo ao TJ, Luiz Fux dizia: “É o sonho dela.”

“Eu não me sinto confortável”, disse a desembargadora Marianna Fux, entre sorrisos constrangidos, na sessão de uma das câmaras especializadas em direito do consumidor do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Era a sua vez de votar, mas Fux, novata na corte, estava insegura. “Acho que vou pedir vistas”, disse aos colegas, longe do microfone.

Tratava-se do caso de uma senhora cega que pedia indenização de uma instituição de ensino por não ter conseguido fazer o vestibular para o curso de direito. Segundo ela, não havia na faculdade esquema para deficientes visuais. Os funcionários teriam prometido realizar outra prova especial para ela em nova data, nunca marcada. Mas a idosa já perdera a ação na primeira instância, e a apelação agora em julgamento estava para ser rejeitada.

Lendo seu voto, a relatora sustentava que a faculdade não poderia ser responsabilizada pelo dano porque a candidata desistira voluntariamente do concurso. Ao notar a indecisão da nova colega, abandonou a leitura e passou a explicar, de maneira mais informal, o raciocínio que percorrera para chegar à conclusão. Fux ouvia tudo com atenção. Ao final, tomou coragem: “Acompanho a relatora.”

Ao longo de quatro horas, naquela manhã de março, os desembargadores da 25ª Câmara Cível despacharam 170 processos. Foi a segunda sessão de trabalho de Marianna Fux depois de empossada. Não relatou nem revisou nenhum caso, mas se manteve atenta, ora com os olhos vidrados na tela do computador, lendo os processos, ora distribuindo sorrisos e balinhas. Foi acolhida com simpatia pelos colegas, que lhe davam dicas e a avisavam para prestar atenção quando o julgamento demandasse a adoção de alguma nova regra do Código de Processo Civil, reformulado recentemente sob o comando do pai da desembargadora, o ministro do Supremo Tribunal Federal Luiz Fux.

O clima amigável na corte fluminense contrasta radicalmente com a controvérsia que cercou o nome de Marianna Fux desde o início de 2013, quando seu pai começou a comunicar as autoridades de que a filha se candidataria a uma das vagas reservadas para os advogados no TJ. Por lei, um quinto dos desembargadores deve ser escolhido entre profissionais do direito, num processo conduzido pela Ordem dos Advogados do Brasil, a OAB. Cabe à Ordem apresentar uma lista de seis nomes, que em seguida os desembargadores reduzem a três, em votação no TJ. A escolha final é do governador do estado, que nomeia um dos três mais votados.

O primeiro a ser informado de que Fux pretendia colocar a filha no tribunal foi o então governador Sérgio Cabral, ele mesmo um cabo eleitoral de Fux-pai em sua disputa pela cadeira no Supremo, em 2011. A Cabral, Fux justificou sua decisão: “Eu não tenho nada para deixar para ela.” Pouco depois, o próprio governador daria a notícia ao então presidente da OAB, Wadih Damous. “O Cabral avisou: ‘Vai cair esse abacaxi no colo de vocês’”, lembrou Damous.

Casado com uma advogada, Cabral sabia que a escolha de Fux-filha provocaria reações no meio jurídico. A vaga no TJ, com salário-base de 30 400 reais (quase o teto do funcionalismo público), mordomias como motorista, auxílio-moradia e benefícios que não raro elevam os rendimentos para mais de 60 mil reais, é ferozmente disputada entre os advogados, que exibem os currículos em campanhas aguerridas e repletas de conchavos. A atuação de um ministro do Supremo certamente desequilibraria o jogo a favor da filha, então uma profissional de 32 anos que pouca gente conhecia.

Dali em diante, todos os passos de Fux-pai e Fux-filha passaram a ser encarados como parte de uma campanha. Por exemplo, o casamento de Marianna com o colega Hercílio Binato, filho de um desembargador, em outubro de 2013. A festa para mil convidados, no Museu de Arte Moderna do Rio, foi uma demonstração de amor paternal. Diante de uma plateia formada por ministros do Supremo, desembargadores, juízes e advogados das mais prestigiadas bancas, o pai da noiva subiu ao palco e cantou uma música feita em parceria com o compositor Michael Sullivan. Flor Marianna, o amor me chama e Flor do amor é Marianna, diziam alguns versos.

Meses depois, em maio de 2014, Fux recebeu desembargadores, ministros de cortes superiores e o governador Luiz Fernando Pezão em um almoço na serra de Petrópolis. Vários convidados chegaram de helicóptero. Por essa época, multiplicaram-se os relatos de telefonemas de Fux a bancas e gabinetes de magistrados e políticos pedindo apoio para a filha. Era, segundo diziam alguns deles, “um campanhão” de porte inédito para uma vaga no TJ.

A piauí conversou com quatro advogados que receberam ligações do ministro do Supremo em 2014. Nas conversas, Fux tratava o caso como questão pessoal, sempre emendando ao pedido frases como “É o sonho dela” ou “É tudo o que posso deixar para ela”. Chegou a mencionar o assalto sofrido pela família em 2003, quando ele e os filhos foram agredidos, amarrados e feitos reféns por bandidos no prédio onde moravam. Segundo Fux, a vaga no TJ seria uma forma de compensar o trauma da filha.

Um dos que receberam uma ligação de Fux foi Wadih Damous, que já havia deixado a presidência da OAB e estava em campanha para deputado federal pelo PT. “Expliquei que não estava mais na OAB, mas ele ponderou que eu ainda exercia liderança sobre os conselheiros e disse que precisava da minha ajuda. Falei que não só não me meteria no assunto, como, se pudesse, não votaria na filha dele.”

Juiz desde 1983, ex-desembargador e ex-ministro do Superior Tribunal de Justiça, a segunda corte mais importante do país depois do STF, Luiz Fux é o carioca mais poderoso do mundo do direito. Estão sob sua guarda processos-chave para o Rio e para os magistrados – como a ação que contesta a validade dos auxílios salariais que permitem a 90% dos atuais colegas de Marianna Fux ganhar bem mais do que o teto do funcionalismo público. Em 2012, o então ministro Carlos Ayres Britto julgou inconstitucionais os auxílios e mandou extingui-los, mas Fux pediu vistas e suspendeu a decisão. Até hoje o processo está bem guardado no fundo de sua gaveta no STF – e os auxílios continuam pingando na conta-corrente dos magistrados.

Também em 2012, Fux impediu, por meio de liminar, a votação no Congresso que daria aos estados não produtores de petróleo uma fatia dos royalties, o que prejudicaria imensamente o Rio de Janeiro (até hoje a questão não foi decidida, mas agora está nas mãos da ministra Cármen Lúcia). É Fux, ainda, quem vai julgar o candidato do PMDB à Prefeitura do Rio, o deputado federal Pedro Paulo, acusado de bater na ex-mulher. No Supremo, mais de 5 mil processos esperam uma canetada sua. “Praticamente todo advogado carioca tem algum caso que depende do Fux”, observa um deles.

Guitarrista e faixa preta de jiu-jítsu, o ministro foi um professor popular na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, UERJ. Oferecia churrascos aos alunos e fazia sucesso entre as moças, que o apelidaram de Julio Iglesias, numa referência à cabeleira negra. Sempre bem colocado nos concursos, era liderança natural entre os juízes.

Depois da posse no STF, destacou-se também pela forma como exerce o poder. Nos primeiros meses de 2014, ofereceu-se para fazer parte da banca de doutorado do maior opositor de sua filha na OAB, o vice-presidente Ronaldo Cramer. A tese de Cramer será avaliada agora, em 14 de abril – e Fux integrará a banca. “Antes ele era querido. Hoje, é temido”, resumiu, entre reiterados pedidos de anonimato, um dos advogados a quem Fux procurou em seu “campanhão”.

A oposição à filha de Fux ganhou força assim que foram feitas as inscrições para a vaga. Alguns candidatos – Marianna Fux entre eles – apresentaram documentos insuficientes, e a OAB estendeu o prazo para que providenciassem a papelada. Tais documentos precisavam provar que o pretendente tinha no mínimo dez anos de experiência, apresentando pelo menos cinco petições, pareceres ou relatórios por ano de exercício da profissão. Fux-filha havia entregue apenas uma carta do prestigiado advogado Sergio Bermudes – amigo de seu pai há décadas –, segundo a qual ela realizava consultoria e assessoria em seu escritório desde 2003. Naquela época, questionado sobre a natureza do trabalho, Bermudes disse que a pupila se ocupava de processos sigilosos, e que por isso não haviam sido declarados no pacote da candidatura.

Já em março passado, ele me disse, por telefone, que a principal ocupação da advogada no escritório era a pesquisa. Bermudes informou que a convidara para estagiar porque a conhecia desde os 3 anos de idade. Mas atalhou: “Quando assumo um estagiário, digo uma frase clichê: Não importa o motivo pelo qual você chegou aqui. Para ficar, tem de ter mérito.” Perguntei então qual havia sido o mérito dela. Bermudes começou a gritar: “Você está querendo esculhambar a Marianna! Você está sendo desonesta!!” E desligou o telefone sem se despedir.

Findo o prazo para a complementação dos documentos, Marianna Fux não havia apresentado trabalhos suficientes para os anos de 2007, 2008, 2009, 2010, 2012 e 2014. Um grupo de 28 conselheiros da OAB pediu a impugnação de sua candidatura, e a celeuma se tornou objeto de notas e reportagens em jornais e revistas. Fux-pai visitou algumas redações. Dizia que a oposição à filha nada mais era do que uma represália do grupo do petista Wadih Damous pelo voto que ele proferira no caso do mensalão, condenando vários quadros do PT. Damous nega que tenha interferido na disputa da OAB.

O clima entre os advogados fluminenses ficou tão tenso que a OAB suspendeu a disputa pela vaga no TJ em agosto de 2014. Na ocasião, o presidente da entidade, Felipe Santa Cruz, disse que pretendia transformar o processo em eleição direta entre os 150 mil advogados do Rio. O projeto das eleições não andou, mas, em fevereiro passado, a seleção para a vaga no TJ foi retomada. Desta vez, num contexto totalmente diferente.

As atenções na OAB estavam voltadas para o impasse em torno do impeachment de Dilma Rousseff, e metade do corpo de conselheiros havia sido renovada. Convocou-se a sessão com apenas dois dias de antecedência – prazo atípico para a situação. O presidente da OAB alegou ter sido necessário acelerar o processo porque o tribunal ameaçava preencher a vaga por conta própria. Em cinco horas, o pedido de impugnação de Marianna Fux foi julgado e descartado. Os candidatos presentes foram sabatinados e a votação foi realizada.

Na sabatina, coube a Marianna responder, por sorteio, à seguinte pergunta: Quem deveria pagar pelos custos das salas dos advogados nos tribunais? Ela recitou: “Pela vez primeira, a Constituição brasileira destinou um capítulo próprio para a advocacia, considerando o advogado essencial à prestação jurisdicional. Sendo assim, entendo que cabe aos tribunais esse encargo.”

Apesar de sete conselheiros terem votado nulo em protesto contra a candidatura de Marianna, ela foi a segunda colocada da lista sêxtupla encaminhada ao tribunal. Teve cinquenta votos. Desses, 29 foram dados por conselheiros novos – um dos quais, inclusive, só votou na filha de Fux. Ao final da sessão, a quase desembargadora desabafou à Folha de S. Paulo: “Foram dois anos e meio de perseguição política, de bullying. Esse aqui é um processo político, mas passei por esta fase. Vamos para a próxima.” (Filha e pai foram procurados pela piauí, mas recusaram-se a dar entrevista.)

No dia 7 de março, os seis nomes da oab foram à votação no Tribunal de Justiça. Grande amigo de Fux-pai, o ex-presidente do tribunal, Luiz Zveiter, defendeu o voto em Fux-filha e em outros dois candidatos. Também entre os magistrados havia quem não apoiasse os Fux – em protesto, 25 faltaram à sessão. O desembargador Siro Darlan, amigo de Luiz Fux há cinquenta anos, compareceu, mas não apoiou a moça. “Tenho o maior carinho por Fux, que é brilhante e honra a nossa carreira. Mas, se eu fosse ele, faria com que meus filhos seguissem o meu exemplo. Trata-se de um cargo republicano. Não é algo que se possa dar a alguém, como um presente.”

O mal-estar, porém, não abalou o triunfo dos Fux. Marianna teve a maior votação da história do tribunal para um candidato a desembargador. Poucas horas depois, a nomeação pelo governador Luiz Fernando Pezão estava no Diário Oficial do estado. Em duas semanas, um grupo de deputados estaduais aprovou na Assembleia Legislativa a proposta de conceder à desembargadora a mais alta comenda do Parlamento fluminense, a Medalha Tiradentes – por sua “enorme contribuição ao nosso estado, através de seu talento e capacidade jurídica”.

Entre a nomeação e a homenagem da Assembleia, Luiz Fux esteve no centro de um almoço regado a vinhos no restaurante Antiquarius, no Leblon, que adentrou a tarde de sexta-feira. Um dos comensais era Zveiter, que logo ao chegar deixou claro o motivo da comemoração: “Aí está o pai da desembargadora!” Recebeu de volta um carinhoso abraço.

Fonte: Revista Piauí

Delegados da PF pressionam Cardozo contra corte

29/12/2015

Vinculada ao Ministério da Justiça, Polícia Federal sofreu corte de R$ 133 milhões no orçamento do ano que vem

Irritados com o corte de 133 milhões de reais no Orçamento de 2016, os delegados da Polícia Federal decidiram pressionar o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, para que tome uma atitude em defesa da corporação – que é vinculada à pasta. Em carta protocolada nesta segunda-feira, um grupo de 37 delegados da PF cobra de Cardozo “menos discursos e mais ações efetivas do Ministério da Justiça em defesa da Polícia Federal”.

Eles querem a realização de “todos os atos institucionais necessários para impedir que a Polícia Federal seja alvo de um processo de sucateamento em razão do cumprimento da sua competência constitucional: combater o crime organizado, os crimes decorrentes dos desmandos políticos e econômicos e a corrupção”.

“Caso Vossa Excelência reconheça a sua impossibilidade política em defender a Polícia Federal, os delegados exigem, então, que apoie e se engaje, ao lado da instituição, na busca pela autonomia orçamentária e financeira da Polícia Federal, por meio de gestões para a aprovação da PEC 412/2009, que tramita no Congresso Nacional, a qual garantirá a desvinculação da Polícia Federal do manto do Ministério da Justiça e que permitirá à instituição Polícia Federal se defender por seus próprios meios contra o processo de desmonte que a ela está sendo imposto”, escreveram os delegados.

O orçamento previsto inicialmente para a corporação atingia 1 bilhão de reais. O corte de 13%, no entanto, imposto pelo Congresso, atingiu o coração das atividades, como operações especiais de combate a malfeitos contra o Tesouro, segundo eles.

A carta a Cardozo é subscrita pelo presidente da Associação Nacional dos Delegados da PF, Carlos Eduardo Miguel Sobral, e por todo o Conselho de Diretores Regionais da entidade. “Uma redução orçamentária dessa monta importará, necessariamente, na drástica diminuição das ações investigativas da Polícia Federal no ano que se aproxima, pois contratos celebrados para garantir o seu regular funcionamento serão suspensos ou cancelados e projetos que visam ao seu aprimoramento serão completamente abandonados, por absoluta falta de recursos”, alegam os delegados.

“A despeito dos fatos e constatações, os delegados não têm observado a atuação de Vossa Excelência, na qualidade de titular da pasta ministerial, a qual se vincula à instituição, no sentido de denunciar e enfrentar esse claro desmonte do órgão.”

Os delegados reclamam que Cardozo não reagiu ao corte imposto pelo Congresso. “Estamos todos bastante incomodados porque os discursos [do governo] são todos de apoio à PF, mas quando os delegados olham para os lados veem uma instituição que se apequena, com redução grave de projetos fundamentais para o cumprimento da nossa missão”, afirma Carlos Eduardo Sobral.

Por meio de sua assessoria de imprensa, o ministro da Justiça informou que vai encaminhar uma carta à Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal “demonstrando que não há desmonte, mas o fortalecimento da Polícia Federal como toda a sociedade brasileira sabe”. A assessoria destacou que a resposta de Cardozo “será dada igualmente por carta”.

Fonte: Veja

O Sujeito oculto

07/12/2015

LUIZ MAKLOUF CARVALHO

Como as agências de comunicação cultivam relações com jornalistas, fazem o lobby dos governos e da iniciativa privada, e influenciam o que é publicado na imprensa

“Alô, de onde fala?”

“Da FSB.”

“Faca, sapo, bola?”

“Não. Francisco Soares Brandão.”

FSB é um senhor baixinho e grisalho de 66 anos, expressão ranzinza e óculos redondos de aro vermelho que lhe conferem um ar de publicitário dos anos 80. Sentado à cabeceira de uma grande mesa de reuniões, não achou graça ao ouvir do repórter a menção ao telefonema do “faca, sapo, bola”. Limitou-se a explicar que, diante de perguntas do gênero, as telefonistas são orientadas a responder com o seu nome. “Na FSB, tudo tem orientação”, disse o dono das consoantes. “Eu sou um sujeito obsessivo com a organização, não teria feito esse negócio se não fosse.”

“Esse negócio”, que este ano completa 35 anos, é a maior agência de comunicação do Brasil. Tem cerca de 700 funcionários e 200 clientes, entre os quais meia dúzia de ministérios, estatais como a Petrobras, os governos estadual e municipal do Rio, além de algumas outras prefeituras, como a de Campinas, e dezenas de grandes empresas do setor privado. Sua sede de 1 200 metros quadrados fica em Ipanema, na Zona Sul do Rio de Janeiro, a duas quadras da praia. Tem filiais em São Paulo e Brasília (a de Belo Horizonte irá fechar no final do ano), além de um escritório em Nova York. Faturou declarados 201 milhões de reais no ano passado – mais da metade no setor público –, um crescimento de 25% em relação a 2013. Neste atrapalhado 2015, estima crescer uns 15%.

Visto por baixo da longa mesa de doze lugares, Francisco, Chico ou Chiquinho Brandão – houve até reunião interna para resolver quem poderia chamá-lo de quê – tem pernas curtas, que não encostam no chão e não param de se movimentar – a esquerda menos, por causa de um grave acidente. O tênis se destaca. É o tipo de calçado que mais usa, às vezes um sapatênis. Em seu escritório carioca, costuma trabalhar de bermuda (gosta das floridas) e camisa polo. É com esses trajes despojados que recebe clientes graúdos em casa, nos jantares que promove com regularidade. Concede vestir blazer e calça jeans em ocasiões especiais, em reuniões com autoridades.

Nosso encontro, o único que Francisco Brandão permitiu para esta reportagem, aconteceu em junho, cercado de cuidados e formalidades. O patrão estava rodeado por sete executivos da FSB, convocados para a ocasião, numa sala de um dos quatro andares que a empresa ocupava até recentemente num edifício no Itaim Bibi, em São Paulo. Por acaso, o mesmo endereço onde o vice-presidente da República, Michel Temer, mantém, há anos, seu escritório de advocacia, alguns andares acima. A coincidência rendeu um comentário jocoso para quebrar o gelo da comitiva: “Mais uma prova de que a FSB está sempre perto do poder.” Brandão apenas sorriu, algo desconcertado. “Precisa frisar que ele não é nosso cliente”, disse um diretor. “Quem dera que fosse”, brincou outro.

Desde meados de novembro, a FSB ficou mais longe de Temer. Seu escritório paulistano mudou-se do Itaim para a Vila Nova Conceição, na avenida Presidente Juscelino Kubitschek. “Saímos de 900 metros quadrados para uma área de 2 014 metros quadrados abrangendo dois andares interligados, em um ambiente confortável e moderno de trabalho, projetado para facilitar o relacionamento com vocês”, dizia o e-mail que Brandão dirigiu a “clientes e amigos”. Sob o título “expansão em São Paulo”, o mesmo e-mail registra que a empresa havia desembarcado na cidade em 1995, alojada em “uma sala de 40 metros quadrados”.

As agências de comunicação, ou de public relations (PR), como a FSB Comunicações, são uma versão anabolizada – e muito mais sofisticada desde que a internet mudou o mundo – das antigas assessorias de imprensa. Começaram a tomar corpo nos anos 90 e tiveram um crescimento exponencial na última década. Estima-se que hoje sejam 600 empresas no país – de todo porte. Segundo a Mega Brasil, que publica o Anuário da Comunicação Corporativa, referência do setor, o faturamento global, no ano passado, foi de 2,3 bilhões de reais, um crescimento da ordem de 20% em relação a 2013.

Primeira do ranking, a FSB faturou 100 milhões de reais a mais que a segunda colocada, a Companhia de Notícias (CDN), criada por João Batista Rodarte, que se associou ao Grupo ABC, de Nizan Guanaes. A terceira e a quarta posições do ranking são encabeçadas por duas mulheres: Kiki Moretti, da In Press Porter Novelli (101 milhões de reais), e Maristela Mafei, da Máquina da Notícia (68 milhões de reais).

Engalfinham-se – as quatro primeiras, e mais a Informe Comunicação, de Rebeca Scatrut, mulher do jornalista Ricardo Noblat –, sobretudo em torno das licitações do setor público: todas contra a FSB, esta contra todas, e cada uma contra cada qual, numa briga de foice às vezes no escuro. Como disse Carlos Henrique Carvalho, o presidente da Associação Brasileira das Agências de Comunicação, que as representa: “É uma entidade de concorrentes. Ninguém está lutando pela paz universal, nem fazendo benemerência.” Sim, mas acordos e acertos também existem. Um exemplo, recente, foi o silêncio das quatro quando a FSB aterrissou de paraquedas na Petrobras, convocada para socorrer a gestão de Aldemir Bendine.

Se o êxito das campeãs do mercado no Brasil está ligado ao acesso que tiveram e têm a contas de governos e estatais (fato que vale sobretudo para a FSB e a CDN), o modo de operar dessas agências também deve muito ao recrutamento de quadros formados nas grandes redações que resolveram cruzar o rio – ou bandear para “o lado de lá”, como costumam dizer, com algum desdém, os jornalistas ainda entrincheirados no front da notícia. Desde meados da última década, as empresas de assessoria contratam sistematicamente, muitas vezes a peso de ouro, profissionais que levam consigo o know-how desenvolvido dentro dos jornais para investigar o poder, passando a operar esse conhecimento com sinais invertidos: como instrumento de proteção e promoção de clientes em geral poderosos, sejam eles públicos ou privados – ou atuem na intersecção das duas esferas. Se o clichê de que a imprensa representa o Quarto Poder tem alguma substância, é preciso acrescentar que hoje ele está esvaziado, não apenas porque a internet democratizou de maneira selvagem o mercado de notícias, mas pela emergência de um Quinto Poder cada vez mais rico e aparelhado, encarnado pelas agências de comunicação.

O portfólio de serviços que oferecem é variado. Desenvolver “relações com a mídia” é o prato principal, em geral acompanhado da “gestão de crise”, em alta no país. A eles se somam ofertas de “relações com públicos de interesse” (osstakeholders), “mapeamento e varredura das redes sociais”, “produção de conteúdo”, “análise de mídia”, “marketing digital”, “pesquisa de opinião pública” e “relações com investidores”.

As PRs estão por toda parte: na Secretaria de Comunicação da Presidência da República, em dezoito outros ministérios (inclusive o da Defesa), no Banco Central, em estatais, no Conselho Nacional de Justiça, no Tribunal de Contas da União, em governos e prefeituras, em CPIs, na Lava Jato, nas empreiteiras, nas multinacionais, na mídia, nas entidades de classe, nas associações profissionais.

Conflitos de interesse pululam no meio. A FSB, por exemplo, tem a conta do Ministério da Saúde, da Souza Cruz e dos laboratórios Glaxo e Roche. Atendeu ao mesmo tempo o Governo do Estado do Rio e o empresário Fernando Cavendish. Cuida dos interesses da ANP, a Agência Nacional do Petróleo, e de algumas empresas privadas do setor. Está na Petrobras e em empreiteiras envolvidas na Lava Jato.

É o caso da Camargo Correa e da Andrade Gutierrez. Ambas as construtoras empenharam esforços para questionar a legalidade dos inquéritos da Polícia Federal, bem como a atuação do Ministério Público e do juiz Sergio Moro. No começo da noite de 12 de maio, chegou a jornais de São Paulo, pela voz de um assessor da FSB, a informação de que havia um grampo telefônico ilegal na cela do doleiro Alberto Youssef, um dos principais delatores da operação. O assessor encaminhou, por e-mail, uma cópia do termo de depoimento do autor do grampo, o agente da PF Dalmey Fernando Werlang. Alguns jornais publicaram a informação, sem mencionar a fonte. O Valor Econômico registrou que o depoimento “foi enviado ontem à noite a redações de jornais de São Paulo por assessoria contratada por réus em ações penais da Lava Jato”. O jornal sabia que se tratava da FSB, mas, nas duas reportagens sobre o caso, optou por não publicar essa informação.

O mesmo depoimento também foi capa da revista Veja de 20 de maio: “GRAMPO – sabotagem ou negligência. Entenda as forças em jogo que podem minar o trabalho anticorrupção do juiz Moro.” O nome da FSB também não aparece.

Na outra ponta da Lava Jato está a maior estatal do país, também cliente da FSB. Passou a ser atendida quando Aldemir Bendine assumiu a presidência da empresa, no começo do ano. Firmaram um contrato de 1,5 milhão de reais, por seis meses de trabalho, sem licitação. Bendine já conhecia a agência dos tempos em que presidia o Banco do Brasil. À época, a FSB atendia o Banco Votorantim, do qual o bb é o maior acionista.

A Petrobras já tinha (e tem) três agências sob contrato – S2Publicom (7 milhões de reais), Máquina da Notícia (1,9 milhão de reais) e H+K Strategies (1,1 milhão de reais) –, todas por meio de licitações. “No caso da FSB, tratou-se de contratação direta por emergência, em função da Comissão Parlamentar de Inquérito em curso na Câmara dos Deputados, que representava risco emergencial de imagem à Petrobras”, explicou a assessoria de imprensa da estatal. E por que a FSB, se outras agências do setor também têm expertise em acompanhamento de CPIs? “Considerando que não havia tempo hábil para um processo licitatório, o parecer da área jurídica foi favorável à contratação direta por emergência”, disse a assessoria. E este parecer? “O parecer é um documento interno da Petrobras”, foi a resposta. A CPI da Petrobras foi encerrada em outubro. Mas a estatal firmou um novo contrato com a FSB, com validade de três meses. A justificativa: as consequências da CPI e da Operação Lava Jato estão longe do fim.

“O incansável, indomável e indestronável Chiquinho Brandão.” É assim que uma nota de revista, nos idos de 1986, se refere ao dono da FSB, atual nome da Promoshow, empresa fundada em 1980. Funcionava em uma sala anexa do Copacabana Palace. Seus clientes eram a Chandon (do champanhe), o banco Chase Manhattan, a construtora Gomes de Almeida Fernandes, o empresário Antônio Carlos de Almeida Braga (o Braguinha), e promotores de eventos sociais e esportivos que agitavam a sociedade carioca. Brandão também contava, desde jovem, com a amizade de João Roberto Marinho, das Organizações Globo.

Na sala de reuniões de seu escritório no Itaim, ao ouvir os qualificativos da nota remota, Brandão comentou, surpreso: “Que esquisito. O papel aceita tudo.” Parecia não se lembrar. A nota, no entanto, constava da linha do tempo do relatório anual da FSB do ano passado, peça institucional que a empresa distribui entre colegas e clientes para prestar conta de suas atividades e promover seus êxitos. Ilustrada por uma foto – em que o retratado segura, na mão direita, uma garrafa de champanhe –, a nota o descrevia como “comandante de uma equipe que mantém contato, íntimo e diário, com os mais diversos setores do jornalismo”. Vinha então o complemento: “A FSB penetra notas nas áreas econômica, social, política e esportiva, garantindo, muitas vezes, absoluta exclusividade para os jornalistas que as publicam.”

O verbo de sentido equívoco provocou sonora gargalhada dos sete executivos que acompanhavam Brandão na entrevista – com exceção de Marcos Trindade, o número 2 da empresa, os outros seis (Flávio Castro, Tom Camargo, Melchiades Filho, Gabriela Wolthers, Alon Feuerwerker e Marcelo Xavier de Mendonça) eram todos profissionais com larga experiência nas redações, com passagem por veículos como Gazeta Mercantil, Estadão, Rede Globo e Folha de S.Paulo. Na presença do grupo, o chefe encabulou-se e riu pouco. “Acho que foi uma revista feita por um amigo meu”, comentou. “A receptividade de uma empresa de assessoria depende justamente da cumplicidade entre esta e os editores, colunistas e repórteres. É primordial a qualidade e a exclusividade da notícia”, disse na ocasião ao amigo da revista. Hoje, lá se vão quase trinta anos, no mesmo relatório anual, lê-se: “A FSB domina o conjunto de atividades de relacionamento com a mídia” e “desenvolve interface com as áreas de opinião dos jornais.”

Como assim? Trindade se ajeitou na poltrona e arriscou uma explicação: “Você está sugerindo que a gente está influenciando e penetrando a mídia, porque a maior parte do que está saindo é a gente que está pautando. Mas não é isso. A mídia tem independência total. Até pelo seguinte: se a gente tivesse esse poder, a FSB estava faturando muito mais do que isso aí, você pode ter certeza.”

Marcos Trindade cruzou o caminho de Brandão em 1992. Era o sexto ano da ainda pequena, mas desde sempre aguerrida FSB – duas salas, no mesmo endereço de Ipanema, onde hoje ocupam dezenas. Não chegava a vinte clientes. Brandão botou umheadhunter atrás de um bom contador. “Na época o negócio era pequeno, mal existia no Brasil, o pessoal nem entendia como é que funcionava”, disse o empreendedor. Trindade foi o último dos quatros candidatos a ser entrevistado. Conquistou a vaga. Tinha 30 anos, uma pequena empresa que negociava ações da Bolsa e um cargo executivo numa empresa de computadores, além de uma renhida fé evangélica (persistente até hoje, o que o faz guardar os sábados, faça chuva ou faça sol).

“Vi que ele era uma pessoa boa”, disse Brandão. Trindade retribuiu: “O Francisco era uma pessoa que afinava com valores, que falava as coisas pela frente, não mandava recado, não dormia com problema, e era extremamente exigente. Durante doze anos nós trabalhamos mesa com mesa, lado a lado.” Trindade tornou-se o grande operador da FSB – discretíssimo, mas implacável na conquista do que interessa: as contas dos clientes. Foi ele quem convenceu Brandão a disputar o filão do setor público – que hoje responde por mais da metade do faturamento da FSB, embora o setor privado represente cerca de 90% da carteira de clientes da empresa. Trindade virou sócio, e já é o sucessor declarado – se um dia Brandão se ausentar.

Perguntei ao segundo na hierarquia da FSB se era justa a imagem que alguém havia empregado para defini-lo: um sujeito que vê uma nota de um dólar espetada num pau de sebo de 100 metros de altura e vai lá buscar. “Eu vou responder por ele, eu vou responder por ele”, antecipou-se Brandão. “O Marcos está comigo há pouco mais de vinte anos, o Marcos é como se fosse meu irmão. O Marcos trabalha de sol a sol, o Marcos disputa de uma forma correta, o Marcos é uma pessoa religiosa, o Marcos é um homem sério, o Marcos não vai fazer isso, te juro, eu o conheço bem.” Comovido com as palavras do amigo, Trindade complementou: “Na vida eu aprendi a não fazer nada por dinheiro. Dinheiro sempre foi uma consequência.” “Consequência de um bom trabalho”, emendou Brandão, como num jogral, antes que Trindade arrematasse: “A FSB cresceu em Brasília. Dez anos atrás, um sócio nosso disse que a gente devia fechar lá, porque não tinha nada, só uma secretária e uma salinha. E na realidade foi o Chico e eu que dissemos: Não, vamos lá, vamos lá. Desde 2002, durante dez anos, eu ia para Brasília toda semana, parecia parlamentar. Quem da concorrência fez isso? Isso é subir no pau de sebo? Isso é determinação, pra você buscar. E nós crescemos.”

A amizade do dono da FSB com João Roberto Marinho, seu vizinho de condomínio em Petrópolis, região serrana do Rio, é mais antiga. “Eu conheço o João da vida toda, nós fomos colegas do Colégio Souza Leão, no Rio. A gente tem uma boa relação, eu gosto muito dele”, contou Brandão, na roda.

Figura reservada e avessa a efusividades, João Roberto Marinho aceitou participar de um vídeo promocional da FSB para falar da grande empresa em que Francisco Soares Brandão a transformou. “Quando ele fala no vídeo, é muito mais do Chico ser humano, sujeito sério, sujeito trabalhador”, disse Brandão a respeito de si. “Quem conhece o João – tem gente que não conhece – sabe que ele é uma pessoa espartana, e separa perfeitamente o lado pessoal do lado profissional”, emendou. Brandão fez questão de registrar que nunca usou dessa amizade para alavancar o sucesso da FSB. “O que ajudou, ajuda e vai continuar ajudando, se Deus quiser, é o meu bom relacionamento com as pessoas. Eu trabalho e me relaciono com muita gente, de mamando a caducando. Eu sou um cara diferente.”

Apesar de bem relacionado, o dono da FSB se põe reticente quando lhe perguntam sobre sua história. O máximo que concede, com manifesta má vontade, é que estudou direito na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, sem ter concluído o curso. E que foi preso durante a ditadura. Sim. “Eu até por acaso fui preso, preso, preso, eu fui preso na ditadura. Fui preso em casa, meu irmão se envolveu em alguma coisa de esquerda e eu fui preso.” Por quanto tempo? “Isso aí deixa pra lá. Pula pra outra”, ordenou ao repórter. Apanhou? “Um pouco. Eu não quero falar, cara, pelo amor de Deus. Não gosto, não quero, você me desculpe.”

Brandão já tinha 19 anos em 1968, quando o AI-5 radicalizou a ditadura. Pode-se perguntar de variadas maneiras se ele foi contra ou a favor. Ele não dirá. “Eu não fui a favor, e nem fui contra. Quem conhece a minha cabeça pode acreditar, acredite se quiser. Eu nunca fiz movimento pra derrubar fulano ou beltrano.”

Muito mais tarde, quem caiu foi ele. Amante do hipismo – como João Roberto –, Brandão já foi um razoável cavaleiro na arte de saltar. Na manhã do domingo de Páscoa de 2011, passeava na mula Tieta, no sítio de Petrópolis. Atrás dela vinham outras duas mulas que, assustadas por um pássaro, se projetaram na direção de Tieta. Brandão levou um tombo quase fatal. Foram cinco cirurgias, semanas de cama, cadeira de rodas e fisioterapia constante, que perdura até hoje. Amargou anos de sofrimento. Não deixou de acompanhar a FSB, como pôde, mas foi nesse período que o vínculo com Trindade, dedicadíssimo, ganhou mais uma camada de cimento. Já faz um tempo que voltou a andar – mas ainda tem dificuldades com a perna esquerda. Mostrou, de pé, encostado à parede da sala de reuniões, que não consegue mais dobrá-la.

“Comemos o pão que o diabo amassou – quando tinha pão”, disse João Batista Rodarte, o fundador da Companhia de Notícias (CDN), a segunda maior agência do país, ao relembrar o passado de pobreza, com a mãe, costureira, precisando sustentar oito filhos. Mineiro de Passos, no sul do estado, morou em casebre de terra batida. A família migrou para São Paulo em 1959, quando ele tinha 12 anos. Foi balconista de farmácia, ajudante de mecânico em oficina, borracheiro, auxiliar de escritório, seminarista por dois anos e meio.

A vida melhorou quando passou no vestibular da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, em 1973. Paralelamente, abriu uma empresa de roupas femininas, a Halloween, que vendia para lojas de departamentos. No começo dos anos 80 começou a namorar uma das filhas do então professor recém-chegado do exílio, Fernando Henrique Cardoso. Se deram muito bem – dona Ruth o adorava – e ele acabou se amasiando com a filha do príncipe. A história terminou, mas a amizade com o ex-presidente da República perdura até hoje, inclusive nas partidas de pôquer.

Rodarte enfronhou-se então no velho MDB. Logo conquistou um cargo de confiança na secretaria de Comunicação do governo Franco Montoro. Assessorou o sogro na campanha para a Prefeitura de São Paulo (em 1985, vencida por Jânio Quadros) e com ele seguiu na campanha vitoriosa de senador constituinte (1986). Poderia tê-lo acompanhado – mas julgou, como disse em sua sala na sede da CDN, à avenida Faria Lima, “que estava na hora de seguir outro caminho”. Foi o começo da Companhia de Notícias, primeiro com alguns poucos sócios, tudo gente emedebista, e depois em carreira solo, sob a influência sempre presente do senador que começava a brilhar no Congresso.

O dono da CDN não briga com os fatos: “Eu acho que ganhei algumas contas por ter trabalhado com o Fernando Henrique, antes de ser presidente”, admitiu. “A Odebrecht é claramente isso. Entrou em 1995, mas o Emílio [Odebrecht] confiava em mim porque me conheceu como assessor do Fernando Henrique. Os quase seis anos que eu trabalhei com o Fernando me ajudaram muito. O fato de ser da confiança dele sempre somou muito no meu currículo. Não quando ele foi presidente, porque aí eu praticamente me afastei. A CDN já estava consolidada, muito antes disso, e naquela época as agências não tinham contratos com o governo federal.”

Não como seria depois, é verdade. Mas a CDN tinha a conta da Secretaria de Energia do governo peemedebista de São Paulo. O secretário era David Zylbersztajn, então casado com a outra filha de Fernando Henrique. (Bem depois, ele casou-se com Cristina Moretti, ou Kiki, da In Press Porter Novelli.) Quando já presidente, FHC nomeou o genro para a direção da Agência Nacional do Petróleo (ANP). Zylbersztajn abriu licitação para contratar uma agência de comunicação. A CDN disputou, e ganhou. Houve uma grita da FSB, inclusive na imprensa carioca – era a primeira incursão de uma concorrente em praias fluminenses, onde Brandão, embora pequeno, já penetrava melhor.

“Foi uma licitação limpa”, diz Zylbersztajn, ainda hoje em seu escritório de Ipanema. À época, Brandão e Trindade insinuaram compadrios. O diretor da ANP perdeu momentaneamente o fair play, desafiou-os à prova, aos recursos administrativos, ao preto no branco. A FSB não foi em frente. Hoje, é ela que detém a conta da ANP.

No escritório, entre um café e outro, Rodarte pede ao contador, por telefone, o resultado da empresa no ano passado. Ele manda, num papel, minutos depois: faturamento bruto de 105.159.165,10 reais, crescimento de 24% em relação a 2013.

Andrew Greenlees, vice-presidente da CDN, participava da entrevista. Sua carreira como jornalista terminou aos 35 anos, depois de ter sido repórter (Constituinte, eleição e impeachment de Collor), correspondente em Washington e editor da Folha. “Tive a sensação de que já tinha visto tudo – e quis conhecer melhor o lado de lá”, contou, cercado de papeizinhos com tarefas agendadas. Foi assessorar o deputado tucano José Aníbal, então líder do governo FHC. Conhecia João Rodarte de velhos carnavais peemedebistas – e não resistiu a uma boa proposta da CDN, àquela altura já com contratos no governo paulista. Entrou em setembro de 1999, como diretor de marketing político, área que lhe coube consolidar e fazer crescer. Três anos depois virou sócio (com 8%) e vice-presidente, passando a cuidar da operação de todas as contas da CDN.

Até setembro de 2013, João Rodarte manteve-se como sócio majoritário da CDN. Foi quando vendeu 51% para o Grupo ABC, do publicitário Nizan Guanaes (o próprio Grupo ABC foi recentemente vendido para o gigante americano Omnicom, por estimado 1 bilhão de reais). É um pecado perguntar para ambos de quanto estamos falando – mas nenhum faz muito escândalo quando ouve uns 80 milhões de reais. O pagamento é pingado, mês a mês, em milhões. Cláusulas rigorosas obrigam a permanência de Rodarte por mais cinco anos, com melhores índices de desempenho. “Está puxado, mas estou feliz”, disse o dono dos 49%, ansioso pelo final do prazo.

A entrada do Grupo ABC não alterou a autonomia de João Rodarte na condução da CDN. Autonomia até para errar – e feio, dando prejuízo para a empresa. “Foi um grande erro”, disse, com rara sinceridade. É como avalia a passagem-relâmpago pela CDN do jornalista Mário Sabino, em janeiro de 2012. Defenestrado da revista Veja, onde exerceu durante anos a função de redator-chefe, o jornalista (e também escritor de ficção) aceitou o convite de Rodarte.

Ele e Sabino chegaram a um entendimento e a um pré-contrato, formalizado mas nunca assinado. O empresário expressou sua satisfação numa nota oficial em que saudava Sabino como grande aquisição. Nem seus braços direito e esquerdo – Yara Peres e Andrew Greenlees – tiveram o privilégio. “Foi, foi”, choramingou Rodarte ao ser lembrado dessa parte. “Eu estava orgulhoso de ter o Sabino aqui.”

Aconteceu, então, que Sabino começou a trabalhar. Participava de reuniões com clientes da casa, às vezes com o patrão, às vezes sem. Já estava “do lado de lá”. Mas mantinha o figurino antigo, inclusive na afetação de certa arrogância, comum a quase todos os jornalistas, teatral e exacerbada no caso dele. Um exemplo vazou: na reunião com o principal cliente da casa, Sabino empalideceu os presentes – Marcelo Odebrecht entre eles – ao sugerir, muito senhor de si, que a empresa deveria mudar de nome – como é que ninguém pensou nisso antes? Participava do jantar, no apartamento de Odebrecht em São Paulo, o então governador de Pernambuco, Eduardo Campos, morto no ano passado.

“Ficou claro que o Sabino não tem espírito pra trabalhar desse lado aqui, onde as coisas são conquistadas, onde a diplomacia é uma qualidade essencial”, disse Rodarte. Quinze dias depois na nota encomiástica, dispensou a grande aquisição.

Com o pré-contrato em mãos, embora ainda não assinado, Sabino acionou um advogado para judicializar a cobrança. Não foi preciso, porque Rodarte concordou em pagar. “Resolvi honrar o contrato, para evitar a pendência judicial”, disse. Pagou perto de 400 mil reais. “Foi um erro grave. Tanto que eu propus aos meus sócios arcar com essa conta sozinho. Mas eles não concordaram” (risos compreensivos de Greenlees, no sofá). Mário Sabino não quis falar à piauí.

Na relação das agências de comunicação com os governos, 2006 é um divisor de águas. Foi a partir desse ano, o último do primeiro mandato do presidente Lula, que elas passaram a ser contratadas diretamente, por meio de licitações por edital (ou “é de tal”, no trocadilho do consultor Mário Rosa). Antes, inclusive no governo Fernando Henrique Cardoso, os recursos públicos fluíam de forma indireta, por intermédio das agências de publicidade, a quem cabia subcontratá-las. Naquele período valia tudo, a transparência era zero.

Mas em 2006 uma decisão do Tribunal de Contas da União permitiu que fossem realizadas as primeiras licitações específicas para as agências. Fruto de um bem-sucedido lobby da Abracom, fundada quatro anos antes – e efeito colateral do “escândalo do mensalão” –, a flexibilização contou com o apoio do então ministro da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, Franklin Martins. “A mudança trouxe transparência e permite um acompanhamento mais focado”, disse o ex-ministro durante um café.

Em 2010, veio o empurrão definitivo. Foi quando entrou em vigor a Lei 12.232, proposta pelo então deputado federal – e hoje ministro da Justiça – José Eduardo Cardozo. A lei regulou a licitação de serviços de publicidade pela administração pública e legalizou a contratação direta e autônoma das assessorias de imprensa. A partir daí, as empresas passaram a ter seu próprio quinhão da verba de comunicação em todas as esferas do setor público, incluindo governos estaduais e municipais.

As cifras oficiais refletem os resultados da nova ordem. Segundo os números do Portal da Transparência, a FSB — a que melhor aproveitou a mudança de cenário — faturava em 2004 o troco de 212 187,86 reais por serviços prestados a quatro ministérios. Dois anos depois, com a decisão do TCU, as receitas da agência com o governo passaram a 7,4 milhões de reais. Desde então, só aumentaram, chegando a 25,6 milhões de reais em 2010, quando entrou em vigor a lei das assessorias, atingindo o recorde de 57 milhões de reais em 2014. Neste ano, a empresa de Brandão deve apurar 40 milhões de reais em contratos com os ministérios da Saúde, da Defesa, do Esporte e do Turismo, além da Secretaria de Aviação Civil – todos conquistados em licitações.

O fenômeno se repete com a CDN. Entre 2004 e 2008, a agência de Rodarte não obteve mais do que 60 mil reais por ano em receitas do governo federal. A partir de 2009, multiplicou por 100 as receitas com o setor público, pulando para 6,7 milhões de reais. Em 2010, ganhou a licitação da Secretaria de Comunicação da Presidência da República para cuidar da imagem do Brasil no exterior – 15 milhões de reais anuais –, disputando contra dez concorrentes. A FSB foi uma das derrotadas. À época, Marcos Trindade fez questão de lembrar, o ministro da Secom, Thomas Traumann, era um ex-funcionário da FSB. No começo deste ano, a CDN ganhou licitação para a mesma conta, superando novamente a FSB. Além da Secom, a CDN atende também o Ministério da Justiça e o Ministério da Cultura.

“Meu faturamento é 90% com a iniciativa privada”, vai avisando a carioca Kiki Moretti, da In Press Porter Novelli, a terceira no ranking, com 490 funcionários, a maioria deles em São Paulo. Ocupam três andares e meio de um prédio na Juscelino Kubitscheck (a mesma avenida que agora abriga a sede paulista da FSB). Na quarta posição, com 250 empregados e 140 clientes, 90% deles da iniciativa privada, está a Máquina da Notícia, de Maristela Mafei. As duas empresas têm em comum o fato de haverem crescido a partir de contratos com clientes corporativos. Só se aventuraram no setor público após a resolução do TCU, em 2006.

Quando a In Press tinha cinco anos, em 2003, Moretti enfrentou o maior trauma de sua vida: seu primeiro marido e sócio, o jornalista Ivandel Godinho Júnior, foi sequestrado e assassinado em São Paulo. O casal tinha dois filhos – e ele outros dois, de casamento anterior. A In Press sobreviveu, associou-se a uma multinacional de peso, a Porter Novelli (que tem 40% das ações), e passou a incomodar as concorrentes de cima. Principalmente a FSB.

Toda semana, Kiki Moretti cruza a ponte aérea entre Rio e São Paulo – a sua é uma das agências que atende o governo de Geraldo Alckmin. “O processo das licitações tem evoluído”, disse a empresária, uma mulher de 52 anos, olhos azul-piscina e um sorriso largo. “O que eu espero é que os critérios sejam cada vez mais objetivos, transparentes e justos.”

Maristela Mafei era uma jornalista de 26 anos em 1985, quando publicou o livro Sangue na Terra: A Luta das Mulheres, que começa assim: “Um par de botas e 4 mil cruzeiros. Por esta quantia o pistoleiro Cosme atirou e matou o lavrador João Carneiro Coelho, que estava cercando sua roça, junto com os filhos, em Porto Nacional.” Ao reler o trecho, a dona da Máquina da Notícia brincou, remotamente saudosa, na sala do escritório na avenida Paulista de onde comanda seu centro de operações: “Se você lembrar desse livro, eu vou perder todos os meus clientes na área do agronegócio.”

Mafei faz jus ao sobrenome italiano. Fala alto, gesticula, ocupa espaços. Sua única conta no governo federal é a da Embratur, mas ela está sempre disputando as licitações – e, quando perde, sempre reclama dos resultados. Tem prazer em relembrar que tirou a FSB, sua arquirrival (e vice-versa), do Ministério da Saúde. Aconteceu no ano passado, por alguns meses. A FSB deu a volta por cima, já este ano, e voltou a ganhar a conta (com inéditos 43% de deságio).

Quando a Máquina perdeu a vaga, o ministro da Saúde, Arthur Chioro, mandou a Mafei um e-mail recheado de elogios. “Disse várias vezes a minha equipe que estaria plenamente satisfeito se vocês tivessem continuado conosco. Mas sabíamos todos nós que esse desfecho era possível. Tenho a convicção de que ainda vamos, um dia, voltar a trabalhar juntos. E isso será muito bom”, escreveu Chioro. “Duvido que a FSB tenha um desses”, provocou a empresária.

O que a FSB tem é a soberania absoluta nos dois níveis do governo do Rio de Janeiro – prefeitura e estado. Entrou ainda na primeira campanha vitoriosa de Sérgio Cabral, sem licitação, como a lei de então permitia. Foi ficando, trabalhando, penetrando – e se habilitou para a continuidade, quando a exigência da licitação chegou. Ganhou as concorrências, contra todas as demais. Uma, em 2011, ainda sob a gestão de Cabral (22,5 milhões de reais por ano) e, em julho deste ano, com o prefeito Eduardo Paes (8 milhões de reais). Os contratos podem ser renovados por no máximo cinco anos, a critério da contratante. Em 2016, a FSB terá que disputar a conta do estado para continuar atendendo ao governador Luiz Fernando Pezão.

Ao longo deste 2015 de vacas magras, Pezão ficou muitos meses sem caixa para os pagamentos – mas a agência não descuidou dos serviços. “Não vou entrar nesse mérito” [a demorada inadimplência do governo do Rio, ainda não inteiramente sanada], disse Francisco Brandão, na mesa, segurando um lápis daqueles com borracha no topo, que ainda existem. “O Pezão é um cliente importante, a gente gosta do Pezão, a gente acredita no Pezão. E o contrato está sendo administrado de uma maneira corretíssima, como tem que ser. Nada mais do que isso. Pula pra outra”, ordenou mais uma vez.

Brandão, entre muitas manias, tem, como já se viu, a de repetir três vezes seguidas algumas de suas frases ou palavras. “O Pezão, o Pezão, o Pezão é um sujeito tão simples, um sujeito tão fácil, eu ligo, falo com ele sete horas da manhã, comento os assuntos. Ele é um cara de perfil diferente, um sujeito abertíssimo, conversa tudo, recebe a gente lá, toda hora, debate os assuntos todos.”

Não é apenas com o governador que Brandão costuma falar ao amanhecer. Com frequência liga para alguns de seus subordinados nesse horário. Aos sábados e domingos inclusive. Não costuma perguntar se está tudo bem ou se a pessoa pode atender. Sai falando. Muitas vezes, coisas triviais, sem urgência. FSB, a pessoa física, não tolera conviver com mesas bagunçadas – a dele e a dos funcionários, nas quais às vezes promove faxinas-relâmpago. Os fios de telefone devem estar desenrolados, os quadros na parede precisam ser milimetricamente posicionados. Guarda todas as suas agendas há décadas, e gosta de exibi-las a funcionários – mas de longe, sem permitir que abelhudem o conteúdo. São todas obsessivamente anotadas, do início ao fim de cada página.

Pezão, apesar de ser um “sujeito abertíssimo” e “debater os assuntos todos”, não quis falar com a piauí a respeito da FSB. Sabe-se que seu entusiasmo pelos negócios da comunicação é muito menor que o do antecessor, Sérgio Cabral. Foi com o ex-governador que a empresa de Brandão deu o grande salto. Tinha pouco mais de 100 funcionários em 2005; hoje tem sete vezes mais. Em seus governos, Cabral na prática terceirizou a comunicação do estado para a FSB. A agência mandava em tudo – da estratégia de comunicação aos funcionários que cada secretaria teria. Pelo menos setenta jornalistas da FSB passaram a trabalhar alocados nas principais pastas do governo estadual.

O governador também deu uma força quando a FSB vislumbrou voos maiores em Brasília. Atuou, por exemplo, para aproximá-la do Ministério da Saúde, na gestão do médico sanitarista luso-brasileiro José Gomes Temporão, amigo do governador, durante o segundo mandato do presidente Lula. Uma mão lava a outra.

Em sua sala do Palácio dos Bandeirantes, no Morumbi, onde despacha o governador Geraldo Alckmin, o subsecretário de Comunicação, Márcio Aith, centraliza a contratação e o acompanhamento das agências de comunicação. “Quando eu cheguei aqui todas as licitações já estavam programadas e fracionadas por vários órgãos do governo”, disse. “Eu poderia ter mudado, mas achei que era importante ter contratos menores, e médios, se não as grandes abraçariam tudo.” Egresso de redações importantes – como Veja e Folha de S.Paulo –, Aith ingressou no ninho tucano desde a campanha de José Serra à Presidência. Quando esteve livre, Marcos Trindade esforçou-se mais de uma vez para levá-lo para a FSB, e não conseguiu.

Aith tem, disponível, a lista completa e detalhada de todas as agências de comunicação que trabalham para o governo do estado, secretaria por secretaria, com os respectivos valores. Diferentemente do Rio, onde a FSB opera a conta do governo inteiro, em São Paulo atuam oito agências, em catorze secretarias e outros órgãos. FSB e CDN empatam (três contas cada uma). Os valores e a vigência dos contratos acompanham a planilha. A CDN tem 15,6 milhões, e a FSB, 10,1 milhões de reais.

O subsecretário trabalha, no dia a dia, com uma equipe da In Press, de Kiki Moretti, que atende a pasta de Comunicação em um contrato de 6,2 milhões, por doze meses (termina em abril do ano que vem). “A In Press indica as pessoas – mas eu tenho poder de veto, não deixo qualquer um entrar aqui”, falou. “Conflitos podem existir, porque todas essas agências têm clientes privados. O potencial de risco, além do leva e traz de informações, é se aproveitarem da proximidade com o estado para conseguir novos negócios, o que só se resolve com vigilância permanente e rígida, com equipes realmente blindadas.”

No dia a dia, o grosso do trabalho é a intermediação com a imprensa – rádios, jornais, revistas, televisão e, cada vez mais, as redes sociais. Aith é persona non grata para alguns repórteres de grandes veículos, pela maneira com que costuma reagir a matérias que considera erradas ou malfeitas. “Reclamo mesmo”, diz. Há pouco tempo orientou a equipe da In Press a ler com lupa reportagens do Estadão, que considerava frágeis, mal apuradas ou tendenciosas nas críticas ao governo. Tudo mapeado, preparou um relatório cheio de exemplos. Numa visita à redação do jornal, Aith presente, Alckmin espantou os editores e repórteres pelo incisivo detalhamento de uma fieira de erros e desequilíbrios editoriais, como vistos pelo assessor. “Hoje o Chuchu veio com pimenta”, comentou à parte a editora Cida Damasco, já no clima ameno do almoço que se seguiu, segundo o relato de Gandour. Aith comemorou.

Na prefeitura do petista Fernando Haddad, o mandachuva da área de comunicação é o secretário Nunzio Briguglio Filho. Jornalista da velha guarda, está com Haddad desde o Ministério da Educação, nos governos Lula. As agências nem ciscaram por lá. “Nunca achei que precisava”, disse. Mantém a postura na maior prefeitura da América Latina. A lista que mostra, com orgulho, é a de oito empresas que não tiveram os contratos renovados depois que ele chegou. O que permite são contratações pontuais em eventos maiores – como a Virada Cultural (este ano arrematada pela Máquina da Notícia, por 260 mil reais, em pregão eletrônico).

Já houve apelos diretos a Haddad, para reconsiderar a política de comunicação. João Rodarte e Andrew Greenlees foram ao prefeito. Kiki Moretti idem. “A imagem dele estaria muito melhor com a expertise das agências”, disse Rodarte. “O Nunzio tem uma posição atrasada”, reclamou a dona da In Press. Podem até ter convencido Haddad – com a campanha chegando –, mas, se o fizeram, faltou combinar com Briguglio. “Minha equipe é profissional e muito eficiente”, disse o secretário, mostrando sua redação de trinta jornalistas no 6º andar da prefeitura, no Vale do Anhangabaú. Entre eles, a secretária adjunta de Comunicação, Leila Suwwan, durante muitos anos repórter da Folha. À distância, Briguglio ainda coordena o trabalho de outros vinte jornalistas alocados nas pastas da administração municipal.

Conquistar prefeituras é um objetivo que a FSB cultiva, particularmente, como um grande mercado futuro. Já atua, por exemplo, em Campinas, no interior paulista, na gestão de Jonas Donizette (PSB). Ano retrasado, à frente da assessoria de comunicação, a agência avançou, com outra pessoa jurídica, para a conta de publicidade do município, tendo à frente a mesma assessora que já pilotava o primeiro. A FSB foi a única que concorreu à licitação – por ser a única a cumprir as exigências do edital. Ganhou o contrato – de 20 milhões de reais. O vereador Pedro Tourinho, do PT local, denunciou a irregularidade.

“Foi só um ruído promovido por adversários políticos, como o vereador, que está fazendo uma reclamação que não tem sentido”, desconversou Marcos Trindade. Mas não foi só isso. Ao receber uma representação do vereador, o Ministério Público de Campinas abriu um inquérito civil público para apurar se houve irregularidades. Foi instaurado no dia 12 de julho de 2014, e está com o promotor Ângelo Carvalhaes. A FSB já começou a ser ouvida, e se diz inocente.

“A concorrência se incomodou de a gente ter entrado ali, claro, porque era um espaço dominado pelas agências de publicidade”, argumentou Trindade. “Mas elas também estão entrando na área de produção de conteúdo, que é o nosso negócio. Hoje, não é solução criativa que pega o cliente, é solução de conteúdo”, ensinou.

Em 2011, causou frisson no mercado a revelação de que o edital de licitação da prefeitura fluminense de Maricá para contratar sua assessoria de imprensa reproduzia quase integralmente o texto do edital do governo do estado do Rio de Janeiro. De diferente, só mesmo o nome do cliente – num, o governo do estado, noutro, a prefeitura. Até os erros de digitação eram idênticos. A vencedora das duas concorrências também foi a mesma: a FSB. O contrato, de 2,1 milhões de reais, continua valendo. Só vence em 2016.

A voz subiu levemente de tom: “Eu não sou a Rebeca Noblat! Eu sou a Rebeca Scatrut!” É fato. Mulher do jornalista Ricardo Noblat há quase quarenta anos, Scatrut mantém o nome de solteira. É dona, com Alba Chacon, do Grupo Informe Comunicação Integrada, com sede em Brasília (850 metros quadrados, alugados por 50 mil reais mensais). Com 300 empregados, é a única agência que só atende contas do governo, e fatura, em média, 30 milhões de reais por ano. São dela, por exemplo, as contas do Ministério do Desenvolvimento Social (contrato de 12 milhões de reais), do Banco Central (2,5 milhões), do Sebrae Nacional (3,8 milhões), do Ministério da Educação (4,1 milhões), da Agência Nacional de Saúde (2 milhões) e do Conselho Nacional de Justiça (3,5 milhões). Tudo obtido em disputadíssimas licitações.

“O governo da Dilma é nosso cliente – e todo dia o Ricardo fala mal dela”, disse a empresária, referindo-se ao marido, colunista do jornal O Globo e blogueiro tarimbado. “O Ricardo nunca veio aqui, nem sabe quais os clientes que a gente tem. Ele mais me atrapalha do que ajuda. Entre nós existe um pacto para não misturar as coisas.”

Scatrut e Alba Chacon respondem a um processo de improbidade administrativa, que no momento tramita no Supremo Tribunal Federal. É coisa dos tempos em que Raul Jungmann (PPS-PE) era o ministro do Desenvolvimento Agrário, no governo FHC. O Ministério Público Federal os acusa – e a outros réus – de malversação do dinheiro público. Scatrut e Chacon foram arroladas por não apresentarem as notas correspondentes de trabalhos de assessoria feitos pela RNN Comunicação, à época agência de ambas. Foi parar no STF porque Jungmann tinha foro privilegiado. O relator é o ministro José Dias Toffoli – com quem Ricardo Noblat já se desentendeu publicamente. Os autos estão conclusos desde 5 de outubro último. “Temos todas as notas, e vamos apresentar na hora devida para provar nossa inocência”, disseram as sócias da Informe.

Na guerra pelas contas públicas, a brasiliense Informe incomoda, e vice-versa, as quatro maiores (FSB, CDN, Máquina da Notícia e In Press). “A disputa devia ser mais transparente, mais profissional”, reclama Scatrut. “O meu sonho é ser tão competente como a FSB, que é a House of Cards das agências”, elogiou, referindo-se à famosa série exibida no Netflix.

Não é a única reclamação que se ouve no mercado. Além do acesso aos cofres recheados do estado, as questões trabalhistas também são motivo de muita farpa entre as agências. O jornalista José Luiz Schiavoni, duas vezes presidente de Abracom, é um dos que não se importam em falar claro sobre um ponto que a maioria das empresas prefere tratar aos sussurros: o regime de contratação dos empregados. “Aqui todo mundo é CLT”, ele diz. “Minha folha de pagamento é de 24 milhões de reais.” É uma exigência do sócio controlador – que tem ações na Bolsa de Valores de Nova York. Sua empresa – a S2Publicom – tem sede de três andares em um complexo comercial da valorizada avenida Luiz Carlos Berrini, com filiais em Alphaville, Rio de Janeiro e Brasília. Na Berrini, vê-se uma redação maior que as de muitos jornais e revistas. Tem 255 funcionários e oitenta clientes (entre eles Unilever, Samsung, Tim, Honda, Petrobras). O faturamento em 2014 foi de 50 milhões de reais. “Crescemos 42%”, disse ele, passando a mão na barba e no cabelo grisalhos.

Hoje com 54 anos, Schiavoni foi dos primeiros jornalistas a se enfronharem com a informática – ainda nos tempos da reserva de mercado. Em 1989, antevendo tempos novos, fundou a S-2. Em 2011, depois de um namoro demorado, vendeu a maior parte da empresa para a Interpublic, uma das líderes mundiais na área de publicidade. “Algumas grandes agências do nosso setor estão fazendo lucro com sonegação de impostos e de direitos trabalhistas”, comentou o empresário. “Se os clientes checassem a reputação de quem cuida de sua reputação, ele não contrataria determinadas agências”, afirmou, sem declinar nomes. Foi uma forma de dizer que o setor, salvo exceções, ainda está atrasado no que diz respeito a regras de compliance – expressão que traduz a adequação a normas.

O engenheiro Rodolfo Zabisky, do Grupo Attitude (290 funcionários, 6 milhões de reais de faturamento), também reclama: “É duro concorrer com empresas que não estão totalmente celetizadas. Aqui, a folha de pagamento representa 58% do faturamento”, frisou, usando o neologismo “celetizar” para investir contra aqueles não enquadrados na legislação da Consolidação das Leis Trabalhistas. Zabisky já disputou algumas licitações do setor público, mas jamais ganhou. “Não é um mundo fácil de transitar”, comentou. “Tem empresas que já estão posicionadas, e o custo para cumprir as regras dos editais é muito pesado.”

“Essas maledicências não pegam contra nós”, reage João Rodarte, da CDN. “Nós temos cotistas que recebem como pro labore, significa que pagam 27% de imposto. Os nossos cotistas são legais. Aqui na CDN mais da metade é celetizado. Uns 30% devem ser PJs, tudo dentro da lei”, disse, referindo-se aos profissionais contratados como pessoa jurídica.

A FSB também não veste a carapuça. Francisco Brandão diz que “mais de 60%” dos funcionários são celetizados. E, a seu modo, generaliza a questão: “No fundo, a gente faz gestão de gente, de contratar gente, de mexer com gente, de dar oportunidade pra gente, gente mais competente do que a gente pra trabalhar com a gente.”

“Bonito, arrojado e calibrado: é a minha cara!!!”, diz uma caricatura do presidente Lula, olhando para o desenho de um avião. A charge, de RBorges, ilustra o “Case: Aerolula”, em PowerPoint, um entre vários que a FSB apresenta em sua prospecção por novos clientes. Ocorreu em janeiro de 2005. A imprensa criticava o governo pela compra de um novo avião presidencial, por 56,7 milhões de dólares. O desafio da FSB, segundo a apresentação gráfica, era “fazer com que a imprensa transmitisse nas matérias a versão do governo para a compra do avião”. E assim foi.

“A estratégia da FSB foi preparar o porta-voz para uma coletiva de imprensa, mapeando todas as polêmicas em torno do assunto. Após a ação, o tom das matérias melhorou, deixando-as mais informativas e transmitindo a versão do governo para a compra.” O case é ilustrado por matérias de O Globo e da Folha de S.Paulo, com o antes e o depois. Exemplo do antes: “Avião de Lula consome 75% dos investimentos da União.” Do depois: “Novo avião presidencial deve economizar 5,2 milhões de dólares ao ano.”

Uma nota da coluna “Painel”, também da Folha de S.Paulo, foi incluída na propaganda do case. Informa, em off [sem citar a fonte], que o governo achou “positiva a estratégia de comunicação montada para a chegada do Aerolula em Brasília”, e analisou que “surtiu efeito” o “bombardeio de informações” que mudou o foco do noticiário. “A estrela foi o comandante da Aeronáutica, brigadeiro Luiz Carlos Bueno, que passou por um treinamento para enfrentar os repórteres no sábado”, diz a nota do “Painel”, sem mencionar o nome do treinador.

O serviço de media training, oferecido por quase todas as agências, mereceu, na FSB, uma aprofundada apresentação, em 41 slides de PowerPoint. O 16º deles define o jornalista brasileiro como “um profissional sob pressão!!! do chefe (resultados), do tempo (imediatamente), da informação (exclusividade)”. O seguinte enumera suas características: “Formação profissional deficiente, especialista em generalidades, mal remunerado e sobrecarregado, sem experiência, mas, às vezes, age como se fosse o expert.”

O off the record, ministra o slide 32, é “conversar com o jornalista, dar as informações e não ter seu nome ou o do cliente publicado; serve, muitas vezes, para vazar informações de bastidores de mercado ou comentar algum assunto; não é recomendável e deve ser sempre avaliado em conjunto com a FSB”. No “Guia para ser um bom porta-voz” há uma recomendação: “Se a matéria foi publicada com informações erradas, só corrija caso o erro seja grave.” E mais uma: “Mantenha vivo o relacionamento com o jornalista!”

Cada agência tem a sua relação preferencial de jornalistas que contrata para participar dos media training. Os mais desejados pelos clientes – e os mais caros – são da TV Globo. Na lista da FSB – que o organizado Brandão mandou colocar no papel, com os respectivos currículos, números de celulares, e-mails e preços – constam, entre outros, Márcio Gomes (dos mais requisitados, hoje na Ásia, por 8 mil reais), Sidney Rezende (entre 6 mil e 8 mil reais, foi demitido recentemente da emissora), Ana Paula Araújo (4 mil reais), Leilane Neubarth (a combinar), Hélter Duarte (4 mil reais) e William Waack (25 mil reais). Na mesma relação, o jornalismo impresso não foi esquecido: George Vidor e Ancelmo Gois, colunistas de O Globo, e Heloísa Magalhães, chefe da sucursal do jornal Valor Econômico no Rio de Janeiro, todos com o preço domedia training a acertar.

“Havia um tempo contemplativo – e o leitor esperava, ansioso, a notícia do dia seguinte.” Reflexão do jornalista Ricardo Gandour, 53 anos, diretor de conteúdo do jornal O Estado de S. Paulo, sobre as priscas eras que nem vão tão longe. A enorme redação que mostra, num passeio matinal pelo imenso 6º andar do prédio, no bairro do Limão, já teve 700 profissionais, a maioria jornalistas. Hoje são 380 – somando os do Estadão, os da Agência Estado e os de outros produtos da casa. Olhando bem, podem-se ver “passaralhos” dormitando em escaninhos do teto (é esse o termo usado por jornalistas para se referir a demissões coletivas). A agência Volt Data Lab fez o levantamento dos cortes em cinquenta redações no país nos últimos anos: 1 366 jornalistas perderam o emprego entre 2012 e outubro deste ano. Só em 2015, as redações abriam mão de 617 profissionais.

Na análise do editor de conteúdo do Estadão, o modelo das empresas jornalísticas está enfraquecido pela fragmentação da publicidade em outras mídias, enquanto “as agências se aprimoraram e se sofisticaram”.

Gandour mexe com jornal desde menino, quando atrapalhava aTribuna de Nova Granada, no interior paulista, que pertencia a seu pai. Passou por grandes redações, como a da Folha de S.Paulo, e há nove anos comanda o Estadão. No dia a dia do jornal, convive profissionalmente com as agências de comunicação. Em tempos de Lava Jato, o assédio aumenta. FSB e CDN, principalmente essas duas, ligam para repórteres da casa, ou para editores, na defesa de seus clientes. Muitas vezes ligam para ele próprio, às vezes com a conversa de que a notícia “já saiu” em outro lugar e deixou de ser exclusiva. Pode mesmo ter sido publicada, em algum site, prematuramente plantada. É que se chama, no meio, de “matéria-vacina”, usada para combater o vírus da notícia.

“A verdade, hoje, é que as redações e as agências de comunicação são exércitos em desigualdade. As agências ganharam senioridade, sabem exatamente como os assuntos trafegam e quem é quem”, disse Gandour, passando a mão no resto dos cabelos. “Tudo isso só aumenta a nossa responsabilidade de zelar pela independência.”

A “senioridade” a que Gandour se refere está encarnada nos jornalistas que as grandes agências têm tirado das redações. OEstadão mesmo já perdeu, para citar apenas casos mais recentes, repórteres de ponta da área econômica, como Alcides Ferreira e Leandro Modé (ambos na FSB). Da Folha de S.Paulo saíram, para a FSB, entre vários outros, Gabriela Wolthers, diretora da empresa no Rio, e o experiente Melchiades Filho, por muitos anos editor de Esporte e depois diretor da sucursal do jornal em Brasília. Melk, como é mais conhecido, dirige a FSB em São Paulo desde 2013.

“O Melchiades é um ótimo profissional”, disse o diretor de redação da Folha, Otavio Frias Filho. “Ele foi para uma modalidade de atuação diferente. O paralelo que eu faço é com o de um promotor público que vira advogado.” O herdeiro da Folhaestá habituado com a pressão das agências de comunicação. “Acho que essas empresas prestam um serviço legítimo: vocalizar o ponto de vista dos seus clientes. Os meios de comunicação devem procurar ouvir, ponderar e sopesar os argumentos recebidos”, disse. “É um trabalho útil, porque muitas vezes esses clientes são o vilão da vez e atraem a animosidade da imprensa.”

Na Folha, visitas à redação de pessoas públicas ou que representam empresas e entidades costumam ser noticiadas no dia seguinte, ao pé da coluna “Painel”, da página 4. Boa parte dessas visitas tem a participação de uma agência – ou na articulação para viabilizá-las, ou acompanhando o visitante. Uma delas foi a de Marcelo Odebrecht, o presidente da empreiteira, depois prisioneiro da Lava Jato. João Rodarte, da CDN, o acompanhou. Frias Filho e outros editores do jornal ouviram o que eles tinham a dizer. “Estou muito preocupado que a Odebrecht tenha seu ponto de vista expresso na Folha”, disse o diretor de redação, comentando a visita. “Tomo todas as providências para evitar que o jornal participe de um caso Dreyfus jornalístico.”

Sérgio Dávila, editor-executivo da Folha, é quem lida mais diretamente com a operação do jornal no dia a dia. “Essas agências cresceram, estão muito mais profissionais do que eram há cinco ou dez anos, e muitas têm um faturamento expressivo”, disse Dávila. “Ajudam quando facilitam o acesso dos jornalistas às informações, e atrapalham, como tem eventualmente ocorrido, quanto tentam ultrapassar os limites e influenciar o trabalho da redação. Eu mesmo já tive que impor limites a um diálogo telefônico desse tipo.” Citaria alguma agência mais agressiva? “Os mais agressivos são os assessores internos das grandes empresas. Às vezes, um só deles é mais agressivo que uma agência inteira”, falou. Aos 49 anos, Dávila já foi correspondente do jornal em Nova York e Washington e cobriu, em 2002, a Guerra do Iraque. Nenhuma agência jamais o convidou para novos desafios “do lado de lá”. Se acontecer: “Eu não vou. Gosto do jornalismo e não quero mudar de lado. Mas não critico ninguém. Cada um é que sabe onde o calo aperta.”

“Nem tudo o que reluz é jornalismo” é o título de um artigo da jornalista Maria Cristina Fernandes, do Valor Econômico, publicado em 13 de março deste ano. Abordou a prática do chamado “conteúdo patrocinado” – ounative advertising –, inaugurado pelo jornal britânico The Guardian, no ano passado. Trata-se da publicação de matérias patrocinadas por empresas interessadas – e intermediadas pelas agências de comunicação. “É a última fronteira da comunicação corporativa – mercado que ganha independência do jornalismo com a presença direta das empresas em mídias sociais. É a paulatina ocupação, sem intermediários, daquilo que um dia se chamou de Quarto Poder”, escreveu Fernandes.

Citando o livro Journalism and PR: News Media and Public Relations in the Digital Age, lançado pelo Instituto Reuters de Estudos de Jornalismo da Universidade de Oxford, a articulista diz que a resistência ao native advertising contribuiu para a demissão de Jill Abramson, então editora-chefe do jornal The New York Times, em maio de 2014. Abramson disse para John Lloyd e Laura Toogood, autores da obra: “Se a propaganda for muito parecida com nossas histórias, o leitor pode não discernir o que é ou não nosso conteúdo.”

A native ad foi tema até de um painel no congresso anual da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), realizado em julho deste ano. No e-mail em que o divulgou, de 13 de maio, a gerente-executiva da entidade, Marina Iemini Atoji, apelidou a novidade de “Licença para o jabá”. Explicou: “É um novo modelo de publicidade em meios jornalísticos que já se difundiu pelos Estados Unidos e começa a ganhar espaço aqui no Brasil – vai de conteúdo patrocinado à publicidade com ares de conteúdo jornalístico, feito por jornalistas.”

Um exemplo recente dessas novas modalidades foi dado pelaFolha, em um caderno especial sobre contrabando, pautado e intermediado pela FSB. “A Folha tem uma departamento para cuidar de native advertising, mas não foi o caso desse caderno”, disse o editor-executivo Sérgio Dávila. “No native advertising o patrocinador tem influência no conteúdo, e não foi o que aconteceu.” Dávila contou que o caderno sobre contrabando nasceu de uma sugestão da agência: “A FSB perguntou se a redação tinha interesse no tema, e sugeriu um pacote pronto: o caderno especial, um seminário e um site. A Folha topou e produziu, sem interferência no conteúdo. Clientes da FSB viram um interesse comercial em se ligar a esse material jornalístico, e anunciaram no caderno.” Os leitores da Folha não deveriam ser informados que a agência dos anunciantes é que sugeriu a pauta, com adereços? “Nesse caso não, porque ela não teve nenhuma interferência no conteúdo jornalístico”, responde Dávila.

Outro recente caderno especial da Folha, sobre a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, teve a colaboração logística da agência Santafé Ideias. Foi um dos cadernos mais premiados do jornalismo brasileiro em todos os tempos. Para a Santafé Ideias, sediada em Brasília, parte pequena do mérito foi dela. “Nós ajudamos a Folha a ver que o noticiário estava muito desequilibrado, e convencemos nosso cliente de que valia a pena abrir a obra para os repórteres do jornal”, disse Maurício Junior, um dos sócios da agência (o outro, majoritário, é o ex-jornalista e ex-assessor de imprensa do presidente Fernando Collor, Etevaldo Dias). O cliente da Santafé, no caso, é a Norte Energia, dona de Belo Monte.

Uma grande equipe do jornal deslocou-se para a região e produziu, durante dias, a mais completa apuração que a megaobra já teve. Uma semana depois Otavio Frias Filho e Sérgio Dávila desembarcaram em Belo Monte – e passaram dois dias, de camiseta e pé na lama, esquadrinhando a obra, comendo de bandejão, e ouvindo as informações e explicações técnicas da Norte Energia. Maurício Junior mostra fotografias da visita, acompanhada o tempo todo por uma assessora da Santafé.

“O caderno sobre Belo Monte foi inteiramente bancado pela redação – da pauta ao resultado final”, disse Dávila. “Otavio e eu estivemos lá para, como se diz internamente, não ficar comendo pela mão dos repórteres.” É uma prática que a Folha tem desde 2010, explicou o editor-executivo, referindo-se às duas visitas anuais a projetos ou situações que consideram relevantes. Definindo os dois cadernos, Dávila resumiu: “Belo Monte é um produto editorial como outro qualquer. Contrabando é um produto editorial com patrocinador. Ambos sem interferência no conteúdo jornalístico.”

O jornal Valor de 11 de agosto último deu um exemplo curioso desses novos arranjos: um caderno especial sobre “construção de imagem”, recheado de anúncios de grandes agências do próprio setor (FSB, In Press Porter Novelli, CDN Comunicação, S2Publicom e Associação Brasileira das Agências de Comunicação, entidade que representa o segmento). Em maio deste ano, a diretora de redação do jornal, Vera Brandimarte, foi escolhida “Personalidade da Comunicação 2015”, prêmio recebido no 18º Congresso Brasileiro de Comunicação Corporativa, o evento mais importante do setor. O Valor, até pela predominância e qualidade do noticiário econômico, é o veículo brasileiro de melhor e mais abrangente relação com o outro lado do balcão.

“Hoje, o agendamento das redações é feito por fontes organizadas, muito competentes e altamente profissionalizadas, entre elas as agências de comunicação”, diz o professor Carlos Chaparro, da Escola de Comunicações e Artes da USP. “É muito melhor um mundo em que todos possam falar, do que um mundo em que só os jornalistas falam.”

Eugênio Bucci, também da ECA, autor do livro Sobre Ética e Imprensa, aponta um equívoco: “No Brasil nós chamamos assessor de imprensa de jornalista – o que é um embaralhamento conceitual. São lados distintos, e muitas vezes antagônicos.”

A confusão a que alude Bucci se configura de forma cristalina nas “eugências” – como se diz no setor. São aquelas de um assessor só, ou quase, geralmente ex-jornalistas bem-sucedidos. O fundador do gênero, assim reconhecido pelos pares, é Mário Rosa – o do “é de tal” –, autor do livro A Era do Escândalo: Lições, Relatos e Bastidores de Quem Viveu as Grandes Crises de Imagem, que lançou em 2003. Marcos Trindade, da FSB, e Maristela Mafei, da Máquina da Notícia, estão lá, entre outros, contando os bastidores do árduo começo.

Em junho passado, Rosa viveu o drama de muitos clientes milionários que ele próprio já atendeu (quase todos os que hoje estão na Lava Jato, por exemplo): uma equipe da Polícia Federal bateu em sua casa, no Lago Sul, às seis da manhã, com um mandado de busca e apreensão. Era um braço da Operação Acrônimo, que apura denúncias de lavagem de dinheiro e desvio de recursos públicos para financiamento de campanhas eleitorais. Tramita no Superior Tribunal de Justiça – e envolve, entre outros investigados, o governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT), e a mulher dele, Carolina de Oliveira Pereira, que negam as acusações.

Rosa entrou na Acrônimo porque contratou uma empresa de Carolina de Oliveira Pereira, a Oli Comunicação e Imagem, à qual pagou 2 milhões de reais. Hoje primeira-dama, Oliveira já trabalhou na FSB. A PF investiga a legalidade do pagamento à Oli.

Passado o susto, o consultor franqueou a entrada da casa aos federais. Sentou no sofá da sala, observou-os trabalhar à vontade e respondeu o que lhe perguntaram. Preferiu não chamar advogado – mesmo sendo amigo de todos os melhores da capital federal. Impassível, viu os agentes empacotarem o que julgavam útil à investigação. “Nada tenho a temer”, disse. “Paguei os 2 milhões de reais, porque a Carolina me prestou bons serviços num caso em que eu faturei 8 milhões de reais, como posso provar. Nada mais justo.”

O caso em questão é o da acirrada disputa comercial entre os grupos Casino e Pão de Açúcar, que engordou as contas de muitas agências (FDB e CDN, entre elas). Rosa estava com o Casino. O montante do pagamento pode assustar, mas nem foi o maior que ele já colocou na MR Consultoria. Cobra caro faz tempo: 500 mil reais para a Gol e 2 milhões de reais para a Camargo Correa, lá atrás. E justifica os valores: “Eles é que vêm bater na cabana do Pai Rosa”, brinca, bebericando um suco de limão e imitando – bem – um preto velho.

Um dos últimos a procurar Pai Rosa foi o governador tucano Beto Richa, do Paraná. Foi bater na ajeitada cabana do Lago Sul, recomendado, pedindo curativo para os arranhões que sua imagem sofrera quando a polícia do estado baixou o sarrafo em professores grevistas. Sempre low profile, Rosa sugeriu que o governador botasse a culpa no PT. Pode-se assistir, no YouTube, ao discurso que Richa fez depois da visita. Se Rosa mostrar o texto que mandou para ele por e-mail, a fidelidade é total. “Eu gosto dessa carpintaria da retórica”, comentou.

O petista Fernando Pimentel também usufrui: alguns de seus discursos de governador, os de maior octanagem, saíram da oficina do consultor, frase por frase. Detalhe, que Rosa faz questão de registrar: “Nunca cobrei de político.” Agradece, entretanto, quando recomendam sua competência. “O Mário Rosa é o nosso João Gilberto”, elogia Roberto Machado, ex-TV Globo, outra “eugência” de prestígio no mercado. “Ele tem uma capacidade de análise que todo mundo quer escutar.” Atuaram juntos, recentemente, para grandes empresas de telefonia que disputaram o leilão da banda H.

Samuel Figueiredo, evangélico de carteirinha, também é “assessor solista”. Comanda a sua F7 Comunicação (o 7, na Bíblia, é o número da perfeição), numa sala do Centro Empresarial Norte, na capital do país. “Enchi de espelhos [escuros], para parecer maior”, disse, apresentando seus ajeitados 40 metros quadrados. Foi lá que recebeu, em abril, Luiz Edson Fachin, hoje ministro do Supremo Tribunal Federal. O advogado e professor gaúcho, indicado para o posto pela presidente Dilma Rousseff, enfrentava, angustiado, às vésperas de sua sabatina pelo Senado, um noticiário adverso, às vezes hostil. Renan Calheiros, o presidente da Casa, estava em pé de guerra com o Planalto. E o veto a Fachin faria parte da retaliação. “Foi a crise mais complexa e aguda que eu enfrentei, contra forças políticas opositoras que alimentavam jornais e blogs”, disse F7, com a voz bem postada de pastor-locutor.

Foi, também, o que ele imediatamente começou a fazer: alimentar a mídia. Espalhou, por exemplo, no crepitar do tiroteio contra o cliente, que Fachin e sua mulher tinham ido, contritos, a uma missa dominical na Catedral Metropolitana de Brasília. Além do plantio, Figueiredo contratou a criação de um blog, o monitoramento das redes sociais e a experiência do consultor Gustavo Krieger para o treinamento da sabatina no Senado. Também acompanhou o indicado, a discreta distância, nas visitas políticas, religiosas, jurídicas e midiáticas. Entre outras sugestões, todas acatadas, Fachin até mudou de hotel.

O hoje ministro chegou a Samuel Figueiredo por sugestão do presidente da Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe), Antônio César Bochenek. “Eu não sei nem como me defender”, falou Fachin a ele numa conversa informal. Bochenek indicou a F7, que há tempos atende a Ajufe (entidade de classe do juiz Sergio Moro). Figueiredo também cuida da Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal (ADPF). Com a Lava Jato em casa, por assim dizer, é natural que tenha recebido convites de investigados. “Recebi, é claro, mas não aceitei porque não seria ético.”

A operação Fachin custou 200 mil reais, em cinco prestações de 40 mil reais, que há pouco o já novo ministro acabou de pagar. “Nunca mais o vi, desde a posse”, disse o consultor. “Não fui nem conhecer o gabinete.” A F7 fatura, em média, 1 milhão de reais por ano, contou Figueiredo, ainda irritado com a divulgação de números bem maiores do case Fachin. “A F7 não é uma empresa de lobby. Não marca reuniões ou facilita encontros. Seu trabalho é a comunicação, voltada para o ambiente do poder”, esclareceu.

“Eu vendo quatro coisas”, anunciou Gustavo Krieger, o treinador de mídia de Fachin, em um café do Itaim Bibi, em São Paulo: “O meu tempo, a minha experiência, o meu bom senso e a minha credibilidade, que é o que eu tenho de mais importante.” Foi o que Samuel Figueiredo viu. “Estavam achando que o professor [Fachin] era o Stédile das letras jurídicas, e nada mais distante da verdade”, falou Krieger. “Pedi, apenas, que ele fosse ele mesmo.” Foram dez horas de treinamento, em três dias, a 2 mil por hora, ou 20 mil dos 200 mil reais que Figueiredo faturou, segundo os números de ambos. Recuando um pouco no tempo, um dos contratantes foi o candidato à Presidência Aécio Neves (“que nunca mais eu vi”). Hoje, entre os cinco clientes que tem, Krieger só concede o nome de um: a Fiesp e Paulo Skaf – ou Paulo Skaf e a Fiesp, a gosto do freguês.

Neto do ilustre senador arenista Daniel Krieger – “grande influência” –, esse gaúcho bom de conversa já foi trotskista da Libelu e, por quatro anos, militante do PT. Afastou-se quando virou repórter. Destacou-se, ainda jovem, pela Folha durante a cobertura do Collorgate.

Entre inúmeras reportagens que fez, uma, polêmica, entrou para a história: a denúncia de que o caseiro Francenildo Costa, acusador do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, tinha dinheiro depositado em sua conta da Caixa Econômica Federal. A conta fora violada, em episódio até hoje não totalmente esclarecido. Krieger incluiu na reportagem, secundariamente, que os depósitos foram efetuados pelo pai de Francenildo, mas levantou dúvidas sobre a veracidade dessa informação, depois comprovada. “Foi um erro não ter apurado melhor a história do Francenildo”, admitiu, pela primeira vez. “Escolhi um caminho tortuoso que naquele momento me parecia o certo.”

Foi salvo do jornalismo pelo hoje vice-presidente da República, Michel Temer, que era, então, o presidente da Câmara dos Deputados. Convidou Krieger para comandar a assessoria de imprensa da Casa. Ele aceitou o desafio e lá reinou, sob a batuta de Temer, em 2009 e 2010. Foi então que a FSB o pescou – isca jogada por Marcos Trindade. Tiveram um almoço no Rio, com Francisco Brandão, e Krieger acabou aceitando. “Acredita que eles ainda não sabiam que o Temer ia ser o vice da Dilma?”, perguntou o consultor. Deixou a FSB depois de uma difícil conversa com Brandão e Trindade. Estes não estavam gostando da autonomia de Krieger. Ele também estava cansado de tanta cobrança por resultados. Foi mais um da FSB a correr por fora.

Eduardo Oinegue, ex-redator-chefe da Veja e ex-diretor de redação da Exame, é um dos mais conceituados e, digamos, assertivos consultores de imagem do mercado. É seu cliente, entre meia dúzia de outros empresários, o empreiteiro Ricardo Pessoa, da UTC, um dos delatores decisivos na Lava Jato, hoje em prisão domiciliar. Antes de ser detido, o empresário, como seus colegas de mesma sina, percorria as boas redações do Rio e de São Paulo, cada qual com sua agência, para explicar que o abacaxi não era tão azedo.

Oinegue e o também consultor Marcelo Onaga, mais um do bloco “eu sozinho”, levaram Pessoa à redação do Estadão. Foram recebidos com lhaneza profissional em uma sala de reuniões do 7º andar. A conversa ia bem – Ricardo Gandour e outros editores e repórteres do jornal eram só ouvidos – até Oinegue exibir, na tela de seu iPad, uma reportagem específica, que criticou. Os jornalistas não gostaram do tom do assessor e a conversa subiu algumas oitavas, até que a calma voltasse. Pessoa segue cliente de Oinegue, mas ele mantém a discrição a que o contrato o obriga. Costuma citar uma frase do guru do marketing Don Schultz: “Para o consumidor, a percepção é a verdade. A percepção pode não estar correta, mas é o que ele conhece. E o que ele conhece é tudo que ele precisa conhecer.”

Francisco Brandão também tem lazer – já que nem ele é de ferro. Produz, artesanalmente, vários tipos de queijo em seu sítio de Petrópolis. Bons queijos – como a piauí provou na mostra que recebeu de presente. “Esse meu sítio eu comecei do zero, igualzinho à FSB”, contou, na mesma entrevista em que se cercou de seus diretores, na antiga sede do Itaim Bibi. “Ali eu tenho umas vaquinhas Jersey, um pessoal que trabalha comigo, já há muitos anos, e duas pessoas que fazem os queijos. É um prazer você poder compartilhar.” Na empresa, os queijos de Brandão são um termômetro de seu humor. Quem ganha está bem na foto. Quem não ganha precisa melhorar o desempenho. Ele explicou: “Você faz carinho em quem te dá carinho. A vida é uma mão de ida, outra de volta. Não é possível que todo mundo esteja bem com todo mundo sempre, isso não existe.”

Fonte: Revista Piauí

Intoxicado de ofertas

10/09/2015

Pesquisador visita congresso médico, tenta sobreviver ao marketing da indústria farmacêutica e sai com uma parafernália de brindes

por OLAVO AMARAL

29 DE ABRIL, QUARTA-FEIRA_Na escuridão de sua cela, Paula espera por mim. Para salvá-la, atravesso os corredores da prisão, permeados de objetos ameaçadores criados por computação gráfica. Desvendo enigmas, cujas respostas são indicadas por letras em negrito, e escolho as portas que me levarão a seu cativeiro: a cela da depressão. Quando a encontro, Paula está de costas e não nota minha presença. Mas não há mais charadas. Só resta uma saída para despertá-la.

O representante do laboratório Libbsme sussurra o desfecho. “Doutor, agora basta um gesto para libertar a paciente.” Ele aponta a caixa de Reconter® (escitalopram 10 mg) sobre a mesa. Apanho a embalagem, passando-a em frente a uma câmera. Em segundos a cela desaparece e surge um campo verdejante. Ainda que o rosto computadorizado de Paula não seja tão atraente como parecia na foto mostrada no início do jogo, sei que meu gesto a salvou, e isso basta. Ou quase.

A tela escurece e uma menina sorridente cola um adesivo verde atrás do meu crachá. Contente, agradeço e vou buscar minha garrafa térmica como recompensa.

A ideia desse diário me ocorreu cinco anos atrás, em Gramado, na serra gaúcha, no 6º Congresso Brasileiro de Cérebro, Comportamento e Emoções de 2010, do qual participei com minha namorada da época. Bem mais jovem que eu, ela vivia o drama de ajudar a família a pagar o que hoje equivaleria a 1 500 reais por mês por dois comprimidos diários de Zyprexa® (olanzapina 10 mg), prescritos para o tratamento de seu pai, incapacitado por uma forma rara de demência.

Quando chegamos ao evento (meu primeiro congresso para médicos depois de ter desertado da clínica para a pesquisa básica, alguns anos antes), achei graça no fato de que tínhamos crachás diferentes: no meu, de médico, estava escrito “prescritor”; no dela, de estudante, “não prescritor”. Num surto de ingenuidade, pensei que a medida servisse para de alguma forma proteger a mim, o “prescritor”, do bombardeio de marketing da indústria farmacêutica.

A ilusão duraria pouco. Em minutos estávamos na área de exposição, cercados por representantes de laboratório que disputavam minha atenção em troca de café expresso. O primeiro comentário que fiz foi: “Opa, vamos recuperar a grana da olanzapina em cafezinho.” Minha namorada não gostou da piada, e viria a nutrir uma antipatia pela indústria farmacêutica que dura até hoje. Já eu passei a acalentar um projeto: prometi a mim mesmo que um dia iria a um congresso com o propósito explícito de aceitar todos os brindes, petiscos e informações que a indústria tivesse para me oferecer. Não porque precisasse deles, mas para tentar aprender algo no processo.

TARDE_Ao entrar no centro de convenções da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul, o espaço de exposições mais prestigiado de Porto Alegre, para a abertura do World Congress on Brain Behavior and Emotions de 2015 – agora um evento internacional –, não estou muito seguro de que queira levar adiante esse registro, ainda que já tivesse desembolsado 1 200 reais pela inscrição que dava direito ao crachá de “prescritor”, 400 reais mais cara que a cobrada da categoria “outros profissionais”.

A distinção entre prescritores e não prescritores é fruto da regulamentação da publicidade de medicamentos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa. Em vigor desde 2009, a norma determina que, em eventos científicos, as propagandas de medicamentos de venda controlada sejam distribuídas apenas a profissionais habilitados a receitá-los. Na prática, tornou-se uma forma conveniente de coibir o desperdício da indústria com quem não é médico.

Quando estudante de medicina, antes da vigência da lei, um de meus passatempos favoritos no hospital era “brincar de ser invisível” com meus colegas. Munido do crachá amarelo de estudante, eu passava em frente a um representante de laboratório repetidas vezes, apenas para constatar que ele sequer piscava. No momento em que surgia alguém com o crachá verde de médico, a atenção era imediata.

Alguns médicos lamentam que, depois da regulamentação da Anvisa, os congressos nunca mais foram os mesmos. Um amigo psiquiatra me contou sobre os “bons tempos” em que, ao som de música eletrônica, dançarinos divulgavam antidepressivos e médicos embarcavam num trem fantasma que culminava na apresentação de medicamentos para a síndrome do pânico.Por outro lado, um primo meu confessou ter feito um passeio de helicóptero num congresso de oftalmologia em pleno 2011. Ainda assim, tenho um certo temor de que minha pauta possa se encontrar meio datada.

Ao entrar na área de exposição, minhas dúvidas logo se dissipam. De cara topo com o fondue de chocolate servido no estande da Sanofi, sob um grande rótulo do indutor de sono Stilnox® CR(hemitartarato de zolpidem 10 mg). Logo descubro, porém, a nêmesis que me acompanhará nos próximos dias: a fila. Pelo menos vinte pessoas esperam pelo fondue. Resolvo voltar mais tarde e me concentro em brindes menos disputados: pipoca no estande da Nova Químicae café expresso com Ovomaltine no da Lundbeck.

No estande da Apsen, avisto uma Harley-Davidson e uma moto de rali. Pergunto ao atendente por que elas estão lá, e ele responde que é uma analogia com o Donaren® (cloridrato de trazodona 50 mg), que tanto pode ser um antidepressivo como um indutor de sono. “Ambas são motos, mas para condições diferentes, entende?” Constrangido com a metáfora, agradeço e vou saindo, mas ele pergunta: “O senhor não quer nosso carimbo, doutor?” Percebendo minha ignorância, ele conta que posso concorrer a uma viagem para a próxima edição do congresso, em Buenos Aires, se juntar os carimbos de todos os expositores. Na bolsa com o material do congresso, encontro uma ficha com 22 quadradinhos, que entrego pra ele carimbar. A brincadeira vai ser divertida.

Com meu crachá de prescritor orgulhosamente exposto, recebo convites para lançamentos de livros com exemplares grátis, para palestras com almoço fornecido pelo McDonald’s e para ter momentos da minha vida desenhados por cartunistas. E vou acumulando brindes, material “informativo” e petiscos – porque as filas dos lanches mais disputados, como sorvete e crepes, são gigantescas. Aos poucos perco o medo dos representantes de laboratório e convenço meu lado sociofóbico de que não serei mal recebido se pedir informações. Como um adolescente endinheirado que adentrasse um prostíbulo pela primeira vez, a angústia da rejeição vai sendo substituída pela confiança. Os simpáticos atendentes ao meu redor conhecem boa parte dos médicos, os chamam pelo nome e fazem perguntas sobre sua vida pessoal. Como no sexo pago, a relação comercial não exime o prestador de serviços de demonstrar intimidade – pelo contrário, é o vínculo, mais do que os brindes, que é usado como moeda de barganha.

Das experiências da tarde, nenhuma supera o resgate de Paula das garras da depressão. O jogo eletrônico é um entre os muitos que se espalham pelos estandes. Conhecimento ou habilidade é o que menos importa: os games servem para garantir que o médico se exponha por alguns minutos à marca do patrocinador, em vez de apanhar os brindes e sair às pressas. As respostas corretas em negrito ao teste de múltipla escolha me eximem de pensar. Tudo o que preciso é de alguns cliques e do “gesto que liberta” para alcançar a felicidade e conquistar mais um brinde.

NOITE_Ao fim da tarde, já acumulei quatro sacolas de badulaques e folhetos. O peso começa a me incomodar, e vou até o estacionamento deixar o espólio no porta-malas. Na volta, a área de exposição já não está tão cheia, e o público se dirige ao Teatro do Sesi, cujos 1 800lugares costumam atrair os shows mais concorridos de Porto Alegre. Hoje, porém, o palco é ocupado por Jean Decety, pesquisador francês radicado nos Estados Unidos. Para discorrer sobre o senso de justiça no cérebro, ele dá início a sua apresentação com um filme do Batman.

A palestra mostra bem o tom do congresso, que traz o apelo pop da neurociência para um público predominantemente constituído de profissionais da saúde. O evento cresceu ao longo de suas onze edições até alcançar 3 300 participantes este ano, e boa parte da popularidade se deve a uma publicidade competente, alinhada com a estética contemporânea de eventos como os TED Talks, o ciclo Fronteiras do Pensamento e as palestras de gurus domundo empresarial: destaque para os nomes e rostos dos palestrantes no programa, títulos espertos e um sofá no centro do palco.

Ao final do primeiro dia, na cerimônia de abertura, o moderador, o presidente do congresso e o diretor do instituto que organiza o evento fazem pronunciamentos curtos e cedem a palavra à diretora de marketing da Lundbeck, companhia dinamarquesa especializada em medicamentos para doenças do sistema nervoso. É ela que fará a entrega dos prêmios aos melhores trabalhos inscritos no congresso, o que não a impede de se alongar sobre a história e a missão do laboratório, bem como do braço sem fins lucrativos que financia eventos e educação médica.

A apresentação culmina com um filme publicitário caprichado, em que imagens de pacientes se alternam com as de uma metrópole movimentada e cheia de luzes, enquanto a legenda “Imagine ter de encontrar a única lâmpada com defeito” faz uma analogia com a empreitada de procurar uma causa para as doenças do cérebro. Por alguns instantes, a publicidade chega a me envolver. Quando o vídeo termina, no entanto, me dou conta de que o maior espaço de tempo na abertura do congresso coube a um diretor de marketing.

30 DE ABRIL, QUINTA-FEIRA, MANHÃ_Acordo atrasado e meio grogue por ter dormido pouco, mas logo me animo com as oportunidades do café da manhã. Antes da primeira palestra, recolho atabalhoadamente biscoitos, cupcakes e pães de queijo, sob o olhar complacente de garçons e representantes de laboratório. A mesa de discussão – sobre biomarcadores em psiquiatria – é interessante, mas a plateia não parece particularmente envolvida. A maior parte do público, composto de profissionais da saúde, parece dar preferência a palestras com enfoque clínico, em detrimento de dados de pesquisa. É difícil culpá-los: ser médico dá trabalho, e avaliar criticamente evidências científicas talvez seja coisa para acadêmicos como eu, que têm tempo para tanto. Isso, porém, é o que deixa a porta aberta para a indústria ocupar o espaço.

Segundo dados levantados pela BBC no ano passado, as dez maiores empresas farmacêuticas globais gastaram em 2013 cerca de 98,3 bilhões de dólares em vendas e marketing – quase 5% a mais do que o PIB do Equador no mesmo ano. Boa parte da verba vai para o que a indústria chama de “educação médica”, o que inclui patrocínio de congressos, palestras de especialistas e material distribuído por representantes de laboratório. Além de subvencionar os eventos, com frequência a indústria banca o transporte e a hospedagem dosparticipantes: uma pesquisa do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), em 2010, revelou que um em cada dez médicos havia viajado para congressos com despesas pagas por laboratórios no ano anterior, e mais de um quarto participara de eventos patrocinados pela indústria no mesmo período.

Os estandes estão cheios de “material educativo”. Os mais óbvios são anúncios, com o slogan do produto, informações publicitárias e a bula. O que mais me chama a atenção, porém, é a presença de artigos científicos – traduzidos na íntegra – sem menção explícita do patrocinador. Para encontrá-lo, é preciso ler até o fim e procurar entre as letras miúdas da seção de conflitos de interesse. Apanho a esmo um dos artigos no estande da Shire: dos sete autores, cinco são funcionários do laboratório. Os dois outros são psiquiatras acadêmicos, um dos quais recebe fundos de pesquisa de cinco laboratórios e é consultor de três. O segundo recebe subsídio de 44 laboratórios diferentes, atua como consultor em 23, como palestrante em 22 e possui ações de quatro.

Embora tal situação possa assustar um leigo, ela é corriqueira na pesquisa clínica. Por causa disso, artigos científicos nos estandes me incomodam mais do que anúncios publicitários: eles são a demonstração prática de quão tênue é a linha entre ciência e marketing. Os artigos apresentam pesquisas financiadas pela indústria, desenvolvidas por funcionários e acionistas da indústria, publicadas em revistas que lucram vendendo exemplares para a indústria – que os oferece ao lado de lanches e brindes em congressos pagos pela indústria, para médicos que viajaram a convite da indústria. E é difícil até para o mais ingênuo e idealista dos seres acreditar que uma atividade educacional desse tipo possa ser isenta.

O mais assustador é que não é preciso burlar nenhuma regra para que a informação disponível favoreça o patrocinador. Em um mundo com milhares de pesquisas realizadas todos os anos, cujos resultados podem ser influenciados por inúmeros vieses no desenho e na análise dosexperimentos, ou mesmo por força do acaso, é praticamente garantido que algumas delas mostrarão a eficácia de um medicamento. E serão geralmente essas que acabarão publicadas e divulgadas, enquanto resultados negativos são rotineiramente engavetados. Com isso, simplesmente escolher os resultados que interessam e torná-los visíveis aos médicos já é um investimento que vale a pena – e que produz uma informação inevitavelmente comprometida.

MEIO-DIA_A hora do almoço reserva dois simpósios-satélite da indústria farmacêutica: o da Apsen, sobre o uso da trazodona 150 mg no tratamento da depressão, e o da Janssen, sobre melhoras no prognóstico da esquizofrenia com o tratamento de longa ação. Tais eventos, comuns em congressos médicos, são restritos a prescritores e em geral consistem em palestras de médicos contratados pelo patrocinador. Conforme divulgado pelo Wall Street Journal em 2005, um estudo interno da Merck sugeriu que o retorno desse tipo de publicidade é quase duas vezes maior que o de um encontro com um representante. Para estimular os médicos, ambos os simpósios prometem almoço: lanches do McDonald’s no da Apsen e um lunch box no da Janssen.

Encontro uma amiga que atua como neurologista no interior do estado e a convido para me acompanhar. Como boa parte dos participantes, ela teve sua inscrição paga por um laboratório. Ela me diz que, se eu convencer os representantes de que sou um pesquisador de peso, posso conseguir qualquer coisa. Ao passarmos por um dos estandes, um deles põe a mão no ombro dela e exclama: “Doutora, preciso saber da sua vida!” Contrariada, ela o ignora.

Entro no simpósio da Apsen com expectativa. Nas cadeiras, pastas com blocos de anotações e material promocional da trazodona 150 mg aguardam os prescritores que surgem com seus Big Macs. Em quinze minutos a sala está quase lotada. A palestra, ministrada por um professor da Universidade Federal de São Paulo, parece relativamente nos conformes, exceto pelo foco no medicamento do patrocinador. Todos os estudos apresentados mostram que a eficácia da trazodona é comparável à de outros antidepressivos – resultado comum numa área em que quase todos os medicamentos se equivalem nesse quesito. Daí a importância do marketing: basta fazer de um medicamento assunto de palestra para proporcionar uma vantagem competitiva.

O conferencista menciona inúmeras vezes um certo David Sheehan, autor de vários dos estudos citados. Graças ao wi-fi providenciado pela AstraZeneca (com a senha “Eficácia”), dou uma espiada no Google. Abro um artigo aleatório e constato, na seção de conflitos de interesse, que o sujeito está ligado a 62 laboratórios. A plateia parece minguar à medida que o apetite pelos Big Macs cede lugar à preguiça pós-prandial. Minha amiga cochicha que o medicamento do patrocinador não funciona muito bem como antidepressivo, mas dá um sono legal. Um pouco como a palestra.

Na saída, dou um pulo no simpósio da Janssen, numa sala em que caixas daPizza Hut e sacolas de uma loja de café se espalham pelo chão. A palestra já está na fase das perguntas, e o representante do laboratório toma a iniciativa de estimular a plateia a se manifestar, sem muito sucesso. Os conferencistas começam a debater entre si, e um deles menciona um paciente com esquizofrenia que se formou em direito e considerava ingressar na pós-graduação. Previsivelmente, ele fazia uso do medicamento do patrocinador, o Invega® Sustenna TM (palmitato de paliperidona). O representante abre um sorriso. Pouco depois, alguém pergunta sobre a síndrome neuroléptica maligna, uma complicação rara do uso de antipsicóticos. O psiquiatra diz que já viu um caso. O sorriso do representante desaparece, mas logo ressurge quando o médico acrescenta que o paciente evoluiu bem.

TARDE_De volta à área de exposição, me dou conta de que perdi a ficha com os carimbos dos patrocinadores. Consigo uma nova no balcão de inscrições, mas preciso recomeçar do zero. Nos intervalos das palestras da tarde, corro em busca dos carimbos perdidos. No estande do Cogmed, um programa de treinamento cognitivo computadorizado da Pearson, leio um cartaz: “Seja aplicador do treinamento que possui 80% de eficácia e está presente em mais de vinte países.” Curioso, dirijo à atendente a pergunta óbvia: “80% de eficácia para quê?” Ela me diz: “Ah, isso quer dizer que 80% dos pacientes terminam o tratamento.” Penso em argumentar que a definição de “eficácia” não é essa, mas me sinto constrangido. No fundo, simpatizo com os representantes, e com a fragilidade do papel que desempenham ao discutir temas sobre os quais sua formação frequentemente se limita a alguns dias de treinamento de vendas. Mais uma vez, meu coração mole me impede de ser um verdadeiro jornalista investigativo.

No intervalo do meio da tarde, as filas dos lanches aumentam a olhos vistos. Conto trinta pessoas esperando por um crepe com sorvete, calda de chocolate e m&m’s. Sem paciência, sigo até a Torrent Pharma e entro numa fila para responder a um teste sobre os remédios da marca. Enquanto aguardo, alguém espalha que na Aché estão distribuindo uma sacola colorida. De graça e sem nenhum teste. Logo, porém, chega a notícia de que já acabou. A moça à minha frente, preocupada com sua mala de viagem, pergunta ao representante se o guarda-chuva pode ser levado como bagagem de mão. Quando chega a minha vez, descubro que o teste se resume a ligar rótulos de produtos a afirmações sobre sua eficácia. Termino em vinte segundos e ganho minha primeira sombrinha do dia.

Volto ao laboratório Libbs para jogar novamente o jogo do prisioneiro. Dessa vez escolho outro paciente, mas as perguntas são semelhantes e as respostas continuam em negrito. O “gesto que liberta” também segue igual, mas o brinde – aleluia! – é diferente: ganho uma bolsa térmica. Em outro estande da Libbs, dedicado inteiramente ao Sumaxpro® (sumatriptana 50 mg + naproxeno sódico 500 mg), seleciono eventos importantes da minha vida numa tela e digito uma palavra que descreva cada um deles, enquanto o representante informa que a associação de substâncias do comprimido é a mais vendida nos Estados Unidos – nada como um apelo ao mundo desenvolvido. No final, uma animação gráfica insossa sobrepõe minhas palavras a cenas da vida profissional de um médico, terminando com o slogan do medicamento (“Viva sem interrupções”). Ganho uma bateria acessória para celular, até agora o brinde mais útil que recebi.

Lá pelas quatro da tarde, depois de guardar os presentes no carro, me dirijo à última palestra do dia, ministrada pelo canadense Moshe Szyf, um dos papas da epigenética (estudo da regulação da expressão dos genes) em psiquiatria. Ele usa um quipá e fala sobre o “novo lamarckismo”. A palestra é boa, ainda que algo exagerada – num determinado momento ele aventa a possibilidade de “reverter a pobreza por uma abordagem epigenética”. Como ex-marido de uma psicóloga social, conheço pessoas ligadas às ciências humanas que teriam convulsões ao ouvir isso. Mas a plateia não reage, e o segundo dia de congresso termina. Em casa, lembro de pesar o patrimônio amealhado: 5 quilos e meio até agora.

1º DE MAIO, SEXTA-FEIRA, MADRUGADA_Acordo às quatro da manhã com o vizinho de cima, que, de volta do Monsters Tour, bota um metal pra tocar a todo volume. Troco de quarto e ponho tampões de ouvido, mas quando o ambiente enfim silencia já não tenho sono. Na falta do que fazer, ligo o computador e reviro sites que documentam a influência do marketing laboratorial sobre a prescrição médica. Ainda que tais dados sejam quase inexistentes no Brasil, uma literatura relativamente extensa vem abordando o tema nos Estados Unidos nas últimas duas décadas, resultando em regulamentações por parte das associações médicas e na criação de movimentos de resistência à onipresença da indústria.

Lançado em 2000 nos Estados Unidos, o site do No Free Lunch compila diversos estudos sobre marketing farmacêutico e comportamento médico. O grupo ganhou alguma visibilidade em meados da década passada, ao propor campanhas como a “Anistia de Canetas” (“Troque suas canetas com logos de laboratório por outras comuns!”). No entanto, a julgar pelo design – e pela mensagem: “Best viewed on Internet Explorer or Netscape Navigator 7” –, o site não vê uma atualização há tempos. Ao contrário do Just Medicine, liderado pela Associação Americana de Estudantes de Medicina, que parece a todo vapor: dentre os recursos disponíveis, há uma tabela que ranqueia as escolas de medicina em relação às políticas para regular conflitos de interesse de estudantes e professores com a indústria, além de propostas de mudanças no currículo para lidar com a questão.

É evidente que nas últimas duas décadas a discussão sobre conflitos de interesse avançou em vários países, inclusive na esfera legal. Numa iniciativa por mais transparência, a lei norte-americana conhecida como Physician Payments Sunshine Act [Lei de Esclarecimento de Pagamentos a Médicos], de 2010, determinou que se listasse num site mantido pelo governo qualquer pagamento de mais de 10 dólares que a indústria tenha feito a médicos e hospitais. Procuro o nome de uma amiga radiologista em Washington e descubro que ela recebeu 134,21 dólares em alimentação e bebidas da General Electric em 2013.

No Brasil, o que mais se assemelha a uma regulamentação – além das normas de publicidade da Anvisa – é um acordo de 2012 entre o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Interfarma (Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa, na época presidida por Antônio Britto,ex-governador do Rio Grande do Sul), especificando práticas aceitáveis por parte da indústria. Na época, o Cremesp fez duras críticas ao acordo, argumentando que a tarefa do CFM não era negociar com a indústria, mas determinar os deveres éticos dos médicos nessas questões. A despeito dos protestos, nada mudou desde então, e a discussão parece ter abrandado.

MANHÃ_Atrasado pelo tempo gasto na internet, chego para a última palestra da mesa “Amor, ódio e paixão: os neuromistérios do coração”. O título lembra um de meus verbetes favoritos do Urban Dictionary, neurofication (neuroficação): “O ato de engrandecer artificialmente qualquer área de atividade científica ou não científica com o mistério, a legitimidade e a nobreza da verdadeira neurociência simplesmente adicionando o prefixo ‘neuro-’ a um termo qualquer.” Ao que tudo indica, funciona: é feriado, são oito da manhã e o auditório está cheio. A palestra, porém, transita entre alguns estudos relevantes de psicologia e um humor meio lugar-comum. Termina com dois textos virais de internet, um deles atribuído a Luis Fernando Verissimo (o que praticamente garante que seja apócrifo). A plateia aplaude efusivamente. Agradar o público, no fim das contas, não requer muita ciência.

Fujo da discussão final e corro atrás do café da manhã, na tentativa de me antecipar à multidão. É tarde: um mero pão na chapa já provoca congestionamento. Por sorte, descubro um bolo de cenoura sem uma marcação tão cerrada. Cortesia da GlaxoSmithKline, que tem a reputação dúbia de ter sido alvo do maior processo da história contra um laboratório: um acordo judicial de 2012 determinou que a empresa pagasse 3 bilhões de dólares por promover usos não aprovados dos antidepressivos Paxil e Wellbutrin, além de ocultar dados sobre o risco cardiovascular do Avandia, um medicamento para diabetes. Coincidência ou não, desde então o laboratório tem se esforçado para assumir uma imagem de transparência, tendo sido o primeiro, dentre os grandes, a comprometer-se a disponibilizar publicamente os resultados de todos os seusestudos clínicos. Mas no momento nada disso importa tanto quanto o bolo de cenoura sem fila, sob a efígie do Wellbutrin® XL (cloridrato de bupropiona 150 e 300 mg) colada à parede do estande.

No intervalo seguinte, encontro uma ex-aluna minha, terapeuta ocupacional, com um crachá de prescritora que lhe deram por engano. “Fez a maior diferença”, ela comenta. Pergunto se ela aproveitou a palestra do McDonald’s da véspera. “Não, a gente foi na da Pizza Hut.” Branding é tudo. Observando as filas, um amigo psiquiatra comenta que os tempos áureos de brindes ficaram para trás depois da legislação da Anvisa, e que a atual dificuldade para pegar uma caneca ou um guarda-chuva seria a desforra dos representantes de laboratório. “Eles passam os dias fazendo fila em consultórios médicos, aposto que riem por dentro quando chegam aqui.”

O tempo dispendido por esses empregados não é pouco: a pesquisa de 2010 do Cremesp aponta que 80% dos médicos paulistas recebem representantes, e cada um deles costuma visitar de dez a vinte consultórios por dia. Tal estratégia pode parecer obsoleta num mundo com informação médica disponível a alguns cliques. Ainda assim, as despesas com o marketing corpo a corpo representam a maior parte do custo de publicidade da indústria nos Estados Unidos, tendo alcançado quase 15 bilhões de dólares em 2012.

Os representantes costumam fazer visitas periódicas aos mesmos profissionais por anos a fio, construindo um vínculo que inclui distribuição de amostras grátis, pequenos brindes e a eventual oferta de palestras com jantares ou financiamento de congressos. Ainda que nenhuma demanda seja feita, boa parte dos médicos acredita que os representantes sabem o que eles vêm prescrevendo (provavelmente por meio das farmácias, em uma prática irregular repetidamente denunciada pela mídia), e que isso pode ser determinante em sua generosidade.

No estande da Mantecorp, quinze pessoas esperam para concorrer ao sorteio de um tablet. Decido adiar minha inscrição e, após apanhar uma revista chamada Sinapses &Sinopses na Novartis, entro na fila de um jogo eletrônico do laboratório Servier. Passando o dedo sobre uma caixa do antidepressivo Valdoxan® (agomelatina 25 mg), lanço flechas que estouram balões cujas legendas são sintomas da depressão, no lugar dos quais sobem outros, coloridos, com rótulos como “produtividade” e “expressão de sentimentos”. Três não prescritores competem ferozmente pela pontuação maior – uma espécie de prêmio de consolação para os portadores do crachá que não dá brindes.

Dentro do estande, cerca de dez médicos ouvem com atenção um representante que projeta dados numa tela, citando repetidamente o trabalho de um certo “dr. Stahl”. O sujeito faz perguntas de múltipla escolha sobre o Valdoxan®, que a plateia deve responder levantando placas com as letras A, B, C e D. Infiltrado no grupo, acerto três de quatro respostas. Já faz vinte minutos que as palestras começaram, mas nenhum dos presentes sai antes que o representante abra uma cortina e apanhe uns bloquinhos para distribuir. Sinto no ar certo desapontamento, e a médica a meu lado diz: “Puxa, não é mais o abridor de vinho.”

Terminado o congresso, descubro que Stephen Stahl é um psicofarmacologista da Universidade da Califórnia em San Diego, fundador do Neuroscience Education Institute. Numa postagem polêmica de 2011 no blog do instituto, Stahl acusou os críticos da indústria farmacêutica de tê-la afastado de congressos, da educação médica e dos hospitais, e impedido mesmo atividades legais sancionadas pelo órgão regulador americano, como jantares, envio de representantes ou brindes (“Nem café ou água mineral são permitidos em Massachusetts, o que dizer de um livro?”). Num salto algo ousado, ele conclui que isso levou ao fechamento dos laboratórios de pesquisa em saúde mental da AstraZeneca, GSK e Pfizer, e que saíram vitoriosos “os antipsiquiatras” – gente que não acredita em doença mental ou na eficácia dos fármacos. A lógica de atrelar a crítica ao marketing à “descrença na doença mental” parece estranha – tanto quanto a naturalidade em aceitar que a viabilidade de um laboratório de pesquisa dependa diretamente da publicidade.

Polêmico, o post foi retirado do ar em seu endereço original, embora sobreviva nas páginas de críticos. É um bom exemplo do argumento normalmente invocado para defender a onipresença da indústria na ciência médica: o de que a inovação farmacológica dependeria dela, já que o dinheiro arrecadado com vendas de medicamentos é revertido em pesquisa. O debate é complexo, mas os números são elucidativos: em 2013, o investimento em pesquisa das dez maiores companhias farmacêuticas do mundo foi de 65,8 bilhões de dólares – em torno de 33% a menos do que os já mencionados 98,3 bilhões em “vendas e marketing”. Já os lucros das mesmas empresas, no mesmo período, chegam a 89,8 bilhões de dólares. Críticos do sistema, que vão do Partido Pirata sueco ao Nobel de Economia Joseph Stiglitz, alegam que, para cada dólar investido na ciência, a indústria gasta um valor maior do que isso em ações de publicidade para distorcê-la. E que, se tivéssemos deixado a pesquisa farmacêutica em domínio público, sem patentes, lucros exorbitantes ou despesas de marketing, poderíamos ter mais pesquisa pelo mesmo custo e medicamentos a um preço menor.

MEIO-DIA_Saio da palestra seguinte mais cedo e consigo a proeza de ser um dos primeiros a se servir do almoço. Na Aspen Pharma, agarro um estrogonofe de frango, que traço em pé enquanto espero na fila de inscrição para o sorteio do tablet da Mantecorp. Num golpe de sorte, assisto à deserção de três estudantes a minha frente, depois de descobrirem que não podem se cadastrar sem o crachá de prescritor. Me lembro de meus tempos de crachá amarelo e me solidarizo com eles, ainda que avançar três casas na fila seja tão bom quanto ganhar brindes. Na saída do estande, avisto um bacalhau à Gomes de Sá na Medley, mas a fila me intimida e guardo minha fome para o que promete ser o evento mais interessante do dia.

A “Arena TDAH” – palestra patrocinada pela Shire sobre transtorno de déficit de atenção e hiperatividade em adultos – vem sendo promovida desde o início do congresso. Sobre um ringue em estilo ufc, o cartaz anuncia o “combate” entre Luis Augusto Rohde e André Palmini, acompanhado de lanches do Subway. Médicos dos mais prestigiados do Rio Grande do Sul, ambos pertencem a uma geração que se sobressai não só pela atividade clínica, mas por uma carreira sólida como pesquisador. Rohde é presidente da Federação Mundial de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), e foi o único psiquiatra brasileiro a integrar a força-tarefa que elaborou a última versão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Associação Americana de Psiquiatria, o DSM-5. Palmini tem contribuições importantes de pesquisa no campo das epilepsias e é um dos idealizadores do congresso. E, ainda que não conste em seu currículo, também é neurologista do meu avô.

Palmini e Rohde são exemplos do que a indústria farmacêutica chama de “líderes de opinião”: médicos conceituados, capazes de influenciar colegas e frequentemente recrutados por laboratórios como consultores e palestrantes. Na condição de pesquisadores ativos, tais profissionais costumam ter interesses em verbas de pesquisa e parcerias com a indústria que vão muito além de canetas e bloquinhos. Na declaração de conflitos de interesse disponível no programa do congresso, Rohde e Palmini mencionam ligações com cerca de quatro laboratórios cada um, entre palestras, consultorias e verbas de pesquisa – café pequeno diante dos currículos de psiquiatras norte-americanos.

O marketing algo apelativo do cartaz parece surtir efeito, e uma fila gigantesca em espiral se forma na porta. Quando enfim consigo entrar, meus piores temores se realizam: os lanches do Subway acabaram, e me dou por feliz ao sentar numa das últimas cadeiras disponíveis.

O representante da indústria anuncia que serão quatro temas, com réplica e tréplica, e que os debatedores “vão assumir posições contrárias entre si, que não representam necessariamente as suas próprias” – pelo jeito, eles de fato apostam no conceito de luta marcial. O debate, porém, segue um curso amistoso. Os dois palestrantes são eloquentes e geralmente acabam por convergir em suas visões. Me divirto com uma pergunta sobre o “TDAH de alto funcionamento” – o indivíduo bem-sucedido que consegue cumprir seus compromissos, mas negligencia sua casa em desordem e ageladeira que jamais é limpa. Eu mesmo estou sem água no refrigerador há cinco dias. Curiosamente, o debate se encerra quase sem menção ao produto do patrocinador, o Venvanse (dimesilato de lisdexanfetamina). Um desavisado poderia pensar que o esforço do fabricante foi para o ralo. Mas o importante nem sempre é vender a medicação: por vezes o investimento está em vender a doença.

Num artigo de 2003 para a revista Medical Marketing & Media, o publicitário Vince Parry discorre sobre o que chama de condition branding, processo que consiste em transformar um quadro clínico em marca. “Se puder definir entre médicos e pacientes uma condição particular e seus sintomas associados, você também poderá prescrever o melhor tratamento para essa condição”, ensina o autor. Parry segue descrevendo exemplos bem-sucedidos – a propagação do conceito de “halitose” como uma condição médica na década de 20, quando a Warner-Lambert quis expandir o mercado do Listerine (“Aumentar a importância de uma condição existente”); a redefinição da impotência como “disfunção erétil” no final da década de 90, quando a Pfizer lançou o Viagra (“Redefinir uma condição existente para reduzir o estigma”); e a criação do conceito do “transtorno do pânico” como um diagnóstico específico nos anos 70, financiada em parte pela Upjohn, fabricante do Xanax (“Desenvolver uma nova condição para construir reconhecimento de uma necessidade não satisfeita do mercado”).

A expansão do diagnóstico médico não é necessariamente ruim: um paciente com sintomas e sofrimentos até então sem causa pode buscar tratamento e melhorar sua vida. Mas ao ver um publicitário debater o conceito em termos tão cândidos, é difícil acreditar que algo não esteja errado.

Na psiquiatria, provavelmente nenhuma doença tem sido tão controversa quanto o TDAH, cujo reconhecimento e medicação cresceram de modo astronômico ao longo das últimas duas décadas. A produção do medicamento mais comumente usado, o metilfenidato (mais conhecido pelo nome comercial de Ritalina®), aumentou cerca de trinta vezes nos Estados Unidos entre 1990 e 2012, mesmo que a evidência disponível (parte da qual publicada pelo grupo de Luis Augusto Rohde) sugira que a prevalência dos sintomas tenha se mantido relativamente estável. Defensores da relevância do transtorno argumentam que, ainda que o problema de diagnóstico exagerado possa existir, os números refletem em parte o reconhecimento de uma condição antes não percebida. Isso não impede que o TDAH tenha se transformado no alvo preferencial dos críticos de uma “supermedicalização” da sociedade.

Ao contrário do que boa parte do público tende a pensar, o debate sobre a identificação de um transtorno mental pouco tem de biológico – em última análise, o ponto em que um comportamento deixa de ser uma variação da normalidade para ser considerado patológico é inevitavelmente uma convenção clínica. O manual da Associação Americana de Psiquiatria propõe critérios objetivos para a definição do TDAH: a presença de seis entre nove sintomas de desatenção e seis entre nove sintomas de hiperatividade antes dos 12 anos de idade, em mais de um ambiente ou circunstância, com prejuízo de funcionamento social, acadêmico ou ocupacional, sem que isso seja explicado por outro transtorno.

É óbvio, no entanto, que tais “receitas de bolo” não são aplicadas rigidamente, e que a prevalência de um diagnóstico acaba sendo definida pela visão subjetiva dos médicos, dos pacientes e de seu entorno. Nesse sentido, o investimento realizado pela Shire parece endossar a ideia de que o TDAH em adultos é relevante e tratável. Ao lado do anúncio da palestra, um cartaz informa que “O TDAH também pode acometer adultos e normalmente encontra-se associado a outras comorbidades”, e que, “apesar de 5,8% dos adultos possuírem a doença, muitos são subdiagnosticados e poucos são tratados”. Essa é a mensagem que precisa ser veiculada – e associar especialistas de peso como Rohde e Palmini a ela parece valer a pena, mesmo que eles sequer mencionem o medicamento do patrocinador.

TARDE E NOITE_A tarde prossegue com uma palestra sobre videogames, outrora vilões, hoje ferramentas de treinamento cognitivo para neurocientistas e alguns psiquiatras. Cansado pela noite maldormida e aborrecido por ter perdido o lanche do Subway, saio no intervalo e a multidão sequiosa de brindes já não me diverte. No centro da área de exposição forma-se uma fila colossal: o estande da Nova Química promove o lançamento do livro Integrando Psicoterapia e Psicofarmacologia, de Irismar Reis, Thomas Schwartz e Stephen Stahl (o mesmo do post polêmico na internet), prometendo 300 exemplares gratuitos. O dr. Reis está autografando o livro, e a fila, com pelo menos 200 pessoas, anda a passos de tartaruga. Pergunto a uma moça no pelotão da frente quanto tempo ela esperou para chegar até ali. “Pelo menosuma hora”, ela responde. E acrescenta que as senhas já devem ter se esgotado. Jogo a toalha.

Compenso o livro perdido com três Danoninhos, surrupiados no estande da Danone, que anuncia o suplemento vitamínico Souvenaid®. Assoberbado pela confusão, saio da área de exposição para a rua e descubro que a poucos passos da luz fluorescente há um agradável dia de sol. Na ausência de bancos, sento no meio-fio para tomar os Danoninhos e acabo me deitando na grama. Vencido pelo cansaço, vou embora mais cedo. Em casa, peso os brindes e descubro que acumulei outros 3,3 quilos de espólio. Ao todo, já são quase 9 quilos de bugigangas.

À noite dou um pulo na festa do congresso, que fecha o Bar Opinião, tradicional casa noturna de Porto Alegre. Lá, estabeleço uma improvável amizade com Duda, uma menina de 17 anos, ainda no ensino médio, filha de uma afluente família mato-grossense. Fascinada pelo cérebro, ela se inscreveu no congresso e veio até Porto Alegre para participar dele. Parece entusiasmada com a festa, enquanto eu, desprovido de energia, me despeço com um tchau conformado em direção ao sono que me falta.

2 DE MAIO, SÁBADO_Acordo com fome. De lanche em lanche, há dias não faço uma refeição normal. Sem palestras que me atraiam no primeiro horário, encaro uma tigela de cereal em casa e chego ao congresso já no intervalo. A área de exposição está mais vazia, e talvez seja a hora de ter minha vida ilustrada pelo cartunista da Libbs. Quando me aproximo, porém, ainda há filas ali. Parece um paradoxo: se eu, que me inscrevi no congresso com o objetivo de angariar os brindes, não encontro tempo para esperar, como alguém que veio para assistir às palestras consegue se dar ao luxo de ficar na fila?

Frustrado, vou até o estande da Medley, mas a representante me diz que tanto as bolsas quanto os carimbos personalizados acabaram. Pergunto de quantos carimbos eles dispunham, e ela diz que haviam preparado 4 mil. Como foram cerca de 3 300 inscritos (e 140 palestrantes), a única alternativa plausível é que diversas pessoas tenham abocanhado mais de um. Não só me sinto injustiçado, como um tanto incompetente como recolhedor de brindes. A moça se desculpa e me convida para o festival de sanduíches do almoço.

Os lanches também começam a rarear, e os representantes se mostram mais relapsos. No estante do Sumaxpro®, um deles diz que os prescritores não precisam se submeter à atividade no computador para levar o brinde, mas que têm de esperar um pouco para que ele possa “passar um ou dois conceitos sobre o medicamento” – inclusive a indefectível afirmação de que é a associação mais prescrita nos Estados Unidos. Um médico se aproxima para reclamar que a bateria acessória de celular que eles distribuíram não funciona direito. O representante sugere, sem muita convicção, que ele tente carregá-la no computador e não na tomada.

Quando o intervalo termina, penso que é o momento de encarar um dos cartunistas. Espero dez minutos na fila, ao longo dos quais reparo nas fotos dispostas nas paredes do estande, com famílias cheias da mesma felicidade doméstica estampada em anúncios de lojas de roupas, supermercados ou margarinas. Quando por fim sento em frente ao artista – um argentino radicado no Brasil, com uma expressão que revela o cansaço das dez horas de trabalho praticamente ininterruptas por dia –, tenho a impressão de que estar no congresso deve ser mais duro para ele do que para mim.

Na saída, encontro meu amigo Diogo Lara, escalado como moderador em algumas palestras. Reclamo das filas na área de exposição, e ele comenta que, considerando o preço da hora dos médicos, não faz nenhum sentido que eles percam vinte minutos em troca de um pratinho de comida em vez de pagar 30 e poucos reais pelo bufê. Ele define isso como um “bug neuroeconômico”, e eu acho graça, mas o argumento faz sentido.

Um dos maiores especialistas no campo da neuroeconomia, o controverso Dan Ariely, costuma dizer que “Grátis!” é uma categoria de preço diferente de qualquer outra – talvez por evocar uma decisão em que aparentemente não há nada a se perder. Ariely cita inúmeros estudos que mostram que, confrontadas com algo oferecido de graça, as pessoas abandonam a lógica econômica racional que utilizam em transações pagas em prol do apelo do custo zero. Isso talvez explique parte da eficácia de uma estratégia de marketing tão rasa quanto distribuir canetas e bloquinhos.

Um presente, por questões inerentes ao senso de reciprocidade, tem um impacto que transcende a lógica econômica. Por mais que a maior parte dos médicos acredite que, ao contrário de bens valiosos, ninharias não sejam capazes de favorecer um determinado laboratório ou medicamento, antropólogos e psicólogos sociais argumentam que a dívida inconsciente – criada por um presente ou pela palavra amigável de um representante – pode ser suficiente para direcionar a prescrição.

E a estratégia, no fim das contas, parece funcionar, ainda que as evidências disponíveis sobre o tema sejam fragmentárias. Um estudo norte-americano comparou médicos que haviam solicitado a adição de medicamentos de um laboratório específico aos formulários de um hospital com seus colegas que não haviam feito o mesmo. No primeiro grupo, a proporção de médicos visitados por representantes da companhia em questão era sete vezes maior. Outro estudo, realizado após três cursos de atualização sobre drogas para hipertensão de laboratórios distintos, verificou que a prescrição do medicamento do patrocinador pelos médicos participantes aumentou em todos os casos. Uma terceira pesquisa analisou um par de cursos em resorts com despesas pagas e concluiu que os eventos aumentavam a prescrição da droga do patrocinador em quase três vezes – mesmo que apenas um entre vinte médicos participantes declarasse acreditar que a mordomia poderia influir em suas práticas.

Um crítico poderia argumentar que os dados são meras correlações, e que nunca foi realizado um experimento controlado sobre o tema, como recomendaria o protocolo da ciência médica. Na prática, porém, se a indústria gasta dezenas de bilhões anuais em marketing, seria difícil acreditar que ela não possui evidência ainda mais convincente de que a coisa funciona.

MEIO-DIA_As opções para o almoço incluem espetinhos na Aspen, hambúrgueres na EMS, crepes na Nova Química, saladas em potinhos na Lundbeck, polenta com ragu na Torrent Pharma e o festival de sanduíches na Medley. Seguindo a lógica das filas menores, apanho um potinho de salada de macarrão, um espetinho de linguiça e um resto de molho de ragu com queijo, já sem polenta, que sobrou do ataque coletivo ao bufê da Torrent. Entre um lanche e outro, encontro Duda, minha amiga da festa da véspera, que reclama das filas e do tratamento que recebe com seu crachá de não prescritor. Uma ideia me ocorre.

Levo Duda ao estande da Libbs e pergunto à representante se a garota pode jogar o game do prisioneiro, sob minha responsabilidade. A moça concorda, e a menina já está colocando os fones de ouvido quando outro funcionário vem nos informar que infelizmente isso não é possível, pois eles poderiam ser multados pela Anvisa. Decepcionado, pego os fones e digo que eu mesmo vou jogar, mas que as perguntas serão respondidas por Duda. Ela se intimida, dizendo que não saberá responder, mas eu explico que as respostas corretas aparecem em negrito. “Ah, assim é fácil”, ela comenta. E continua, encarando o representante: “Por que vocês não dão o brinde logo? Já vi que esse jogo é só para fazer ele ficar olhando para esse comprimidinho aí.” Ele responde, constrangido: “É, é mais ou menos isso.” Às vezes é preciso uma criança para dizer que o rei está nu.

TARDE E NOITE_Fico até o fim do congresso para assistir à última mesa do dia, que reúne Diogo Lara e Iván Izquierdo, meu ex-orientador de doutorado, ambos da PUC-RS. Mas a verdade é que estou exaurido. Na saída, já é noite e os estandes que frequentei durante a maior parte dos últimos dias vão sendo removidos a toque de caixa. Amanhã o espaço provavelmente será ocupado por outra exposição comercial: de tratores, telefones ou produtos de beleza. A mim, resta ir embora, imerso em reflexões. E levando no porta-malas seis sacolas, duas bolsas térmicas, dois carregadores de celular, uma caneca, doze canetas, duas amostras de vitamina D, duas caixas de lenços, uma pasta, quatro bloquinhos, um nécessaire, três cadernos, um boné, uma garrafa térmica, dois guarda-chuvas e três caricaturas.

O que aprendi? Que essa parece ser uma história sem vilões óbvios, à qual as habituais teorias da conspiração não se aplicam. Quase todos os implicados, vários deles amigos meus ou profissionais que admiro, podem justificar seu envolvimento com a indústria de maneira legítima. Os organizadores podem argumentar que seria impossível realizar um congresso desse porte sem verbas da indústria. Além disso, mesmo que não houvesse patrocínio oficial, o conflito de interesse não desapareceria, já que boa parte dos palestrantes continuaria possuindo vínculos com laboratórios. Palestrantes subsidiados pela indústria podem alegar que essa proximidade, além da renda extra, abre portas e oportunidades de financiamento e divulgação para suas pesquisas. Médicos que recebem representantes de laboratório frequentemente invocam como razão legítima a obtenção de amostras grátis para repassar a pacientes com dificuldades financeiras. E os representantes de laboratório, por fim, têm o argumento mais convincente de todos para participar do circo: essa é a profissão deles, da qual dependem para pagar suas contas. Como é o caso dos próprios laboratórios, que evidentemente visam ao lucro para poder prestar contas aos acionistas.

Além disso, descontados alguns excessos, o conteúdo das palestras não foi escancaradamente publicitário, o material distribuído era, em boa medida, constituído de artigos científicos, por vezes sem slogans, e o conteúdo do congresso, no que diz respeito à pesquisa básica, foi melhor do que eu esperava. E mesmo sem a presença da indústria, a ciência estaria de qualquer forma sujeita a uma variedade enorme de conflito de interesses. Ainda que sem patrocínios, patentes ou participação nos lucros, pesquisadores da área biomédica são tentados a superfaturar dados e inflar conclusões para publicar artigos, obter financiamentos e progredir na carreira. A competição e outros aspectos do capitalismo estão entranhados na academia e na sociedade, e nem todas as regulamentações ou declarações de conflito de interesses serão capazes de trazer isenção.

Dito isso, o fato é que o mundo está cheio dessas feiras de exposição em que médicos ganham Big Macs e fondues de chocolate, se empanturram de brindes, gastam horas ouvindo discursos publicitários, recebem afagos psicológicos de aduladores profissionais, perdem tempo ao manter os olhos fixos em telas que mostram um desfile de rótulos de medicamentos e brincam com embalagens que salvam pacientes virtuais. E mesmo uma adolescente de 17 anos é capaz de se dar conta de que algo parece errado nisso.

Ainda assim, Duda só enxerga a ponta mais óbvia do iceberg. Sob a superfície, existe um imenso polvo com braços de centenas de bilhões de dólares – que financia a pesquisa de novos medicamentos, a testagem clínica dos mesmos, os órgãos que regulam sua aprovação, os legisladores que regulamentam o processo, as revistas que publicam os resultados de pesquisa, os eventos que os divulgam, as sociedades que produzem diretrizes clínicas, o acesso dos médicos ao conhecimento, e mesmo as entidades que representam os pacientes.

“Não existe almoço grátis”, diz o ditado. E, se eu e mais de 3 mil congressistas comemos de graça nos últimos dias, é porque alguém pagou a conta. Não se trata de caridade da indústria farmacêutica, que acumula margens de lucros maiores do que quase qualquer outro empreendimento lícito no mundo ao longo das últimas décadas. Quem sustenta o circo são pessoas comuns que, para tomar decisões sobre sua saúde, dependem dos indivíduos que perambulam pela área de exposição com seus crachás de prescritores.

Como um político com seus eleitores, um médico tem com seus pacientes uma relação fiduciária que o obriga, do ponto de vista ético e legal, a representar de forma isenta os interesses dessas pessoas ao atendê-las. Mesmo assim, um estudo de 1980 mostrou que 85% de um grupo de estudantes de medicina americanos considerava errado que um político aceitasse um presente de 50 dólares de um lobista, mas que somente 46% consideravam problemático que um médico aceitasse um brinde semelhante de um laboratório. Mais sintomaticamente ainda, 61% de um grupo de residentes respondeu que suas relações com a indústria eram incapazes de afetar suas próprias práticas de prescrição, mas apenas 16% afirmariam o mesmo sobre seus colegas. Por mais que eu tente, não consigo enxergar como a conta possa fechar. Mas talvez eu já não consiga pensar direito, depois de quatro dias trabalhando como agente duplo.

Pouco depois do Cérebro, Comportamento e Emoções de 2010, eu resolveria o problema do pai de minha então namorada ligando para um de meus muitos colegas de profissão que recebem representantes de laboratório, vários dos quais me ajudaram na preparação deste diário. Sem grandes escrúpulos, pedi um par de caixas de amostras grátis de Zyprexa® que ele havia recebido dos representantes da Eli Lilly. Isso deu conta do tratamento do meu ex-sogro por um mês, além de aumentar consideravelmente meu status junto à família. Algum tempo depois, a promissória passaria para o Sistema Único de Saúde, que atualmente fornece a versão genérica do medicamento. No fim das contas, os braços do polvo somos todos nós. E o alimento dele também.

Fonte: Piauí

A última polêmica de Niemeyer

25/04/2014

Por ter a assinatura do arquiteto, projeto comercial de torres gêmeas de 28 andares é aprovado pela Prefeitura de Niterói, apesar de não respeitar os padrões urbanísticos da cidade

Michel Alecrim

Um dos poucos projetos comerciais que levam a assinatura do arquiteto Oscar Niemeyer (1907-2012), o Monumental, em Niterói, na região metropolitana do Rio de Janeiro, começou a ser negociado. Mas a obra está envolta em polêmicas. As torres gêmeas de 28 andares que serão erguidas às margens da Baía de Guanabara foram aprovadas sem respeitar os padrões urbanísticos da área, por terem a assinatura do mestre. Isso não livrou o projeto de inquérito do Ministério Público Estadual, que apontou falhas no Estudo de Impacto de Vizinhança. Afinal, o complexo contempla cerca de 800 unidades, entre salas comerciais, lojas e quartos de hotel, sem que fosse feita análise de consequências para o trânsito ou a deslumbrante paisagem. Arquitetos e urbanistas também criticam a verticalização de uma região, chamada justamente de Caminho Niemeyer, onde obras de menor tamanho do próprio arquiteto predominam. Mas há também quem acredite que as torres curvas ligadas no meio por uma plataforma valorizem o entorno.

Professora do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (UFF), Regina Bienenstein diz que o projeto fere o Plano Diretor da cidade. Segundo ela, o empreendimento foi concebido para um local de trânsito já saturado, por ser muito próximo ao terminal de barcas que ligam Niterói ao Rio. Em tese, projeto de tal porte não poderia ser comportado no local. No entanto, na gestão do ex-prefeito Jorge Roberto Silveira (PDT), entre 2008 e 2012, foi aprovada lei que abre exceções de gabarito a qualquer prédio desenhado por Niemeyer em trecho da orla.

A diretora cultural do Instituto de Arquitetos do Brasil, Cêça Guimaraens, acredita que as torres vão destoar da suavidade das obras do Caminho Niemeyer, como o Museu de Arte Contemporânea (MAC) e a estação de Charitas. Segundo ela, recorrer a prédios altos como alternativa de valorização do entorno é um recurso urbanístico ultrapassado. “Hoje em dia, sabemos que prédios mais baixos são os que facilitam a convivência social”, afirma Cêça. O arquiteto Jair Valera, que trabalhou com Niemeyer até sua morte, rebate as críticas. De acordo com ele, a intenção da verticalização foi tornar as torres mais finas e leves. Os prédios em formato curvo teriam como objetivo uma composição harmoniosa com a paisagem da baía. Niemeyer teria se preocupado em deixar vão livre entre as torres para não tapar totalmente a visão do mar. “Esse era o projeto de prédio comercial que ele mais gostava”, diz Valera.

Outra polêmica em relação ao Monumental é sua proximidade com o traçado da futura linha três do metrô. A prefeitura de Niterói informou por meio de nota que não há risco de sobreposição dos projetos. “Em nenhuma das três alternativas em estudo para o metrô há previsão de desapropriação da quadra na qual se insere o empreendimento Oscar Niemeyer Monumental”. A prefeitura, administrada por Rodrigo Neves (PT), informou que a licença para as torres saiu na gestão anterior e que o atual governo cumpriu determinação do MP de realizar a audiência pública. Marcelo Latini, diretor da incorporadora Latini Bertoletti, uma das responsáveis pelo empreendimento, diz que Niterói tem localização privilegiada em relação à indústria petrolífera e que a cidade só tem a ganhar com a construção das torres.

Numa das estruturas funcionará um hotel com 293 quartos, que será administrado pela bandeira Ibis, do grupo francês Accor. “Com o desenvolvimento da produção de petróleo, há muito movimento de gerentes, diretores e operários da indústria petrolífera”, afirma Latini. Sócia no projeto, a PDG nega que ele tenha sido lançado anteriormente sem a devida legalização. Segundo o diretor da incorporadora, Cláudio Hermolin, “todos os esclarecimentos foram prestados à sociedade”. Os sócios esperam faturar R$ 367 milhões com o projeto, onde uma sala custa em média R$ 330 mil. O processo movido pelo MP ainda corre na 5ª Vara Cível de Niterói. No entanto, a liminar concedida pela juíza Maria Aparecida Bastos foi cassada no fim do ano passado pelo Tribunal de Justiça do Rio.

Fonte: Isto É

Baixaram o volume dela

23/04/2014

A âncora do SBT, hostilizada nas redes sociais e ameaçada de processo pelo PSOL, não poderá mais dizer o que pensa no jornal da emissora

A jornalista paraibana Rachel Sheherazade, 40 anos, passou as últimas semanas negando rumores de que teria sido demitida do SBT Brasil, programa do qual é âncora. Segundo os boatos, o canal de Silvio Santos teria cedido à pressão para tirá-la do ar após a enorme repercussão de declarações suas sobre aborto (ela é radicalmente contra a legalização) e segurança pública (afirmou ser compreensível a atitude de vingadores que prenderam um bandido num poste no Rio de Janeiro). Ao voltar de férias de João Pessoa, na última segunda-feira, ela foi convocada para uma reunião com a cúpula da emissora, da qual saiu uma hora e meia depois proibida de continuar emitindo as opiniões que provocam amor e ódio nas redes sociais. Na mesma ocasião, porém, ouviu a promessa de que vai comandar um programa-solo no segundo semestre. “Às vezes, é preciso dar um passo para trás antes de dar um salto para a frente”, disse ela. “Sofro com as pressões, mas sou boa de briga e dura na queda.”

Um dos motivos do recuo do SBT envolve questões de segurança, de Sheherazade e da empresa. Nos últimos tempos, a jornalista recebeu ameaças em posts da internet e torpedos de celular. Avisos do mesmo tipo chegaram também a membros da equipe do telejornal. A apresentadora foi orientada a trocar o telefone, passou a ter um serviço de escolta do canal e mandou blindar os carros da família. Em fevereiro, deputados do PSOL e do PCdoB entraram com representações no Ministério Público contra ela e a emissora para que ambas respondam civil e criminalmente por apologia ao crime. Desde que foi contratada, em 2011. Sheherazade gozava de plena autonomia no SBT. Nem sequer precisava aprovar com a chefia o texto que iria ler no ar. Essa liberdade fez com que seus comentários chamassem mais atenção que o próprio programa, que registra uma média de 5 pontos de audiência.

A apresentadora é uma das quatro filhas de um casal de funcionários públicos. Depois de se divorciar, nos anos 80, quando Sheherazade era adolescente, o pai se casou novamente e teve outros dois filhos. A mãe morou por quatro anos nos Estados Unidos, onde trabalhou como estoquista de supermercado e faxineira. Nessa época, Sheherazade ficou no Brasil, morando com a avó materna. Evangélica, vai à Igreja Batista todo domingo. Durante o curso de jornalismo na Faculdade Federal da Paraíba, trabalhou como professora de inglês até ser aprovada num concurso para técnica judiciária do Tribunal de Justiça. O cargo, de escrevente na Vara da Família, rendia-lhe um 1 salário de 3 600 reais, em valores atualizados. Hoje, I ela ganha 90 000 reais, 50 000 a mais que no ano passado, quando renovou seu contrato com o SBT.

O Partido Ecológico Nacional (PEN) já a convidou para se lançar a vice-presidente da República. A âncora também recebeu proposta do Partido da República (PR) para disputar vaga de deputada federal. “Estou empenhada no jornalismo, por isso recusei”, diz. Mas Sheherazade afirma que não descarta a possibilidade de ingressar na política um dia. “A certeza que tenho é que, onde quer que eu esteja, não vou me calar.”

Fonte: Veja

A manobra de Mendes

13/04/2014

 

O ministro adia o fim das doações de campanhas de empresas

Quando o supremo Tribunal Federal caminhava para proibir as contribuições eleitorais de empresas, o ministro Gilmar Mendes deu um golpe: pediu vistas do processo, o que deve adiar a conclusão do julgamento até ao menos uma data apropriada para impedir a entrada em vigor imediata das novas regras. O STF analisava uma ação da Ordem dos Advogados do Brasil que barra as doações das companhias, mas permite aquela de indivíduos até o limite hoje equivalente a um salário mínimo.

Mendes age partidariamente, baseado em premissas falsas. Quem é contra proibir as doações empresariais teme o fortalecimento do PT, partido com maior poder de mobilização social, em tese, portanto, mais preparado para obter contribuições individuais de militantes. Por esse mesmo raciocínio, os principais beneficiados seriam os candidatos evangélicos (ninguém, digamos, tem eleitores tão “fiéis”).

Ele teme o fortalecimento do PT O efeito do poder econômico sobre a democracia é visível. não apenas na captura dos agentes públicos por interesses privados.

O número de empresários e ruralistas no poder está em ascensão, resultado de campanhas eleitorais cada vez mais caras. O custo para eleger um presidente da República nas próximas eleições deve beirar 200 milhões de reais.

Sem as doações privadas, as campanhas teriam de se tornar mais simples. Isso levaria os candidatos a precisar de menos forma (marqueteiros) e mais conteúdo (assessores políticos). A maioria dos eleitores ignora, mas as eleições já consomem um caminhão de verbas públicas. Há o repasse do fundo partidário e a isenção fiscal para tevês e rádios transmitirem o horário eleitoral erroneamente chamado de gratuito (só essa brincadeira custa cerca de 1 bilhão de reais, dinheiro retirado do seu, do meu. do nosso bolso).

Fonte: Carta Capital

 

Um nervo exposto

07/01/2014

Documentos da Petrobras revelam as tensões ideológicas da Guerra Fria na empresa antes e depois de 64. Ser de esquerda, antes, era bom. Depois passou a ser pecado

CECÍLIA RITTO

Por iniciativa de integrantes da Comissão da Verdade e valendo-se da entrada em vigor da Lei de Acesso à Informação, a Petrobras abriu um acervo de documentos que mostram como a empresa sofreu com as tensões ideológicas da Guerra Fria. VEJA teve acesso a eles. Os papéis revelam que a Petrobras foi um microcosmo das profundamente antagônicas visões políticas que dividiam o Brasil em esquerda e direita, entre comunistas e capitalistas, em aliados de Cuba ou dos Estados Unidos. Era a Guerra Fria manifestando-se fortemente, mesmo em um teatro geopolítico distante das armas nucleares que, de lado a lado, tinham poder de destruir o planeta algumas centenas de vezes. Antes de os militares tomarem o poder em 1964, fazia bonito perante os chefes na Petrobras quem se apresentasse como esquerdista. Depois do golpe, ser de esquerda ou líder sindical se tornou motivo de perseguição e demissão.

Os documentos demonstram que os militares agiram com rapidez contra os funcionários ligados à antiga ordem. Eles eram vistos como pessoas perigosas, que podiam prejudicar o funcionamento da empresa, desde aqueles tempos considerada estratégica para o Brasil. Alguns papéis revelam o atropelo da lei na erradicação dos esquerdistas da companhia. Uma comissão de inquérito, a CI-Petrobras, foi posta para funcionar de forma clandestina em um prédio vizinho à sede administrativa, no Rio de Janeiro. Essa comissão se encarregou de investigar empregados e aconselhar demissões.

O conjunto de documentos digitalizados e liberados pela Petrobras é composto de 131277 microfichas, 426 rolos de microfilme, dezessete livros e catorze pastas, com dossiês, prontuários, relatórios e troca de ofícios entre a cúpula da Petrobras, superintendentes regionais e os chefes dos órgãos de informação. Depois de examinar os documentos, VEJA ouviu depoimentos de funcionários atuais e antigos da empresa e de historiadores. “O Brasil estava ativamente inserido no contexto da Guerra Fria e a Petrobras era um instrumento de poder relevante num mundo dependente do petróleo e sob a ameaça constante de guerra”, diz o historiador Marco Antonio Villa.

Sob a antiga ordem, no governo esquerdista do presidente João Goulart, a Petrobras, como quase todas as estatais e instituições do país — entre elas até mesmo as Forças Armadas —, foi dominada pelo ativismo sindical de motivação política. A empresa era peça vital nas ações orquestradas pelos esquerdistas radicais e, em consequência disso, sofria com greves e paralisações constantes. Como anotou no fim de 1964, em um relatório de 376 páginas, o general Antônio Luiz de Barros Nunes, chefe da comissão interna de investigação do governo militar: “Parecia ser mérito o empregado alardear-se esquerdista ou comunista. Afirmamos, sem hesitação, que, se mais um pouco demorasse o clima dos “direitos excessivos” do homem, das injunções políticas e da influência de falsos líderes sindicais, a ruína apossar-se-ia da Petrobras”. Nunes era homem de confiança de Ernesto Geisel, que sempre esteve ligado à indústria petrolífera e, ativo integrante do grupo de militares que derrubou João Goulart, tinha forte influência sobre a Petrobras — que ele presidiria mais tarde, em 1969, e de onde só sairia em 1973, para ocupar a Presidência da República.

Em 1964, a Petrobras tinha cerca de 36000 funcionários. Quantos e quais deles eram vistos como indesejáveis pelos generais? Para mapear os “focos de subversão”, foram destacados dezesseis alunos da Escola de Comando e do Estado-Maior do Exército. Infiltrados clandestinamente nas refinarias e fábricas, eles enviavam para a sede, no Rio, relatos sobre como viam a situação do ponto de vista da segurança e transcrições de conversas que tinham com os suspeitos. Os dados alimentavam um sistema de informação compartilhado pelas maiores patentes das Forças Armadas. Um documento revela com clareza a decisão de infiltrar agentes e agir fora do amparo da lei: “Assim, impediríamos que houvesse divulgação e publicidade em torno de nossas observações, sindicâncias, conclusões e etc.”.

Com a lista em mãos, a comissão interna de investigações começou a “limpeza”, como diziam os próprios militares nos documentos. Em seis meses, foram demitidos 516 funcionários, sob justificativas que iam de subversão a tráfico de armas, corrupção, falta de controle emocional ou desonestidade. Um funcionário demitido foi acusado de ameaçar dinamitar a casa de um diretor da empresa. Eles eram descritos como “elementos relapsos”, “aproveitadores” e “débeis mentais”.

Contratado em 1958 como assistente técnico em manutenção, Xerxes Campos, sindicalista e militante do então ilegal Partido Comunista, foi um dos primeiros demitidos da Petrobras depois de 1964. Campos respondeu a inquérito policial militar (o então temido IPM) enquanto ainda dava expediente na Fábrica de Borracha Sintética (Fabor), operada pela Petrobras. Ali, passou 25 dias preso em uma sala igual à que servia de cela para diversos colegas dele também alvo de suspeitas. “Não sabíamos quanto tempo ficaríamos presos e a qualquer momento podíamos ser interrogados. Os militares faziam pressão psicológica e inventavam que algum colega havia nos delatado, mas era tudo um jogo para conseguir informações”, lembra Campos, hoje com 75 anos. Ele foi sumariamente demitido. Nos casos de suspeitos menos notórios, havia uma liturgia típica de regimes ditatoriais a ser seguida antes da dispensa. Em uma completa inversão do processo penal civilizado, exigia-se do acusado que apresentasse provas de sua inocência. “Não eram os militares que comprovavam a acusação. Nós é que tínhamos de provar que não éramos culpados”, diz Abelardo Rosa Santos, de 77 anos, que em 1964 era assistente de superintendente administrativo na Refinaria de Duque de Caxias. Santos foi afastado da empresa dois dias depois do golpe. Durante cinco meses, foi interrogado em diversos órgãos da repressão dentro e fora da Petrobras e chegou a ficar quarenta dias preso. “Diziam que eu fazia parte de um movimento de esquerda que eu nem conhecia.” Demitido em 1968, depois de aceitar integrar a chapa de oposição na eleição da diretoria do sindicato dos petroleiros do Rio de Janeiro, o então auxiliar de escritório Francisco Soriano saiu da Petrobras direto para a luta armada. “Eu me senti um homem marcado e, com o idealismo próprio dos 25 anos, não vi alternativa”, conta ele, agora com 70 anos. No material encaminhado pela Petrobras à Comissão da Verdade e nos depoimentos dos funcionários demitidos não existem evidências de que os investigadores tenham recorrido à violência física para obter informações.

Em 31 de março deste ano faz cinquenta anos, meio século, que os militares quebraram a ordem jurídica e constitucional para depor um governo democraticamente eleito. A tendência é que esse evento, parte integrante da história do Brasil, seja tratado como vingança — e não, como deve ser, estudado à luz das circunstâncias políticas mundiais e brasileiras naquele tempo. A iniciativa da Petrobras é, nesse contexto, um alento. Os documentos liberados pela empresa revelam fatos. E fatos não são de esquerda nem de direita. São elementos inegáveis da realidade.

Fonte: Veja

A justiça se curva. Os mensaleiros riem

23/09/2013

O Supremo Tribunal Federal reabre o julgamento e pode livrar os chefes mensaleiros da prisão — o que será a mais cristalina demonstração de que os poderosos continuarão triunfando sobre a Justiça.

Daniel Pereira e Robson Bonin

Numa sociedade que se conduz por elementares princípios civilizatórios, não há uma segunda opção para quem rouba 173 milhões de reais dos cofres públicos. Não importa se o dinheiro era para subornar parlamentares, comprar partidos políticos, perpetuar o PT no poder, enriquecer alguns — ou tudo ao mesmo tempo. Não importa. A Justiça brasileira é célere, rigorosa e eficiente. Pergunte aos ladrões de galinha, aos pés-rapados, aos contribuintes, que não dispõem de recursos para contratar a peso de ouro as grandes estrelas da advocacia nacional. Não faltarão relatos sobre a mão pesada dos juízes, a pronta reação a recursos protelatórios, a expiação de pecados na cadeia — mesmo em casos de furto de pequeno valor, mesmo quando o criminoso, um primário, não ameaçou a integridade física de quem quer que seja. Mas a Justiça brasileira também é lenta, insolente e camarada. Basta que os réus sejam ricos, poderosos e representados pelo primeiro time de advogados do país, remunerados com honorários milionários. Fica patente que o fosso abissal que separa os cidadãos não é apenas econômico e social, mas judicial. E esse o ensinamento da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de reabrir pane do julgamento do mensalão. Não que ela seja a garantia de impunidade, já que há condenações definitivas por corrupção ativa e passiva. Mas ela oferece a chance ímpar àqueles que organizaram, executaram e se beneficiaram de um dos maiores assaltos já perpetrados contra o Estado brasileiro de se livrar da punição a que efetivamente foram condenados pelo STF — a cadeia.

Depois de sinalizar aos brasileiros de maneira contundente que, sim, o rigor da lei também valia para os poderosos, o STF decidiu na semana passada reexaminar as acusações de formação de quadrilha e lavagem de dinheiro contra doze dos 25 condenados do mensalão. ao entender que eles têm direito de apresentar um recurso chamado de embargo infringente. Assim, o processo, iniciado há oito anos, não tem mais data para acabar. A decisão foi tomada por 6 votos a 5, cabendo ao decano da cone, o ministro Celso de Mello, desempatar a votação. E ele o fez a favor dos mensaleiros, esgrimindo com maestria os melhores recursos de retórica e do saber jurídico. Mas nem o ministro Celso de Mello pode escapar de certas leis. A da gravidade é uma delas. Outra, mais sutil, mas também irreprimível, é a Lei das Consequências Não Intencionais. Que lei é essa? É uma formulação de Adam Smith, pai da economia moderna, popularizada no século passado pelo sociólogo americano Robert Merton. Segundo esse conceito, qualquer decisão corre o risco de produzir efeitos contrários ao pretendido. A Lei Seca é um exemplo. Ela proibiu a produção, a venda e o consumo de bebidas alcoólicas nos Estados Unidos na década de 20, mas incentivou de tal forma o contrabando que o gangsterismo dominou as grandes cidades, subornando policiais, políticos e juízes. Celso de Mello procurou com seu voto fortalecer a Justiça. Mas a consequência não intencional da decisão dele foi disseminar ainda mais a descrença dos brasileiros na capacidade dos tribunais de punir com cadeia os criminosos ricos e poderosos. O efeito, portanto, foi contrário ao pretendido. Aos olhos dos brasileiros, agora mais do que nunca, ficou claro que os integrantes da elite e os grandes escritórios de advocacia, que se valem de uma infinidade de recursos e de boas relações, conseguem “eternizar”” julgamentos, como definiu o presidente do Supremo, o ministro Joaquim Barbosa.

O próprio Celso de Mello chamou atenção, também não intencionalmente, para a origem dessa triste realidade. Na semana passada, o ministro lembrou que o Congresso debateu, no fim da década de 90, uma proposta de extinção dos embargos infringentes. O texto foi rejeitado por deputados e senadores, que, como detentores de foro privilegiado, só respondem a ações penais no Supremo e fazem parte do seleto grupo de beneficiários desse tipo de recurso. “O mensalão mostrou que existe uma névoa em cima dos embargos infringentes. Resta saber se os deputados estão dispostos a mudar. O problema é que eles poderão um dia estar perante o STF. Quanto ao Supremo, a missão é não eternizar a discussão e impedir que os embargos se transformem numa panaceia para a impunidade. A sociedade brasileira não aceitará isso. No dia em que a nação não acreditar mais no STF, as nossas instituições terão deformações invencíveis”, diz Carlos Roberto Siqueira Castro, professor de direito constitucional da Uerj. Desde a descoberta do mensalão e a instauração do inquérito sobre o caso, em 2005, os réus agem deliberadamente para adiar o encontro de contas com a Justiça.

O ex-presidente Lula pressionou ministros do STF para que o julgamento só começasse em 2013. Obediente, o ministro Ricardo Lewandowski demorou meses para dar seu voto-revisor, na tentativa de esperar pela aposentadoria de Cezar Peluso e Ayres Britto e a substituição deles por cabeças mais afinadas com a ordem política. Confirmadas as condenações, restou a cartada derradeira dos embargos infringentes. Deu certo. Os recursos não só foram admitidos como os ministros, por maioria de votos, dobraram o prazo para que sejam ajuizados. Com as decisões da semana passada, a expectativa é que todas as penas sejam executadas, na melhor das hipóteses, em 2014 — e, mesmo assim, em doses mais brandas do que as amais. O relator dos recursos, ministro Luiz Fux, afirma que é possível reiniciar o processo ainda neste ano. Na entrevista de Páginas Amarelas que deu a VEJA (leia na página 17), Rodrigo Janot, novo procurador-geral da República, reafirmou a necessidade de que o novo julgamento seja iniciado logo, lembrando o famoso ditado: “Justiça que tarda é Justiça falha”.

Do ponto de vista prático, o que o STF decidiu foi a admissibilidade dos recursos para alguns réus e alguns crimes. Agora, passa-se à fase em que os ministros vão julgar se os embargos infringentes são pertinentes. Caso o mérito dos recursos seja aceito pela maioria dos ministros do STF, os réus beneficiados podem ter revertidas suas condenações originais pelos crimes de lavagem de dinheiro e de formação de quadrilha. Nessa eventualidade se livraria da cadeia o ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha, condenado por lavagem de dinheiro. No caso do ex-ministro José Dirceu e do ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares a reversão da condenação por formação de quadrilha também significaria escapar de cumprir pena em regime fechado. Uma vitória pessoal, portanto (veja o quadro). Mas um triunfo menor se comparado ao impacto político. Se não houve formação de quadrilha, não existiu um chefe da quadrilha. Logo, os petistas foram meros coadjuvantes do esquema milionário. Logo, os brasileiros vão ter de acreditar em uma linda fábula: a de que alguns diretores de banco se juntaram a alguns publicitários para, sozinhos, criar um esquema de desvio de dinheiro privado e público em benefício de políticos do PT e dos partidos aliados.

Mais alguns embargos infringentes e Dirceu, Delúbio e José Genoino, ex-presidente do PT, vão conseguir convencer o STF de que, em vez de arquitetos, executores e beneficiários, eles foram vítimas de banqueiros e publicitários capitalistas que enfiaram dinheiro em seus bolsos enquanto dormiam sonhando com a revolução igualitária do socialismo. Não seria difícil convencer, por exemplo, o ministro Luís Roberto Barroso da verossimilhança de uma história sem pé nem cabeça como essa. Barroso foi aquele que declarou enorme admiração por um dos réus. Disse o ministro sobre José Genoino: “Lamento condenar um homem que participou da resistência à ditadura no Brasil em um tempo em que isso exigia abnegação e envolvia muitos riscos. “Lamento condenar alguém que participou da reconstrução democrática do país. Lamento, sobretudo, condenar um homem que, segundo todas as fontes, leva uma vida modesta e jamais lucrou financeiramente com a política”. Barroso também é aquele que, como advogado e militante, fez tudo para conseguir manter no Brasil o terrorista italiano Cesare Battisti com o argumento de que “a democracia italiana foi mais truculenta do que a ditadura brasileira”.

Quem acredita nisso pode muito bem acreditar que os petistas foram, na verdade, vítimas dos réus capitalistas do mensalão. Entre estes, aliás, os publicitários mineiros Marcos Valério, Cristiano Paz e Ramon Hollerbach receberam as mais altas penas — de 25 a quarenta anos de prisão — que Barroso já declarou ter achado punições brandas demais. Curiosamente, para uma pessoa tão desapegada dos bens materiais, Barroso passou a semana tendo de explicar o contrato milionário que o governo, por meio da Eletronorte, concedeu recentemente, sem licitação, a seu antigo escritório de advocacia no Rio de Janeiro. Barroso recorreu àquela explicação clássica: ele já se tinha desligado do escritório quando o contrato de 2 milhões de reais foi celebrado com a estatal.

Portanto, o cenário que se desenha é a manutenção da prisão dos banqueiros, empresários e publicitários envolvidos no esquema e o alívio para os políticos do PT. Para alguns dos defensores da turma dos políticos, as comemorações podem começar já. “Temos convicção de que conseguiremos convencer os dois ministros que estão chegando no tocante ao crime de formação de quadrilha”, disse José Luís de Oliveira Lima, defensor de José Dirceu.

É interessante notar também que, quando a condenação dos mensaleiros parecia irreversível, o STF era achincalhado sem dó pelos militantes de todos os matizes — de simpatizantes notórios nos jornais da imprensa burguesa aos mercenários da internet. O mínimo que os mensaleiros diziam era que o Supremo funcionava como “tribunal de exceção”. Agora que o STF aceitou rever certas condenações, os mensaleiros correram a exaltar a legitimidade da cone. Cobrar coerência desse tipo de gente é inútil. Fica flagrante, porém, a superioridade moral da imensa maioria de brasileiros que, mesmo fortemente contrariados com a decisão da semana passada, não tentaram desmoralizar a corte constitucional. Essa foi, talvez, a mais positiva das consequências não intencionais do voto do ministro Celso de Mello.

Beneficiados, mas não absolvidos

Doze mensaleiros terão direito a novo julgamento, o que pode reduzir suas penas, mas não inocentá-los.

O que foi o mensalão?

No ano passado, o Supremo Tribunal Federal (STF) atestou que a cúpula do governo Lula tinha desviado 170 milhões de reais e comprado parlamentares para aprovar projetos no Congresso e “perpetuar o PT no poder”, segundo o voto do ministro Joaquim Barbosa.

O que o STF concluiu?

O tribunal desmentiu a tese petista de que o dinheiro tinha sido usado para pagar dívidas de campanha do partido e de aliados.

Quem foi condenado?

Os ministros condenaram 25 dos 38 réus a penas que, somadas, chegaram a 270 anos de prisão

Quem comandava o esquema?

O núcleo político do esquema era comandado pelo ex-ministro José Dirceu, com a participação de Delúbio Soares, José Genoino e João Paulo Cunha. O principal operador financeiro era Marcos Valério Fernandes de Souza.

Por que ninguém foi preso ainda?

O STF começou, em agosto passado, a julgar a primeira leva de recursos dos 5 condenados, os chamados embargos de declaração. Os ministros mantiveram as punições de todos os mensaleiros com exceção de três. Na semana passada, o colegiado decidiu reexaminar acusações e condenações contra doze pessoas, os chamados embargos infringentes – espécie de recurso previsto para os réus que tiveram 4 votos pela absolvição.

Fonte: Veja

Fantasmas profissionais

22/08/2013

Agência de publicidade que trabalha para o governo do DF contratou empresa que frauda perfis na internet para elogiar o governador e difamar adversários.

Por alguns segundos, o cabeleireiro Mario Gular conseguiu a atenção do deputado Roberto Freire, o presidente nacional do PPS. Tempo mais que suficiente para provocar um estrago. “Freire é cada vez mais ridículo, se vendeu para a extrema direita. Usa foto de há vinte anos”, provocou o rapaz em sua conta no Twitter. O parlamentar decidiu responder: “Não lhe sigo e nem o conheço. Estranho, portanto, que venha me agredir chamando-me de ridículo””. A discussão foi replicada pelos seguidores do cabeleireiro, pelos seguidores do deputado, pelos seguidores dos seguidores de cada um deles e se espalhou pela rede. Divulgada assim, a informação pode atingir milhares de pessoas e até levar incautos a acreditar que Freire, um político correto, possa ter cometido alguma transgressão. Porém, o único fato verdadeiro da mensagem é que o deputado não conhece o cabeleireiro — e nem poderia, porque ele não existe. Gular é um dos inúmeros perfis falsos criados no mundo virtual para esconder a verdadeira entidade dos difamadores profissionais remunerados para denegrir a imagem de pessoas honestas e atacar adversários políticos.

O caso envolvendo Roberto Freire o chegou a causar maiores danos à biografia do parlamentar. O mesmo o se pode dizer de outro episódio envolvendo o também deputado Fernando Francischini, do PSDB do Paraná. Em 2012, circulou pela internet um dossiê chocante, que teria sido produzido por uma organização internacional de defesa de direitos humanos. Trazia fotos — verdadeiras — de cadáveres mutilados, cenas de torturas e mortes ocorridas supostamente em presídios do Espírito Santo. Trazia informações também verdadeiras produzidas pelo Ministério Público Federal sobre a degradante situação carcerária do estado. E apontava o deputado Francischini, ex-subsecretário de Segurança, como o responsável pela barbárie — o que é absolutamente falso. Para dar ares de autenticidade ao material e dificultar um eventual rastreamento, o dossiê foi redigido em inglês e distribuído a partir de um computador localizado na cidade de Atlanta, nos Estados Unidos. No Brasil, o documento forjado foi divulgado no blog da jornalista Lucia Pacci e replicado múltiplas vezes por figuras também inexistentes como Vivian Marquez e outros.

Conhecido pela militância em defesa dos direitos humanos no período da ditadura, o petista Luiz Eduardo Greenhalgh, ex-deputado, se apressou em sentenciar: “Enfrentei o delegado Fleury na ditadura. Mas nem ele torturou como na gestão do deputado Francischini”. Se um experiente advogado como Greenhalgh acreditou na história, a ponto de comparar o parlamentar a um dos mais cruéis torturadores da história, imagine o efeito que uma notícia assim tem sobre pessoas menos informadas. É esse o público-alvo dos difamadores. O falso dossiê foi produzido numa mansão em Brasília, onde funciona uma empresa especializada no ramo do sobrenatural — a Sarkis Comunicação. Lá, trabalham cerca de dez pessoas, inclusive a jornalista Lucia Pacci, o cabeleireiro Mario Guiar, Vivian Marquez, Laura Tabor, Linda Franco… – os fantasmas profissionais. Lá, até março deste ano, trabalhou a professora Márcia Godoy dos Santos — essa de carne e osso —, responsável por alimentar vários perfis falsos, entre eles o de Lucia Pacci. Uma das tarefas da professora foi transpor para o inglês o dossiê fajuto contra o deputado Francischini: “Um dia, eles chegaram para mim e disseram que tinham uma missão muito confidencial. Me entregaram um material e pediram para traduzir para o inglês. Cheguei a passar mal quando vi aquelas fotos de gente esquartejada. Eles explicaram que a denúncia partiria do exterior, por isso precisava ser escrita em inglês. Só depois descobri que era uma armação contra o deputado”.

A professora Márcia trabalhou durante dois anos na empresa Sarkis, que usa o nome fantasia de Painel Brasil TV. Ela era uma das encarregadas de administrar fantasmas como Mario Guiar e outros. O falso dossiê do deputado Francischini foi divulgado no blog da “jornalista” Lucia Pacci e replicado pelos fantasmas operados pela estudante Eugênia Pereira de Arruda. “Eu recebia os textos prontos e divulgava na lista de perfis falsos sob minha responsabilidade”, conta ela. “A ordem deles era sempre descer o pau nos adversários.” Adversários de quem? Do governador do Distrito Federal, o petista Agnelo Queiroz, garante ela. A estudante diz que ouviu isso da boca dos próprios patrões, o casal Sergio Diniz e Rosa Sarkis: “A gente sempre entrava para reagir quando tinha alguém atacando o governador ou o governo”. O dinheiro que financiava a turma, de acordo com as ex-funcionárias, vinha da agência de publicidade Agnelo Pacheco.

Na semana passada, Veja procurou os donos da empresa no endereço indicado pelos fantasmas. Encontrou lá o publicitário Sergio Diniz, que, segundo as ex-funcionárias, também responde pelos pseudônimos de Mario Guiar e Lucia Pacci. O publicitário disse que seu ramo de negócios nada tem a ver com o mundo sobrenatural. Ele nunca ouviu falar de Lucia Pacci, fantasmas ou dossiês. Ganha a vida, garante, oferecendo curso e treinamento de mídia.

O resto é uma mera sucessão de coincidências. Diniz confirmou que tem como cliente a agência de publicidade Agnelo Pacheco. A agência, por coincidência, administra a cor publicitária do governo Distrito Federal. Também coincidência o fato de Diniz ter trabalhado na campanha do governador petista, de quem se diz amigo e admirador. Francischini, por coincidência, é adversário de Agnelo Queiroz. E uma das últimas coincidências: os fantasmas autorizados a “descer o pau nos adversários também dedicam momentos únicos ternura e admiração a um único palco. Nem precisa dizer quem é o felizardo governador.

Fonte: Veja